Historias e estorias que não foram contadas

Historias e estorias que não foram contadas
uma foto, de um passado distante

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O SEGREGO DA ILHA MISTERIOSA - FASC. 70 E 71


O "Velho" Escoteiro e o segredo da ilha misteriosa – Fasc. 70

AS LINHAS DA PRAIA
“A lenda insiste em dizer que se alguém repetir 6.000 vezes a frase ‘huka fava dreimoid Kaká iara” as linhas do mar da praia irão lhe levar a um tesouro escondido. Só uma pessoa conseguiu fazer isto. “Mas está desaparecida até hoje”

“Aos contadores de histórias. Devemos a eles a beleza de um espetacular Fogo de Conselho ou de uma gostosa noite de luar”.


                        Foram quinze dias maravilhosos. Para dizer a verdade nunca poderia imaginar o "Velho" se esbaldando e tentando correr como uma “galinha choca” pela praia. O meu amigo o "Velho" estava em pele e osso. Mas ainda ostentava uma saúde que muitas vezes duvidamos se ele resistiria. Vovó e minha esposa se “aninhavam” em baixo de uma castanheira frondosa. Eu não tirava o olho do "Velho". Afinal, 86 anos não e brincadeira. Não deu para perguntar ao seu médico o que ele podia fazer ali. Mas ele teimoso, fazia sempre o que não podia fazer.

                      Tudo começou quando meu Chefe de Departamento da fábrica onde trabalhava me perguntou se não queria ficar em sua casa de praia, no litoral sul. – Olhe meu amigo, não vou lá esse ano. Eu e a família resolvemos ir a Disney e a casa ficará fechada. Porque não vai lá descansar nas suas férias? E para completar disse – Leve quem você quiser. Tem condições de alojar até dez pessoas. Uma oferta tentadora. Falei com minha esposa. Ela topou.

                      No domingo fomos à casa do "Velho". Como sempre saborear o almoço delicioso da Vovó. Quando almoçávamos contei que pretendíamos ficar uma temporada na praia. Notei os olhos do "Velho". Brilhavam. Olhei para minha esposa e ela mesma fez o convite. Porque não vão conosco? A casa é grande e cabe todo mundo. Um sorriso nos lábios do "Velho" mostrava sua satisfação, mas como sempre tinha de se mostrar maniento – Melhor não. Vamos atrapalhar. Afinal você vai ficar sozinho com sua esposa.

Depois do almoço ficou tudo combinado. Quem leva o que, hora da saída, se precisava de uniforme, o de campo ou social. – "Velho"! Pelo amor de Deus. Vamos para praia. – Nunca se sabe meu amigo, podem aparecer alguns escoteiros e vamos nos apresentar como? De sunguinha? – Sem resposta ao "Velho". Sabia que ele gostava de ficar resmungando, mas sabia também que estava adorando o programa. Acho que ele precisava disso. Sempre me disse sua queda pelo mar.

                    Na quarta partimos. Tralha pequena. Própria de escoteiros. Uma viagem ótima. O "Velho" cantando. Uma voz de taquara rachada, mas ele estava alegre e muito. A chegada ele nem se deu o desplante de ajudar a descarregar. Tirou os sapatos e foi de encontro ao mar. Ficou ali por minutos a olhar o horizonte, as gaivotas e o som imperdível do mar aos ouvidos de um mateiro. Os primeiros dias foram de descobertas. Nem sempre conhecemos as pessoas. Podemos conviver por anos, mas só quando estamos juntos é que podemos analisar com precisão o que somos. O "Velho" e a Vovó eram companhias das melhores.

                     O "Velho" ficava o dia inteiro na praia. A casa ficava a menos de cem metros e se não ficasse de olho ele iria sozinho. De manhã tomava café que a Vovó fazia, pegava a cadeira de praia e lá ia cantando o Rata-plã. Nos primeiros dias falamos pouco de escotismo. Contamos “causos” lembranças escondidas na mente e que estavam prontas para serem narradas aos amigos do peito. Os dias foram passando. De manhã à noite, o "Velho" não saia da praia. Eu também gostava. Íamos lado a lado pisando na areia molhada e andávamos quilômetros. Descobri um novo "Velho". Mais novo. Mais atual, e não aquele doente do passado.

                     Uma tarde, o sol se pondo, o "Velho" olhando para o mar disse baixinho – Lembra-se do Justin? Aquele americano que juntos fomos ao vale da Morte e o Francês Pierre que foi mordido por uma cobra Píton? – Balancei a cabeça concordando. Vendo este “marzão” me lembrei de quando fizemos uma bela de uma aventura na ilha de Hornos, ou melhor, rodeando o Cabo Horn, na terra do fogo. Um dia ele apareceu no Grupo Escoteiro. Claro, foi um susto. Tinha mais de oito anos que não o via. Eu já tinha casado com a Vovó e minha filha recém-nascida. Trabalhava muito em meu escritório de engenharia. Não tinha mais tempo para essas aventuras que amava e muito.

                    Justin me abraçou efusivamente. – Meu amigo, você aqui no Brasil?  Foi uma alegria. Todos no grupo se espantaram. Apresentei Justin. Ele não falava português. Arranhou um espanhol e rimos muito. À noite fomos a um barzinho e ficamos lá por muito tempo lembrando nossas aventuras. Tinha convidados vários chefes, mas somente o Rael aceitou ir. Os demais se desculparam. Já tinham compromissos. Rael era chefe de tropa. Solteiro ainda, mas um perfeito cavalheiro. Professor de ciências em um colégio na cidade. Escoteiro desde menino. Um conhecimento enorme de tudo que se pode pensar em escotismo. Rael se encantou com as histórias que contávamos.

                     Justin não se fez de rogado. Olhe, vim com meu pai. Veio a serviço. Como sabem é diplomata e deve ficar aqui uns meses. Eu não. Pretendo voltar logo. Abrí um escritório de acessória em viagens aventureiras e não posso ficar muito tempo. Sabendo que poderia encontrá-lo não perdi o convite de meu pai. Meu motivo principal meu amigo é que estou planejando uma atividade de arromba. Acho que já devem ter lido sobre a lenda da embarcação-fantasma Holandês Voador. Não? Bem vou resumir para não tomar muito tempo.   

                          A lenda da embarcação-fantasma Holandês Voador é muito antiga e temida como sinal de falta de sorte e possui diversas versões. A mais corrente é do século XVII e narra que o capitão do navio se chamava Bernard Fokke, o qual, em certa ocasião, teria insistido a despeito dos protestos de sua tripulação, em atravessar o conhecido Estreito de Magalhães, na região do Cabo Horn, que vem a ser o ponto extremo sul do continente americano.

                          Ora, a região, desde sua primeira travessia, realizada pelo navegador português Fernão de Magalhães, é famosa por seu clima instável e suas geleiras, os quais tornam a navegação no local extremamente perigosa. Ainda assim, Fokke conduziu seu navio pelo estreito, com suas funestas conseqüências, das quais ele teria escapado, ao que parece, fazendo um pacto com o Diabo, em uma aposta em um jogo de dados que o capitão venceu, utilizando dados viciados.
                            Desde então, o navio e seu capitão teriam sido amaldiçoados, condenados a navegar perpetuamente e causando o naufrágio de outras embarcações que porventura o avistassem, colocando-as dentro de garrafas, segundo a lenda.
                            O navio foi visto pela última vez em 1632 no Triângulo das Bermudas comandado pelo seu capitão fantasma Amos Dutchman. O marujo disse que o capitão tinha a aparência de um rosto de peixe num corpo de homem, assim como seus tripulantes. Logo após contar esse relato, o navegador morreu. Uns dizem que foi para o reino dos mortos; outros, que hoje navega com Dutchman no Holandês.

                           Não sei se sabem, mas o Cabo Horn é o ponto mais ao sul da América do Sul e pertence ao Chile, suas coordenadas são 55° 59′ 00″ S, 67° 16′ 00″ O, no final da Terra do Fogo, na ilha de Hornos. Ele é ainda o limite norte do Estreito de Drake, entre a América e a Antártida. É também o divisor dos oceanos Pacífico e Atlântico. Os outros pontos extremos da América do Sul são: ao norte a Punta Gallinas, na Colômbia, ao leste a Ponta do Seixas, no Brasil, e a oeste aPunta Pariñas, no Peru.
O clima na região geralmente é muito frio, com temperaturas médias de 5 °C. Os ventos são de 30 km/h em média, com picos comuns de 100 km/h. As condições locais são muito rudes, principalmente no inverno.

                           Tenho lido muito sobre isso. Até do ultimo navio, um galeão inglês, que dizem abarrotados de prata afundou próximo ao Cabo Horn em 1820, bem junto à ilha de Hornos. Não precisam rir. Não tem tesouro nenhum, eu sei disso. Mas dizem que é o local mais inóspito da terra. Poucos conseguem sobreviver lá. Mas muitos que lá vão, juram de “Pé junto” ter visto a embarcação-fantasma navegando sem rumo, com o Capitão Bernard Fokke ao leme, dando gargalhadas.

                           Claro, eu sei que é lenda. Mas adoro uma lenda. Poucos conseguiram ficar mais de cinco dias na ilha. Um ninho de cobras venenosas, escorpiões amarelos e a noite a temperatura desce até os dez graus negativos na época de calor. E se conseguirmos ir, fazer o caminho de Drake, ficar cinco dias, seremos os primeiros do movimento escoteiro que conseguiram realizar essa bela aventura. Justin falava entusiasmado. Vi que Rael tinha os olhos brilhantes. Sempre quando escoteiro fazia mil e uma estripulias com sua patrulha.

                          Lembro que uma vez a mãe dele procurou-me perguntando onde eles tinham ido acampar. Não sabia. Não me disseram nada. Nunca isso aconteceu. Estava me lembrando de um fato. Sua patrulha tinha pedido para fazer uma jornada de bicicleta até Monte Alegre. Não disse não e nem sim. Vamos ver na Corte de Honra e ver o que ela diz. A corte foi contra. Achei que nossos monitores foram duros e não deviam ter vetado. Notei em Rael uma decepção. Agora tinha certeza que ele e a patrulha já deviam estar em Monte Alegre.

                          Não disse nada. Falei com sua mãe que não se preocupasse. Estavam em Monte Alegre. Eu acreditava que no domingo no mais tardar a noitinha eles estariam de volta. Dito e feito. Chegaram rindo da aventura. Eu os esperava na sede. Quando me viram um enorme susto. Conversamos muito. A patrulha ficou seis meses suspensa para atividades sem chefia. Acho que aprenderam a lição.

                          Notei que os olhos do "Velho" estavam se fechando. Ainda era cedo. Menos de meia noite. Mas “cutuquei” o "Velho" e o convidei para irmos dormir. Ele nem disse nada, saiu tropeçando e sumiu no seu quarto fechando a porta devagar. Minha esposa já tinha se recolhido. Fui para a varanda. Uma bela vista do mar. Sem lua. Mas as ondas batendo na praia me davam uma sensação de alegria e calma. Também adorava o mar. Pensava comigo que quando me aposentasse iria morar em uma cidade beira mar.


O "Velho" Escoteiro e o segredo da ilha misteriosa – Fasc. 71

Por entre as frias brumas de agosto,
Apareces carregando tua carga funesta!
Imponente!...Em silêncio... Tão morto! 
Pelos mares - à deriva, navegas... 

Acorrentados! Seguem meus sonhos contigo, 
Encerrados lá no fundo do porão!
E riem como loucos um desvairado riso,
E perdidos pelas noites vão!


Estás condenado pelos mares a vagar! 
E nas noites sombrias, sem estrelas!...Tão frias! 
Navegas à deriva, sem nunca parar!

O bramir da tempestade meus gemidos sepulta!
E enquanto as ondas se elevam com fúria!
Navegas perdido, nas minhas loucuras!


As lendas, mitos e fábulas. São elas que nos transportam para os sonhos e aventuras fabulosas

                    O dia amanheceu cinzento. Mesmo assim o mormaço nos trazia uma sensação gostosa para dar nossa caminhada nas areias brancas do mar. Poucas pessoas àquela hora. Também nas outras horas, pois não eram férias escolares e poucos se arriscavam a passar uma temporada no litoral. Antes das onze da manhã, a chuva fina começou a cair. Voltamos para o chalé. Vovó e minha esposa estavam sentadas na varanda, ouvindo musicas que o "Velho" ouvia, mas não gostava. Make Me A Friend, uma coletânea de musicas cowtry que eu gostava muito, mas o "Velho" não.

                  Interessante que minha esposa não tinha muitas amigas. Quase oito anos de casado e conheci poucas. Em seu trabalho dizia que lá tem colegas. Amigos é outra coisa. Ela e a Vovó se deram bem desde o primeiro dia. A Vovó acho eu, se dava bem com todos. Uma simpatia e uma maneira tão educada para conversar que não tinha quem não ficasse seu amigo na hora. As duas ficavam horas e horas conversando. Uma com mais de setenta anos. A outra com menos de trinta.

                   Eu e o "Velho" pegamos duas cadeiras de balanço, gostosas por sinal e também ficamos ali na varanda vendo a chuva miúda caindo no mar. Ao longe o tempo escuro pronunciava um dia inteiro assim. Tudo bem, não incomodávamos com isso. Ainda ficaríamos oito dias descansando. O "Velho" fingiu que dormia, mas a cadeira de balanço ia para frente e para trás. Interessante. A vida nos reserva surpresas que nunca imaginaríamos. Há dez anos, nem sabia o que era escotismo, e nem conhecia o "Velho". Dou risadas até hoje da primeira vez. Ele, sempre ele com seu estilo inconfundível que me conquistou. Também me colocou no escotismo, uma causa que abracei com orgulho.

                  O "Velho" abriu o olho e sorriu. E aí? Disse – quer ou não quer saber o final da minha aventura na ilha misteriosa? – também sorri. Claro "Velho". Você sabe que estou “faminto” de suas histórias. Vais continuar? – O "Velho" sorriu. Sabe disse – Saudades de uma boa cachimbada. Sempre o que é bom nos privam. Dizem que é para o nosso bem. Que bem? Quero cachimbar e não posso e é para o meu bem? Não disse nada. Tudo que devia ser dito já foi há tempos não só por mim como pelo seu medico e a Vovó.

                  Para lhe dizer a verdade, eu sabia que iria com Justin. – começou o "Velho" a sua narrativa. Justin encerrou dizendo que não ficaria barato. O preço devido ao aluguel de um pequeno barco que precisaríamos por seis dias e apetrechos necessários para uma viagem dessas iria ter um gasto enorme, mas que poderíamos economizar em outras. Justin disse que tinha experiência em navegação. Seu pai tinha um pequeno barco e ele cruzava todo litoral americano há anos. Se tudo desse certo nos encontraríamos no Chile, em Punta Arenas em 23 de setembro do próximo ano. Se eu pudesse confirmar até julho seria bom. Pierre o Escoteiro francês já tinha confirmado. Caso eu fosse, precisavam arrumar mais um. Quatro seriam o numero ideal para dividir as despesas.

                  Justin partiu na semana seguinte. Fizemos ótimos programas e fiz questão de ir com ele até o Pico do Itatiaia. Fomos de carro até o museu e de lá a pé até o pico. Mais de quatro horas de subida, mas uma vista maravilhosa. Rael estava conosco. Notei que ele sonhava com a viagem. Fomos de uniforme e Justin estava com o seu. Um orgulhoso Boy Scout of America. Dormimos lá aquela noite. Pela manhã de domingo regressamos. Rael me confessou que queria ir. Ele faria tudo e o mais difícil não seria o valor a ser gasto. Ele tinha umas economias (calculamos que sair do Brasil até o Chile, pagar a taxa do barco e outras despesas, pelo menos uns cinco mil dólares para cada um).

                  No mês seguinte Rael me disse que iria. Afinal seria a aventura de sua vida. Não podia perder. Conversei com a Vovó longamente. Ela nunca colocou empecilho em nada do que fiz. Sempre me incentivou. Vá meu "Velho". Você sabe que eu não sirvo para isso, mas é sua vida. Viva como ela deve ser vivida para você não se arrepender depois. Tive que fechar meu escritório. Só tinha uma moça como estagiaria e muito nova não daria conta do riscado. Coloquei uma placa na porta – “Escoteiro em viagem pelo mundo” volto em quinze dias. Meus clientes já me conheciam.

                  Partimos eu e Rael no dia 22 de setembro. Chegamos a Punta Arenas a noite. Eu e Justin já havíamos combinado o hotel. Ele estava lá com Pierre há uma semana. Ficamos até altas horas da noite combinando tudo. Ele já havia alugado um pequeno barco. Bem não tão pequeno. Uns 18 pés. Melhor uns seis metros por dois e meio. Uma cabine para três. Uma pequena cozinha. Como tinha experiência e alimentação de campo, em mesmo fiz uma lista e comprei tudo. Acondicionamos tudo no barco. Pierre e Rael ficaram amigos logo. Um sempre ajudando o outro.

                  Partimos à tarde do dia 23 de setembro. Um lindo dia. Um sol vermelho uma temperatura por volta de dezoito graus. Justin disse que traçou um itinerário aonde iríamos primeiro a Ushuaia, Canal de Beagle, Estreito de Magalhães e finalmente o Cabo Horn. Pelos seus cálculos chegaríamos em dois dias. Foram dias maravilhosos onde passamos por geleiras inimagináveis. Lindas. Não ficávamos próximo à costa. 

                  No dia seguinte finalmente chegamos ao Cabo Horn. Tivemos sorte com o mar que não estava revolto como é comum. Mas o clima não. Uma chuva fria e torrencial que alem dos ventos fortes nos obrigou a ficar a distancia por mais um dia ancorados. Dizem que lá por estar situado no estreito de Drake na Terra do Fogo, o Cabo Horn é o ponto mais austral do mundo. Justin era um excelente navegador. Em hora nenhuma nos colocou em perigo. Para dizer a verdade formamos uma patrulha ideal. Todos se ajudando e descansando em escalas de seis horas.

                 No terceiro dia a chuva diminuiu e o vento não passava de quarenta quilômetros por hora. Isso nos garantiria um desembarque perfeito. Contornamos a ilhar e atrás de uns rochedos dava para jogar ancora e com um barquinho pequeno chegar a terra. Pierre nos contou que quando o vento passa de cento e vinte quilômetros hora a adrenalina de algum navegador de outro século que experimentou passar por lá, chacoalha-se tudo, seu estômago acompanha o movimento e pouco resistem.

                Hoje eu sei que no Monumento Cabo Horn, tem uma placa de metal com o formato de um albatroz, construído em 1992, uma homenagem à memória de muitos homens que desbravaram a região e morreram lutando contra a forte correnteza é uma certeza de uma viagem feliz e perfeita. Agora tem um lance de escadas o que não tivemos na época. Quando o vento forte vindo da Patagônia sopra, é difícil manter o equilíbrio. Ficamos perplexos com a paisagem. Bela e exuberante. Era uma sensação magnífica. A de desbravar uma das extremidades mais almejadas do mundo.

                Nosso plano era desbravar a ilha. Ficar ali por cinco dias. Dormir sempre no barco. Justin conseguiu manobrar o barco bem escondido, de modo que barcos ou navios que passassem não nos avistariam. Assim poderíamos deixar o barco bem ancorado e explorar a lha a vontade. Cada um imagina o que pode ser considerado como o fim do mundo. Pensa-se um lugar isolado, cenário inóspito, horizonte vazio, e agora eu não via assim. Sabia que era o ponto de encontro entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Nada a ver com a lenda de que era o último pedaço de terra habitado no extremo sul antes de se chegara antártica.

                 Com a construção do canal do Panamá, que se iniciou em 1880 e só terminou em 1914 a rota dos navios se alteraram. Antes a rota alternativa era contornar o Cabo Horn. Agora poucas embarcações passavam por ali. Com seus 81 quilômetros o canal do Panamá era perfeito para os encontros entre o Pacífico e o Atlântico. Durante três dias passávamos o dia em terra voltando à tarde para o nosso barco. Só um dia avistamos um barco turístico que passou a mais de dez quilômetros da ilha.

                 Cada dia um espetáculo a parte. A dança dos golfinhos, dos tubarões e de uma enorme baleia azul que se deliciou a dar duas voltas na ilha. A vegetação era rasteira e para dizer a verdade só vimos uma pequena cobra, que tentei identificar, mas a duvida se manteve. Poderia ser um pequeno coral, mas sabia que as corais eram sempre enganadoras. No Brasil a chamamos de falsas corais. Passamos ao largo. Não pretendíamos matar nenhuma. Estávamos em seu habitat. Ela tinha todo o direito na ilha. Os pássaros eram outro espetáculo a parte.

                   No quarto dia acabou nossa tranqüilidade. Um barco de uns cem pés aportou na ponta da ilha. A uns dois quilômetros onde estava nosso barco. Ficou ali toda a manhã. Com o binóculo militar do Pierre vimos muitos homens armados no convés. Às duas da tarde em um pequeno escaler de três bancadas percorreram a distancia do barco até a ilha. Aportaram em outra extremidade. Vimos que varias caixas foram descarregadas. Não vimos onde as levaram. Fizeram bem umas oito viagens. Todas carregadas com as caixas.

                  Pararam a noite e pela manhã continuaram. Para dizer a verdade acredito que mais de sessenta caixas. Por fim partiram. Na noite anterior resolvemos dormir na praia. Sobre a areia. Um frio de rachar, mas achamos que se fossemos para nosso barco poderíamos ser vistos. Ainda bem que a temperatura não baixou os seis graus. Achei que não ia agüentar e pela manhã quando o sol apareceu rimos. Quando eles se foram rimos mais. Rael achou que devíamos saber que caixas eram aquelas. Dólares? Ouro? O que seria?

                 Custamos a encontrar uma pequena abertura na encosta sul da ilha. Pequena mesmo. Bem escondida. Se não fossemos escoteiros e tivéssemos bons conhecimentos de pistas jamais encontraríamos. Rael era bamba. Pegadas, folhas amassadas, enfim uma infinidade de pistas que só ele mesmo para descobrir. Mais de cem degraus em pedra bruta nos levou a uma gruta enorme. Um pequeno riacho passava de norte para sul. Nem sinal das caixas. Procuramos por hora. Já estava desistindo quando Pierre descobriu uma pequena pedra que levava a outra abertura.

                   Lá estavam as caixas. Tinha mais. Não eram somente as que eles trouxeram nestes dois dias. Fiquei com medo de abrir. Justin não. Ele e Rael abriram uma. Uma enorme surpresa. Não eram dólares nem ouro. Armas. Uma enorme quantidade de armas que nunca tínhamos visto. Algumas de aspectos tão sinistros que daria para imaginar um tiro com ela. Olhei para Pierre, olhamos uns aos outros. Saímos Dalí logo. Estávamos mexendo com fogo. Correndo um grande perigo. Saímos da ilha, pegamos nosso barco e partimos. Era para ficar mais dois dias. Abreviamos. Chegamos a Punta Arenas dois dias depois. Uma forte tormenta nos pegou no caminho. Se não fosse Justin acho que teríamos soçobrado.

                    Nem bem chegamos Justin telefonou ao seu pai. Ele mandou que nos dirigíssemos a Santiago do Chile e procurássemos a embaixada americana. Eles já nos esperavam. Ficamos horas explicando. Pierre e Rael eram bons em mapas e croquis. Uma unidade da marinha americana partiu para a ilha. Não fomos. Eu e Rael voltamos para casa desta vez a bordo de um jato da Força Aérea Americana. Despedi de Justin, de Pierre. Lagrimas nos olhos. Mais uma grande aventura.

                   Dois meses depois, no Grupo Escoteiro recebemos a visita de um cônsul americano acompanhado de autoridades brasileiras. Mais precisamente um brigadeiro da FAB. Na frente de todo o grupo, deram a mim e ao Rael uma medalha de agradecimento. Junto uma águia feita de prata, com a bandeira americana. Bem éramos brasileiros, mas se estavam nos agradecendo tudo bem. Justin nos telefonou um mês depois. Uma grande quadrilha de contrabandistas de armas. Faziam parte até um general e cincos oficiais do exército americano. A quadrilha era chefiada por um europeu.

                   Disse também que as armas eram para um país africano e se fossem entregues uma enorme carnificina iria acontecer. Seu pai não quis dar conhecimento à imprensa de quem tinha descoberto tudo. Para nos salvaguar. Poderíamos ter represálias ou vingança. Não se sabe. Pela sua voz vi que havia gostado da aventura. Ele até deu um nome a aventura que fizemos O Segredo da Ilha Misteriosa. Não avistamos o Capitão Bernard Fokke ao leme de seu navio fantasma. Nem descobrimos nenhum tesouro, mas tínhamos encontrado a ilha mais misteriosa e linda que já tinha visto.

                    Hoje sei que turistas estão a visitar a ilha diversas vezes ao ano. Tudo foi melhorado. Navio de grande porte de volta da antartida passam por lá. Contam histórias aos passageiros que se assustam, mas ninguém acredita. Gostaria de ter visto a embarcação fantasma Holandês voador. Não vi. Mas vi golfinhos, tubarões, balelas azuis, milhares de peixes nos arrecifes, um mar maravilhoso, grandes geleiras formando incríveis icebergs. Eu sabia que tudo era uma lenda, mas que lenda maravilhosa.

                   Passaram-se anos até que vi Justin de novo. Em um acampamento que fiz com uma patrulha de monitores do grupo em Papricantis Neandertalis. Uma pequena cidadela entre o Chile e o Brasil. Pesquisadores, cientistas, parapsicólogos e curiosos dizem que lá foram encontrados resquícios históricos jamais imaginados. Ninguém dizia que resquícios eram esses. Mas a patrulha sênior quando contei logo gritaram – Vamos lá! Era sempre assim. Como eu também se tornaram aventureiros. Não foi surpresa encontrar lá acampado Justin e Pierre. Velhos amigos se encontrando, mas esta é outra historia.

                   O sol começou a brilhar no horizonte. O "Velho" parou sua narração. Vamos? Disse – Vamos! Eu disse. E lá fomos nós para a praia, onde centenas de gaivotas nos acompanhavam com seu barulho infernal. Ao longe avistamos o porquê. Pescadores estavam tirando a rede do mar e elas estavam abarrotadas de peixes. Olhei para o "Velho". Ele olhava a frente. Seus olhos brilhavam. Oitenta e seis anos. Uma vida cheia de aventuras. Historias mil para contar. É "Velho". Eu te amo. Você entrou na minha vida e nela irá permanecer para sempre.

O MAR QUE TIVE POR LEMBRANÇA

No mar, balança o óleo e não se acalma!
Agonizo n’água!...Sou ave pequena!
O negror do óleo devora a minha alma,
Meus ossos!...Até as minhas penas...

Inda arrisco um curto esvoaçar...
Um vôo breve... Ó expectativa vencida!
E caio n’água, no negror do mar!
Do óleo que desfez - em mim -, a vida...

Enegrecido o bico... Tão grande é a dor!
Agonias chilreando pelos ares!
Foi o eco que o negror do óleo deixou...

Engolfa o Golfo o negro óleo que avança! 
E engolfando todas as aves!
Engolfa o mar que tive por lembrança...


Lusos poemas

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

2012 - UM NOVO ANO, UM NOVO COMEÇO. ATÉ ONDE IR?



2012 - Um novo ano, um novo começo. Até onde ir?

Bendito quem inventou o belo truque do calendário, pois o bom da segunda-feira, do dia 1º do mês e de cada ano novo é que nos dão a impressão de que a vida não continua, mas apenas recomeça...

                  Não faz tanto tempo assim que comecei minha saga na internet. Fico pensando como o mundo da voltas. Usar uma internet para falar com amigos espalhados por todos os lugares? Nunca pensei isso. Mas um dia aconteceu. Claro já escrevia muito do que penso e do que aprendi no escotismo, mas em maquinas simples de datilografia. Um dia achei que poderia começar. Abruptamente fiz um blog. Acho que foi em março de 2010, parece que foi ontem! Risos.

                  Até hoje me pergunto se valeu à pena. A resposta minha é sim, a dos meus amigos e leitores não sei. A cada dia procuro ver através da minha pequena visão se este foi o Caminho para o Sucesso. Se isto significa ou significou alguma coisa. Claro, todos sabem que hoje não participo mais diretamente em grupos escoteiros, a saúde me reservou surpresas. Talvez este tenha sido um dos motivos dos blogs.

                 No meu primeiro blog tentei criar um estilo. Meu estilo. Amo a UEB nasci com ela no movimento, mas nunca concordei com tudo que fizeram (e fazem). Amigos meus dizem que não, mas acho que nossos líderes não são tão simpáticos e se agarram a função como se estas lhes pertencessem. (risos, só eu penso assim) É como se morassem em um castelo onde determinam o valor dos impostos e quem não pagar será expulso da terra sem nenhum direito (risos)

                Em troca dão pequenas sugestões sem ver as necessidades dos seus súditos. Não consultam a burguesia. Para comentar o que pensava criei o Blogspot do chefe Osvaldo em março de 2010. Rabisquei outros artigos, pois sabia que bater só numa tecla não seria bem recebido ou compreendido pelos futuros leitores. Confirmei que esta não era uma preocupação de todos os escotistas. Postei um pouco dos meus conhecimentos técnicos na condução de seções. Senti que a maioria se interessava por estes artigos e não os outros.

                Não pretendia ensinar nós, orientação ou sinais de pistas. Isto se encontra em centenas de blogs existentes e nos livros da UEB. A idéia era outra. Quatro meses depois o blog se deslanchou. Publicava e publico um artigo a cada vinte dias. Gostava e gosto do blog. Mas sempre tive uma queda por contar historias, pois passei por situações sui-generis na minha vida escoteira. (muitos acham que as historias foram vividas por mim, engano)

Porque não fazer outro blog? Como já tinha diversos fascículos do "Velho" Escoteiro prontos desde a década de 70, surgiu então o blog do "Velho" Escoteiro e suas historias. No principio foi muito fácil. Tinha mais de 40 fascículos escritos. Ao escrever os fascículos me baseei em um antigo Escotista, já falecido. Depois adaptei outras situações me lembrando de uma das melhores coleções escoteiras já escritas. “Opiniões do Delta”. O blog foi criado em setembro de 2010. Neste coloco um fascículo novo a cada 30 dias.
              
                  O blog não deslanchou, mas caminha com suas próprias pernas. Já tem seus seguidores. Estava na hora de fazer o que gosto. Contos Escoteiros. Escrevi em uma semana quatro contos. Montei o blog e em um só dia publiquei as quatro historias. Isto em fevereiro de 2011. Não fez o sucesso esperado no início. Vi que a maioria dos leitores são ávidos em temas técnicos. Por isso o motivo do sucesso do blogspot do chefe Osvaldo. Contos Escoteiros está crescendo. Já está em segundo lugar de freqüência de todos blogs que publico.

                   Três blogs. O tempo já não estava tão fácil de administrar. Como adoro escrever contos, sempre tenho três ou quatro prontos à espera de publicação. A cada vinte dias posto um lá. Mas não estava satisfeito. E se saísse da linha escoteira? Poderia escrever contos não escoteiros? Pelas barbas do profeta! Não deu outra. Escrevi dois contos em uma semana. O blog nasceu. Era uma vez um Conto Fantástico foi publicado em março de 2011. Publico um conto novo a cada trinta dias. Está indo. De vez em quando aumenta os leitores.

                  Gosto dele. É diferente. Mas estava difícil de manter todos eles com artigos e contos uma vez por mês. Se isso não acontece sei que o blog é abandonado. Agora eram quatro. Ainda bem que sou aposentado, mas não é fácil escrever todos os dias. E pensei em outro. Cinco? Mas este último seria mais fácil. Já tinha em meu poder diversas passagens da minha vida em situações divertidas. Porque não fazer um blog? Fiz. Não faço propaganda dele. Vai lá quem quer. Muitos não irão se interessar. Saudade não tem Idade recebe no máximo quinze visitas por mês. Acho que por curiosidade.

                    Não gostava do Facebook. Mas aprendi a gostar. Oferece mais oportunidades de conversar com amigos escoteiros que o Orkut. Aprendi e criei um grupo. Comecei a postar no grupo. Primeiro artigos diversos e depois pequenas adaptações de artigos e historias dos blogs. Diversos amigos também postam temas interessantes. Sempre tem algum novo a cada dia. Como os temas são de duas ou três paginas não posso publicar no Orkut. Ele não aceita. À medida que publicava outro artigo, os anteriores ficavam escondidos no grupo do Facebook.

                     E lá estava eu novamente. Em novembro de 2011 o blog ficou pronto. Alguns se interessaram em conhecer principalmente amigos do Orkut. Agora eram seis. SEIS blogs!!! Um trabalhão. Ainda bem que escrevo um artigo simples ou um conto escoteiro em poucas horas, mas tem outros que ficam guardados nos “meus arquivos” esperando surgir à idéia final. Nem sempre surgem. Para dizer a verdade tenho mais de dez lá esperando uma luz, um “eureka”- risos.                    

                   Uma vez, li uma frase do Chaplin que dizia “Gosto dos meu erros, não quero prescindir da liberdade deliciosa de me enganar”. Acredito que cada um saiba o que se aproveita ou não dos seus erros particulares, mas talvez a liberdade e a delícia de nos enganar, esteja exatamente naquele pequeno prazer de nos sentir certos sobre as decisões. Assim vou levando a vida e meus blogs. Claro, gostaria de ter inúmeros leitores. O número de leitores somando todos eles é razoável. Aproxima-se a quarenta visitas diárias. Só as cidades brasileiras que visitam o blog são aproximadamente de trezentos e noventa. Países aproximam-se de oitenta.

                    Ainda é pouco. Vejo blogs que dizem ter cem duzentas visitas por dia. Risos. Nunca alcançarei isso. Afinal não temos tantos escotistas e escoteiros assim que se interessam pelos meus escritos. Acredito que não vou desistir. Não sei quanto tempo poderei continuar a postar. A vida nos reserva surpresas e elas devem ser bem recebidas. De uma maneira ou de outra fui honesto nas minhas publicações. Sei que não terei aplausos dos membros diretores do nosso escotismo nacional. Paciência. Mas que eles saibam que desejo que acertem no seu caminho para o sucesso.

                    Se contribui com alguma coisa para uma abertura democrática no escotismo, fico satisfeito. Se minhas historias serviram para divertir quem as leu, mais satisfeito fico ainda. Talvez eu seja como aquele que por fora está desistindo. Por dentro, no entanto sempre encontro uma desculpa para recomeçar. Tenho o escotismo dentro de mim, nunca mudei minha maneira de pensar, mas adaptei muitas coisas que hoje já aceito melhor.

                     Acredito até que o escotismo poderá ser grande, forte e unido dentro dos seus padrões que hoje são definidos. Quem leu meus artigos sabe o que penso. Mas torço por uma maior aproximação das diversas organizações escoteiras em nosso país do mais alto escalão ao mais humilde. Não se faz escotismo só com dirigentes, se faz com chefes abnegados. Eles sim deveriam receber honrarias pelo seu trabalho. Mas como disse em um dos meus blogs, “Chega de caçenga, que os entretantos estão chegando”

Que o ano de 2012 seja um novo começo para o escotismo. Que todos que estão agora de lados opostos, possam sentar a mesa e confraternizar. Que não haja represálias e que o nome escotismo que Baden Powell nos trouxe, sejam de todos e não de um somente. Ninguém é dono de uma idéia. BP não deu direito alienável a ninguém. Assim começa uma democracia, aceitando que os outros possam viver felizes dentro dos princípios que o escotismo oferece.

Sempre Alerta para todos

Osvaldo um escoteiro

Apesar da força poder proteger em casos de emergência, apenas a justiça, decência, consideração e cooperação conseguem finalmente levar os homens para a aurora da paz eterna.


BLOGSPOT DO CHEFE OSVALDO – http://vado1941.blogspot.com
CONTOS ESCOTEIROS                     -  http://historiasescoteiras.blogspot.com
O "Velho" E SUAS HISTÓRIAS –       http://chefeosvaldo.blogspot.com
ESCOTISMO E SUAS HISTORIAS  -  http://escotismoesuashistorias.blogspot.com
CONTOS FANTASTICOS                     http://contosdoosvaldo.blogspot.com
SAUDADE NÃO TEM IDADE              - http://chefe-osvaldo.blogspot.com

SEM ÓDIOS E SEM RANCORES, SERÁ QUE ENCONTRAREI ESSA TAL FELICIDADE?


Sem ódios e sem rancores, será que encontrarei essa tal felicidade? Fasc. 69

Quem é você? Depende de três fatores. O que você herdou, o que o ambiente fez de você, e o que sua livre escolha fez desse ambiente e desta herança.

A todos os escotistas que trazem no pensamento a ação do amor e da fraternidade
               
                     Foi um dia atípico. Meus pensamentos na fabrica me levavam para longe do que estava fazendo. Isto não era bom. Eu sabia que devíamos separar o que fazemos aqui do que somos lá fora. Todos sabem disto. Mas não conseguia voltar à mente para a rotina da fabrica. Ruim isso. Lembrava-me do primeiro dia que conheci o "Velho". Muitos anos se passaram. Acho que mais de oito. Eu também estava envelhecendo. Será que algum dia serei como ele?

              O "Velho" cada dia que passava ficava mais distante. Ainda estava lúcido, mas de vez em quando se calava, olhava para frente como se nada mais existisse. Ficava assim por minutos absorto e muitas vezes horas e horas. 88 anos. Muitos anos. Mas tinha um semblante ainda alegre, seus olhos brilhavam quando podia falar de escotismo. Fora sua vida. Vivera para ele e a Vovó. Eu não sabia o que seria de mim se o perdesse. Se não ouvisse mais sua voz, seus conselhos. Sabia que esse dia iria chegar, mas tinha medo, muito medo. Eu amava o "Velho". Acho que até mais que o meu pai – Que Deus o tenha!

              Platão dizia que devemos temer a velhice, porque ela nunca vem só. Bengalas são provas de idade e não de prudência. Será? Ou então o que dizia Oscar Wilde que os velhos acreditam em tudo, as pessoa de meia idade suspeitam de tudo e os jovens sabem de tudo. Risos. Não acredito nisso, acredito mais nas ultimas palavras de Platão que devemos aprender durante toda a vida, sem imaginar que a sabedoria vem com a velhice.

             No domingo de natal fui a casa dele. Senti seu olhar distante. Desta vez fui acompanhado de minha esposa. Ele não a reconheceu. Olhou-me com aquele olhar enigmático e perguntou – Ainda está vivo? Risos. Devia ter dito "Velho" eu te amo! Não passei com ele a virada do ano. Não deu. Desta vez acompanhei minha esposa a casa dos pais dela. Não dava para escapulir. Sabia que o "Velho" iria sentir a minha falta, muita é claro. Eu era o único que lhe fazia companhia em todas as horas fora a Vovó é claro, sua companheira inseparável de uma vida.

              No grupo fizeram uma grande confraternização. Foi uma semana antes do natal. Cada um levou seu “bornal” com bolos, salgados e refrigerantes. Uma festa e tanto. Mais de trezentos participantes entre membros do grupo e seus parentes. O "Velho" não foi. Vovó disse que ele não estava bem. Passou o dia inteiro em seu quarto. Que ano novo o esperava? Não sabia. Acreditava que iríamos ainda conversar muito. E olhe nunca lhe dei um abraço e poucas vezes um aperto de mão. Um beijo no rosto? Nunca. Achava que ele não iria gostar. Mas que gostaria isso sim gostaria.

              Foi uma linda tarde. Cada tropa se esmerou no pequeno teatro montado no pátio. Cada uma fez uma apresentação teatral e gostei demais das lobinhas da alcatéia Waiganga. Fizeram com perfeição a historia quase completa da Embriaguês da Primavera. Sensacional. Perfeito! Mas a tropa de guias não deixou a desejar. Fizeram uma representação da canção da despedida totalmente diferente. Cada guia corria até os escoteiros, sorria e cantava alto, as demais em coro. E assim foram de patrulha em patrulha. Lindo! Marcou.

              No final uma delegação de monitores e monitoras, alguns pioneiros e escotistas em companhia do Diretor Técnico foram até a casa do "Velho" com a Vovó. O "Velho" desceu as escadas com alegria. Claudicando mas abraçou a cada um. Um santo remédio para o "Velho". Ele adora visitas. Todos se foram. Eu fiquei. O "Velho" me olhou e disse – O que faz aqui? Porque não foi passear com sua esposa? Menino é só um "Velho". Vá procurar melhores companhias. Ri por dentro. Sabia que no fundo ele adorava que eu estivesse ali.

              Depois que todos se foram, o "Velho" se dirigiu a sua coleção de discos LPs. Mexeu, mexeu e retirou de lá um LP de Tchaikvsky, ou melhor, Piotr Ilitch Tchaikovsky. De São Petersburgo na Rússia onde nasceu em 06 de novembro de 1983. Era considerado o maior compositor romântico em seu pais.  Embora não faça parte do chamado Grupo dos Cinco (Mussorgsky, César Cui, Rimsky-Korsakov, Balakirev e Borodin) compositores nacionalistas daquele país, sua música se tornou conhecida e admirada por seu caráter distintamente russo, bem como por suas ricas harmonias e vivas melodias.

             Suas obras, no entanto, foram muito mais ocidentalizadas do que aquelas de seus compatriotas, uma vez que ele utilizava elementos internacionais ao lado de melodias populares nacionalistas russas. Tchaikovsky, assim como Mozart, é um dos poucos compositores aclamados que se sentia igualmente confortável escrevendo óperas, sinfonias, concertos e obras para piano. Em poucos segundos estávamos ouvindo  Sinfonia Manfredo, si menor, Op. 58. Baseada no poema dramático Manfredo, de (Lorde Byron). É, o "Velho". Sabe escolher. Ficamos minutos em silencio. Nem nossa respiração ouvíamos.

              Não sei quanto tempo ficamos ali. Mas como sempre a Vovó apareceu com seu lanche maravilhoso da tarde. Desta vez simples. Um queijo curado, fatias de goiabada, pães de queijo quentinho, pãozinho Frances com margarina, rosquinhas deliciosas, brevidades e leite, suco e um café fumegante. É a Vovó. Sempre se esmerando a tratar bem das visitas. Ficamos ali por longo tempo saboreando as delicias da Vovó.

               - Quanto ódio, quanto rancor disse o "Velho". Não entendi. Que ódio "Velho"? Ele me olhou de soslaio e não me deu resposta. Passou alguns minutos de olhos semi-serrados. – Porque não dar as mãos? Porque não dizer que podemos ser amigos? Não há perdão? – Não estava entendendo o "Velho". Um processo judicial antigo que se arrasta há anos, disse. Criou magoas profundas. Expandiu para outros. Fizeram de um desentendimento algum que prejudicou a muitos. São coisas que aconteceram há muito tempo. Ninguem dá o braço a torcer e olhe este não é o escotismo que nós dois conhecemos.

                Fiquei pensativo. Não sabia de nenhum processo. Nunca tinha ouvido falar. Mas devia ser algum grande, enorme para o "Velho" se manifestar daquela maneira. – Veja bem continuou. (Falava baixinho, quase sussurrando), alguns se arvoraram em donos. – Donos de que "Velho"? Perguntei. Sem resposta. – Veja bem, quantas palavras bonitas foram escritas em todos os sites onde participam milhares de escoteiros. Todos desejando boas festas, feliz ano novo, feliz natal. Abraços, sorrisos canções.

                - Mas não vi nenhum dirigente nacional dizendo – Nós da liderança desejamos a vocês um bom natal, um prospero ano novo. Nenhum deles apareceu. Por quê? Se sentem superiores? Devem ser procurados? Nunca irão se aproximar dos demais inferiores? – O "Velho" se calou e fechou os olhos. Parecia dormir. Abriu os olhos e continuou – Difícil distinguir se é ódio, se é rancor, se é prepotência ou sei lá o que. Ninguém quer dar a mão primeiro. O coração fechado. Lei? Ora a lei. Amigos de todos é só para os outros, irmão dos demais é só entre eles.  

                  Fiquei ali imaginando e pensando nas palavras do "Velho". Mas ele continuou enfático - Vocês que estamos começando agora, não percebem isso. Tem uma mente limpa, amiga, simpática, e suas preocupações são outra. Pensei comigo, acho que o "Velho" está certo. Criou-se uma casta, uma tradição entre eles, quase hereditário. Fazem as leis, as normas tudo sobre o prisma que consideram democráticas, mas no fundo não são. São estatutos pré fabricados. Dois ou três escrevem e a maioria aprova sem pensar que poucos opinaram. E vão aprovando aprovando.

                    Não existem consultas, nunca existiu. Uma meia dúzia sabe o que se passa e concorda. Quem discorda é defenestrado. – Veja você continuo o "Velho", alardearam uma escolha de quem quisesse se apresentar para a alta cúpula que enviasse um currículo. Passou uns meses e sabe quem foi o escolhido? O Vice-presidente da liderança anterior. Escolha? Risos. É para rir mesmo. A pessoa certa estava em casa. Lembro que a uns 10 ou 15 anos atrás, jornais de renome trouxeram na página de empregos, a procura de um alto executivo para a liderança nacional. Alguns meses depois foi escolhido alguém que já estava com eles. Para que o anuncio?

                     O "Velho" fechou os olhos. Não ouvi sua respiração. Esperei. Fiquei preocupado. Fui até ele, nada, seu pulmão parecia ter parado de funcionar. Medo enorme! Não "Velho", não faça isso comigo. Não agora. Ele abriu os olhos. Olhou-me e perguntou – O que houve?  Riu e me disse – Calma, ainda vamos ficar uns bons tempos juntos. Tenho que ver as mudanças que precisam ser feitas. Tem muitos prometendo. Não posso morrer antes. Soube de amigos que tem alguns tentando mudar, mas tirar o carrapato que agarrou nas partes íntimas é muito difícil. O "Velho" deu uma boa gargalhada.

                    Olhei no relógio, quinze para a meia noite. Mais um dia com o "Velho". Desta vez ele descarregou em mim suas agruras. Não sei se era verdade. Não tinha amigos na liderança. Não conhecia ninguém lá. Nunca fui a um Congresso, como todos os outros minha preocupação era outra. Vivia pelos jovens. Para mim o que importava. Mas será que o "Velho" não tinha um pouco de razão? Só posso afirmar uma coisa, nos dois sites importantes onde entro quase diariamente, neste natal e ano novo não vi nenhum deles se manifestando. Quem sabe se dirigiram de outra maneira e não fiquei sabendo.

                   Ora de ir. Pena, estava tocando na vitrola antiga do "Velho", o Conserto para piano n. 1 em si bemol. Sabia que a seguir seria o Quebra-nozes. Não dava mais para ouvir. Acho que foi em junho de 1893, que ele recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Cambridge. E em outubro do mesmo ano sua saúde se agrava profundamente. Dia 6 de Novembro de 1893 Tchaikovsky morreu aos 53 anos, em São Petersburgo.

                  Falar mais o que? Tchaikvsky? Dirigentes? Festas, ano novo? Claro, que 2012 seja o nosso ano. Ano que o escotismo possa provar para a nação que podemos mudar para melhor. É "Velho", você não pode me abandonar. Não agora. Sinto que sem você não serei mais o mesmo escoteiro de antes. Sei que a vida continua, mas preciso de você como o peixe precisa da água para viver. E lá fui eu andando pela rua deserta, sem chuva desta vez, sem carros buzinando, só uma lua redonda que nem um queijo no céu.
                               
Adeus Ano Velho!

O ano está indo embora
Com ele, sonhos se vão
Mas é chegada a hora
De pensar nos que virão...

Existem sonhos guardados
Bem no fundo do coração
Passa ano e são renovados
Estes jamais morrerão...

Ano Novo seja bem vindo!
Vou te recepcionar
Te esperarei sorrindo
Não vou deixar de sonhar...

Carol Carolina