Historias e estorias que não foram contadas

Historias e estorias que não foram contadas
uma foto, de um passado distante

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Chefe Ralph, ser ou não ser?


E o velho escoteiro sempre a me contar historias.
Chefe Ralph, ser ou não ser?

            Ralph aceitou a mudança da sua cidade para Rio Vermelho. Afinal a proposta da sua empresa era muito boa. Consultou Doda sua esposa e ela concordou. Ela não estava trabalhando e só cuidava de Robertinho e Lorena, quatro e seis anos respectivamente. A única tristeza de Ralph foi deixar o Grupo Escoteiro Estrela Cadente. Afinal ele e o Josué foram os fundadores. Uma pena mesmo, pois o grupo crescera e a o bairro inteiro aplaudia os escoteiros. Mas ele precisava pensar em sua vida profissional e viu ali em Rio Vermelho possibilidades nunca sonhadas. A despedida da tropa foi triste, mas Ralph fez tudo para deixar todos alegres. Afinal somos ou não somos irmãos? E isto não é mais que um até logo. Sempre que possivel virei aqui abraçar vocês! – O Anrê foi vibrante. Ralph amava aquele grupo. Agora precisava seguir em frente. Lembrava-se de um filme que assistiu - “Nada é para sempre” não era mesmo.

              A empresa comprou uma nova casa para ele. Todos estavam adorando e Ralph não perdia a oportunidade de sair com a família. Um dia foram acampar em um sitio próximo de um dos diretores da empresa. Claro não era um acampamento Escoteiro e sim um camping divertido e gostoso. E não foi uma surpresa que ao subir um riacho para procurar um bom remanso para pescar ele deu de cara com uma Tropa Escoteira. Mas eles não estavam sós, havia lobinhos, seniores, guias e vários pais. Eles chamavam de acampamento, mas acho que estavam enganados. Colocaram as barracas em circulo onde todos dormiam. Os pais cozinhavam. Ralph riu baixinho. - Bem pelo menos eles estão em busca da natureza e só isto já conta um ponto. No entanto isto não é um acampamento nos moldes de Giwell. O importante era se eles estavam felizes. Ralph encontrou o Chefe e se apresentou. Não foi assim àquelas coisas o aperto de mão. Mas Ralph não se incomodou.

               No sábado seguinte foi fazer uma visita ao Grupo. Quem sabe ele poderia ajudar? Afinal era um Escoteiro e participava do movimento desde lobinho. Colocou seu uniforme caqui, seu chapéu Escoteiro, sua calça curta e se olhou no espelho. Estava ótimo. Como era menos de cinco quarteirões foi a pé. Levou seus dois filhos consigo só para eles saírem um pouco. Ainda não tinham idade. Chegou à sede do grupo por volta de quinze para as duas da tarde. A reunião conforme foi informado começava às duas e meia. Tinha poucos jovens e nenhum adulto. Procurou-os e se apresentou a um por um. Eles estranharam e sorriram baixinho. Ralph notou que eles não estavam acostumados com chefes a cumprimentá-los. Só às duas e meia chegou o Chefe com uma sacola sem o uniforme. Sorriu para Ralph e pediu alguns minutos, pois ele iria vestir o uniforme. Logo em seguida chegou mais dois, também sem uniforme e entraram na sede. Uma senhora dos seus sessenta anos também chegou com a saia e blusa, mas sem o lenço, foi também para a sede.

                Só às três horas todos foram chamados para o cerimonial de bandeira. Agora os chefes estavam uniformizados, mas esperaram alguns seniores que também foram se trocar na sede. Ralph nunca tinha visto isto. Sempre achou que o uniforme faz parte do Escoteiro. Ele é o melhor veículo para mostrar quem somos. Se os chefes davam os exemplos claro que os demais também o seguiriam, pois achavam ter os mesmos direitos. Na primeira oportunidade Ralph perguntou ao Chefe o porquê eles não vinham de uniforme de casa. – O senhor sabe, o uniforme serve para padronizar uma organização e mostrar o que somos. - Sem querer ofender – ele continuou, tenho visto muitos dizerem que o escotismo a gente traz no coração e isto é verdade, no entanto não significa que devemos andar sem ele. O próprio fundador do escotismo já dizia que devíamos nos orgulhar do nosso uniforme.

               O Chefe tentou se explicar e falou e falou. Alguns vinham direto do serviço e outros iriam para atividades fora de sua residência. Ralph pensou que isto era uma desculpa. Quem sabe já acostumaram assim. Viu logo que isto poderia desanimar os jovens, pois ele sabia que o sonho de todos quando buscavam o escotismo era vestir o uniforme, sem o exemplo do Chefe isto poderia deixar a desejar. Ralph quando foi ao Grupo pensou em pedir para ser um deles. Agora pensou muito se deveria fazer isto. Notou que muitos dos chefes e seniores depois que saíram da sede com seu uniforme não o cumprimentaram. Viu que ali a fraternidade não era o que ele sempre conhecera. O Chefe o olhou ressabiado. – Olhe porque não vem participar conosco? Nosso Chefe de Tropa tem faltado muito e já disse de sua intenção em sair do grupo.

             Ralph perguntou se eles tinham Conselho de Chefes e quando seria a reunião. O Chefe disse que não precisava. Resolviam ali durante as atividades tudo que precisavam resolver. – Seria possivel o Senhor marcar um Conselho de Chefes para me apresentar? Eu teria algumas observações a fazer. – Meu amigo ele disse, nunca fizemos. Eu resolvo tudo. Apresento você na ferradura e pronto. Ninguém vai contra meus desejos! – Ralph agradeceu o Chefe e disse que iria pensar. Já estava resolvido que não ia participar daquele grupo. Um grupo onde o Chefe determinava e mandava sem consultar a ninguém. Faziam um escotismo triste, pois viu que nas sessões poucos sorriam e aquela de vestir o uniforme na sede? Isto era duro de engolir.

              Ralph nunca mais voltou aquele grupo. Que eles fossem felizes, mas sem ele. Se eles gostavam assim que assim fosse feito. Ele sabia que precisava de um grupo e porque não começar um do nada? Não era difícil e até que foi fácil demais. Na reunião de pais da escola dos filhos ele procurou a diretora e dai para começar foi um pulo. Claro que ele manteve contato com os chefes do grupo que foi visitar, mas sempre os viu tristes, como se ir para uma reunião escoteira fosse uma obrigação e não um prazer. Sempre que ia para a sede ia cantando e todos das ruas onde ele passava sorriam ao vê-lo passar. Era isso mesmo que ele queria. Amava o escotismo e precisava mostrar a toda à comunidade do bairro que escotismo era bom, era necessário para a formação sadia da juventude. O uniforme era um auxilio para isto. Ele sabia que um Escoteiro bem uniformizado tem um papel relevante para o reconhecimento do escotismo no mundo.  



       

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