Historias e estorias que não foram contadas

Historias e estorias que não foram contadas
uma foto, de um passado distante

domingo, 8 de abril de 2012

O Magnifico Milagre na Montanha da Águia azul. Fasc. 72


O Magnifico Milagre na Montanha da Águia azul. Fasc. 72

Uma vez que você tenha experimentado voar, você andará pela terra com seus olhos voltados para céu, pois lá você esteve e para lá você desejará voltar.

A todos os grupos escoteiros que fazem do escotismo, uma escola de formação de caráter e ética.
       
Um feriado sem graça. Abri a geladeira e fiz um lanche. Dei-me ao luxo de abrir uma cerveja. Minha esposa tinha saído. Era sempre assim nos feriados de meios de semana. Fiquei pensando na reunião marcada no Grupo Escoteiro à tarde com o Conselho da Tropa Sênior. Eles não queriam aceitar a Tropa de Guias junto com eles, renovar as patrulhas, quem sabe algumas com outro nome. Conviver com elas na mesma patrulha. A mesma coisa pensavam as guias. Enfim um tema que daria uma boa discussão. Pretendia ir. Afinal era assistente Sênior. Risos. Sei que estão pensando – Afinal você é insígnia Escoteira e Sênior e ainda é assistente?
      
Interessante mesmo. Nunca me preocupei com isso. Poderia sim ser o Chefe da tropa. Mas o efetivo era um amigão, estava na tropa a mais de onze anos. Agora a pouco foi que consegui terminar e receber a Insígnia Sênior. Esperei dar duas da tarde e fui a pé mesmo para o Grupo. Era perto. Menos de cinco quarteirões. Precisava caminhar. Pediram o uniforme caqui. Claro, adoro este uniforme e a calça curta me faz bem.
   
  Não foi agradável o Conselho da tropa Sênior. Eles estavam exaltados e as moças também. Depois de discussões intermináveis, resolveram que as tropas seriam unificadas, mas com liberdade na patrulha. Elas com as suas e eles também. Claro que não era fácil agir de outra maneira. A tropa de guias tinha duas patrulhas e os seniores três. Um caso inusitado. Cinco patrulhas em uma tropa.  Mas porque isso? Dificuldade na chefia de guias. Eram três inicialmente e agora só uma. Mesmo assim a atual pretendia fazer um MBA (Master Business Administration, ou melhor, Mestre em Administração de Negócios) e seria nos Estados Unidos.
    
O Diretor Técnico foi incisivo. Aceito mas a tropa terá que ter uma assistente feminina, caso contrario não seria possível fazer a unificação. Os chefes ficaram encarregados de convites a alguma pioneira ou mesmo a alguma mãe. Foi uma reunião extenuante. Começou às duas da tarde e só foi terminar às cinco e meia. Saí da sede e pensei – Porque não ir para a casa do "Velho" Escoteiro? Mais seis quarteirões e às seis da tarde em ponto subi os cinco degraus que dava a varanda da casa do "Velho".
     
Não sei se ele me esperava, mas o som de Vivaldi (Antônio Lucio Vivaldi – 1678/1741) Le quatro stagioni (as Quatro Estações) tocava suavemente na vitrola antiga do "Velho". Pensei em encontrá-lo a dormitar, pois era assim que ouvia seus prediletos, mas me enganei. Estava sentado com a Vovó, num tete a tete gostoso, que eu sempre admirei naquele casal. Juntos a mais de sessenta anos. Cumprimentei aos dois e o "Velho" me olhou de soslaio.
    
Não sei se interrompi alguma coisa, pois ao me verem pararam de conversar. Fiquei sem jeito. Apesar de mais de nove anos frequentando a casa do "Velho" sempre me sentia um estranho. Só uma vez subi no segundo andar quando o "Velho" passou mais de duas semanas recolhido. Pedi desculpas por interromper. Eles deram boas risadas. – Nada disso meu amigo ele disse, chegou na hora exata.
    
Interessante, pensava em comentar com o "Velho" o tema que vivi hoje na Tropa Sênior e ele me apareceu com outro. Bem diferente. Por esta eu não esperava. Nunca em tempo algum fiquei sabendo do passado do "Velho". Não sei por que nunca perguntei. Desde que o conheci vi que ele e a Vovó tinham uma química incrível. Seus olhares eram doces, e pareciam dizer um ao outro, eu te amo. Para sempre.
      
Agora sim, estava entrando na vida deles. Um sorria para o outro e ele dizia – Vovó, eu nunca esqueci. Ficou na minha memoria. Uma parte da minha vida que valeu toda a minha existência. – Sabe Escoteiro, a vida vale a pena ser vivida quando somos felizes. E quem não quer ser feliz é porque não viveu seus sonhos como eu e a Vovó vivemos. Casamos em outubro, em uma tarde linda que foi o dia mais feliz da minha vida. Casei com ela com meu uniforme. A igreja cheia de escoteiros, pois tinha muitos amigos. Demos uma pequena recepção no Clube Luzes e a meia noite partimos conforme tínhamos programado.

Claro já tínhamos preparado tudo. Vovó topou passar a lua de mel acampado na montanha do Falcão Azul. Eu conhecia bem o local. Uma maravilhosa cascata, uma água límpida que podíamos ver os peixes no fundo e uma gostosa brisa vinda das matas verdejantes do pico do Pastor. Seria uma lua de mel diferente. Não sei se alguém fez uma assim.

– Vovó sorria e olhava o "Velho" com seu estilo de contador de história. Ninguém foi contra – Ele continuou. Meus pais sabiam que eu adorava o escotismo e a Vovó era, foi e sempre será a minha companheira nas minhas aventuras mesmo não estando presente. Pegamos um taxi até a estação. O trem partiu às cinco da manhã. Chegamos a Saltitério as nove.  Eu conhecia o caminho.

Partimos não sem antes comprarmos mais algumas provisões, pois iriamos ficar lá quinze dias. Tinha dito para a Vovó que nossas refeições seriam completadas com as frutas e verduras que encontraríamos lá. Bananeiras, alguns pés de goiaba. Limão e peixes à vontade. Você sabe, Vovó é uma cozinheira de mão cheia. Foi uma subida e tanto. Eram mais de três da tarde quando avistamos o ninho da Águia Azul. Eu assim tinha apelidado o local.

Os primeiros dias foram para montagem do campo. Vovó era uma mateira de mão cheia. Claro, quando namorávamos e depois que nós ficamos noivos eu tinha ensinado a ela todos os truques de um bom “mateiro acampador”. Construímos um verdadeiro lar onde poderíamos ali viver muitos anos. Um Banheiro com WC perfeito. Trouxemos água por bambus até ele. Nossa cabana era de dar inveja. Uma cama casal, e forrada com capim colonião junto com folhas de bananeira.

Se chovesse poderíamos atravessar sem problema até nossa sala de visita/jantar, onde fizemos uma linda poltrona e uma mesa rústica com bambus. O que deu trabalho foi o forno, pois tive que andar bastante. Descobri um “barro branco” especial na subida da Lagoinha. Perfeito para o forno. Como nos divertimos. Não parávamos um só instante.

Excursionávamos pelas redondezas, banhos de cachoeira varias vezes ao dia, cantorias à noite e sonhar com as estrelas brilhantes no céu. Sabia localizar com facilidade a estrela Altair e Antares. Mas disse para Vovó uma noite – Olhe Vovó – Aquela será a nossa estrela. Toda vez que a ver, sabemos que ela é nossa. Fará parte da nossa vida para sempre! Era a estrela de Capella. Onde um dia disseram que a vida floresceu.

Tudo era maravilhoso. Incrível nossa lua de mel. Fazíamos amor na curva do rio, nas trilhas do Pastor, deitados na relva onde sempre ficávamos até de madrugada. Um dia fizemos amor debaixo de uma chuva torrencial. Uma experiência incrível. Não havia relógio, tempo, nenhum som a não ser o cantar dos pássaros, o som gostoso da cascata, o piar da coruja no carvalho, o farfalhar das árvores com o vento e o bater de asas dos beija flores que se esbaldavam nas flores silvestres.     

Vivíamos em plena felicidade. Uma alegria sem fim. Tínhamos Deus como nossa proteção. O perigo era quase nenhum.  Não me lembro bem, mas acho que foi no sexto dia que vi uma Águia Azul, enorme. Estava pousada em um galho de uma bela figueira, frondosa e notamos que ela vinha quase todos os dias. Sempre nos observando e olhe não tinha medo de nós. Várias vezes ao dia ela abria as asas e pensei que tinha mais de um metro de envergadura de uma ponta a outra.

No decimo terceiro dia aconteceu o acidente que marcou nossa lua de mel Escoteira e que nunca mais acho, haverá uma igual esta. Estamos abraçados no caminho do campo do Pastor e avistamos umas flores diferentes e não consegui identificar. A Vovó resolveu ir até lá e colher algumas. Ficamos ali por meia hora e no retorno não percebi um barranco íngreme a nossa direita. Escorreguei, a Vovó também. Caímos por mais de quarenta metros. O pior notei que tinha uma fratura exposta no pé. Bem junto ao tornozelo. Vovó não teve nada a não ser uns arranhões.

Sabia que não tínhamos condição de subir. Era íngreme e do jeito que estava só mesmo homens fortes para me tirar dali. Mas a Vovó não se entregou. – Você minha velha sempre foi uma grande companheira. Eu nunca deixei de usar minha faca Escoteira. Ela com a faca saiu e voltou com diversos galhos. Vovó era demais. Não sei como, conseguiu também metros e metros de cipó trepadeira. O melhor para amarras. Não foi rápida, mas conseguiu fazer uma pioneiria tipo biga, bem forte. Antes fez uma espécie de tala. Doeu muito. Era uma dor incrível.

Olhava para o "Velho" e a Vovó e eles sorriam um para o outro quando contavam esta incrível narrativa que eu desconhecia da vida deles. Foi a Vovó que continuou. – Não foi fácil fazer a biga. Mas era a minha única saída. Iria amarrar o "Velho" nela e arrastar ali naquela fenda na rocha, pois não sabia onde ia dar. Eu era magrinha, estava com dezoito anos, mas tinha força. Tinha mesmo. Tudo pronto com o "Velho" amarrado olhei para um lado, para o outro e vi a Águia azul pousada próximo a nós.

Parecia fazer sinais com a cabeça, abriu as asas e seguiu rumo sul. Foi o caminho que segui. Difícil à caminhada. Muito difícil. Arrastar o "Velho" não era fácil. Andei uns trezentos metros e vi a Águia de novo. Ela fazia seu sinal, levantou voo agora para noroeste. Lá fui eu no mesmo rumo. Mais duzentos metros. Lá estava novamente a Águia a fazer sinais. Eu não aguentava mais. O "Velho" gemia. Olhava para mim, sorria e gemia.

Sempre insistia para deixa-lo ali e procurar ajuda. Mas eu sabia que não era fácil. Sabia que a estrada estava a quilômetros dali. A noite chegou. Não tinha percorrido nem um quilômetro naquela fenda. Resolvemos dormir ali. A perna do "Velho" começou a inchar. Achei que iria chorar, mas o "Velho" começou a cantar a “Terra do Belo Olmeiro” uma canção que ele disse ter aprendido com escoteiros canadenses. Uma história linda, dos caçadores de pele dos grandes lagos a procura de peles de castores que não mais existiam. Acalmei-me. Dormi um pouco. Acordei de madrugada. Assustei, pois a Águia estava ali bem perto de nos a fazer os mesmos sinais.

Resolvi continuar mesmo no escuro. A Águia voava sobre a minha cabeça. De vez em quando sumia e voltava. Andei a esmo, seguindo a Águia. Assustei-me. Vi a menos de cem metros uma cabana. Incrível. Tinha claridade. Bati na porta. Dois homens abriram. Eram caçadores. Ajudaram-me. Tinham uma mula. Levaram o "Velho" para a cidade. Um deles me disse para não preocupar. Iriam até nosso acampamento e levariam tudo para nós em Saltitério. Olhei para o alto e lá estava a Águia Azul a voar e desta vez ela partiu.

Eu sabia que ela não voltaria. Sabia que ela sentiu seu sangue de Águia correr em suas veias e perfilou devagar suas asas partindo em um lindo voo até que desapareceu no horizonte azul. Não tinha explicação por tudo que aconteceu. Mas foi graças a Águia Azul que consegui chegar até a cabana. Chorei quando ela se foi. Eu não disse adeus. Não sabia dizer muito obrigado a uma Águia.

O "Velho" olhou para a Vovó. Depois olhou para mim. Olhe Escoteiro, voltamos lá cinco anos depois. Nosso acampamento estava seco. A cabana tinha caído. Ficamos lá por três dias. A Águia não apareceu. Vimos um casal de quati que dormitava sempre próximo ao remanso da curva do riacho. Queria encontrá-la novamente. Deveria haver uma forma de agradecer. Mas depois pensei bem e cheguei à conclusão que ela era como nós. Fazemos nossa boa ação sem olhar a quem. Sem esperar recompensas.

Fiquei ali pensando em toda a história que o "Velho" e a Vovó me contaram. Uma história sem precedentes. Eram eu sabia um casal maravilhoso. Nunca os vi discutindo. Sempre um concordando com o outro. Sabia que o "Velho" amava perdidamente a Vovó. E sabia que a Vovó amava perdidamente o "Velho". Olhei para eles, estavam se beijando. Um beijo doce. Na face, nos olhos nas orelhas e nos lábios. Estavam ali revivendo e vivendo novamente uma lua de mel doce, suave, melódica e achei que era um intruso.

Sai de mansinho. Abri o portão e parti para minha casa. A rua estava deserta. Havia estrelas no céu. Procurei olhar bem, mas não sabia qual era a mais brilhante. Gostaria de saber qual era a Altair, ou a Antares. Daria tudo para ver a estrela brilhante de Capella. Sorri para mim mesmo. Meus pensamentos eram um só. O "Velho" e a Vovó.

Deus me deu muitas alegrias na vida. Mas agora eu sorria e agradecia a ele por ter me dado à oportunidade conhecer a Vovó e o "Velho". Uma brisa forte me acariciou o rosto. Um pingo de chuva bateu de leve em minha face. A chuva chegou sorrateiramente. Sorri. Não corri. Deixei as gotas de chuva molharem meus cabelos, minha face, meu corpo. Quem me visse achava que era um louco. Pois debaixo da chuva sorria e cantava alto a pleno pulmões a “Terra do belo Olmeiro” O "Velho" me ensinou. Gostava dela. O mundo é feito de doces momentos e eu agora vivia a mais suprema felicidade do mundo.

ذ Terra do belo Olmeiro, lar do castor,
Lá onde o alce airoso, é o senhor.
Ao lago azul rochoso, eu voltarei de novo!

Viver sem ser amado é como cortar a asas de um pássaro e tirar sua capacidade de voar. E se eu pudesse contar contaria as estrelas, se pudesse voar voaria pro céu, como não posso contar as estrelas nem voar para o céu; contarei os meus dias até voar para os teus.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O SEGREGO DA ILHA MISTERIOSA - FASC. 70 E 71


O "Velho" Escoteiro e o segredo da ilha misteriosa – Fasc. 70

AS LINHAS DA PRAIA
“A lenda insiste em dizer que se alguém repetir 6.000 vezes a frase ‘huka fava dreimoid Kaká iara” as linhas do mar da praia irão lhe levar a um tesouro escondido. Só uma pessoa conseguiu fazer isto. “Mas está desaparecida até hoje”

“Aos contadores de histórias. Devemos a eles a beleza de um espetacular Fogo de Conselho ou de uma gostosa noite de luar”.


                        Foram quinze dias maravilhosos. Para dizer a verdade nunca poderia imaginar o "Velho" se esbaldando e tentando correr como uma “galinha choca” pela praia. O meu amigo o "Velho" estava em pele e osso. Mas ainda ostentava uma saúde que muitas vezes duvidamos se ele resistiria. Vovó e minha esposa se “aninhavam” em baixo de uma castanheira frondosa. Eu não tirava o olho do "Velho". Afinal, 86 anos não e brincadeira. Não deu para perguntar ao seu médico o que ele podia fazer ali. Mas ele teimoso, fazia sempre o que não podia fazer.

                      Tudo começou quando meu Chefe de Departamento da fábrica onde trabalhava me perguntou se não queria ficar em sua casa de praia, no litoral sul. – Olhe meu amigo, não vou lá esse ano. Eu e a família resolvemos ir a Disney e a casa ficará fechada. Porque não vai lá descansar nas suas férias? E para completar disse – Leve quem você quiser. Tem condições de alojar até dez pessoas. Uma oferta tentadora. Falei com minha esposa. Ela topou.

                      No domingo fomos à casa do "Velho". Como sempre saborear o almoço delicioso da Vovó. Quando almoçávamos contei que pretendíamos ficar uma temporada na praia. Notei os olhos do "Velho". Brilhavam. Olhei para minha esposa e ela mesma fez o convite. Porque não vão conosco? A casa é grande e cabe todo mundo. Um sorriso nos lábios do "Velho" mostrava sua satisfação, mas como sempre tinha de se mostrar maniento – Melhor não. Vamos atrapalhar. Afinal você vai ficar sozinho com sua esposa.

Depois do almoço ficou tudo combinado. Quem leva o que, hora da saída, se precisava de uniforme, o de campo ou social. – "Velho"! Pelo amor de Deus. Vamos para praia. – Nunca se sabe meu amigo, podem aparecer alguns escoteiros e vamos nos apresentar como? De sunguinha? – Sem resposta ao "Velho". Sabia que ele gostava de ficar resmungando, mas sabia também que estava adorando o programa. Acho que ele precisava disso. Sempre me disse sua queda pelo mar.

                    Na quarta partimos. Tralha pequena. Própria de escoteiros. Uma viagem ótima. O "Velho" cantando. Uma voz de taquara rachada, mas ele estava alegre e muito. A chegada ele nem se deu o desplante de ajudar a descarregar. Tirou os sapatos e foi de encontro ao mar. Ficou ali por minutos a olhar o horizonte, as gaivotas e o som imperdível do mar aos ouvidos de um mateiro. Os primeiros dias foram de descobertas. Nem sempre conhecemos as pessoas. Podemos conviver por anos, mas só quando estamos juntos é que podemos analisar com precisão o que somos. O "Velho" e a Vovó eram companhias das melhores.

                     O "Velho" ficava o dia inteiro na praia. A casa ficava a menos de cem metros e se não ficasse de olho ele iria sozinho. De manhã tomava café que a Vovó fazia, pegava a cadeira de praia e lá ia cantando o Rata-plã. Nos primeiros dias falamos pouco de escotismo. Contamos “causos” lembranças escondidas na mente e que estavam prontas para serem narradas aos amigos do peito. Os dias foram passando. De manhã à noite, o "Velho" não saia da praia. Eu também gostava. Íamos lado a lado pisando na areia molhada e andávamos quilômetros. Descobri um novo "Velho". Mais novo. Mais atual, e não aquele doente do passado.

                     Uma tarde, o sol se pondo, o "Velho" olhando para o mar disse baixinho – Lembra-se do Justin? Aquele americano que juntos fomos ao vale da Morte e o Francês Pierre que foi mordido por uma cobra Píton? – Balancei a cabeça concordando. Vendo este “marzão” me lembrei de quando fizemos uma bela de uma aventura na ilha de Hornos, ou melhor, rodeando o Cabo Horn, na terra do fogo. Um dia ele apareceu no Grupo Escoteiro. Claro, foi um susto. Tinha mais de oito anos que não o via. Eu já tinha casado com a Vovó e minha filha recém-nascida. Trabalhava muito em meu escritório de engenharia. Não tinha mais tempo para essas aventuras que amava e muito.

                    Justin me abraçou efusivamente. – Meu amigo, você aqui no Brasil?  Foi uma alegria. Todos no grupo se espantaram. Apresentei Justin. Ele não falava português. Arranhou um espanhol e rimos muito. À noite fomos a um barzinho e ficamos lá por muito tempo lembrando nossas aventuras. Tinha convidados vários chefes, mas somente o Rael aceitou ir. Os demais se desculparam. Já tinham compromissos. Rael era chefe de tropa. Solteiro ainda, mas um perfeito cavalheiro. Professor de ciências em um colégio na cidade. Escoteiro desde menino. Um conhecimento enorme de tudo que se pode pensar em escotismo. Rael se encantou com as histórias que contávamos.

                     Justin não se fez de rogado. Olhe, vim com meu pai. Veio a serviço. Como sabem é diplomata e deve ficar aqui uns meses. Eu não. Pretendo voltar logo. Abrí um escritório de acessória em viagens aventureiras e não posso ficar muito tempo. Sabendo que poderia encontrá-lo não perdi o convite de meu pai. Meu motivo principal meu amigo é que estou planejando uma atividade de arromba. Acho que já devem ter lido sobre a lenda da embarcação-fantasma Holandês Voador. Não? Bem vou resumir para não tomar muito tempo.   

                          A lenda da embarcação-fantasma Holandês Voador é muito antiga e temida como sinal de falta de sorte e possui diversas versões. A mais corrente é do século XVII e narra que o capitão do navio se chamava Bernard Fokke, o qual, em certa ocasião, teria insistido a despeito dos protestos de sua tripulação, em atravessar o conhecido Estreito de Magalhães, na região do Cabo Horn, que vem a ser o ponto extremo sul do continente americano.

                          Ora, a região, desde sua primeira travessia, realizada pelo navegador português Fernão de Magalhães, é famosa por seu clima instável e suas geleiras, os quais tornam a navegação no local extremamente perigosa. Ainda assim, Fokke conduziu seu navio pelo estreito, com suas funestas conseqüências, das quais ele teria escapado, ao que parece, fazendo um pacto com o Diabo, em uma aposta em um jogo de dados que o capitão venceu, utilizando dados viciados.
                            Desde então, o navio e seu capitão teriam sido amaldiçoados, condenados a navegar perpetuamente e causando o naufrágio de outras embarcações que porventura o avistassem, colocando-as dentro de garrafas, segundo a lenda.
                            O navio foi visto pela última vez em 1632 no Triângulo das Bermudas comandado pelo seu capitão fantasma Amos Dutchman. O marujo disse que o capitão tinha a aparência de um rosto de peixe num corpo de homem, assim como seus tripulantes. Logo após contar esse relato, o navegador morreu. Uns dizem que foi para o reino dos mortos; outros, que hoje navega com Dutchman no Holandês.

                           Não sei se sabem, mas o Cabo Horn é o ponto mais ao sul da América do Sul e pertence ao Chile, suas coordenadas são 55° 59′ 00″ S, 67° 16′ 00″ O, no final da Terra do Fogo, na ilha de Hornos. Ele é ainda o limite norte do Estreito de Drake, entre a América e a Antártida. É também o divisor dos oceanos Pacífico e Atlântico. Os outros pontos extremos da América do Sul são: ao norte a Punta Gallinas, na Colômbia, ao leste a Ponta do Seixas, no Brasil, e a oeste aPunta Pariñas, no Peru.
O clima na região geralmente é muito frio, com temperaturas médias de 5 °C. Os ventos são de 30 km/h em média, com picos comuns de 100 km/h. As condições locais são muito rudes, principalmente no inverno.

                           Tenho lido muito sobre isso. Até do ultimo navio, um galeão inglês, que dizem abarrotados de prata afundou próximo ao Cabo Horn em 1820, bem junto à ilha de Hornos. Não precisam rir. Não tem tesouro nenhum, eu sei disso. Mas dizem que é o local mais inóspito da terra. Poucos conseguem sobreviver lá. Mas muitos que lá vão, juram de “Pé junto” ter visto a embarcação-fantasma navegando sem rumo, com o Capitão Bernard Fokke ao leme, dando gargalhadas.

                           Claro, eu sei que é lenda. Mas adoro uma lenda. Poucos conseguiram ficar mais de cinco dias na ilha. Um ninho de cobras venenosas, escorpiões amarelos e a noite a temperatura desce até os dez graus negativos na época de calor. E se conseguirmos ir, fazer o caminho de Drake, ficar cinco dias, seremos os primeiros do movimento escoteiro que conseguiram realizar essa bela aventura. Justin falava entusiasmado. Vi que Rael tinha os olhos brilhantes. Sempre quando escoteiro fazia mil e uma estripulias com sua patrulha.

                          Lembro que uma vez a mãe dele procurou-me perguntando onde eles tinham ido acampar. Não sabia. Não me disseram nada. Nunca isso aconteceu. Estava me lembrando de um fato. Sua patrulha tinha pedido para fazer uma jornada de bicicleta até Monte Alegre. Não disse não e nem sim. Vamos ver na Corte de Honra e ver o que ela diz. A corte foi contra. Achei que nossos monitores foram duros e não deviam ter vetado. Notei em Rael uma decepção. Agora tinha certeza que ele e a patrulha já deviam estar em Monte Alegre.

                          Não disse nada. Falei com sua mãe que não se preocupasse. Estavam em Monte Alegre. Eu acreditava que no domingo no mais tardar a noitinha eles estariam de volta. Dito e feito. Chegaram rindo da aventura. Eu os esperava na sede. Quando me viram um enorme susto. Conversamos muito. A patrulha ficou seis meses suspensa para atividades sem chefia. Acho que aprenderam a lição.

                          Notei que os olhos do "Velho" estavam se fechando. Ainda era cedo. Menos de meia noite. Mas “cutuquei” o "Velho" e o convidei para irmos dormir. Ele nem disse nada, saiu tropeçando e sumiu no seu quarto fechando a porta devagar. Minha esposa já tinha se recolhido. Fui para a varanda. Uma bela vista do mar. Sem lua. Mas as ondas batendo na praia me davam uma sensação de alegria e calma. Também adorava o mar. Pensava comigo que quando me aposentasse iria morar em uma cidade beira mar.


O "Velho" Escoteiro e o segredo da ilha misteriosa – Fasc. 71

Por entre as frias brumas de agosto,
Apareces carregando tua carga funesta!
Imponente!...Em silêncio... Tão morto! 
Pelos mares - à deriva, navegas... 

Acorrentados! Seguem meus sonhos contigo, 
Encerrados lá no fundo do porão!
E riem como loucos um desvairado riso,
E perdidos pelas noites vão!


Estás condenado pelos mares a vagar! 
E nas noites sombrias, sem estrelas!...Tão frias! 
Navegas à deriva, sem nunca parar!

O bramir da tempestade meus gemidos sepulta!
E enquanto as ondas se elevam com fúria!
Navegas perdido, nas minhas loucuras!


As lendas, mitos e fábulas. São elas que nos transportam para os sonhos e aventuras fabulosas

                    O dia amanheceu cinzento. Mesmo assim o mormaço nos trazia uma sensação gostosa para dar nossa caminhada nas areias brancas do mar. Poucas pessoas àquela hora. Também nas outras horas, pois não eram férias escolares e poucos se arriscavam a passar uma temporada no litoral. Antes das onze da manhã, a chuva fina começou a cair. Voltamos para o chalé. Vovó e minha esposa estavam sentadas na varanda, ouvindo musicas que o "Velho" ouvia, mas não gostava. Make Me A Friend, uma coletânea de musicas cowtry que eu gostava muito, mas o "Velho" não.

                  Interessante que minha esposa não tinha muitas amigas. Quase oito anos de casado e conheci poucas. Em seu trabalho dizia que lá tem colegas. Amigos é outra coisa. Ela e a Vovó se deram bem desde o primeiro dia. A Vovó acho eu, se dava bem com todos. Uma simpatia e uma maneira tão educada para conversar que não tinha quem não ficasse seu amigo na hora. As duas ficavam horas e horas conversando. Uma com mais de setenta anos. A outra com menos de trinta.

                   Eu e o "Velho" pegamos duas cadeiras de balanço, gostosas por sinal e também ficamos ali na varanda vendo a chuva miúda caindo no mar. Ao longe o tempo escuro pronunciava um dia inteiro assim. Tudo bem, não incomodávamos com isso. Ainda ficaríamos oito dias descansando. O "Velho" fingiu que dormia, mas a cadeira de balanço ia para frente e para trás. Interessante. A vida nos reserva surpresas que nunca imaginaríamos. Há dez anos, nem sabia o que era escotismo, e nem conhecia o "Velho". Dou risadas até hoje da primeira vez. Ele, sempre ele com seu estilo inconfundível que me conquistou. Também me colocou no escotismo, uma causa que abracei com orgulho.

                  O "Velho" abriu o olho e sorriu. E aí? Disse – quer ou não quer saber o final da minha aventura na ilha misteriosa? – também sorri. Claro "Velho". Você sabe que estou “faminto” de suas histórias. Vais continuar? – O "Velho" sorriu. Sabe disse – Saudades de uma boa cachimbada. Sempre o que é bom nos privam. Dizem que é para o nosso bem. Que bem? Quero cachimbar e não posso e é para o meu bem? Não disse nada. Tudo que devia ser dito já foi há tempos não só por mim como pelo seu medico e a Vovó.

                  Para lhe dizer a verdade, eu sabia que iria com Justin. – começou o "Velho" a sua narrativa. Justin encerrou dizendo que não ficaria barato. O preço devido ao aluguel de um pequeno barco que precisaríamos por seis dias e apetrechos necessários para uma viagem dessas iria ter um gasto enorme, mas que poderíamos economizar em outras. Justin disse que tinha experiência em navegação. Seu pai tinha um pequeno barco e ele cruzava todo litoral americano há anos. Se tudo desse certo nos encontraríamos no Chile, em Punta Arenas em 23 de setembro do próximo ano. Se eu pudesse confirmar até julho seria bom. Pierre o Escoteiro francês já tinha confirmado. Caso eu fosse, precisavam arrumar mais um. Quatro seriam o numero ideal para dividir as despesas.

                  Justin partiu na semana seguinte. Fizemos ótimos programas e fiz questão de ir com ele até o Pico do Itatiaia. Fomos de carro até o museu e de lá a pé até o pico. Mais de quatro horas de subida, mas uma vista maravilhosa. Rael estava conosco. Notei que ele sonhava com a viagem. Fomos de uniforme e Justin estava com o seu. Um orgulhoso Boy Scout of America. Dormimos lá aquela noite. Pela manhã de domingo regressamos. Rael me confessou que queria ir. Ele faria tudo e o mais difícil não seria o valor a ser gasto. Ele tinha umas economias (calculamos que sair do Brasil até o Chile, pagar a taxa do barco e outras despesas, pelo menos uns cinco mil dólares para cada um).

                  No mês seguinte Rael me disse que iria. Afinal seria a aventura de sua vida. Não podia perder. Conversei com a Vovó longamente. Ela nunca colocou empecilho em nada do que fiz. Sempre me incentivou. Vá meu "Velho". Você sabe que eu não sirvo para isso, mas é sua vida. Viva como ela deve ser vivida para você não se arrepender depois. Tive que fechar meu escritório. Só tinha uma moça como estagiaria e muito nova não daria conta do riscado. Coloquei uma placa na porta – “Escoteiro em viagem pelo mundo” volto em quinze dias. Meus clientes já me conheciam.

                  Partimos eu e Rael no dia 22 de setembro. Chegamos a Punta Arenas a noite. Eu e Justin já havíamos combinado o hotel. Ele estava lá com Pierre há uma semana. Ficamos até altas horas da noite combinando tudo. Ele já havia alugado um pequeno barco. Bem não tão pequeno. Uns 18 pés. Melhor uns seis metros por dois e meio. Uma cabine para três. Uma pequena cozinha. Como tinha experiência e alimentação de campo, em mesmo fiz uma lista e comprei tudo. Acondicionamos tudo no barco. Pierre e Rael ficaram amigos logo. Um sempre ajudando o outro.

                  Partimos à tarde do dia 23 de setembro. Um lindo dia. Um sol vermelho uma temperatura por volta de dezoito graus. Justin disse que traçou um itinerário aonde iríamos primeiro a Ushuaia, Canal de Beagle, Estreito de Magalhães e finalmente o Cabo Horn. Pelos seus cálculos chegaríamos em dois dias. Foram dias maravilhosos onde passamos por geleiras inimagináveis. Lindas. Não ficávamos próximo à costa. 

                  No dia seguinte finalmente chegamos ao Cabo Horn. Tivemos sorte com o mar que não estava revolto como é comum. Mas o clima não. Uma chuva fria e torrencial que alem dos ventos fortes nos obrigou a ficar a distancia por mais um dia ancorados. Dizem que lá por estar situado no estreito de Drake na Terra do Fogo, o Cabo Horn é o ponto mais austral do mundo. Justin era um excelente navegador. Em hora nenhuma nos colocou em perigo. Para dizer a verdade formamos uma patrulha ideal. Todos se ajudando e descansando em escalas de seis horas.

                 No terceiro dia a chuva diminuiu e o vento não passava de quarenta quilômetros por hora. Isso nos garantiria um desembarque perfeito. Contornamos a ilhar e atrás de uns rochedos dava para jogar ancora e com um barquinho pequeno chegar a terra. Pierre nos contou que quando o vento passa de cento e vinte quilômetros hora a adrenalina de algum navegador de outro século que experimentou passar por lá, chacoalha-se tudo, seu estômago acompanha o movimento e pouco resistem.

                Hoje eu sei que no Monumento Cabo Horn, tem uma placa de metal com o formato de um albatroz, construído em 1992, uma homenagem à memória de muitos homens que desbravaram a região e morreram lutando contra a forte correnteza é uma certeza de uma viagem feliz e perfeita. Agora tem um lance de escadas o que não tivemos na época. Quando o vento forte vindo da Patagônia sopra, é difícil manter o equilíbrio. Ficamos perplexos com a paisagem. Bela e exuberante. Era uma sensação magnífica. A de desbravar uma das extremidades mais almejadas do mundo.

                Nosso plano era desbravar a ilha. Ficar ali por cinco dias. Dormir sempre no barco. Justin conseguiu manobrar o barco bem escondido, de modo que barcos ou navios que passassem não nos avistariam. Assim poderíamos deixar o barco bem ancorado e explorar a lha a vontade. Cada um imagina o que pode ser considerado como o fim do mundo. Pensa-se um lugar isolado, cenário inóspito, horizonte vazio, e agora eu não via assim. Sabia que era o ponto de encontro entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Nada a ver com a lenda de que era o último pedaço de terra habitado no extremo sul antes de se chegara antártica.

                 Com a construção do canal do Panamá, que se iniciou em 1880 e só terminou em 1914 a rota dos navios se alteraram. Antes a rota alternativa era contornar o Cabo Horn. Agora poucas embarcações passavam por ali. Com seus 81 quilômetros o canal do Panamá era perfeito para os encontros entre o Pacífico e o Atlântico. Durante três dias passávamos o dia em terra voltando à tarde para o nosso barco. Só um dia avistamos um barco turístico que passou a mais de dez quilômetros da ilha.

                 Cada dia um espetáculo a parte. A dança dos golfinhos, dos tubarões e de uma enorme baleia azul que se deliciou a dar duas voltas na ilha. A vegetação era rasteira e para dizer a verdade só vimos uma pequena cobra, que tentei identificar, mas a duvida se manteve. Poderia ser um pequeno coral, mas sabia que as corais eram sempre enganadoras. No Brasil a chamamos de falsas corais. Passamos ao largo. Não pretendíamos matar nenhuma. Estávamos em seu habitat. Ela tinha todo o direito na ilha. Os pássaros eram outro espetáculo a parte.

                   No quarto dia acabou nossa tranqüilidade. Um barco de uns cem pés aportou na ponta da ilha. A uns dois quilômetros onde estava nosso barco. Ficou ali toda a manhã. Com o binóculo militar do Pierre vimos muitos homens armados no convés. Às duas da tarde em um pequeno escaler de três bancadas percorreram a distancia do barco até a ilha. Aportaram em outra extremidade. Vimos que varias caixas foram descarregadas. Não vimos onde as levaram. Fizeram bem umas oito viagens. Todas carregadas com as caixas.

                  Pararam a noite e pela manhã continuaram. Para dizer a verdade acredito que mais de sessenta caixas. Por fim partiram. Na noite anterior resolvemos dormir na praia. Sobre a areia. Um frio de rachar, mas achamos que se fossemos para nosso barco poderíamos ser vistos. Ainda bem que a temperatura não baixou os seis graus. Achei que não ia agüentar e pela manhã quando o sol apareceu rimos. Quando eles se foram rimos mais. Rael achou que devíamos saber que caixas eram aquelas. Dólares? Ouro? O que seria?

                 Custamos a encontrar uma pequena abertura na encosta sul da ilha. Pequena mesmo. Bem escondida. Se não fossemos escoteiros e tivéssemos bons conhecimentos de pistas jamais encontraríamos. Rael era bamba. Pegadas, folhas amassadas, enfim uma infinidade de pistas que só ele mesmo para descobrir. Mais de cem degraus em pedra bruta nos levou a uma gruta enorme. Um pequeno riacho passava de norte para sul. Nem sinal das caixas. Procuramos por hora. Já estava desistindo quando Pierre descobriu uma pequena pedra que levava a outra abertura.

                   Lá estavam as caixas. Tinha mais. Não eram somente as que eles trouxeram nestes dois dias. Fiquei com medo de abrir. Justin não. Ele e Rael abriram uma. Uma enorme surpresa. Não eram dólares nem ouro. Armas. Uma enorme quantidade de armas que nunca tínhamos visto. Algumas de aspectos tão sinistros que daria para imaginar um tiro com ela. Olhei para Pierre, olhamos uns aos outros. Saímos Dalí logo. Estávamos mexendo com fogo. Correndo um grande perigo. Saímos da ilha, pegamos nosso barco e partimos. Era para ficar mais dois dias. Abreviamos. Chegamos a Punta Arenas dois dias depois. Uma forte tormenta nos pegou no caminho. Se não fosse Justin acho que teríamos soçobrado.

                    Nem bem chegamos Justin telefonou ao seu pai. Ele mandou que nos dirigíssemos a Santiago do Chile e procurássemos a embaixada americana. Eles já nos esperavam. Ficamos horas explicando. Pierre e Rael eram bons em mapas e croquis. Uma unidade da marinha americana partiu para a ilha. Não fomos. Eu e Rael voltamos para casa desta vez a bordo de um jato da Força Aérea Americana. Despedi de Justin, de Pierre. Lagrimas nos olhos. Mais uma grande aventura.

                   Dois meses depois, no Grupo Escoteiro recebemos a visita de um cônsul americano acompanhado de autoridades brasileiras. Mais precisamente um brigadeiro da FAB. Na frente de todo o grupo, deram a mim e ao Rael uma medalha de agradecimento. Junto uma águia feita de prata, com a bandeira americana. Bem éramos brasileiros, mas se estavam nos agradecendo tudo bem. Justin nos telefonou um mês depois. Uma grande quadrilha de contrabandistas de armas. Faziam parte até um general e cincos oficiais do exército americano. A quadrilha era chefiada por um europeu.

                   Disse também que as armas eram para um país africano e se fossem entregues uma enorme carnificina iria acontecer. Seu pai não quis dar conhecimento à imprensa de quem tinha descoberto tudo. Para nos salvaguar. Poderíamos ter represálias ou vingança. Não se sabe. Pela sua voz vi que havia gostado da aventura. Ele até deu um nome a aventura que fizemos O Segredo da Ilha Misteriosa. Não avistamos o Capitão Bernard Fokke ao leme de seu navio fantasma. Nem descobrimos nenhum tesouro, mas tínhamos encontrado a ilha mais misteriosa e linda que já tinha visto.

                    Hoje sei que turistas estão a visitar a ilha diversas vezes ao ano. Tudo foi melhorado. Navio de grande porte de volta da antartida passam por lá. Contam histórias aos passageiros que se assustam, mas ninguém acredita. Gostaria de ter visto a embarcação fantasma Holandês voador. Não vi. Mas vi golfinhos, tubarões, balelas azuis, milhares de peixes nos arrecifes, um mar maravilhoso, grandes geleiras formando incríveis icebergs. Eu sabia que tudo era uma lenda, mas que lenda maravilhosa.

                   Passaram-se anos até que vi Justin de novo. Em um acampamento que fiz com uma patrulha de monitores do grupo em Papricantis Neandertalis. Uma pequena cidadela entre o Chile e o Brasil. Pesquisadores, cientistas, parapsicólogos e curiosos dizem que lá foram encontrados resquícios históricos jamais imaginados. Ninguém dizia que resquícios eram esses. Mas a patrulha sênior quando contei logo gritaram – Vamos lá! Era sempre assim. Como eu também se tornaram aventureiros. Não foi surpresa encontrar lá acampado Justin e Pierre. Velhos amigos se encontrando, mas esta é outra historia.

                   O sol começou a brilhar no horizonte. O "Velho" parou sua narração. Vamos? Disse – Vamos! Eu disse. E lá fomos nós para a praia, onde centenas de gaivotas nos acompanhavam com seu barulho infernal. Ao longe avistamos o porquê. Pescadores estavam tirando a rede do mar e elas estavam abarrotadas de peixes. Olhei para o "Velho". Ele olhava a frente. Seus olhos brilhavam. Oitenta e seis anos. Uma vida cheia de aventuras. Historias mil para contar. É "Velho". Eu te amo. Você entrou na minha vida e nela irá permanecer para sempre.

O MAR QUE TIVE POR LEMBRANÇA

No mar, balança o óleo e não se acalma!
Agonizo n’água!...Sou ave pequena!
O negror do óleo devora a minha alma,
Meus ossos!...Até as minhas penas...

Inda arrisco um curto esvoaçar...
Um vôo breve... Ó expectativa vencida!
E caio n’água, no negror do mar!
Do óleo que desfez - em mim -, a vida...

Enegrecido o bico... Tão grande é a dor!
Agonias chilreando pelos ares!
Foi o eco que o negror do óleo deixou...

Engolfa o Golfo o negro óleo que avança! 
E engolfando todas as aves!
Engolfa o mar que tive por lembrança...


Lusos poemas