Historias e estorias que não foram contadas

Historias e estorias que não foram contadas
uma foto, de um passado distante

sexta-feira, 29 de março de 2013

Comentando sobre o Sistema de Patrulhas



Conversa ao pé do fogo.

Comentando sobre o Sistema de Patrulhas

“‘Quero que vocês, monitores, entrem em ação e adestrem suas patrulhas inteiramente sozinhos e à sua moda, porque para vocês é perfeitamente possível pegar cada rapaz da Patrulha e fazer dele um bom camarada, um verdadeiro homem”. De nada vale ter um ou dois rapazes admiráveis e o resto não prestando nada. Vocês devem procurar fazê-lo todos positivamente bons.
...Para conseguir isso a coisa mais importante é o próprio exemplo, porque, o que vocês fizerem os seus Escoteiros também o farão.
...Mostrem a todos eles que vocês sabem obedecer às ordens dadas, sejam elas ordens verbais, ou sejam regras que estejam escritas ou impressas e que vocês cumprem ordens, esteja ou não o chefe presente. Mostrem que conseguem conquistar distintivos de especialidades, e, com um pouco de persuasão, os seus rapazes seguirão o seu exemplo.
...”Mas lembrem-se que vocês devem guiá-los e não empurrá-los”.
Baden Powell

Capitulo I


Pequenos rolos de fumaça se misturavam com a fraca brisa do ar que soprava leve e intermitente na varanda da casa do “Velho”. Fora um dia quente de verão, já em meados de novembro num mês de primavera, onde as flores tão bem cuidadas pela Vovó desabrochavam nos canteiros próximo a cerca de madeira caiada de branco. A grama verde era um convite para sentar, principalmente naquela hora do lusco fusco, onde a vista não alcançava o pôr do sol que se escondia atrás de prédios e casas, naquele longínquo bairro da cidade onde morávamos. A fumaça, velha conhecida, era produzida pelo cachimbo do "Velho" e o aroma achocolatado como sempre era elogiado pelos mais novos, que ainda desconheciam o ritual do “Velho” e que este fazia questão de não mudar.

Ao nosso lado, dois rapazes de aproximadamente 20 anos, um deles noivo de um ex-guia e o outro namorando uma pioneira, estavam empertigados nas suas cadeiras de madeira, calados, prestando uma atenção “canina” no que o “Velho“ dizia. Este, sentado numa cadeira de balanço, já gasta com o tempo, e com o olhar de quem acredita no que fala, pensava mais uma vez que poderia passar para aqueles rapazes toda sua experiência de anos e anos de Escotismo em poucas horas de um bom “tete a tete”.

Os dois iniciavam como Escotistas em um Grupo Escoteiro próximo ao nosso. Estavam com aquela motivação tão própria da idade e foram a casa do “Velho" para trocar ideias e aprender um pouco de como dirigir uma Tropa Escoteira. Apesar de terem sido Escoteiros e Seniores sentiam dificuldade na mudança brusca, pois agora a responsabilidade era bem maior do que antes.  O Grupo ao qual pertenciam apesar de aparentemente sólido, fraquejava na direção das sessões, pois as chefias anteriores não marcaram bem suas presenças. Pôr serem da modalidade do Mar, comentávamos entre nós que estavam a “deriva”. O Chefe do Grupo sentindo dificuldade em arregimentar adultos procurou ex-escoteiros e pôr sugestão do “Velho”, jovens que pudessem colaborar e se sentissem satisfeitos com a participação.

O “Velho” quando podia estar junto aos jovens era outro. Cortês, simpático, amigo e totalmente diferente quando estávamos sós, eu e ele. Isto provocava ciúmes, pois eu era o único que o visitava constantemente e aguentava sem reclames suas egocentricidades. Claro, eu sabia que eram forçadas, só para mostrar que o leão de outrora ainda rugia, mas seus dentes não mordem mais.
Próximo a nós, Vovó tricotava em outra cadeira de balanço ao lado do “Velho”, e numa manobra simples, sem pressa, balançava a frente e atrás, num rangido próprio e que aos poucos estávamos nos acostumando.

Numa mesinha pequena próximo a varanda, bolos, pães caseiros e deliciosos biscoitos de polvilho estavam espalhados em singelas travessas, alem é claro de um chocolate quente, colocados ali para que pudéssemos saborear as delicias que somente a Vovó sabia fazer. Ela nada dizia. Quieta e serena continuava seu lazer, tricotando, como se aquilo refizesse a labuta daquele dia tão quente. O “Velho” conversava calmamente com um sorriso nos lábios. Seus conselhos, seus contos, sua maneira de falar, era como se fosse um contador de estórias de barbas brancas, falando para Betsabá, num castelo próximo a Bagdá, naquelas famosas historias das Mil e uma Noite. Os jovens olhavam embevecidos, como se pai e filho estivessem confraternizando.

- Eu diria para vocês - Dizia o “Velho” que se pudesse voltar no tempo eu não seria o mesmo. Se tivesse a oportunidade que vocês estão tendo de ser um Chefe Escoteiro, começaria tudo de novo. Meu sonho sempre foi estar em uma tropa Escoteira, com jovens ao meu redor sorrido. Todos eles liderando e sendo liderados.

- Não seriam empurrados nem ficariam preocupados com o apito do chefe. O programa não seria rígido (café com leite dos sábados, conforme ele dizia onde já se sabia o inicio, meio e fim – em termos é claro).

- Teria elasticidade bastante para mudar dependendo das expressões do rosto de cada um. Encorajaria os jovens para que fossem os donos do programa. Eles é que o fariam. O relógio seria um mero instrumento para marcar o inicio e o fim da reunião, pois o meio iria depender da aceitação do programa. Meu julgamento do que é bom ou ruim não existiria. Os jovens é quem diriam pela sua maneira tão peculiar de aceitar ou não o que é bom para eles. Somente os resultados teriam validade.

- Esta tropa dos meus sonhos - continuava o “Velho”- não teria a preocupação de ser grande. - Poderia ser duas ou três patrulhas. Poderia com o tempo ser até quatro, mas seriam patrulhas livres e unidas. Ali todos seriam amigos fraternos. Minha preocupação seria com a qualidade e não quantidade.

- O respeito do antigo ao mais novo seria uma questão de honra e aceito com dignidade. Haveria uma fila para formação, mas esta não seria como uma escala hierárquica para se chegar ao topo. No meio dela poderia estar um 1a classe e a sua maneira tanto faz se fosse pôr altura, pôr amizade, e até pôr decisão do Conselho de Patrulha.

- O importante seria que quando a patrulha formasse todos saberiam que ali eram grandes amigos, responsáveis pelo desenvolvimento próprio, da patrulha e da Tropa. O monitor era um a mais e não o único.

- “Velho“- falou um dos rapazes - Não entendi o porquê da fila e o que ela tem a ver com a Tropa! - Afinal sempre foi uma rotina a formação, pois sempre ficou bem claro onde fica o Monitor e o Sub. Também a antiguidade ali era demonstrada. - Não sou eu que estou dizendo, - completou o “Velho”- Repito as palavras de BP - “Cada patrulha escolhe um rapaz como chefe. Ele é chamado Monitor. O Chefe Escoteiro espera do Monitor um grande trabalho na orientação e lhe dá inteira liberdade para executar sua tarefa na Patrulha. O Monitor escolhe outro rapaz para ser o segundo no comando. Este é chamado de Sub. Monitor. - Consultem a página 58 do livro Escotismo para a Rapazes”. Não existe meio termo. Não há antiguidade. Os jovens elegem seu líder e este escolhe seu assistente.
    
- E se eles escolherem alguém sem condições de liderança? - falou o outro rapaz. - A escolha foi deles - completou o “Velho” - Eles que devem achar se foi bom ou ruim e não vocês. A democracia começa pôr ai. Pôr sermos adultos julgamos diferente dos jovens. A confiança é a base do Sistema de Patrulhas. A partir do momento que passamos a tomar decisões dos rapazes, deixamos de cumprir nossas obrigações como Chefe Escoteiro.

- A nós compete treiná-los, adestrá-los (os monitores) e dar condições para o desenvolvimento deles.  Afinal pretendemos conseguir liderança não de um só, mas de todos na Patrulha. Não vamos discutir se o líder nasce feito ou pode ser feito. Isto não importa neste caso. Todos eles tem seu próprio estilo e sua própria liderança. Diferente, mas tem. Se o Sistema de Patrulha for feito adequadamente com responsabilidades distribuídas, vai funcionar. 

- Estamos sentindo que alguns tem procurado fazer do Chefe Escoteiro um líder cheio de obrigações e responsabilidades fugindo da parte mais importante. Até certo ponto não discuto, mas não como está sendo colocado. A Tropa flui positivamente quando o Sistema de Patrulhas funciona. A distribuição de tarefas, a preparação do programa, o arquivo, a vida da tropa, irão dar melhores resultados sendo feito pôr eles.

- Claro que cada um de vocês fazem parte do todo. Para isto estão ali. Esqueçam um pouco esta preocupação inicial de todos os novos em chefia e lembrem-se do tempo em que foram escoteiros. Procurem ver o que gostavam ou não gostavam.

- O “Velho“ respirou fundo, deu uma grande tragada em seu cachimbo, piscou seus olhos azuis várias vezes e se levantou indo até a mesa de guloseimas, dando uma mordida com vontade em um biscoito qualquer. Os rapazes também fizeram o mesmo. A noite despontava gostosa e fresca. O ar puro invadia aquele cercado com sabor de aventura.


“Você é o líder dos seus monitores”. Podemos até chamá-lo do monitor dos monitores. Dirija somente esta patrulha. Cabe a você orientá-los, fazer acampamentos e excursões, sempre visando o adestramento para que eles possam depois adestrar os escoteiros da patrulha. Esta é sua responsabilidade. Não fuja dela e experimente, pois tenho certeza que poderá alcançar o gostinho do sucesso.                                                                                       
Baden Powell.

Comentando sobre o Sistema de Patrulhas.

A CORTE DE HONRA

“A Corte de Honra é parte importante do Sistema de Patrulhas”. Trata-se de uma comissão permanente que resolve os negócios da Tropa.
A Corte de Honra é formada pelo Chefe e pelos Monitores, ou caso se trata de tropa pequena, pelos Monitores e Submonitores. Em muitas Cortes, o Chefe assiste à reunião, mas não vota. Monitor reunido em Corte de Honra tem muitas vezes mantido em atividade a Tropa na ausência do Chefe.
A Corte de Honra toma decisões sobre programas de trabalho, acampamentos, recompensas e outros problemas relativos à administração da tropa. Os membros da Corte estão obrigados a guardar segredo.
“Somente as decisões que afetem a Tropa toda, isto é, competições, nomeações, programas etc., são trazidas a público”.
Baden Powell.


CAPITULO II

O sol caminha para o oeste. Inexoravelmente em qualquer lugar do planeta, lá está ele, rumo a sua velha e conhecida trilha. Seu percurso não é novo e todos sabem disso. Toda a humanidade depende do seu programa diário para sobreviver. Não foi ele que destruiu florestas, poluiu rios ou mesmo fez escurecer a atmosfera do tempo. A evolução natural das coisas não impediu sua marcha e ele é prova viva que as mudanças são válidas, mas nem sempre proveitosas se feitas desordenadamente.

Nesta hora do entardecer, onde a penumbra avança noite adentro, as luzes da varanda foram acesas e ali, inebriadas com a voz do “velho” e sua maneira peculiar de “Contar estórias” esquecíamo-nos do tempo. Vovó agora dormitava na cadeira de balanço. Para lá... E para cá... - Será que dormia mesmo? - Seu compasso era igual ao grande relógio que tomava conta de uma parede na sala grande. Ela abstinha de comentar. Era assunto do “Velho” e não seu.

- Sou sincero - continuava o “Velho” - Se tivesse a felicidade de ter uma máquina do tempo, o que não daria para volta ao passado, somente para começar tudo de novo! – Nunca esqueço o que fui o que fiz. Não há arrependimentos.

- Lá, nesta tropa dos meus sonhos, eu teria um excelente contato com os monitores. Quantos acampamentos faríamos juntos. Num domingo despretensioso, iríamos todos a um Shopping, uniformizados, assistir a um bom filme. - Iríamos também Visitar locais importantes para aumentar o saber, provocando admiração nos transeuntes e mostrando que a idade para a responsabilidade nada significa no Movimento Escoteiro.

- O adestramento seria uma constante. Eles seriam grandes amigos meus, frequentando minha casa e eu a deles. Teria a confiança de todos e poderia ajudá-los nos seus problemas e quem sabe, também me ajudariam. Mas o que eu iria ter certeza é de que seria mais um e não apenas um. - Faríamos tantas coisas! - E quem ganharia com isso seria a tropa! - Em nossas conversas ao “Pé do fogo“, eles me diriam o que podíamos fazer para um bom programa, o que os outros jovens pensavam a respeito e ouvindo-os, teríamos uma programação formidável! - já pensaram?

- Ainda penso num acampamento, numa floresta qualquer, já tarde da noite, o fogo brando, ali sentados, dois, três ou quatro monitores e seus subs, um ou dois chefes, - todos os amigos! - Que programa, que adestramento, quantas coisas boas para fazer deles responsáveis pela tropa e o seu adestramento progressivo. - Quando chegasse a hora da passagem para os seniores aquela amizade não iria terminar. Seriam sempre convidados como participantes em qualquer atividade que quisessem estar presente! - Errado? - Não. Muito certo. Os novos monitores teriam muito a aprender com eles.

- Vou contar para vocês uma passagem interessante quando fui escoteiro - O “Velho” já estava vivendo a personagem. Era uma das manias dele. Mas era sincero no que dizia. Era um bálsamo ouvi-lo. Seus cabelos brancos caiam na testa e seus olhos pequenos e azuis desapareciam para logo aparecerem novamente. Apesar de sua tez enrugada nós não desgrudávamos os olhos dele, e para nós não era um velho, era um jovem! Um autentico chefe Escoteiro.

- Continuava o “Velho”- Vivi o Escotismo de uma maneira que não esqueço nunca! - Vocês meus jovens também devem ter excelentes estórias para contar, pois assim como eu, puderam viver aventuras mil não? -(O “Velho” estava dando um “pito“ em mim, pois comecei como adulto. Tudo bem, não me incomodo me considero um bom chefe).

- Logo após ter passado para a tropa de Escoteiros, vindo da Alcatéia, senti uma grande liberdade na patrulha pôr mim escolhida (deixavam que os lobinhos pudessem escolher suas patrulhas quando fossem fazer a Trilha). O Chefe e dois dos assistentes foram grandes amigos e foi um choque ao ver um monitor dirigir sem a presença deles em diversas ocasiões. Era um susto e tanto, pois na Alcatéia não tínhamos essa liberdade tão aberta!

- Ali encontrei muita amizade e companheirismo. Tinha alguma preocupação com a liberdade de todos e me preocupava sempre com que fazíamos. Havia sempre o receio se desse errado em alguma atividade. - Nem bem tinha completado três meses de tropa, e saímos pela manhã de um domingo (somente a patrulha) indo de ônibus até a periferia da cidade e lá nos dirigimos a um sitio de um velho amigo do Grupo, que pôr sinal era sempre visitado pôr muitos escoteiros. 

- Na patrulha havia dois cargos em aberto, explico melhor - Todos nós escolhíamos nossas responsabilidades na patrulha e caso houvesse mais de um interessado no mesmo cargo, era feito sorteio. Assim, escolhi ser o escriba da Patrulha. Tinha facilidades para escrever e como um “Pata Tenra” achava ser a mais fácil. - Chegamos ao sitio pôr volta das 08 e meia da manhã. Não era bem um sitio, estava mais para uma fazenda. Somente um sitiante na porta de entrada, pois o local quase não era explorado e se mantinha intacto principalmente a mata e pastos. Alguns bois, alguns cavalos, e mais nada.

A casa sede era pobre. Três cômodos sem banheiro. Instalamo-nos e logo procuramos uma arvore para o cerimonial da Bandeira. Deram-me a honra de hasteá-la. Nosso monitor era calmo e ponderado. Era um autentico líder. Comecei a me acalmar à medida que participava das atividades. Os chefes já não faziam falta. Treinamos barraca, machadinha, nós (sem teoria) e corte de lenha, tudo isso pela manhã. Ao meio dia e quarenta fizemos um lanche. Foi nesta hora que resolvi dar um giro pôr conta própria sem falar com os demais. Atrás da casa havia um arvoredo muito bonito e ouvi um barulho de uma cascata. Dirigi-me até lá. Não era tão perto. Andei um bocado! - No meio das árvores só o barulho me chamava a atenção. Enfim avistei um pequeno riacho com águas límpidas e claras. Tão claras que se avistava o fundo. Fiquei hipnotizado! - Como era belo tudo aquilo! - Lembrei-me dos diversos contos da História da Jângal, contadas pela nossa Akelá, nas belas historias de Mowgli junto ao Balu e Baguera.

- Passei um pouco de água no rosto e vi que era hora de voltar junto a Patrulha. Dei meia volta e senti um calafrio! - Não sabia pôr onde tinha vindo! - Comecei a tremer nos meus 11 anos, agora cheio de dúvidas. Não sabia se chorava ou se confiava que me achariam facilmente. Optei pôr ficar ali. - O tempo passava e eu já estava chorando baixinho. Senti uma mão no meu ombro. Levei um enorme susto. Era o nosso monitor. Graças a Deus!

- Voltamos junto e no caminho pensei que meu papelão seria ridicularizado pôr todos.  Estava cada um fazendo uma atividade diferente. Nosso monitor pediu a uma Segunda classe para me dar um adestramento de posicionamento e marcação de pontos cardeais para ser usado quando se anda em pequenos bosques. Ainda não estava na hora de um bom adestramento de bússola e orientação. Tudo deveria fluir naturalmente e na hora certa!

- Não houve sermão. Só um pequeno lembrete pelo monitor e comigo a sós. Sorri agradecido. Nunca mais se repetiu. O “Velho” sorria. As lembranças se mantinham acesas em sua mente. Sua estória era simples, tão simples que passou despercebido de todos o objetivo dela.


- Como vêm, - continuava o “Velho” é possível ter um monitor assim? - Só como muito adestramento! - E ele não era o único - os outros da patrulha também pareciam em determinadas horas estarem sempre preparados. Os dois chefes presentes sentaram na grama e esticaram as pernas não com o intuito de cansaço, mas querendo ouvir mais e mais. E iriam ouvir.

Era o trivial e infelizmente esquecido pôr todos pôr acharem tudo banal sem interesse. Mas para nós, o interesse estava ali presente. Sem interrupção para não perdemos o fio da meada.

Ensine-os a pescar. Não pesque para eles! - É melhor um arroz sem sal e grudento feito pôr eles do que o excelente feito pôr adultos. Lembre-se, eles são a razão de você estar aqui!

                                                                                                                                       
Comentando sobre o Sistema de Patrulhas.

“Creio nos jogos ao ar livre e pouco me importa que sejam jogos brutos ou violentos e que ocasionalmente alguém se machuque”. Não simpatizo com o sentimentalismo exagerado que pretende manter os jovens embrulhados em algodão. Na luta pela vida o homem formado ao ar livre sempre demonstrou ser melhor.
Quando vocês brincarem, joguem duro: - e quando trabalhar trabalhem duro. “Mas não deixem que os jogos e os desportos prejudiquem seus estudos”.
Theodore Roosevelt
           
CAPITULO III

Era um vozeirão que se ouvia a distancia. Todos nós já o conhecíamos e tirando o “Velho” no Distrito, ele poderia sem sombra de dúvida ser sua segunda pessoa. Fora escoteiro, Sénior, pioneiro e colaborou no distrito, na Região alem de ter sido Assistente Nacional Sênior por muitos anos. Seu humor não tinha contestação. Não enfrentava o “Velho”. Este ainda era para ele o seu chefe, o amigo. Pôr onde andou brigou muito (no bom sentido) falava de tudo, discordava de tudo. Nos conselhos, indabas, reuniões de adultos, onde quer que fosse, todos o temiam ou tinham certo respeito por ele. Como dizia sempre é melhor ser franco agora que tapear toda uma organização. 

Um antigo Escoteiro Chefe durante um Conselho Nacional, falava, falava e falava. Ele pediu a palavra e não deram. Pediu novamente e negaram. Saiu do seu lugar e foi até o microfone onde tentaram impedir. Ele os enfrentou tomando o microfone para si. Embasbacados, os conselheiros não falaram nada. Ele perguntou se éramos um movimento democrático - Que democracia é esta onde não posso falar? Vou ter um horário especifico, - falou, falou e falou. No final foi aplaudido por todos.

- Em todos os Conselhos nos anos de eleições lá estava ele, falando, falando e falando. Ele achava que as chapas apresentadas eram combinadas para serem eleitas, pois nunca havia oposição. Nos cantos, nas pequenas salas, sempre grupinhos formavam e quando se chegava mudavam de assunto. Ele era assim, falastrão, mas um boa praça. Sentou também na grama, a moda índia (com as pernas cruzadas) e o “Velho” explicou sobre o assunto que estavam comentando. Ele balançava a cabeça concordando.

- Vovó abriu os olhos e sorriu para ele com um cumprimento simples balançando a cabeça.

O “Velho” aproveitou a deixa e continuou - Foi bom você chegar, pois lembro quando foi monitor de Patrulha. Eu já era assistente, mas pude observar que sua presença sempre foi marcante para os demais. - Não é bem assim, falou ele. Se bem me lembro, BP achava que os mais fortes, maiores e mesmo que não tivessem boa liderança, seriam melhores monitores que os demais. Claro, sempre fui alto e forte, mas acho que não era o meu caso, achava que tinha liderança.

- Em termos disse o “Velho”- Em termos. Mas vocês tinham um excelente chefe - continuou o “Velho”- E olhe que ele era um pai novato, que se adaptou tão bem na área escoteira, que não sabia se era um antigo ou um novato. No meu entender era um mateiro na arte de “Fazer fazendo“.

- O Escotismo é simples. Estão tentando complicá-lo pôr não terem tido a oportunidade de “passar pôr ele”. Quem já viveu a experiência sabe o desejo dos jovens. Eles querem atividades extra sede, ao ar livre sempre e tudo que não tiveram a oportunidade de fazer até hoje.


- Isso demanda responsabilidade, pois em nossas mãos estão moças e rapazes e a segurança não pode ser desleixada. Ao sairmos para qualquer local temos que medir as conseqüências, mas a liberdade a todos devem ser dada. - Ninguém gosta de ser guiado se pode enxergar. Até lembro-me das palavras de um amigo que me dizia sempre: - Na falta de liderança, todos são bem-vindos, e Explicava: - Conheces as historia de um cego, que conduzia outro cego e ambos caíram num buraco?
 
- Tudo é simples e prático “Velho”, disse o amigo. Aquele que não faz exatamente o que diz o método nunca poderá dizer que aplica o Sistema de Patrulhas. No meu caso lembro bem que me achavam meio aloprado e inclusive quando saia com a patrulha alguns pais ficavam assustados e pediam para o chefe me alertar! - Nunca tive acidentes com a patrulha, pois nossas atividades eram programadas com hora de saída e chegada. Nossos programas eram revisados pela chefia, a “Corte de Honra” definia tudo e todos na patrulha estavam bem preparados.

- Não tão simples - comentou o “Velho”- Você deu algumas mancadas e inclusive lembro-me de uma em que todos o esperavam as 18 horas e só chegaram após as 23 horas. - Mas chegamos disse ele. Não sei por que resolvi pôr conta própria alterar algumas coisinhas no programa e tive que aguentar a pressão da patrulha, dos monitores e da Corte de Honra. Deixaram-nos no gelo pôr quatro meses sem poder fazer atividades sem a chefia. Nossa patrulha aprendeu a lição. 

- Se estou entendendo - falou um dos jovens - vocês estão afirmando que o sistema só funciona com liberdade - Deixar que eles façam desde que devidamente instruídos, preparados e adestrados. Mas e as outras atividades em conjunto? - Nunca deixaram de existir! - falou o “Velho “-Vocês devem medir a disponibilidade de tempo para que possam guiar a Tropa”“.

- Repito - G U I A R! - Não dirigir. Para isto é necessário algumas reuniões nos dias de semana. Com o tempo os próprios monitores vão procurá-los em suas casas, desde que autorizados para isto e é claro que devem ser autorizados. A amizade que vai uni-los é a mais importante na Direção da Tropa. - Deve haver diversas atividades em que todos estarão presentes. Seja na sede ou no campo. O que se está insistindo aqui é que os monitores é que dirigem, adestram, ensinam e acompanham o crescimento dos escoteiros da patrulha. Estes, democraticamente fazem do monitor o seu porta-voz, pois eles os escolheram e o elegeram.

- Este é o motivo da insistência de termos rapazes advindos do movimento liderando tropas Escoteiras. - Um adulto que não passou pôr esta fase, nunca vai acreditar ou só acredita pela metade na responsabilidade da patrulha em dirigir a si mesma. Ele vai fazer uma projeção totalmente errônea do Sistema de Patrulha, sempre baseada em sua experiência, que pode ser da sua vida passada ou da sua atividade profissional. “Mas se bem orientado, bem adestrado, tenho a certeza que ele vai ser um excelente escotista completou o amigo do ““ Velho”. E olhe que conheço uma infinidade de Escotistas que não foram escoteiros quando jovem e procuraram aprender e assimilar as ideias de Baden Powell.

- Tudo vai fluir facilmente se observarem estes princípios - era o “Velho” quem falava. - Uma boa patrulha, vai bem se a democracia é posta em pratica sempre. Vocês irão observar que o Conselho de Patrulha vai funcionar e consequentemente ele terá voz no Conselho de Monitores e na Corte de Honra. Se cada um desses órgãos for sério dentro dos padrões exigidos, o respeito as normas não deixaram de existir. Aí sim, estarão fazendo o verdadeiro Sistema de Patrulhas.

Um forte barulho sobre nossas cabeças nos deram um tremendo susto - Era um helicóptero que sobrevoava a região em baixa altitude. Levantamos correndo e fomos para a Sala Grande onde os últimos a entrarem foram o “Velho” e a Vovó.
Demos boas gargalhadas uns com os outros. As batidas do coração voltaram ao normal. A noite chegava e o tempo parecia ter parado. O assunto não se esgotara e as duvidas persistiam. Muita coisa ainda haveria de ser dita.

“Ninguém pode dizer exatamente o que é o certo, até ver que deu certo. Os melhores exemplos são aqueles em que passamos pôr eles. Ensinam-nos exatamente onde podemos chegar. O Escotismo também é assim e muitas de suas falhas são devido a falta de experiência o que pode nos levar as incertezas onde o fracasso é o caminho final”.

                                                                       
Comentando sobre o Sistema de Patrulhas.

“Cada Tropa Escoteira é formada pôr duas ou mais Patrulhas de seis a oito rapazes. O principal objetivo do Sistema de Patrulhas é dar responsabilidade real a tantos rapazes quantos seja possível. Isto faz com que cada rapaz sinta que tem pessoalmente, alguma responsabilidade pelo bem de sua Patrulha. E leva cada Patrulha a ver sua responsabilidade definida para o bem da tropa. Através do Sistema de Patrulhas os escoteiros aprendem que tem uma considerável participação em tudo que a sua tropa faz”. 
Baden Powell

Capitulo final

A noite avançou de mansinho sem fazer alarde. O amigo do “Velho” pedira licença pôr ter um compromisso e já se fora. Nós, ansiosos para mais conhecimentos, permanecíamos ali na sala Grande, acompanhados pela Vovó e pelo “Velho”. Enquanto não fossemos “dispensados“ acredito que não iríamos nos retirar. O “Velho“ não demonstrava sinais de cansaço e entre uma ou outra conversa e uma cachimbada, aumentava o volume de sua velha vitrola, cujo disco de um trio famoso em sua época, repicava velhas e saudosas canções escoteiras.

Lá fora, uma lua cheia e “rechonchuda” brilhava no céu, e pela janela, apesar das luzes acesas, invadia sem permissão parte da Sala Grande. O cheiro achocolatado, velho conhecido, era respirado pôr todos sem reclamação. O Sistema de Patrulhas em principio parecia ter sido absorvido pôr todos, mas a medida que discutíamos detalhes, mais e mais chegávamos a conclusão que pouco sabíamos. E era tão simples! - Chefe - monitor - escoteiro - escoteiro - monitor - chefe! - Simples mesmo.

- Vocês não devem esquecer - falou o “Velho” - que o Sistema de Patrulhas é um trabalho em Equipe. Através dele vamos dar aos jovens noções de civilidade, harmonia, compreensão, democracia, honra, fraternidade e formação da personalidade sem impor determinações que não condizem com a formação do caráter. Trabalhamos com o todo, mas visando a unidade, lembrem-se que colaboramos com os pais, a escola e a igreja. Não sei se me fiz entender bem! - completou o “Velho”.

- O Programa Escoteiro já é conhecido de vocês e basta aplicá-lo. O inicio é simples e para isto a tropa pode ajudar e bem. Em uma conversa ao pé do fogo, em um acampamento de monitores ou em uma reunião de tropa, tracem algumas metas e deixe que cada um use da palavra para alterar o que achar inconveniente. Peçam aos monitores para irem anotando. Quinze a vinte minutos no máximo. Maior tempo é cansativo e não vai ser produtivo. Depois, nesta mesma reunião ou numa próxima, sugiram uma Reunião de Patrulha, para discutir novamente os tópicos e o seu desenvolvimento.

- Lembrem-se que ali devem ter dados concretos, pois eles é que vão dizer as metas a serem cumpridas, tanto no programa da tropa como no adestramento progressivo de cada um. É importante que cada jovem tenha uma copia da ficha modelo 120(não sei se existe outra) para anotar e acompanhar como está indo o seu adestramento progressivo e todas as vezes que for alterada o monitor apresenta ao chefe da Tropa para atualização de uma segunda via e devolvida. A “Corte de Honra“ define sempre as etapas onde se exige parte da Lei e Promessa. - Claro que uma só reunião não será o bastante. Talvez mais. Cada tropa tem suas necessidades. Mas em três reuniões, seja de patrulha, Conselho de Monitores e Corte de Honra, acredito que terão um programa sadio e pronto para ser desenvolvido.

Isto acaba com “detalhes” de programa semanal, mensal e trimestral. Falo isto, pois tenho visto dezenas de amadores falando sem nexo sobre o Sistema de Patrulhas e o pior, nunca passaram pôr isto. Falam na teoria e na prática não se vê os resultados. Se aprenderam alguma coisa e querem colocar em prática, seria bom terem um bom adestramento técnico boa literatura e uma participação que não pode ir ao encontro dos desejos dos jovens. - Lembre-se, o importante é deixar boa parte do programa na mão dos jovens. E vai funcionar. Disso tenho certeza.


- Não importa o que possam dizer para vocês, pois compete a cada um acompanhar e se necessário alterar de comum acordo com os monitores e sempre levando em consideração a disponibilidade da chefia. A cada passo deve-se verificar o resultado. Este é que deve ser cobrado a todo instante. - Afinal, qualquer programa pode sofrer uma correção de rumo e se for o caso, discuta novamente com eles. Se passarem um ano fazendo assim e conseguirem manter pelo menos 65% dos jovens na tropa com etapas sendo vencidas estão no caminho certo. É um percentual baixo para uma boa tropa, mas acredito que a media em nosso país não passa de 25%.

- Tudo isto tem de vir acompanhado da parte mais importante que é a Lei e a Promessa. Façam seus escoteiros decorarem-na. Eles tem de saber na ponta da língua o que é e o que significa. A cada segundo não deixe de repetir para você e para eles uma Lei. - Haverá dificuldades. A própria chefia do Grupo poderá impor obstáculos.  Tentem pedir uma carta de “alforria” pôr um tempo determinado para provarem que dará certo. Acredito que irão conseguir. Mas se vierem com aquela lengalenga já conhecida, ou aceitem e continuem fazendo errado ou peçam o “chapéu” e procurem outro Grupo que irão apoiá-los.

- Haverá muitos que torcerão pôr vocês. Hoje, a evasão é tão grande que não sei como alguns ainda discutem Sistema de Patrulhas. - Se olhassem para trás poderiam ver que alguns Escotistas que se sobressaíram no Movimento ou fora dele, foi porque participaram do verdadeiro Sistema de Patrulhas.

Os raios do luar não respeitava a rua pôr onde passávamos. Deserta e calma, sentíamos o orvalho a cair e o aroma doce e suave completava nossa caminhada no começo daquela manhã. Acredito ter valido a pena ir para casa aquela hora. Nós três, contando cada um suas façanhas do passado, algumas vezes cantando as velhas canções escoteiras do “Velho” sentíamos orgulho em participar do Movimento Escoteiro.

Atenção! Fascículo já publicado aqui. Repeco após alguns acertos e melhorias. Estes não estão numerados.



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Era uma vez... Um "Velho" Chefe Escoteiro. (Fasc. 080)


Escolher o dia. Apreciá-lo ao máximo. O dia como ele vem. As pessoas como elas vêm. O passado, eu acho, me ajudou a apreciar o presente, e eu não quero estragar nada disso por idealizar um futuro.

Era uma vez... Um "Velho" Chefe Escoteiro. (Fasc. 080)

                      Eu estava ali, como fazia todas as quintas feiras, na sala grande sentado no meu banquinho de três pés e o "Velho" Escoteiro de olhos cemi cerrados na sua poltrona de vime, já gasta com o tempo parecia dormitar. Os minutos corriam as horas também e resolvi ir embora. O "Velho" nada dizia e como o conhecia de longa data achei que estava num daqueles dias onde não falava, não ria e serrava os olhos como se dissesse não querer escutar nada. Quantos anos eu o conhecia? Mais de quinze se não me engano. Fiz quinze anos de escotismo o mês passado. Entrei por causa dele. Eu o amava como se fosse meu pai. Amava também a Vovó uma mulher incomparável. Ele beirando os oitenta e seis anos e ela com seus oitenta. Levantei e falei baixinho – Fica com Deus "Velho" Escoteiro. Vou deixar você só. Boa noite! Ele sem abrir os olhos falou com voz pausada e baixa – Não vá. Não quero ficar sozinho agora!

                      Ele levantou e vi que estava sério cabisbaixo e pensativo – Sem me perguntar nada começou a falar – Será que valeu a pena? Tenho me perguntado quase todos os dias. Será que valeu a pena? Minha vida poderia ter sido outra. Quem sabe seria bem melhor? – Não estava entendendo o "Velho" Escoteiro. – Ele continuou – Você me conheceu já adulto. Ficamos amigos. Hoje é praticamente o único amigo que eu tenho. Nasci aqui neste bairro, nesta casa, e quantas e quantas pessoas um dia entraram por esta porta, sentaram nesta poltrona. Onde estão eles? – Dos que cresceram comigo no escotismo eu sei que resta dois ou três que se arriscam a me visitar. Daqueles que fiz ser alguém no Grupo Escoteiro se os quiser ver tenho que ir lá ao grupo. Lutei em todas as frentes possíveis para ver o escotismo ser reconhecido pela nossa sociedade brasileira. Dei cursos, dirigi seminários, fiz milhares de palestras por todo país.

                       - Houve uma época que nós os adestradores tínhamos força na liderança nacional. Um dirigente que ainda não participava junto com outros mudou os estatutos e o regimento e nos deixou de fora. Sei que hoje eles não se incomodam com isto. Se sentem satisfeitos com o “modus vivendi” que mantem entre si. Claro formaram uma “casta”. Quando tinha forças eu participava nos Congressos que resolveram chamar de Assembleias. Adoram mudar. Depois não deram mais ouvido a ninguém. Tento achar uma explicação para entender o que fizeram e até hoje ainda sou um pensante sem ação. Chegaram a uma conclusão tal que as mudanças foram em séries. Tudo aquilo que demorou anos para ser criado, efetivado e se tornado um hábito de comportamento foi alterado.

                        - É meu amigo. A gente vai vivendo e vendo horrorizado isto que vem acontecendo. E impotente. Uma vez um Escotista teve a audácia de me dizer que existia o lugar próprio para reclamar, sugerir e mudar o que se fizesse necessário. Falar o que para ele? Que participei dezenas de vezes, que tudo ali já tinha sido discutido e aprovado em quatro paredes, que esta conversa de ter voz e voto não tem nenhum sentido lá? E veja meu amigo. Com uma tacada acharam que deveriam mudar o programa. Acharam. Meia dúzia achou. Ninguém foi consultado. A escoteirada? Passaram longe. Tudo bem. Se queriam mudar que mudassem, mas não, atrás do bem mais precioso que todo Escotista ou Escoteiro daquela época lutaram para conseguir eles acabaram com tudo. Lá foi a primeira e segunda estrela. Lá foi a segunda e Primeira Classe. Lá foi as eficiências seniores.

                        - As bandeirantes tem uma lei federal em que diz que só ela pode ter meninas no escotismo. O maioral na época fingiu uma aproximação e numa só tacada colocou as moças na associação. Até aí não discuto. Acho que foi uma das boas coisas que aconteceram. E se não fossem elas, nosso efetivo que eles alardeiam estar crescendo estaria pela metade. Observe que elas crescem e os meninos diminuem. Não contente começaram a mudar também normas e hierarquia. Enquanto no país onde começou o escotismo ainda tem o Comissário e o Escoteiro Chefe aqui não. Mudaram para presidente e diretor. E assim foram mudando. Mudaram a flor de lis, mudaram coisas que interpretávamos como imutáveis tais como a trilha, a rota a ponte e continuam mudando. Não duvide se um dia mudarem a promessa. Já ouvi buchichos que vão substituir os deveres para com Deus. Pode isto? Claro é só buchicho.

                     - Olhei para o "Velho" Escoteiro. Vi que ele estava triste. Precisava desabafar. Esqueci a hora. Precisava ficar ali com ele. – Sabe meu amigo continuou – Dizem que quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado. Você eu sei pensa assim também – Não disse nada. Fiz um gesto com a cabeça. Bob Marley foi inteligente em dizer que um povo sem conhecimento, saliência de seu passado histórico, origem e cultura, é como uma arvore sem raízes. Ninguém mas ninguém mesmo disse alguma coisa nos últimos trinta anos. Acostumaram. Não estranham. Sei que agora existe uma revolução silenciosa se movimentando. É bem melhor que aquela que nada fazia ou dizia.

                   - O pior meu jovem amigo, é que muitos que estão a mudar não têm nenhuma experiência no assunto. Idealizaram, raciocinaram discutiram com alguns e pronto. A mudança veio. Se de uma época a BSA que é a quem dirige o escotismo americano quando decidia mudar alguma coisa sabe o que faziam? Pegavam quatro ou cinco tropas, pois lá não tem o Grupo Escoteiro como unidade e fizeram experiências por anos e anos, com profissionais escoteiros observando e depois vendo o resultado com o jovem já adulto. Aqui? Mudam a bel prazer. Amanhã é assim. Conto a dedo estes membros do CAN e do DEN e claro os formadores que podem dizer que adquiram experiência nos seus grupos de origem. Eu conheço muitos que nunca os vi em atuação e quando assim o fizeram não tiveram o sucesso que se esperava. Hoje alardeiam conhecimentos que não passam de mera retórica.


                - O "Velho" Escoteiro parou de andar. Ele agora sentado estava de cabeça baixa. – Eu já contei para você que entrei como lobinho. Fui Escoteiro e Monitor. Fui Sênior e Pioneiro. Rodei meio mundo. Os amigos que fiz no exterior aqueles ainda vivos nunca deixaram de me escrever. Não posso reclamar. Tive grandes aventuras. Você sabe. Já acampamos juntos quando resolveram fazer uma jornada sem me convidarem. Eu me convidei. E se não fosse eu teria entrando bem no caminho escolhido.  Eu vi jovens crescerem. Eu vi jovens na comunidade. Eu vi jovens que retornaram ao movimento Escoteiro e hoje se pode acreditar no escotismo que estão fazendo com suas sessões. Não adianta nada alardear conhecimentos se na prática não se fez nada daquilo.

                 - Sabe meu jovem amigo, acho que eu vou mudar. Vou me dedicar a outra coisa. Acho que vou escrever artigos que falam do Brasil, de outras nações e nunca mais de escotismo. O "Velho" Escoteiro parou de falar. Eu sabia que suas palavras eram bazófias, mas sabia também que tínhamos muitos dirigentes e formadores fanfarrões. Não eram a maioria, mas sabiam onde colocar o dedo e criar novas situações em suas jornadas e em seus cursos da vida. – O "Velho" Escoteiro fez o que quase nunca fazia. Deu-me boa noite, chamou a Vovó que também se despediu de mim e subiram abraçados a escada. Eu me considerava da família. Tinha uma chave da casa. Saí, tranquei a porta e uma chuva torrencial começou a cair. Fui correndo para minha casa a pé. Não deu tempo de pensar e analisar as palavras do "Velho" Escoteiro. Fica para outro dia. Boa noite "Velho" Escoteiro. Boa noite Vovó.




segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Os aventureiros da Serra do Gafanhoto. Fasc. 079/80.


"Vivemos em um mundo maravilhoso que é cheio de beleza, encantos e aventuras. Não existe fim para as aventuras que podemos ter se simplesmente as procurarmos com os nossos olhos abertos."
 (Jawaharial Nehru)

Os aventureiros da Serra do Gafanhoto. Fasc. 079.

Parte I

            - Olhe, você sabe, conheci centenas ou milhares de chefes. Aqui já contei para você muitos deles que passaram pela minha vida. – O "Velho" Escoteiro naquele domingo a tarde estava loquaz. Primeiro deu belas risadas quando comentei sobre um Chefe meu amigo que apesar de debruçarem no processo que faziam para ele fazer jus a uma condecoração ele foi rejeitado. Incrível. Já estava com doze anos de atividade Escoteira, mas os processos iam e vinham. O "Velho" me olhou e disse – Desisti de lutar contra a maré. Estes dirigentes a cada um novo que aparece se julgam “Deus”. Ditam normas, fazem as leis e se julgam donos da verdade. Minha idade continuou, não permite ficar mais fazendo críticas. Eles são o que são nada vai mudar. Já te disse àquela quadrinha que um dia fiz:

- “Deixe de lado esta mania de grandeza”.
Faça seu trabalho, com poucos, mas com certeza.
Este jogo é como pedra de moinho e,
Se bem aplicado só terás alegria e não tristeza!”

                  - Mas não vamos falar sobre isto. Hoje vamos falar de escotismo puro, escotismo nas veias, não este arremedo que fazem por aí com medo de tudo. De pais que querem mandar, de atividades que não passam de um camping piorado. Isto já virou rotina. Sempre dizendo que os tempos são outros e o perigo mora ao lado. Hoje vamos falar de grandes escoteiros, de grandes chefes. Conheci muitos e acordei lembrando-se Do Chefe Tony Lantras. Acho que em suas veias nasceu para ser um Escoteiro/aventureiro. Sempre foi. Na sua Patrulha quando jovem era um contestador. Queria que os patrulheiros fossem iguais a ele e não se entregassem a rotina das reuniões e das atividades no campo. Foi ele que me transformou em um Escoteiro aventureiro. Saiamos da escola e sempre lá estávamos a explorar o desconhecido. Poderia ser os fundos da Fabrica de Trator que dava para uma pequena mata, poderia ser na caverna da onça na beira do rio e os olhos deles piscavam como se ali fosse um local nunca antes explorado.

                  - Quando passou para Sênior quase foi mandado embora da tropa. Claro ele tentou fazer mudanças nas reuniões e atividades afins, tentou também no conselho da tropa Sênior e da Corte de Honra e nada conseguiu. – Precisamos, dizia ele, sair desta rotina. Precisamos colocar o pé na estrada. Apertar o chapéu na cabeça. Uma bandeira a tremular. Buscar novas florestas, novas campinas, novos vales, subir ou descer um rio, explorar minas abandonadas, escalar picos que nunca fomos. Amigos são tantas coisas! Mas não. Não o entenderam. Ainda bem que fez grande amizade com Nissinho, Monitor da Antares. Um seu fiel seguidor. Por muito tempo esteve ao seu lado até que um dia disse que ia tentar a sorte nas minas de ouro de Serra Pelada e nunca mais apareceu. Enquanto pude eu o acompanhei em muitos lugares que até hoje trago boas recordações. Quando passou para Pioneiro achou que ali teria muitos companheiros de aventura. Mal conseguiu que uns poucos programassem uma viagem no rio Xingu. – Viagem mixuruca, disse ele. A turma só queria paquera! Pode isto?

                     - Eu depois dos dezesseis anos pouco podia acompanhá-lo. Papai começou a sofrer uma paralisia nas pernas e dependia de mim para ficar ao lado dele no escritório. Ele poderia ter delegado a um dos funcionários, pois alem dele tinha mais cinco engenheiros com ele. Achou que eu devia conhecer e aprender e assim só estando presente. Aos dezoito anos entrei para a faculdade de engenharia e isto foi sua alegria até o dia que foi para outras plagas outros planetas no céu. Assumi e aproveitei para ir a muitos encontros e atividades nacionais e internacionais. Fiz amigos na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos e o Jamil de Nagpur da Índia, que até hoje me escreve ou telefona. Mas olhe, eu e o Chefe Tony Lantras não éramos tão chegados. Ele frequentemente sumia e demorava meses para voltar. Lembro que teve casos de ficar fora cinco anos. Deste me lembro de bem.

                    - Sempre me dizia que iria fazer a velha trilha de BP quando foi parar em Mafeking na África do Sul. Eu sei que esteve em muitos lugares. Seu espírito aventureiro não cessava. Quando fez dezoito anos me disse que estava apaixonado pela Pioneira Larissa. Eu a conhecia. Linda. Olhos negros brilhantes, morena clara, educadíssima. Sua vida pregressa como Bandeirante tinha formado além de uma bela moça toda a noção da lei Escoteira do "Velho" Baden Powell. Não durou muito. Ela não queria acompanhá-lo naquelas aventuras fantásticas. Quando ele contava seus olhos piscavam e ela o adorava não só pelo que era, mas pelas conquistas dos seus sonhos. Mas nada, além disto.

                     - Ainda ontem ele passou por aqui. Vi uns olhos cansados, um corpo alquebrado e um sentimento de ter conseguido e ao mesmo tempo ter perdido tudo com sua velhice. Já não era mais o mesmo. Quase da minha idade. Não casou. Ele fez tudo para Larissa o acompanhar. Ela hoje eu sei que casou com o Doutor Nando e dizem que vivem felizes com o casal de filhos que têm em Brasília. Conversamos por horas. Nunca me contou como vivia, pois viajando pelo Brasil inteiro e para o exterior como fazia para pagar as despesas. Soube que uma rede de TV o pagava pelas filmagens e histórias que escrevia. Uma noite que nunca esqueci contou-me belas historias sua no Nepal. Quem diria. Estávamos juntos acampados no Cabo das Agulhas, bem ao extremo sul do continente africano, pois nos disseram que ali os Oceanos Índico e Atlântico se dividiam formando a famosa Corrente de Benguela. Dizem também que era a rota mais perigosa. A Rota dos Clippers. Não vimos nada disto, mas as belas paisagens compensou sem sombra de duvida a viagem.

                      - Lembrei-me também de quando juntos estávamos a viajar a cavalo pelas planícies de Oklahoma nos Estados Unidos e ele rindo fazia biquinho com seus lábios finos para me explicar – “Sua pronuncia do nome do estado é péssima. Diga Okla-homa. É a língua Choctaw. Okla – gente – humma – vermelha”. Peles-Vermelhas. E ele ria. Era assim continuou que se chamava esta região quando os índios vieram habitá-la. Foi uma aventura e tanto. Ficamos mais de um mês para atravessarmos uma porção de terra de pouco mais de quinhentos quilômetros. Uma terra vermelha, argila vermelha até onde a vista poderia alcançar. O por do sol parecia refletir a vermelhidão do panorama e às vezes os nossos olhos nos enganavam, pois tudo transformava em escarlate. Tens sede? Tens fome? Estás cansado? E Tony Lantras ria de montão. – Faça como Moisés quando o Anjo lhe disse: “Venha cá para este trono e coma se tem fome, e beba se está de boca seca, e descanse se os seus pés estiverem doente”.

                    - Ah! Meu amigo Tony Lantras. Eu falava com ele e ele aí sentado, cochilando e de vez em quando dava um ronco de assustar um touro. Chamei-o para descansar no quarto de hóspedes. Não quis. Abriu os olhos e me encarou. - Já contei a você minha aventura na Serra do Gafanhoto? Não? Pois então se prepare. E olhe, se me chamar de sonhador eu vou rir muito. Mas posso dizer a você, palavra de Escoteiro que tudo aconteceu. E como aconteceu. Tudo começou quando um homem barbudo, sujo, que nunca tinha visto me pediu um trocado na esquina da Rua do Ouvidor com a Praça João Mendes. Não neguei. Não costumo julgar. Que ele faça bom proveito. Dei a ele logo uma nota de vinte reais. Não ia fazer falta para mim, mas ao olhar os seus olhos vi que ia fazer o dia dele muito feliz. Tirou do bolso um pedaço de couro fino marrom, com desenhos diversos que deduzi ser um mapa feito por um amador.

                    - Tome – disse. Você é uma alma boa. Merece. – O que é isto? Perguntei. – Suba a Serra do Gafanhoto. Procure na parte leste uma cabana de madeira. Lá se não estiver aguarde a chegada de Thor Heyerdahl. Dizem que tem mais de mil anos. Ele chega sempre embalado por uma nuvem cinzenta. Não precisa ter medo. Não acreditei, mas sei que tais tipos têm histórias fantásticas. – E ele continuou - Dizem que quando os conquistadores espanhóis estiveram aqui, levados, talvez por algum índio capturado e ansioso por voltar ao sua tribo, fazia falsas promessas de montanhas cheias de ouro e esmeraldas. Um dos capitães resolveu achar sozinho o ouro. Subiu a Serra do Gafanhoto numa época de muito frio. Sumiu. Ninguém nunca mais o viu. Eu o encontrei lá. Decrépito quase morto. O alimentei. Eu era na época um caçador. A caça sumiu. Não sabia fazer outra coisa. Voltei à cidade. Ele me deu este mapa. Disse que era confiável. Que eu poderia ficar rico se achasse a Trilha dos Conquistadores Espanhóis.

                - Olhei para o Chefe Tony Lantras pensando que ele já estava entrando na fase do que foi e do que não foi. Os velhos fazem muito isto. Aumentam, contam histórias fantásticas, mas não deixá-los contar é como se cortássemos sua língua, tirássemos o prazer dele em viver o que não viveu. Sou um "Velho" e você sabe disto. Sempre pisei com os pés no chão. Mas quem sabe eu não poderia ficar como ele? – Incentivei-o a continuar. – Estava eu interessadíssimo no que o "Velho" me contava. Sua maneira, seu estilo, sua voz mostrava o poder de uma história em sua mente. Mas graças a Deus a Vovó adentrou na sala com seu carrinho de lanches que todas as noites fazia questão de nos presentear. Sempre com seus deliciosos biscoitos de polvilho, pães de queijo quentinhos, aqueles bolos deliciosos, um café fumegante ou um chocolate quente no ponto. Comia pensando na história contada pelo "Velho" escoteiro. Mais um domingo cheio. Melhor que ver TV e ir ao cinema. Risos. Claro dizem por aí. Isto é programa de índio. Mas qual Escoteiro não é meio índio e gosta de uma boa história?
  
Os aventureiros da Serra do Gafanhoto. Fasc. 080.

Parte II

                   Olhei no relógio de parede da Sala Grande. Sete e meia da noite. Cedo ainda. Tinha dias que saia da casa do "Velho" Escoteiro depois de duas da manhã. Segunda feira brava. Mas e daí? A companhia do "Velho" Escoteiro valia muito mais. "Velho", conte-me, o que aconteceu ao Chefe Tony Lantras? – O "Velho" riu. – Calma. Vou chegar lá. O "Velho" suspirou. Fez um gesto como se fosse acender seu cachimbo. Esqueceu que largou há mais de cinco anos. Praguejou. Eu sabia o que dizia. Maldizia o Doutor Nonô que o proibiu de fumar. Trocou de posição, colocou um pé em cima da poltrona, me olhou e continuou – O Chefe Tony Lantras começou a planejar a subida na Serra do Gafanhoto. No início nem sabia onde ela estava. Na biblioteca da cidade (ainda não havia internet) ele descobriu. Ficava próxima a Oiapoque no Amapá. Parte brasileira e outra da Guiana Francesa. Atravessando o Rio Oiapoque já tem o inicio da subida. Do outro lado ficava Saint-George de L’oyapock.

                    - Assim ele começou a contar sua história. Deixe-o falar. Só transmito o que me disse: – "Velho", tentei alguém para ir comigo. Você sabe não gasto muito. Sou um escoteiro caroneiro. Nissinho já havia zarpado para Serra Pelada. Dos pioneiros que ainda viviam na cidade ninguém topou. Preparava-me para ir só. Uma surpresa aconteceu. À noite bateram a porta da minha casa. Abri e lá estava Larissa. Linda como sempre. Entrou sentou e disse da sua decepção e porque o tinha procurado. Terminara seu noivado. Coração partido. Estava triste. Achou que era o homem da sua vida. Não era. Precisava mudar de ares. Precisava esquecer. – Quero ir com você! Posso? – Fiquei boquiaberto. Não esperava isto. Porque não? Pensei. Expliquei a ela tudo. Disse dos perigos que poderíamos correr.  Nem pestanejou. Aceitou de pronto. Assim foi feito, assim foi escrito, assim foi combinado sem protocolo e o dia chegou. Mochilas as costas e lá estávamos nós na estrada BR156 do Oiapoque pedindo carona. Em três dias chegamos a Macapá. Em Pernambuco conseguimos uma carona em um avião da FAB. De lá até o Rio Oiapoque foram quase seiscentos quilômetros de carona e na Empresa Viação Vulcabrás. Risos. Nossas botinas. Você conhece.

                       - O barqueiro tinha cara de poucos amigos. Não queria conversa. Não nos deu nenhum detalhe. – Olhe, no pé da serra tem uma senhora. Dona Chiquitita. Dizem ser feiticeira. Dela quero distância. Procurem ela. Ela sabe. Ela conhece os mistérios daquela serra maldita. E mais não disse. Dito e feito. Andamos uns oito quilômetros e avistamos sua tapera. Ela estava na porta fumando um cigarro de palha. Nem bem chegamos e ela começou a rir. Tinha só um dente na frente. Lembrei-me da bruxa de Branca de Neve. Ela parou de rir, esticou o pescoço na minha direção – Quer morrer? Falou. E você moça também? – Porque dona? – Ora vocês não vão mexer com os mortos? Aonde vão só tem fantasmas! Olhei para Larissa. Ela estava de olhos arregalados. Virou para mim e disse – Pé na estrada Tony Lantras. Se estiver com medo esconda atrás de mim! E riu a valer. Mas vi que era um riso nervoso. Como sabe disto Dona? – Vejo nos seus olhos. Vejo no seu corpo, você carrega na mochila a morte. Ele veio da serra e quando volta quem estiver de posse dele presta contas com o diabo! – Só podia ser o mapa. Só podia ser. 

                          - Pedimos se podíamos passar a noite em sua tapera. Qualquer canto serviria. Ela deu de ombros e entrou. Entramos atrás. Um salão sem divisórias. Mesa simples, dois bancos, uma cama de madeira comum forrada com folhas secas. Um fogão de lenha. Latões panelas tudo amarrado e pendurado com cipó. Ficamos em um canto. Ela perguntou se já teríamos jantado. Não, dissemos. Pegou um feijão preto pegajoso e gorduroso e já cozido, jogou em uma panela de ferro depois de reacender o fogo. Misturou farinha de mandioca torrada e alguns grãos de pimenta malagueta. Tirou de uma lata dois pedaços de choriços salgados. "Velho" Escoteiro, meu amigo, eu comi feito um danado. Larissa arregalou os olhos, mas não deixou nem um feijãozinho no fundo do prato. Em um riacho próximo tomamos um banho e o lusco fusco da noite chegou. Olhamos para a Serra do Gafanhoto. Imponente. Linda. Um barulho como se fossem correntes enormes se arrastando vinha bem do alto da serra. A serra parecia tremer! Nunca tinha visto nada igual. 

                             Bom sinal eu pensei. Ou encantada ou enfeitiçada ou do demônio. Do jeito que sempre gostei. Você sabe dito meu amigo "Velho" Escoteiro. Sempre tive uma queda pelo sobrenatural. Dizem por aí que enfrentei o Coisa Ruim quando estive na Garganta do Diabo. Mentira. Tremi feito vara verde. Mas aquela aventura me dizia que ia ser a melhor da minha vida. Dormimos feito crianças com sono. Acordei com o sol começando a despontar na janela. Sentada na porta a Velha Feiticeira nos olhava e virava para a Serra do Gafanhoto. Parecia conversar com ela. Achei que ela estava contando que estamos de partida. Ela nos ofereceu um café. Puro. Forte sem mais nada. Mochila nas costas e partimos não antes dela nos alertar pelo caminho das cobras venenosas. Larissa me olhou espantada. Lembrei que um dia ele disse que detestava cobras. Disse adeus à velha feiticeira. Tirei cinquenta reais e dei para ela. Ela pegou na nota, cheirou. Levou perto do olhos e deu aquela risada com seu único dente naquela bocarra enorme.

                          Não olhamos para trás. Olhei a serra. Alta. Enorme. Parecia nos desafiar. Arvores anãs, muita samambaia. Avistamos uma pequena trilha. Notei muitas marcas de botas. Centenas delas. Ora bolas, a serra devia ser muito bem frequentada. Subimos com o vento soprando de Leste para Oeste. Bom sinal. Dizem que assim quase não chove. Nossos cantis estavam cheios. No meu bornal um estoque razoável de arroz, linguiça, macarrão e batata. Dava para o gasto. Disse a Larissa se ela aguentava andar até às quatro da tarde. Tirei uns biscoitos duros que tinha comprado. Eles eram bons para colocar na boca e esperar derreter sem morder. Sustenta mais. Truque que aprendi com uns vaqueiros mexicanos. Assim a subida renderia mais. Calculei que em dois dias chegaríamos ao topo e lá procurar a tal cabana de madeira do tal Thor Heyerdahl. Vi Larissa dar um grito enorme. Olhei para trás. Uma bela Surucucu enrolada em seu pescoço. Minha faca Escoteira brilhou no ar e deu para cortar sua cabeça em um só golpe. Nunca vi isto. Cobras empoleiradas em árvores. Eram muitas delas. Disse a Larissa para correr. Ela pulavam, mas não nos alcançavam.

                        Graças a Deus ficamos livres delas. E para nossa sorte às três e meia da tarde encontramos uma nascente. Pequena mas dava para o gasto. Passamos a noite ali. Não armamos o toldo. O céu estrelado. Uma noite que não iremos esquecer. Nem bem escureceu a terra começou a tremer. Não podia ser um terremoto. Ali nunca aconteceu. As estrelas no céu piscavam, mas raios enormes riscavam os céus como se fosse uma tempestade cósmica. Larissa não tirava os olhos. Em outra situação seria mesmo um espetáculo o que estávamos vendo. Mas ouvimos passos. Chamei Larissa e nos escondemos atrás de um enorme tronco caído. Meu Deus! Impossível! Dezenas de soldados espanhóis ainda com seus capacetes, como se tivessem saído de uma história do Famoso Francisco Pizarro. Minhas lembranças dos Dragões e Arcabuzeiros do passado se misturavam com o que estava vendo. Estandartes, armados de Lanças e arcabuz curto, ouçarabina e com casaca solta, lembravam a infantaria a galope nas pradarias do Peru. Cantavam subindo morro acima como se estivessem indo para o além-túmulo. Todos eles com as mãos ocupadas. Levavam seus tesouros. Sacos e sacos de dobrões de ouro e prata. Castiçais, vasilhames que brilhavam com o fulgor das estrelas. Ficamos em silencio até o último homem passar. Ele olhou para nós. Fez um sinal de silencio. E seguiu com os outros.

                       Calculei ter pelo menos duzentos soldados. Assim como chegaram sumiram na escuridão da noite. Olhei para Larissa. Vamos dormir fora da trilha. Pensei comigo. Como eles poderiam estar ali na Guiana Francesa? Nunca ouvi falar deles nesta região. Estavam bem longe de suas conquista no Peru e no México. Dormimos um sono do assopra e acorda. Você sabe como é. Um olho fechado e outro aberto. Risos. Bem cedinho nos pusemos a caminho. Assustei-me. A trilha ainda tinha a marca de suas botas, mas algumas marcas pareciam ser mulas. Não vi nenhuma delas. À medida que andávamos uma árvore balançava cobrindo nossas cabeças de folhas secas. Como um foguete uma flecha de fogo cortou os céus e se enterrou em um tronco na beira da estrada. O fogo se espalhou, mas logo se apagou. Olhei para Larissa. Ela tremia. Quer voltar? Perguntei. Não. Não viemos até aqui para nada. A terra tremia e parava. Parecia que pequenos terremotos ali aconteciam. Às quatro da tarde chegamos ao cume. Nem parecia. Ao sul e ao norte uma cadeia de montanhas. Minha experiência dizia que estávamos no cume.

                     Peguei minha prismática antiga e rumei para o leste. Sem erro. Uns quinhentos metros e avistei a cabana. Parecia aquelas cabanas feitas por algum lenhador do velho oeste. Só troncos. E o melhor, saia fumaça de sua chaminé. Ótimo. O tal Thor Heyerdahl deveria estar ali. Batemos a porta e nada. Ela rangeu e se abriu. O fogão aceso. Uma frigideira fritava ovos. Só um cômodo. Onde estaria o Senhor Thor? Chamei. Larissa chamou. Nada. Vi que os ovos já estavam fritos. Melhor tirar da frigideira antes de queimar. Não foi preciso. Ela subiu no ar, e jogou os ovos em um prato ao lado do fogão. O tal Thor devia estar invisível. Disse para Larissa não se preocupar. Fazia parte do jogo. Mas que jogo? Eu nem sabia suas regras. Ninguém apareceu. Vi uma panela de ferro com feijão e fervendo. Ao lado a indefectível farinha de mandioca. – Larissa, vamos comer, acho que este jantar foi feito para nos. Ela não se fez de rogada. Pegou dois pratos que incrivelmente estavam limpos. Duas banquetas rusticas foi onde sentamos. Começamos a comer e eis que o tal Thor Heyerdahl apareceu. Sentado. Sabe onde? Em uma pequena nuvem. Alí dentro da cabana!

                    Ele sorria um sorriso maroto. Lembrei-me do gênio da lâmpada de Aladim. – Olá moço, eu disse. Moço? Eu sou moço? E deu uma gargalhada que fez a cabana tremer. Olhei para ele. Parecia ter no máximo um sessenta anos. Eles nos esperou terminar de comer. Larissa perguntou onde podia lavar. Eu remendei, deixa comigo Larissa. O Tal Thor deu outra risada. Nossos pratos saíram pela janela e em questão de minutos voltaram limpos! Meu amigo, que beleza. Este cara em um hotel ou restaurante faria sucesso. Em uma Patrulha Escoteira seria condecorado! Meu medo diminuiu. Vi que o senhor Thor Heyerdahl era uma espécie de bufão mágico. Não devia ter pensado assim. Ele fechou a cara. Falou com uma voz cavernosa – Onde conseguiram o mapa? Que foi o maldito que contou a maldição da Serra do Gafanhoto? – Contei para ele tremendo o que aconteceu. Ele ficou calado. Durante muito tempo nada disse. Lá fora uma escuridão de breu. Lá dentro uma iluminação fantasmagórica.

                    - Vão dormir amanhã conversaremos. – Mas Senhor Thor? Argumentei. – Cala a boca! Cala a boca! Já disse. Preciso desta noite para pensar se mato vocês, se escalpelo estas vastas cabeleiras, se corto suas pernas para os lobos famintos ou se entrego para o Capitão Diogo de Almagro. Ele sabe o que fazer com forasteiros bisbilhoteiros como vocês! E chega por hoje. Não quero ouvir nenhum barulho. – Olhe, comecei a ficar fulo. Havia anos que ninguém falava comigo assim. Nem meu pai. Só meu avô que um dia quebrei o cachimbo dele e ele me deu uma boa sova com vara de marmelo. Olhei para Larissa. Vi que estava perdendo a coragem. Era muito para ela. Estas coisas do além não são fáceis de enfrentar. Resolvi me calar. Deitei. Ela também. Não conseguia dormir, mas acredite, dormi e como dormi. Acho que o tal Thor me enfeitiçou.

                      - "Velho" Escoteiro. Você não vai acreditar. Amanheceu nevando! Isto mesmo, nevando. Isto não existe e nunca existiu ali naquela região. Eu conhecia a neve Larissa não. Ficou encantada. Saiu brincando sobre a neve. Sorria, cantava, não sabia o perigo que corríamos. Um relinchar de cavalos e logo uns vintes cavaleiros se aproximaram. Nada mais nada menos que uma pequena parte do pelotão espanhol, que ali estava para decidir nossa vida. O Senhor Diogo de Almagro com toda sua imponência desceu de seu cavalo na melhor pose. Tinha mesmo pose de capitão. Uma bela armadura no peito. Um capacete que acho era feito de ouro. Olhou para o Thor e perguntou. Quase ri quando ele falou. Enquanto Thor tinha uma voz cavernosa e de vez em quando trovoava, ele o capitão falava fino. Parecia uma menininha de nove anos. Vi que a Larissa ia rir. Fiz um sinal. Se ela risse seria nosso fim. Eles se consideravam conquistadores e dizer que eram efeminados seria nossa morte.

                     - Thor nos olhou e olhou para o Senhor Diogo. – Foi o Falapeutas. O senhor lembra quando esteve aqui. Pequei em dar a ele um pedaço do mapa que o Senhor Orelhando me deu. Não sabia do seu encantamento. Sem ele eles nunca teriam nos descobertos. – Faça o seguinte Thor, leve-os até a Cachoeira do Inferno. Jogue-os lá de cima. Deixe-os nus. Vão morrer gelado em segundos naquelas águas malditas! Deus do céu! O maldito fantasma queria nos matar! Não pretendia morrer assim. Iria fazer tudo para que isto não acontecesse. Larissa me surpreendeu. Começou a rir, ria a valer. Chegou perto do Senhor Digo, olhou nos seus olhos e com a mão na cintura disse – Você não sabe com quem está falando seu porco do mato. Sou filha de Pachacútec. Você deve lembrar-se dele e sua maldição. Você está aqui por causa dele. Lembra que o Senhor Pizarro queria que ele jurasse sobre a bíblia a ser vassalo da Espanha. Ele não quis. Lembra que centenas de arcabuzeiros receberam ordens para matá-lo e arrasar a comitiva real. E o que aconteceu? Milhares de vocês morreram com a peste dos maias. Caiam como mosquitos doentes. Eu posso fazer o mesmo com vocês!

                       Nossa! Seria mesmo Larissa quem estava falando? Não conhecia estes seus conhecimentos. Ou quem sabe alguma criatura boa das trevas tomou conta de seu corpo e era ela quem falava? – Só sei que o tal Diogo de Almagro tremeu. Fechou os olhos e fungou. Fungou feio. Montou a cavalo. Gritou para o tal Thor Heyerdahl que nos mandasse embora agora mesmo. Mandou nos dar um pequeno saco de dobrões de ouro e prata. Sem delongas. Pegamos nossas mochilas. Estava escurecendo. A neve caia aos borbotões. Olhei para o tal Thor. Ele estava de olhos fechados. Sua nuvem pequena apareceu. Mandou que subíssemos. Não ria "Velho" Escoteiro.  Não ria. Juro pela minha alma, palavra de Escoteiro. A nuvem nos transportou até balsa que estava fazendo sua última viagem. Na margem vi a feiticeira desdentada que dava enormes risadas e pulava feito um macaco querendo banana. O Tal Thor me tomou o mapa. Quando ele se foi à neve desapareceu. A feiticeira desapareceu. A Serra do Gafanhoto agora parecia brilhar com o sol se pondo em suas vistosas arvores verdejantes.

                      - Olhei para Larissa. Ela sorria de leve. Tremeu o corpo e senti que o tal espirito que tinha se incorporado nela se fora. Quem seria? Porque nos ajudou? Nunca soube. Nunca vou saber disto tenho certeza. Larissa não se lembrava de nada. Lembrava sim, da cabana do jantar com ovos estrelados, do jantar com aa feiticeira desdentada e mais nada. Melhor assim. Ela agora era outra moça. Sorria. Um sorriso encantador. Minha velha paixão voltou. Pensei em cortejá-la novamente. Casar, ter filhos. Uma casinha branca lá no alto do morro, no bairro dos ricaços da cidade. Mas sabia ser impossível. Meu destino era outro. Soube das pegadas de um Yeti, ou melhor, do Abominável Homem das Neves. Foi visto no passado na região do Himalaia, agora soube que o avistaram na Cordilheira dos Andes. – Olhei para o Chefe Tony Lantras. Dei uma risadinha. Ele corou. Ficou de pé. Se acha que menti, vou-me embora! Foi saindo deu uma meia volta e colocou na minha mesa, dez dobrões de ouro. Ouro puro. Tentei falar, ele não deixou e foi até simpático. Dê estes dobrões para o grupo Escoteiro mais humilde do seu bairro.  Saiu pela porta e sumiu.

                      - Olhei para o "Velho" Escoteiro. Estava atento. A mente em ponto de bala. Degustei com gosto tudo que ele me contou. Uma história incrível. Ele me olhou também. Não disse nada. Sua testa enrugava e voltava ao normal. Seus olhos piscavam. Abriu a gaveta, tirou os dez dobrões de ouro. Deu-me. -
Faça bom proveito no grupo. Se achar colecionadores, aí tem bem uns quinhentos mil reais. Dá para construir a sede do Grupo Escoteiro e comprar todo o equipamento necessário. Ficou em pé, me deu boa noite e subiu as escadas com dificuldade rumo ao seu quarto. Fui embora. Cheguei a casa cedo. Não era ainda meia noite. Liguei meu computador. Pesquisei quem seria Diogo de Almagro. Achei. Um dos homens fortes de Pizarro. Pesquisei sobre Thor Heyerdahi. Nada. Pesquisei sobre a Serra do Gafanhoto. Nada. Tentei rever a história da Guiana Francesa. Achei o rio Oiapoque. Achei Saint-George de L’oyapock. Mas nada que um dia por ali passasse os conquistadores espanhóis. Quanto aos Yetis eu sabia da história.

                        Melhor dormir. Adoro o "Velho" Escoteiro. As histórias que ele me conta são de tirar o chapéu. Amo este cara de montão. Quantas coisas ele me ensinou. Valeu todo o tempo que passei junto a ele. Espero que ele possa viver por muitos e muitos anos acima dos seus oitenta e cinco de hoje. Aprendi o que sei de escotismo com ele. Viajei por boa porte do mundo com ele em pensamento. Não posso perder nunca estes doces momentos ao seu lado. Que Deus o tenha "Velho" Escoteiro. Que Deus o tenha!  Parte superior do formulário

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"Sucesso significa realizar seus próprios sonhos, cantar sua própria canção, dançar sua própria dança, criar do seu coração e apreciar a jornada, confiando que não importa o que aconteça tudo ficará bem. Criar sua própria aventura!"
 (Elana Lindquist)



sábado, 29 de dezembro de 2012

As memórias do Chefe Bill Wagryth – fasc. 078 Meu amor mora nas estrelas.


 “Quando eu era criança, e fitávamos as estrelas, você me contava sobre os heróis, cuja gloria foi escrita nas estrelas. E que lá havia uma estrela para mim. Você!”.

As memórias do Chefe Bill Wagryth – fasc. 078
Meu amor mora nas estrelas.

                  O dia ainda estava claro. A primavera, dizem os poetas trás o perfume das flores, os pássaros cantam nas arvores mais afinados, as matas os bosques, às campinas ficam mais verdes e os rios correm para o mar sorrindo. Eu sempre gostei da primavera. E quando a brisa daquela tarde gostosa e sonolenta soprava em nossa face era como se estivemos vivendo uma tarde em um acampamento qualquer. Eu e o "Velho" Escoteiro estávamos sentados na varanda de sua casa, e de lá podíamos avistar o morro das Bermudas, que graças a Deus foi mantido como uma reserva florestal e não sucateada por alguma imobiliária. Eu e o "Velho" Escoteiro dormimos a tarde toda. Pudera, o almoço da Vovó foi incrível. Quando vi a deliciosa Moqueca de Traíras pescadas naquela madrugada por quem eu não sabia, acompanhada de uma abobrinha afogada com uma pimentinha no ponto, um pirão no ponto e um arroz solto com rapinhas no fundo e não deu outra. Comi feito um esfomeado que há dias não comia. Olhe igual à Vovó na cozinha pode ter muitas, mas superior não.

                     O "Velho" como sempre nestas tardes, como a chamar a atenção dos jovens que brincavam seus folguedos na calçada em frente, colocou o seu velho LP do Trio Irakitan a repicar gostosamente várias canções escoteiras na sua vitrola já gasta com o tempo. Ficamos assim sem conversar, mas vi que o "Velho" Escoteiro queria me contar alguma de suas histórias ou então das suas eternas discordâncias com nossos dirigentes, uma luta de anos e anos. – Olhe, começou – Acho que nunca comentei com você. Existem tantas coisas que aconteceram em minha vida Escoteira que precisávamos ficar juntos uma eternidade para lhe contar tudo. Acordei esta madrugada lembrando-me do meu querido amigo o Chefe Bill Wagryth. Já falei dele com você? Não? Bem vamos lá. Bill Wagryth entrou como Escoteiro na Patrulha Puma. Eu estava na Touro. Mesmo assim como morávamos na mesma rua sempre íamos e voltávamos do grupo juntos. Nasceu daí uma bela amizade.

                    Fomos juntos para os seniores, e nos pioneiros ele ficou pouco tempo. Como tinha feito um concurso para a Aeronáutica, durante quatro anos ficou na Academia da Força Aérea, em Pirassununga. Víamo-nos nas férias, e até fizemos um acampamento juntos a convite de escoteiros da Costa Rica, no Sopé da Cordilheira Central, em Guanacaste e Tilarán. Foi um acampamento que marcou muito. Quando se formou como Aspirante foi logo promovido a Segundo Tenente. Quase não tinha folga, mas sempre sobrava um tempinho para tomarmos uns chopes, uma ou três noites de campo ou a explorar alguma das mais belas grutas de Minas, e até mesmo participar do Sétimo Jamboree Mundial em Bad Ischl, na Áustria. Nossa amizade permaneceu firme e logo ele foi promovido a Tenente. Foi nesta época que ele foi designado para servir na capital e transferido para o gerenciamento do Tráfego Aéreo do aeroporto Catorze Bis na capital, o que lhe tomava muito tempo.

                  Um dia ele me convidou para conhecer seu trabalho e achei fora de série. A cada minuto alguém suava com algum problema. Alí todos trabalhavam com o estresse a flor da pele. Não era nada fácil. A vida de centenas de aeronaves estavam nas mãos deles. Ele me convidou para um cafezinho no bar do aeroporto e lá fomos nós. Foi então que me contou sua história. Incrível história. Se eu não soubesse que era um Escoteiro dos bons diria que ou estava estressado demais ou um tremendo mentiroso. – assim começou sua narrativa - Foi em um dia de semana qualquer. Aeronaves descendo e subindo. Na minha linha ouvi uma voz feminina com um sotaque russo. Pedia para desobstruir toda a pista número quatro. Eles iam descer em quatro minutos. Pedi para se identificarem. Não responderam. No radar vi que era uma nave gigantesca.

                    Não tive saída. A pista foi interditada para eles. Não vi direito a nave. Ela aparecia brilhante quando alguma nuvem no céu cobria o aeroporto. Mesmo assim com dificuldade. A maior parte do tempo estava invisível. Parecia ser um enorme charuto. Imenso. Mais de quarenta metros de altura e mais de cento e quarenta metros de comprimento. – Eu prestava a maior atenção ao "Velho" Escoteiro. Uma história que parece ele tinha tirado do fundo do baú. Eu gostava destas historias, se eu acreditava eram outros quinhentos. – Ele continuou – Meu amigo Bill engasgado, disse que ouviu a voz feminina de antes – Precisamos nos falar. Preciso explicar. Pode ser em algum lugar reservado? Disse que seria na sala do Brigadeiro Duarte. Ele ainda não sabia do que estava acontecendo. Fui até lá. Expliquei. – Está doido? Por Deus brigadeiro é a mais pura verdade, aqui não é lugar para este tipo de brincadeira.

                     A voz parecia flutuar e disse – Estou me materializando na sala. Não façam nada. Nem um gesto. Ela apareceu ao vivo e a cores. Uma linda loira de olhos verdes esmeralda com um uniforme estranho. Olhou-me e na sua voz fanhosa explicou. – Sei que vai ser difícil acreditarem, mas somos de um planeta distante, que pelas suas medidas fica a mais de cem milhões de anos luz da terra. Nosso planeta irá se desintegrar em alguns anos. Nossos cientistas descobriram um parecido com o nosso na Constelação de Centauro, que vocês chamam de Alpha Centauro por ser a estrela mais brilhante no céu em determinados meses do ano.  Estamos alguns séculos avançados em relação ao seu planeta. Somos orientados a não interferir no crescimento de vocês e de outros povos que habitam não só a sua galáxia como a de milhões que conseguimos descobrir. Nossa nave estelar pode viajar grandes distâncias entre sistemas solares. A velocidade da luz para nós não tem segredos. Podemos viajar mais de vinte vezes a velocidade da luz.

                     - Continuou o Chefe Bill. – Meu nome aqui para vocês será Sheyla. Minha aparecia normal não é esta. Mas precisava adaptar uma nova vestimenta humana para podermos conversar. Ninguém poderá saber que estamos aqui. Um pequeno problema em nosso motor de dobra que não foi possível reparar no espaço nos obrigou a descer aqui. Seria difícil para você entenderem como funciona nossa nave. Escolhemos o Brasil por ser um pais de paz e não colocará aqui sua parafernália de guerra como fazem os outros países. – Eu olhei para o "Velho" Escoteiro. Ou ele ou o amigo dele o tal Chefe Bill tinham uma incrível imaginação. Assisti a filmes e mais filmes em que os americanos queriam dominar e até atiravam nos alienígenas antes de conversar.  – O "Velho" não se fez de rogado e mostrando que lê meus pensamentos parou a história. – "Velho"? O que foi? – Ele rispidamente disse – se acha que estou mentindo porque continuar a contar a você seu pirralho?

                      - Tudo bem "Velho". Desculpe. Gostaria de saber o final de tudo. Vou continuar – disse. Mas se notar qualquer olhar de galhofa paro na hora. – Juro que não o farei "Velho".  – Ele como se fosse tomar um ar lá fora, foi até a escada que levava a rua e em pé mesmo continuou – Chefe Bill me contou que ficaram seis horas na pista quatro. Sheyla o convidou para conhecer a nave. Incrível. Lá havia mais de trinta mil passageiros. Na realidade a aparência deles era de pequenos anões, magros, cara fina, sem cabelos e orelhas. Sheyla riu do meu espanto e do brigadeiro, pois ele insistiu em ir. Não havia animosidade e nem cara feia para nós. Todos sorriam e parecia que viviam em um sistema de harmonia perfeita. O pior foi que o Chefe Bill me disse que tinha se apaixonado por Sheyla. – Como? Perguntei. Não sei. Eu sabia que a aparecia dela não era aquela e o pior ela me convidou para conhecer Alpha Centauro. O brigadeiro foi contra.

                        - Para finalizar eles partiram por volta de meia noite aquele dia. Chefe Bill foi com eles. O brigadeiro não aceitou e disse que levaria o caso a Corte Marcial. Seis meses depois o Chefe Bill voltou. Uma aeronave que voltava para buscar mais gente o deixou em algum lugar do Deserto de Saara. Olhe eu mesmo não acreditei na conversa do Chefe Bill. Mas ele me mostrou uma gravação feita lá no novo planeta onde iriam viver. Incrível! Os primeiros pioneiros que lá chegaram mudaram o clima, os quatro oceanos eles os transformaram em um só, o planeta todo foi reflorestado e agora já estava com florestas imensas de polo a polo do planeta. Eles tinham muitos dos animais que temos aqui na terra. Olhe, poderia ficar aqui contando a você tudo que o Chefe Bill me contou. Tem muito mais e nada que um bom Escoteiro explorador não tenha vivido como ele viveu.

                          Chefe Bill Wagryth até hoje não casou. Disse que se apaixonou por Sheyla. Sabia que nunca poderiam viver juntos nem agora e nem nunca. Ela estava anos luz adiantada dele. Se em um passado longínquo tinham se conhecido em alguma estrela do universo hoje a distancia entre os dois era bem grande. O Brigadeiro Duarte não gostou do final de tudo. Não o expulsou e até o ajudou com um analista da aeronáutica. Mas voltar a sala de comando na torre estava fora de cogitação. Abriram uma exceção. Agora ele estava treinando novos Controladores de Voos. Disse-me que está morando em uma casinha próximo ao lago Santa Inês. Pertence a Aeronáutica. O brigadeiro disse que poderia morar o tempo que quisesse. - E ele terminou dizendo – Olhe meu amigo não enlouqueci. Mas depois que conheci Sheyla não quero viver com nenhuma outra mulher.

                        Fico a imaginar se tudo não foi obra do destino, um destino que não entendo, para muitos impossíveis de imaginar. Amar alguém que mora nas estrelas? Se apaixonar por alguém que nunca poderão viver juntos? Não conto esta história para ninguém. Eu mesmo disse ao Chefe Bill que ele estava ficando louco. Interessante que a Aeronáutica e a Infraero conseguiram abafar tudo. Não deu nada na imprensa. Foi uma história não contada. Abafada pelas Forças Armadas. Ninguém soube e nem irá saber. Ele disse que confiava em mim. Que não contaria a ninguém. – O "Velho" riu alto. Claro estou contando a você porque não sei. Quem sabe por que o Chefe Bill morreu a duas semanas? Ou por que não tenho com quem falar e conversar? Quase ninguém vem aqui. Olhe o Chefe Bill antes de morrer me disse ainda que todos os abandonaram. Noêmia a sua noiva nem chorar chorou quando o mandou passear. Com os olhos cheios d’água me disse que precisava desabafar com alguém. Nada como o "Velho" Escoteiro. E ele me disse que quando fosse para o outro lado da vida que eu estaria liberado para contar.

                       O "Velho" Escoteiro se calou. Não disse mais nada. Nunca me contou uma história assim. Passava das duas da manhã. Fui embora quando vi o "Velho" Escoteiro subindo as escadas para o seu quarto. Acho que Vovó já estava dormindo. Na rua fria e atípica de uma noite de inverno fui pensando na história do "Velho". De escotismo pouco, de historias inverossímeis muito. Este "Velho" Escoteiro nunca me deixou na mão com boas histórias. Atravessei a rua e sem querer torci o pé e cai ao chão. Sem pensar olhei para o céu. Uma nave gigantesca estava passando em grande velocidade. Velocidade de Dobra? Risos. Não sei. Melhor é continuar mesmo mancando. Não posso me apaixonar por alguém que mora nas estrelas. Já tenho uma esposa e outra não ficaria bem para um Chefe Escoteiro. Que sono! Acho que vou dormir bem, mas pouco. Amanhã, ou melhor, hoje tem trabalho. "Velho" escoteiro. Amo este "Velho".

“Podemos ter nascido em mundos diferentes”.
Mas eu conheço você.
Quando me pegou no céu, eu soube.
Senti o coração de um homem disposto a doarem-se
Pelos outros.
“Um homem disposto a lutar por uma causa”.