Historias e estorias que não foram contadas

Historias e estorias que não foram contadas
uma foto, de um passado distante

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

As deliciosas estripulias escoteiras do Capitão Ventania – fasc. 75


Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo...
Álvaro de Campos

As deliciosas estripulias escoteiras do Capitão Ventania – fasc. 75

               Foi minha esposa que me lembrou do aniversário de um Chefe de um grupo amigo. Ele tinha nos convidado. Fora pessoalmente em minha casa. Ainda bem que ela lembrou. Domingo sempre fico com o "Velho" Escoteiro e quando lá estou eu me esqueço de tudo. Liguei para a casa do "Velho" Escoteiro para dizer aonde ia e ninguém atendeu. Deduzi que devia ter saído. Ligaria mais tarde. Interessante. No convite pedia uniforme social completo. Numa época de traje, caqui, azul mescla e agora o novo que ninguém sabe ninguém viu e até soube que a nossa liderança vendo o estardalhaço que estava sendo discutido esta imposição dela, estava tentando redimir o erro, fazendo discussões nas regiões antes da oficialização para dar uma explicação a toda sociedade Escoteira quando da implantação. Voltando ao uniforme fiquei na dúvida. Finalmente coloquei minha calça de tergal cinza chumbo, minha camisa azul mescla, meu lenço e claro sapatos pretos. Achei que estava vestindo o social.
             Ele em seu convite marcou as 16 hs do domingo, e lá fomos eu e minha esposa. Como era bem perto resolvemos ir a pé. Sinto-me bem em um uniforme Escoteiro. Gosto de cumprimentar vizinhos e amigos e que eles vejam minha alegria e meu orgulho em ser um Escoteiro. Chegamos as dezesseis em ponto. Nem um minuto mais nem um minuto menos. Risos. A casa estava cheia, dezenas de escotistas, mas os uniformes? Sem comentários. Cumprimentei ao aniversariante e claro, dei de presente uma pequena flor de lis de lapela folheada a ouro. Ele se mostrava ser um Escotista alegre e bem disposto.
             Conhecia muitos dos presentes e deixei minha esposa com a anfitriã e lá fui eu cumprir minha missão de cavalheiro educado e bom Escoteiro, cumprimentar a todos. Muitas rodinhas, muitos conversando aqui e ali e foi então que ouvi risadas e palmas. De onde? Dirigi-me onde supunha ser. Era no quintal da casa, uma turma enorme com cadeiras em circulo se divertindo. E nada mais nada menos que o "Velho" Escoteiro liderando a todos em jogos, pois não importa a idade, nós chefes nos deliciamos com os jogos que participamos. Quando me viu gritou – Moleza! Pegue uma cadeira e entre na turma! Ri alto. O "Velho" sempre o "Velho".
           Estavam fazendo o jogo da rosa. Senhor e senhora. Já conhecia e me enrolava sempre quando fazia. Depois do jogo uma rodada de cerveja (ainda bem, festa sem cerveja para mim não dá) e muito salgadinho. O "Velho" se divertia. Parecia nos seus velhos tempos. Foi quando um Chefe novato resolveu interpelá-lo – Chefe! O que acha das mudanças que estão acontecendo no escotismo? – O "Velho" riu de leve. Todos olhando para ele. – Vou contar a voces uma história. De um amigo que conheci no passado. Sumiu. Não sei onde anda. Não sei se ouviram falar no Capitão Ventania. Um apelido que deram a ele e que o divertia muito.
           Todos se calaram. Muitos que estavam na sala quando souberam que o "Velho" estava contando uma história, correram para o pátio. O "Velho" era assim. Afinal estava em seu distrito e uma grande amizade havia conquistado com todos. Capitão Ventania pensei. Nunca ouvi falar. O "Velho" nunca comentou comigo. Mas como ele tinha uma vivencia tão grande no movimento Escoteiro, achei melhor ouvir e conhecer mais uma de suas historias.
            - O Capitão Ventania era o Diretor Técnico do 556º Grupo Escoteiro General Santo Angelo. Um bom Chefe. Entrou como sênior e depois foi Chefe de tropa e Sênior. Ficou fora alguns anos e retornou. Com o falecimento do Chefe Ludolfo, o ex Chefe do grupo, ele assumiu por escolha dos demais chefes do grupo. Não sei por que o escolheram. Gostava dele é claro, mas não sentia pulso na sua liderança em um grupo como aquele. Sempre quis saber o porquê de seu apelido. Ele ria. Um dia me contou. Estavam acampados há cinco dias na Ilha das Cobras litoral de São Paulo. Ele ouviu no radio que um pequeno ciclone estava em formação e como eram onze seniores ele ficou de olho no mar esperando a primeira leva do vento. Viu que não seria fácil. Pegou uma corda e amarrou todos em uma arvore inclusive ele. Instruiu para ficarem de olhos fechados evitando farpas e areia durante o tempo que durante a ventania. Deu certo. Nada aconteceu a eles e até o material que amarraram em um tronco saiu incólume.
          - Os seniores quando retornaram disseram que se não fosse o Capitão dos Ventos poderia ser pior do que fora. Conversa daqui e dali e eis que surgiu o Capitão Ventania. Ele gostava e ria quando o chamavam assim. Mas para dizer a verdade nunca soube o nome dele. Acho que era Juvenal, mas não tenho certeza. Bem vamos aos entretantos. Ventania para mim foi o único que se revoltou com tantas modificações. Via com tristeza muitos jovens saindo do escotismo. Perguntava o porquê, ia a casa deles, pesquisava e sempre coçavam cabeça e diziam: - Nada Chefe, é que meu tempo está curto tenho que estudar mais ou então diziam – Chefe vou ser franco, o programa não está bom, não é chamativo e outro disse – Chefe, sempre me disseram que ser Escoteiro está na alma, no coração, mas não sinto mais o que sentia pelo escotismo como antes. Acho que meu coração e minha alma morreram para o escotismo.
              - E agora? Pensou Ventania. Ele se lembrava do passado, quando o menino ralava para conseguir a Segunda Classe. Pelo menos um ano sonhando. Alguns até conseguiam com oito meses. E a Primeira Classe? Dois anos. Era um orgulho andar com ele costurado na manga da camisa. Era fácil identificar um jovem que estava há tempos no movimento. Um orgulho ver em uma Patrulha vários segundas e primeiras classes. Agora não. Só via muitas especialidades e nada que pudesse dizer o que ele era. Claro as estrelas de atividade ainda existiam. De pano, sem brilho com as de metal. As provas? Mudaram tudo. Claro, havia ainda um resquício de técnicas mateiras. Mas colocadas de maneira tal que muitos não se interessavam. Ele achava que deviam ter mantido a segunda e primeira classe. Poderiam até ter alterado as exigências para consegui-las, mas não o fizeram.
                - Durante dois anos Ventania notava que o grupo não crescia. – Olhem dizia o "Velho", Ventania me surpreendeu. Um dia me procurou – Chefe não dá mais. Entra dois sai um entra um sai dois. Disse para ele – Ventania pode ser que tenha outros motivos. Ele me dizia – Pode até ter, eu mesmo já não me surpreendo com nada. Mudaram tantas coisas, nos lobinhos não se vê mais a primeira e segunda estrela, uniformes então. Chefe não posso concordar com isto. Veja o senhor, vamos juntos dar uma volta. O senhor de Caqui, chapelão, bem uniformizado e eu de camiseta, lenço amarrado na ponta um short qualquer. O que vai dizer o público? Olhe Ventania, eles acham que assim é mais atual afinal eles dizem que precisamos mudar. Novos tempos. Não é não Chefe, respondeu. No grupo infelizmente o jovem é bombardeado com todas estas modificações e ele compra. Quem não compraria? E depois se mandam.
              - Chefe, tem dois anos que permanecemos com três patrulhas e olhe patrulhas mistas, sempre com quatro ou cinco jovens em cada uma. Dificilmente conseguimos sete ou oito. Na Alcatéia a mesma coisa. Tem quatro anos desde que as modificações fizeram efeito que ela nunca teve mais de treze a quinze lobos. E os meninos saem mais que as meninas. Muitos reclamam comigo que a menina quer mandar muito e as meninas reclamam que os escoteiros são indisciplinados. Que coisa Chefe. Nunca vi nada igual. Estive pensando e vou fazer uma experiência de um ano. Um ano somente. Sem falar nada com o distrito e a região. Se eles souberem que se dane. O que vou fazer é o que eles deveriam ter feito antes. Pegar duas ou três tropa de estados brasileiros, com suas características seus estilos e colocarem em prática este novo programa e o anterior durante dois anos ou mais. Ver o resultado. Dar tudo para que os chefes possam aprender e ensinar. Então depois de passado o tempo programado, com um executivo profissional pago para isto, ver e verificar as falhas ver se deu certo. Deu? Então mãos a obra. Um marketing perfeito e todos os grupos escoteiros brasileiros iriam aceitar sem reclamações.
              - Pensava comigo que o Ventania me surpreendia. Ele era perfeito em suas exposições. A turma dos catorze do forte (brincando somente, catorze é quantos participam do CAN que decide os destinos do escotismo no Brasil.) nunca fez isto. Sempre impôs suas surpreendentes modificações, a base da surpresa e como se fosse um presente de Papai Noel. Porque não? Alterações e modificações que vão interferir na vida de milhares de jovens não podia ser assim. Muitas vezes vi que a condução de fóruns, congressos e mutirões onde participavam jovens era fácil modificar. A maioria aprovava sem pestanejar. Deixei que Ventania continuasse seu raciocínio. – Pretendo Chefe voltar às origens. Vou pagar do meu bolso a confecção dos distintivos. Vou conseguir as estrelas de prata. E sem maiores comentários vou criar uma nova tropa começando do nada. Oito jovens. Meus futuros monitores. Quatro meses preparando. Depois a promessa deles. Aumentar as patrulhas à medida que for aparecendo interessados, assim vou ver se em um ano tenho quatro.
             - Mas Ventania eu disse, fará isto no seu grupo? Sim Chefe. Deixarei que os demais continuem como estão sem interferir. - E acha que vai dar certo? – Não sei. Vou tentar. Vou voltar ao velho Sistema de Patrulhas. Vou trabalhar com monitores. Dar a eles liberdade. Sem essa de novos tempos, criminalidade e etc. Farei tudo com a máxima segurança. Em seis meses já vão acampar sozinhos. Estarei na redondeza em alguns horários. O forte será atividades ao ar livre. Deixar que eles façam. Aprendam a fazer fazendo. Cada um com sua ficha 120. Vendo como estão e como poderão atingir a segunda e primeira classe. Em um ano e meio começarei a fazer as jornadas. Isto mesmo. Nos moldes de antes. Aventureira. Claro já disse o local bem escolhido, nada fora do combinado, previamente discutido e escolhido o pernoite. – Danado o Ventania. Estava fazendo o que eu sempre desejei.
           - A esposa do aniversariante chamou a todos para cantar os parabéns. Ninguém queria ir. "Velho"! E então? O que aconteceu queriam todos saber. – O "Velho" naquele seu jeitão teatral levantou, enfiou a mão do bolso da camisa e lembrou que não mais cachimbava e disse – Na volta. Vamos cumprir nossa obrigação com nosso amigo. Aquela algazarra já conhecida do parabéns a você. Comer bolo, outra cerveja e conversando com o aniversariante vi que todos carregavam o "Velho" para o quintal. Pedi desculpa e fui correndo também. Ainda bem que o "Velho" não tinha começado. Estava fazendo um jogo. Danado de "Velho". Nada como um bom jogo para animar. Achar a pista no Kim do Luar não é fácil. Já conhecia. Mas adorava o jogo.
         - Terminado alguém disse – E aí "Velho"? E o Capitão Ventania conseguiu o que queria? Bem, alguém o “dedurou” no Distrito. Mandou-os irem passear. A região interferiu. Entrei na parada. Deixem que ele faça a experiência. É uma tropa somente. Voces tem medo de que? – Eu não era bem quisto por eles, mas tinham certo respeito. Não disseram nada. Sou que eu e o Ventania fomos parar em uma Comissão de Ética na direção nacional e na Região. Não deu nada, mas podia dar. Durante um ano visitei as reuniões do Capitão Ventania. Dava gosto de ver os meninos uniformizados de caqui e chapelão. Sim todos tinham. Como conseguiram? Ventania dizia que nada é impossível para quem sonha e faz o sonho se realizar. Ele modificou alguma coisa nas provas. Aprovou parte do novo programa, mas sem deixar a segunda e primeira classe. Quando os primeiros escoteiros fizeram um ano, receberam suas estrelas de metal. A primeira tropa que ainda estava com o programa antigo começou a reclamar.
           - Um dia pediram para fazer uma Corte de Honra com as duas tropas. Viram que a nova estava com vinte e seis escoteiros e eles com dezoito. Por quê? Porque não saiam ninguém e a deles sempre novatos? A experiência do Ventania estava chegando ao fim. O que ele queria provar a si próprio aconteceu. A maioria dos jovens participantes adorava o sistema, a maneira de condução e quando cinco receberam a primeira classe foi uma festa. As jornadas que fizeram ficou para a história. Ventania dois anos depois teve um câncer de próstata. Não dava mais para continuar. Mesmo tratando ele viveu mais três anos. Neste período o novo Chefe que assumiu instruído por um novo assessor pessoal formado nos moldes atuais, voltou às origens de hoje. Nos cursos de formação mostravam para ele que o escotismo não era o que o Ventania fazia. Aí meus amigos, a tropa começou a definhar. Era muito um grupo ter duas tropas. Em um ano a tropa do Ventania acabou. Alguns dos membros foram incorporados à outra tropa. O uniforme agora era novo. As provas de classe e as estrelas de atividade eram de pano. E de pano eles acharam que era o novo escotismo que não estavam mais gostando. Os jovens do Ventania se debandaram.
          - Eu mesmo cutuquei o distrito e a região se por acaso tentaram ver as vantagens do que Ventania fez. Não deram bola. Insisti – Mas nem mesmo sua experiência viram se foi válida ou não? Afinal ele mostrou que o caminho para o sucesso é provar que vale a pena mudar dentro de bases reais. E voces nunca fizeram isto. Vão mudando ao sabor do vento e da tempestade. Muitas vezes copiando o que se faz no exterior e esquecendo que parte do passado tem sua validade. Nem me deram bola. Não gostavam de discutir, pois se achavam acima de tudo. Uma das novas dirigentes, uma Escotista então se vangloriava das mudanças. Usava um palavreado difícil aos meus ouvidos. Gosto mais da prática. Do real. De tocar e sentir. De ver dar certo.
          - E o Ventania perguntaram? Morreu três anos depois. Morreu feliz. Disse que tinha vencido. Sabia que sua experiência só valeu para os meninos que participaram. E ele se sentia vitorioso. Não importava se aqueles que mudaram tudo não deram valor. – Ventania. Capitão Ventania, quem diria. Para mim um alegre Chefe e suas estripulias mirabolantes. – Fiquei olhando o "Velho" Escoteiro. Quase oito anos de convivência. Cada dia mais e mais aprendia. Quando achava que sabia tudo lá vinha ele contando novidades me mostrando um caminho novo para achar a trilha do sucesso. Uma hora da manhã. Minha esposa veio me chamar. Amanhã é segunda, dia de palavrão ela sempre dissera isto. Eu gostava da segunda feira. Gostava do meu trabalho. Os amigos e companheiros que lá estavam eram para mim como irmãos. Anos e anos de convivência. Não seria bom que no escotismo fosse assim também?

Vão para o diabo sem mim
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo
Porque havemos de ir juntos?
Àlvaro de Campos

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Meu Chefe, meu herói!



“O teu filho te vê como um herói, não te transforme em um tirano aos olhos dele.”
Plutarco.
 
Meu Chefe, meu herói! - Fasc. 75

                 Recebi o recado do "Velho" quase na hora de sair do trabalho. Estranhei, pois dificilmente ele fazia isto. Fiquei preocupado e fui direito a sua casa. Estava cansado aquele dia. Uma máquina resolveu quebrar e ficamos horas desmontando e consertando. Deu trabalho. Nem tomei banho, pois o chamado do "Velho" tinha prioridade. Subi as escadas e abri a porta da sala grande sem bater. O "Velho" estava lá, como sempre na sua poltrona de vime favorita ouvindo um dos velhos discos de vinil que ele insistia em manter. – "Velho"? Perguntei. O que ouve? Nada, respondeu. Mas me mandou chamar com urgência? Eu? Só pedi para passar aqui, mas vejo que você é rápido no gatilho. E riu a vontade. Só queria saber se você é esperto o bastante para saber quando for uma chamada séria de uma idiota. E riu com gosto.
                Nada contra o "Velho". Suas manias eram por mim aceitas sem raiva ou rancor. Logo a Vovó adentrou a sala. Olá! Você aqui hoje? Sorri de leve. Dificilmente ia à casa do "Velho" as terças feiras. Voltei para o "Velho". Vamos aproveitar minha vinda aqui e hoje e você termina suas observações sobre aquele tema do Meu Chefe, meu herói. O "Velho" me olhou e disse, olhe, não chamei você aqui para isto, mas porque não? E você vai ter opiniões fresquinhas. Veja, estive neste sábado a convite em dois grupos escoteiros. Não conhecia. Apenas confirmou o que eu pensava sobre o Diretor Técnico, seus chefes e suas sessões.
              Mas antes quero fazer uma observação, pois vai servir como exemplo para minhas dúvidas que aqui irei narrar posteriormente. De vez em quando vou dar uma olhada na internet. Não me surpreendeu ver a foto do Escoteiro Chefe Inglês junto à rainha, junto aos jovens e abraçando lobinhos. Também o mesmo nos escoteiros americanos. A BSA faz o mesmo. Idem em diversos países. No Brasil não. Por quê? Porque não vemos dirigentes abraçando, cumprimentando e sorrindo junto aos jovens? Podem dizer que aqui eles são muitos. Mas onde estão? Não os vejo em bate papo na internet, não os vejo sugerindo com artigos em sites de amigos. Isto não seria possível com o presidente do DEN? Acabaram com termo de Escoteiro Chefe, implicaram tanto e hoje ninguém nem mais sabe que existia. Não sei por que, e fizeram isto que está aí. Fecham-se e alguns vêm me dizer que lá tudo é às claras. Mas esqueçamos disto. Só citei para lembrar que em outros países os dirigentes se mostram alegres, juntos aos seus irmãos escoteiros.
              Não o chamei para ir comigo, pois você disse que estaria trabalhando neste fim de semana que passou. Assim aproveitei a carona de um Chefe amigo e lá fui eu ao primeiro grupo. Pessoal bacana. Receberam-me muito bem. O Diretor Técnico foi o fundador do grupo. Está no cargo a mais de trinta anos. Os chefes me mostraram serem um pouco subservientes. Na presença dele abaixavam a cabeça. Confesso que não me senti a vontade. Não gosto disto você sabe. No escotismo ninguém deve abaixar a cabeça ou considerar o outro importante demais para ele. Fiquei pouco tempo. Deu para ver as tropas Sênior e Escoteira e a alcatéia. Não parecia uma família feliz. Não sei, mas acreditava que o Diretor Técnico estava sempre junto, observando, e quem sabe dando instruções aos seus comandados. Comandados? Não seria este o termo, mas ele era o “dono” do grupo. Trinta anos. Fundou o grupo. Queriam o que? Despedi-me e prometi sem muito entusiasmo voltar outro dia com mais tempo.
               No segundo grupo me senti em casa. Uma rapaziada alegre, cantando, brincando, chefes rindo, dando instruções para os monitores, alcateias cheias de vigor, olhinhos brilhantes significando que ali as reuniões eram perfeitas. Fui apresentado ao Diretor Técnico. Estava na sede, junto com outros membros diretores. Não estava lá mostrando junto às sessões não ser o chefão.  Conversava com os diretores alegremente. Preocupados com o desenvolvimento do grupo, não quis interromper e vi quando um diretor perguntou quando seria a nova eleição? Quando seria a próxima assembleia? Vi que o Diretor Técnico respondeu preocupado. Conversou com vários chefes sobre sua substituição. Ele já estava lá a mais de quatro anos e achava que precisava passar o bastão para frente.
                Voltei para casa pensativo. Afinal qual a maneira correta? Ora se você fundou o grupo tem que ter seus direitos. Mas isto é bom? Até um certo ponto acho que sim. Já vi muitos grupos cujos Diretores Técnicos são eternos. E muitas vezes perfeitos em suas funções. O grupo neste caso sempre tem uma boa sede e quase a maioria tem sua sede própria. Mas nem todos tem este carisma de arregimentação e se deixam prevalecer pela demagogia, e com isto perdem muito seu efetivo adulto. Claro, temos adultos voluntários que sempre usam a palavra servir antes de tudo. Obedecem sem pestanejar e ficam lá por poucos anos. Outros não pensam assim. Quando entram estão cheios de entusiasmo para aprender e ajudar. O tempo vai passando e ele gostaria de opinar, mas tem sua palavra cortada sempre. Chega uma hora que pega o chapéu e vai embora.
               Já comentei com você sobre a sede de poder no escotismo. Juram para mim que não existe. Existe sim. Na maioria dos grupos os Diretores Técnicos são eternos. O mesmo se aplica ao Distrital. Infelizmente também com região e a direção nacional. Juram para mim que não. Que a oportunidade são de todos. Dá vontade de rir. Teve até um, que não se identificou se dizendo anônimo que a democracia lá é perfeita. Dizer o que? Mas falo para você francamente, eu ainda não tenho uma opinião formada. Homens são homens. Com seus defeitos, suas qualidades e alguns até imprescindíveis. Não diria que são insubstituíveis não. Conheci um grupo que o “dono” se eternizou no cargo de Presidente deste que fundou o grupo até falecer 50 anos depois. E sabem o que aconteceu? O grupo fechou as portas.
             "Velho" acho difícil mudar isto. Veja você em nosso próprio Grupo. Você saiu depois de vinte anos, entrou um ficou doze anos e há mais de nove tem outro. O "Velho" me olhou e respondeu: - Deu certo não? Deu sim. Outra mentalidade. Uma democracia diferente, mas é. Tem um Conselho de Grupo e um conselho de chefes que funcionam, uma diretoria que funciona, e os escotistas de sessão tem tudo que precisam. Em tempo algum gastam nada no grupo. Atividades extra sede, cursos, encontros distritais, regionais e nacionais sempre cobertos pelo Grupo Escoteiro. Mas assim é o escotismo em quase todo o mundo. Em alguns lugares são mais sérios nas mudanças, na maneira de agir. Aqui não. Vieram alguns, mudaram com novos em cursos, pois agora estes cursos tem em sua maioria alunos que adentraram a pouco no escotismo e criaram um verdadeiro manancial de seguir o Chefe.
                 As tradições? Foram postergadas. Disseram que o mundo moderno exigia outro estilo. Mudaram tanto o uniforme que agora copiam de outros países dizendo que é novo, é lindo e por aí vai. Espere quando lançarem. As cores iguais. Deixaram de lado as nomenclaturas antigas, os nomes de etapas que tanto encantaram uma geração e assim foi surgindo uma mudança radical em tudo. Foi fácil. Os novos assimilaram o que os novos dirigentes diziam e sabemos que nossa disciplina, a vontade férrea em aprender nos faz acreditar no que dizem e fazem. Hoje vejo dirigentes vestindo qualquer uniforme ou traje e até alguns mal vestidos. Dizer o que? Copiar é claro. Eles são os chefes e os chefes são meus heróis.
               Isto não acontece em outros países. A maioria preserva suas tradições e suas identidades. Vejam voces muitos alegam que a BSA muda muito. Não muda. Quando faz mudanças faz pesquisas sérias com todos os membros. Aqui? Sim temos o sabe tudo. Ou melhor, Chefe Herói. Ele fala, ele diz, e todos dizem amém. E vá discordar para ver. Olhem as fotos de escoteiros ingleses, americanos, alguns países europeus e principalmente os asiáticos. Que garbo, sinto saudades quando éramos assim também. – Fiquei olhando o "Velho" e pensando. O caminho já tinha sido feito. Era um caminho sem volta. Agora pensava como poderia ser a liderança Escoteira em todos os seus níveis. Difícil dizer.
             O "Velho" como a adivinhar meu pensamento disse – Olha meu caro, o estilo nosso de hereditariedade nas lideranças em alguns casos são positivos. Talvez se houvesse mais seriedade nas alterações que fazem se dessem mais satisfação de seus atos a toda comunidade Escoteira e se estas fossem acompanhadas de pesquisas sérias não estas que dizem que fazem então até que o escotismo poderia ser outro. Mais sério. Agora não é. Chamo isto ainda de casta. Uns poucos mandando e outros obedecendo. Meu Chefe meu herói. São tantos heróis. Difícil dizer que eles são assim. Deviam ser o herói dos meninos e meninas, mas com essa profusão de uniforme, com essas mudanças que acontecem no programa, quem é o herói?
              Vovó apareceu na sala com seu carrinho mágico. Magico mesmo. Estava morto de fome. Sanduiches de Peru, de peito de frango, de camarão, pasteis de carne, de mandioca, de queijo. Para beber chocolate quente, suco de maracujá. Vovó era demais. Meu Deus! Vamos lá. Meu estomago não pode esperar. O "Velho" colocou Max Greger tocando Lullaby Of Bird. Comer, ouvir uma bela música e pena, eu não estava em casa para dormir e sonhar. Será que eu também seria um herói?

"Um herói é um indivíduo comum que encontra a força para perseverar e resistir apesar dos obstáculos devastadores."
( Christopher Reeve )


quinta-feira, 7 de junho de 2012

O profissional Escoteiro e Projeto 2.000


“Viva a cada dia na sua plenitude, os problemas de ontem estão escritos na areia, varridos fora da existência pela própria mão de Deus”. As coisas do futuro que nossos corações possam temer podem ser resolvidas, todas, quando amanhã estiver aqui da nossa vida inteira, apenas estas horas – as horas de hoje.

O profissional Escoteiro e Projeto 2.000 – fasc. 74

          "Velho" vou ficar mais de um mês fora. A empresa me mandou para uma cidade no estado do Maranhão, pois abriram uma nova filial e tenho de organizar o setor de manutenção. – O "Velho" me olhou com aqueles olhos azuis, nada zombeteiros, mas mesmo assim disse – Ótimo, graças a Deus. Vou ficar livre de você por um bom tempo! Quem sabe gosta de lá e não volta nunca mais? – Gosto do "Velho". Muito. Amo como se fosse meu pai e sabia que suas palavras eram de tristeza pela minha ausência.  O "Velho" como a adivinhar o que eu pensava pela primeira vez me surpreendeu. – Olhe ele disse, vais fazer uma tremenda falta. Aprendi a gostar de você de sua maneira de ver o escotismo e hoje o considero um grande Chefe Escoteiro. Gostaria de ter tido um filho como você. Vê se não demora. Não sei quanto tempo ainda tenho nestas minhas horas extras que faço aqui na terra. Não irei embora sem me despedir de você!
         Danado de "Velho". Pegava-me assim sem mais nem menos com esta declaração. Deu vontade de levantar do meu banquinho de três pés e abraçá-lo. Forte. Dar um beijo em sua face e dizer a ele – "Velho", eu amo você como se fosse meu pai! Mas sabia que não poderia fazer isto. Ele não gostava. Nem com os netos e sua filha. Até ri no dia que a Vovó deu nele um beijo gostoso na boca. Ele ficou vermelho, sorriu de leve, não disse nada, pois a Vovó ele respeitava. Bem eu tinha um assunto que gostaria de falar com ele antes de partir. Ele também sabia que eu queria fazer alguma pergunta. O som da vitrola antiga tocava baixinho Thais: Meditation com Gheorghe Zamfir. Linda. Como toca este moço com sua flauta mágica.
       Sabe "Velho", ontem sem querer participei da reunião da diretoria do grupo Escoteiro, e eles discutiram sobre a diferença de um Escoteiro profissional e a de um profissional escoteiro. Alguém deu a ideia de quem sabe o grupo ter um. Já falamos muito sobre isto e para dizer a verdade eu mesmo fiquei em dúvida. Nunca vi em nenhum grupo um profissional assim. Já vi pessoas que trabalham na sede Escoteira. Mas sempre como administrativos. Você tem conhecimento sobre isto? – O "Velho" balançou a cabeça concordando. Escutou os acordes finais de Zamfir, me olhou com aqueles olhos azuis e os cabelos brancos caindo sobre a testa e ficou a pensar.
     - Para lhe ser sincero, falou o "Velho", acredito que nosso movimento poderia ter dado um salto bem maior em quantidade e qualidade se tivéssemos nos preocupado mais com os profissionais escoteiros. Veja bem, entendo como profissional Escoteiro alguém com uma função específica em um órgão Escoteiro, para desenvolver programas de expansão, proselitismo, arrecadação de fundos, e ser um contato entre os grupos escoteiros entre si, seja distrito, região, direção nacional ou mesmo um Grupo Escoteiro. Estou, a saber, que há poucos meses nosso órgão máximo contratou um profissional. Ótimo. Quanto tempo ficaram sem ele. Nunca é tarde para começar.
      Veja bem, estamos falando de um profissional Escoteiro e não um Escoteiro profissional. Acredito que este último está fora de cogitação por enquanto. Ele existe na Boy Scout dos Estados Unidos. Trata-se de um técnico Escoteiro e trabalha como profissional conforme é solicitado nos estados e em grupos. Chega a ponto de alguém contratá-lo para organizar uma tropa, fazer um acampamento, preparar chefes escoteiros, substituir chefes em férias ou viagem enfim múltiplas funções. Aqui acredito que eles irão demorar em existir. Agora bem diferente do Profissional Escoteiro. Sua função é outra. Para isto deve ser bem treinado, pois irá lidar na comunidade em busca de apoio financeiro e apoio logístico.
        Eles também são muito úteis com bons programa de expansão do escotismo. Isto falta para que nosso escotismo dê um grande salto, principalmente por reconhecimento das autoridades municipais, estaduais e federais. Impossível para amadores executarem esta tarefa. Vou lhe contar uma história que aconteceu comigo a muitos e muitos anos atrás. Recebemos a visita de um antigo profissional já conhecido do CIE (Conselho Interamericano de Escotismo) hoje mais conhecido como Oficina Scout Interamericana. Não sei se realmente se chama assim, mas isto não importa. Não me lembro agora do nome do profissional que nos visitou. Eu já o conhecia de outras visitas com outras finalidades. Uma pessoa muito simpática e quando vinha ao Brasil parecia pisar em ovos. Mais tarde explico por que.
        Seus lideres conseguiram em vários países através de uma grande campanha financeira e até com boa ajuda da BSA, uma quantia razoável para a expansão do escotismo na América do sul. Foi feito um plano que chamaram de Projeto 2.000. Um plano simples, mas eficaz. Deu certo em vários países menos aqui no Brasil. Vamos a ele – Contrata-se um Profissional Escoteiro que em principio deve conhecer bem o escotismo, paga-se um bom salário (acho que hoje seria por volta de dois mil e quinhentos dólares) No contrato ele receberia integral no primeiro ano, setenta por cento no segundo e no terceiro só trinta por cento. Após o quarto ano a verba seria suspensa. Ele continuaria como profissional, mas teria que fazer seu próprio salário.
         Enfim, O projeto consistia em escolher uma área, que seria denominado distrito e o profissional iria allí desenvolver o escotismo com objetivo de em menos de três anos ter dois mil escoteiros. Nota-se que a área não poderia ter nenhum grupo. O próprio Profissional do CIE iria treinar os profissionais escolhidos no Brasil, pois o projeto iria abranger mais de oito estados brasileiros. Ele o profissional iria aprender como manter contatos e se relacionar com fábricas, igrejas, comércios, empresas diversas, enfim a seara para desenvolver o escotismo na área. Ele seria responsável para arrumar sedes, chefes, diretorias e principalmente os meios necessários para prover todas as necessidades do Grupo Escoteiro no seu início. Depois a diretoria seria a responsável. Pensava-se que cada grupo Escoteiro teria por volta de cem membros. Portanto teria de ser organizado mais de 20 grupos.  De toda arrecadação que conseguisse na comunidade, teria uma porcentagem para suprir seu salário, seu escritório e futuramente auxiliares.
        Um grande plano. Foi-nos passado que deu certo em muitos países. Se desse certo no Brasil teríamos em três anos mais dezesseis mil escoteiros desta vez em grupos bem organizados e estruturados. Mas o plano não iria parar por aí. A própria UEB daria prosseguimento em outros estados e a expansão nos demais estados onde foi implantado. Belo Plano. Belo mas no papel. Aí começaram as dificuldades. Chefes Escoteiros com ciúmes do profissional. Trabalho inteiramente diferente, mas os chefes não viam isso. Muitos desempregados ou mal pagos assistiam com criticas o desenrolar do Projeto. O Distrital da área achava que o outro profissional era pago e ele não. Muitas vezes dizia que era preterido pela região me razão do outro.  Vários amigos escoteiros sem condições insistindo para serem escolhidos. Os ciúmes e dúvidas também chegaram à direção regional. Algumas delas achavam que o profissional do CIE era mais importante e a palavra final nunca eram deles.
         Finalmente soube que dois estados aceitaram. Em um atingiu-se parcialmente o desejado no outro se extinguiu em menos de um ano. A índole do Chefe escoteiro em nosso país se firma muito no servir e muitos não sabem discernir entre o profissional e o Chefe Escoteiro voluntário.  Veja bem, soube que a BSA (sempre ela, mas é nosso referencial) tem centenas de profissionais Escoteiros e também muitos Escoteiros Profissionais. São designados para todos os distritos nos estados e o resultado é surpreendente. Nunca teria os cinco milhões que hoje possuem de membros se não fossem o trabalho dos profissionais escoteiros e olhe, estão lutando para em dez anos chegarem aos trinta milhões de escoteiros! Lá se faz um trabalho sério.
        Difícil no Brasil pensar assim. Somos leigos neste assunto. Vou lhe dar outro exemplo. A muitos e muitos anos atrás um estado no Brasil através do seu presidente contratou um Profissional Escoteiro com experiência em outros países. Como o Presidente era pessoa bem relacionada e um profissional experiente na comunidade e em suas empresas o sucesso não se fez esperar. Combinou-se com ele (o profissional) uma porcentagem em todas as arrecadações e se não me engando era coisa de dez por cento. Ele conseguiu tanto dinheiro que os dez por cento se transformou numa fábula de salário. Daí para os ciúmes, desavenças (ele passou também a colaborar como técnico em cursos) foi um passo. Eu mesmo fui visitá-lo uma vez. Recebeu-me muito bem e me ofereceu um uísque importado. Um absurdo na mente dos voluntários escoteiros. Quando foi eleita nova diretoria mandaram-no embora. Como dizem por aí, o leite secou. A região empobreceu.
         Na década de sessenta e setenta, um Profissional da UEB deu grande contribuição para o desenvolvimento Escoteiro no Brasil. Ficou muitos anos, pois era uma pessoa bem relacionada e amiga. Deu enorme contribuição para a formação de muitos escotistas em vários estados brasileiros onde aplicou cursos e palestras diversas. Com exceção do novo Profissional contratado pela UEB recentemente, há muitos anos não temos ninguém nesta seara. Claro, as leis trabalhistas no Brasil muitas vezes prejudicam em muito a contratação de um profissional. Não sei das regiões, mas acredito que nenhuma possui um profissional Escoteiro como se espera. Nada a comparar com funcionários executivos dos escritórios locais.
         Agora veja bem, já pensou se cada grupo tivesse um? Não precisava ser um alto executivo. Mas deveria ser alguém bem treinado para se sair bem em suas funções. Quais? Acho que deveria ter boa escolaridade e melhor se fosse curso superior. Trabalhar no comercial local da sua comunidade em busca de sócios, colaboradores e doadores ao Grupo Escoteiro. Já pensou? Mas quanto ele receberia? Salário seria impossível. Nenhum grupo teria condições de pagar um profissional assim. Mas e se lhe dessem vinte por cento de tudo que conseguisse? Será que os grupos topariam? Mesmo? Acredita nisto? E se amanhã ou depois ele conseguisse arrecadar mais de trezentos mil por ano? Muito? Menos? E ele ficaria com vinte por cento?
        Claro que haveria gritos, sussurros, reclamações, pois dificilmente a maioria dos escotistas dos grupos escoteiros no Brasil atingem um salário como o executivo iria receber. E depois até onde ele iria? Conseguido os valores programados poderia abrir um escritório seu ou ficaria no próprio grupo? E o Diretor Técnico? Os Presidentes? Passariam a exigir dele como exigem do voluntário? Ouve uma época que a UEB desenvolveu um Curso de Profissional Escoteiro. Não conheci o curriculum do curso. Os resultados foram pífios. Não sei se deram continuidade. Muitos senões, muitos ventos a favor. O "Velho" parou de falar. Para mim seria um tema que achava deveria ser obrigatório em todos os órgãos escoteiros. Nunca seriamos nada em termos de quantidade e qualidade para comparar a tantos outros países sem bons profissionais escoteiros em número razoável atuando em todo Brasil.
          Nenhum plano de expansão teria êxito sem eles. Não sei o que estão fazendo, quais os planos, objetivos, mas seria bom que todos pensassem a respeito. Um profissional hoje é um pingo d’água no oceano. Tomei um café rapidamente e me despedi do "Velho". Um abraço afetuoso e fraternal. "Velho"! Eu disse, eu voltarei! O "Velho" riu, mas vi em seus olhos pequena gotas de lagrimas escondidas. Desci as escadas sem olhar para trás. A lua enorme mostrava toda sua força provando que Deus existe. Um vento frio e gostoso soprava em uma brisa leve e intermitente. Um profissional Escoteiro será que eu poderia ser um? Risos. Acho que não. Os jovens são meus preferidos. Um mês e quinze dias sem ver o "Velho". Meu coração ia aguentar?

“Siga tranquilamente, entre a inquietude e a pressa, lembrando-se de que há sempre paz no silêncio”. Tanto quanto possível sem se humilhar, mantenha boas relações com todas as pessoas. Fale a sua verdade mansa e claramente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes, pois eles também têm sua própria história.

sábado, 19 de maio de 2012

As saborosas dicas do "Velho" Chefe Escoteiro

“Às vezes pensamos que os defeitos atrapalham, mas na verdade eles ajudam a crescer”.

As saborosas dicas do "Velho" Chefe Escoteiro – Fasc. 73

Não sei por que, mas eu gosto de domingos. Diz a minha esposa que é para conversar e filar a “boia” na casa do "Velho" Escoteiro. Pode ser. Mas é o dia que levanto tarde, viro o relógio ao contrário, e durmo a mais não poder. Disse o nosso fundador que quem dorme pouco vive mais. Prefiro viver menos. Risos. Mas quem como eu cedo madruga de segunda a sábado merece. Afinal depois de dormir tanto, tomar um belo café e ir para a casa do "Velho" onde a Vovó se esmera em um esplendido almoço? E depois ir para a “sala grande” sentar no meu banquinho de três pés e tirar um belo cochilo ao som de Wendell, Chopin, e tantos outros que me deliciam nestas lindas tardes que passo com o "Velho". E depois não vai faltar meu aprendizado Escoteiro. Pena que muitos não têm esta possibilidade de aprender com aqueles que têm experiência. E olhem, conheço vários que não dão o menor valor.
Aquele domingo foi demais. A Vovó preparou um feijão tropeiro a mineira de tirar o folego. Como comi meu Deus! E ainda arrisquei com uma “gelada” no ponto. Lá estava eu depois do almoço a tirar meu cochilo e o "Velho" sempre me surpreendendo. A música começou a jorrar de mansinho e logo vi que era “A Fiandeira” de Villa-Lobos, ou melhor, Heitor Villa-Lobos, o maior compositor brasileiro de todos os tempos. Ficou conhecido por elevar o espírito nacionalista em suas músicas mesclando elementos do folclore, de cantos populares e da cultura indígena brasileira. Sempre foi envolvido com a música desde criança e com o passar dos anos sua paixão só fez aumentar e a cada vez mais envolver seu país em suas composições. Heitor levou a música Brasileira a ser conhecida e admirada em diversas partes do mundo e é referência para todos aqueles que são envolvidos com a música e suas sensações.
Minha alegria não durou muito. O "Velho" e seu maldito “pigarro” (desde que parou de fumar seu indefectível cachimbo tornou-se um vicio seu pigarro) logo me acordou e me olhava como se eu fosse uma alma do outro mundo. – Como você ronca eim? Parece um daqueles tratores da Caterpillar um D-8 ou um D-12 quebrando pedras. Tive que rir com sua maneira de falar. Eu sabia que não roncava. Ficamos ali a sorrir um para o outro. Eu porque tinha nele um amor como se fosse meu pai e ele, e ele, bem ele eu não sei, mas acho que gostava muito de mim, pois afinal era o único que o visitava e o fiz como um amigo. "Velho"! Perguntei. Tenho notado que as ideias de programas para muitos de nós na tropa não estão muito claras. Você tem algumas digas para que eu possa passar para os meus amigos de tropa?
Ele fechou os olhos pequenos, azuis como o fundo do mar (estou filosofando) e me disse – Dicas? Quem sabe tenho? Acho que muitos estão esquecendo que o escotismo é feito no final de semana. Duas ou três horas e acabou a reunião. Portanto é um movimento semanal. O intervalo de uma semana a outra desanima a escoteirada. Aparecem na escola ou à noite com seus amigos tantos programas que o nosso tem de se desdobrar para motivá-los. Existe uma preocupação com o novo programa de etapas e junto uma parafernália que aprendem nos cursos e que muitas vezes mais atrapalham que ajudam. Claro tem muitos que por não terem vivencia Escoteira se perdem e ficam sem noção do que programar. Sabe que se eu fosse "Chefe" Escoteiro hoje o que faria? Tudo muito simples. Nada complicado. Primeiro trabalhar com os monitores. Ninguém consegue nada sem eles. Teria uma dedicação exclusiva na formação deles e com isto eu tenho certeza teria um bom sistema de patrulhas funcionando. Primordial também é conhecer individualmente a cada membro da tropa.
Veja você, eu chegaria à sede e iriamos passar uma tarde treinando o passo Escoteiro e o passo duplo. Acredito que todos sabem o que é isto. Veja o orgulho do Escoteiro em saber que seu passo duplo é perfeito. E porque não outra tarde e quem sabe um domingo inteiro no campo treinando semáforas, Morse (tudo preparado antes com as patrulhas na semana) e depois fazer uma competição de sinaleiros? Olhe quase não ficaria na sede. Mesmo em um sábado iria para um local gostoso, e ali treinar pistas. Nada de sinaizinhos de patas tenras. Você já procurou um local onde pudesse treinar e seguir pegadas de animais ou não? Saber qual o peso e altura de quem passou por ali? Quais os tipos diferenciados de pegadas? Ensinar como seguir uma pista simples, com marcação “secreta” criada pela Patrulha onde só ela sabe seguir a pista? Um local limpo, água para molhar o chão e programa resolvido.
Tem tantas coisas “gostosas” que se poderia fazer que tenho certeza a escoteirada ia vibrar. Um bom jogo de cordas, subindo e descendo, de uma árvore a outra, uma boa competição do “Caminho do Tarzan”. Quem consegue assar uma batata doce em primeiro lugar (fazer fogo, e claro saber como fazer brasas se não ela vai tostar e nunca vai assar) tudo isto através do sistema de patrulhas? Está na hora de mudar, chega do tal pão do caçador. Todo mundo faz e já cansou. Pensou em passar uma tarde inteira, até o escurecer, tentando identificar os pássaros em um bosque, seu habitat, seu canto (sempre se encontra um pai expert no assunto). E porque não pescar? Sabia que nenhum Escoteiro deve ir para o campo sem ter um pequeno bornal na mochila com pequenos apetrechos de pesca? Um cabo, (nylon), dois anzóis pequenos e medios, uma chumbada pequena e pronto. Tudo acondicionado em uma latinha com tampa. Comer lambaris fritos, uma delicia!
Que tal uma reunião exclusiva para aprender a ler mapas, fazer um esboço de Gilwell? Aprender a identificar os pontos cardeais, colaterais, subs-colaterais, azimute, graus e tudo feito por patrulhas se possível com bussolas Silva ou Prismáticas? Dizem que a bússola Starter 123 da Silva é uma excelente escolha aos iniciantes no universo da orientação, não sei. E a cada sábado um novo programa simples, já pensou uma tarde inteira preparando uma corrida de bigas com boas amarras paralelas, quadradas, tripés e porque não muitas costuras de arremate? Todos fazendo simultaneamente por Patrulha?
"Velho"! Quantas ideias! Sabe que nunca pensei assim?  - O "Velho" me olhou, piscou os olhos e disse – Porque hoje nos cursos se preocupam com um programa fixo, dizendo ser moderno mais adequado ao método educacional, sem aberturas ou se existem não ensinam como atingir a motivação da escoteirada. Da um sono enorme os programas de hoje. Tudo na base da Sigla – BOICJ – Risos, não sabe? É o inicio dos programas – Bandeira, oração, inspeção, chamada e jogo. Eu chamo de “boicote a bons programas” E depois? Lá vem um adestramento, uma palestra, um jogo novamente, quem sabe uma canção e lá está o pobre do "Chefe" Escoteiro a esticar o braço, fazendo sinais e a escoteirada bocejando, olhando para os lados e pensando – O que estou fazendo aqui? E todos ficam torcendo para aquilo terminar e voltarem para suas casas, pois lá eles podem inventar e aqui não. Aqui ninguém os consulta o que querem o que está ruim, como melhorar.
- O "Velho" continuou – Mas porque não cantar? Quem sabe uma competição inter-patrulhas da melhor canção Escoteira interpretada e claro de uma maneira agradável aos ouvidos? Outra com cada Patrulha criando uma nova canção. E escolher a melhor com um júri formado pelos próprios escoteiros? Olhe, tem tantas coisas que você pode fazer para motivar, dando um escotismo mais técnico mesmo que você não conheça as técnicas escoteiras. Já disse uma vez que a melhor maneira de aprender é junto aos monitores e afinal quantos estão fazendo isto? Quantos estão reunindo em dias alternados, fazendo excursões, acampamentos com seus monitores e subs? Garanto que os que assim fazem não têm problemas de escoteiros desanimados. Reuniões nos padrões hoje, com esta crença de que os tempos são outros, que agora a internet rouba os meninos das reuniões, para mim é balela. Agora perguntar a ele sua preferencia não adianta. Se ele não vivenciou o passado como escolher?
- Chame seus assistentes, diga que vai mudar, não espalhe aos quatro ventos o que vai fazer. Faça. Olhe nos olhos dos escoteiros e depois diga para você mesmo se valeu a pena mudar. Passe uma reunião inteira com eles a afiar uma ferramenta, olear, manter e acondicionar sem perigos de acidentes. Ensinar a dobrar uma barraca, ensinar a manter uma intendência de Patrulha dentro dos padrões, e até dizer, quem quer ser o Escriba da Patrulha? O Cozinheiro? O Aguadeiro? O Enfermeiro? O Intendente? O Faz tudo? Não ria, é verdade, poucas tropas tem nas patrulhas a divisão de trabalho. É tão bom ver o sorriso de uma jovem ou de um jovem Escoteiro quando vê que o programa mudou. Que agora eles vão sair mais para o campo, que não vão ficar presos naquela rotina de sede. Você já levou seus escoteiros a noite, para um local descampado, onde não existem casas, levou algumas lonas, deitaram na relva sobre elas e você e seus monitores a olharem para o céu e identificar as estrelas? As constelações? Por acaso não seria interessante ir toda a tropa uma tarde ao cinema? Assistir um filme que eles escolheram? Passear no shopping com todos eles? Meu Deus! Que marketing você iria alcançar para seu grupo. Claro uma preparação é importante. Já dizia BP que devemos sair de nossa rotina para alargar nossa mente. Saia mesmo da rotina que faz hoje.
- Portanto meu amigo esqueça as duas ou três horas que vai passar com eles. Elas não são nada. Se você não aproveitar agora não adianta reclamar que os jovens estão desanimados, que estão desistindo. Faça programas com atrativos. Existem centenas. Esqueça aquele programa que é repetitivo em toda reunião. Inverta os valores, inverta a sequencia. Nosso fundador já dizia que nosso método é fazer acontecer ao ar livre. Saia desta rotina. Não existem cidades no Brasil onde não se pode fazer um bom escotismo no campo. Olhe, ouve uma época que tirávamos um domingo por mês, eu e alguns assistentes, íamos passear em estradas secundárias, a pé ou de automóvel a procura de bons locais de acampamento. Pergunta aqui, ali, fazendo amizades e sempre descobrimos belos locais que até hoje estão marcados na memória. E os Pais? Fale com eles, darão excelentes sugestões.
Mas é preciso saber manter estes locais. Respeitar normas, deixar sempre limpo, agradar ao caseiro ou o vigilante, mandar sempre uma cartinha ao proprietário agradecendo. Se um dia ele estiver lá no campo, convidar a tropa para ovacioná-lo, entregar a ele o lenço do grupo (esqueça essa de promessa, ele nem sabe o que é isto) diga umas palavras de agradecimento e pronto, o local para acampar será eterno. E não esqueça, no final do acampamento todo alimento que sobrou, vai para o caseiro, ou para alguém humilde que resida lá.
Ponha a “cuca” para funcionar. Existem vários temas deliciosos que sei os escoteiros irão adorar. O que fazer com o Lenço Escoteiro? O que fazer com o Bastão Escoteiro? Quantas tipoias fazem de olhos vendados? A Patrulha é capaz de fazer uma maca com os olhos vendados e levar alguém dá Patrulha até um local determinado? E o jogo do Kim? Tantas variações que não pode ser esquecido. Muitos dizem que não vale a pena, mas seus escoteiros sabem usar a faca Escoteira? O facão? A machadinha? Sabem usar o serrote? Já fizeram talas? Sabem fazer com maestria fossas de líquidos e detritos com tampa? Automática? Risos.  Sabem sentir o vento, de onde vem e para onde vai? Tentar se aproximar ao máximo de um animal sem ser percebido? Qual seu recorde? O meu é três metros com um quati. Já treinou com eles vestir o uniforme em quarenta e cinco segundos?
- Meu amigo continuou o "Velho" – Programas bons existem aos montões. Quer mais um? Uma tarde em local apropriado, deixar que individualmente cada um faça um fogo, que deve durar mais de vinte minutos sem alimentação e acender com um só palito de fósforo. E quem sabe, aqueles que conseguirem serem batizados com nomes indígenas escolhidos por eles mesmos? Saltando a fogueira três vezes e gritando seu nome de Guerra? Perca uma tarde deixando que cada um faça uma armadilha para pegar animais ou pássaros, claro explicar que isto só em ocasiões especiais. E não se esqueça de um bom adestramento de orientação pelo sol, pela lua, pelas estrelas, pelas árvores e se puder fique até a noite e mostre a posição das constelações, como elas podem ajudar a achar o rumo correto. Mas lembre-se nada de ficar falando, falando e falando. Seus monitores devem ser preparados e são eles que adestram suas patrulhas.                                                                                                                                                                                               
Fiquei ali a imaginar quantos programas assim eu faria. Quantos desdobramentos. Que reuniões formidáveis seriam. Já imaginava uma excursão a pé, um acampamento volante, uma aventura através de um grande jogo, e olhem, quantas Cartas Prego poderiam ser feitas? – Vi que o "Velho" me encarava como a dizer, faça, não mande fazer. Não pergunte, chame seus assistentes, discuta com eles como fazer e olhe irão aparecer um ou outro que por não saberem ou ainda não vivenciarem tais técnicas poderão discordar.  Mas seja firme. Afinal você está perdendo muito dos seus jovens e não se iluda hoje em dia se fala muito sobre programas, mas bons programas estão escassos. Os programas onde se desenvolve técnicas escoteiras sempre foram os melhores. Horários são importantes, mas tem programas que eles não devem existir, a não ser para o inicio e o final. O meio meu amigo eles que decidem. Tem coisas que são tão fáceis de realizar, arvorar uma bandeira no campo, uma oração e vamos jogar, vamos brincar, vamos aprender, vamos dar motivação e esquecer as velhas reuniões de tropa onde o bocejo fazia parte e agora não vai existir mais. 
O "Velho" calou. Aumentou o volume de sua velha vitrola e os sons de Villa-Lobos tocando “Num Berço Encantado” encheu meus ouvidos de uma melodiosa música que só faz encher de alegria os corações famintos como o meu por uma melodia deliciosa. Fechei os olhos e deixei que Villa-Lobos me guiasse nas sendas de um grande programa escoteiro. Vamos reverenciar ao grande compositor que se destacou por ter sido o principal responsável pela descoberta de uma linguagem peculiarmente brasileira em musica.
Agora eu sei o que vou fazer. Jurei a mim mesmo que a luta para manter a chama de alegria, motivação de todos os patrulheiros na tropa escoteira seriam ponto de honra. Não sei por que, mas achei que mesmo com os olhos fechados o "Velho" sorria!

Podemos crescer não somente pela individualidade, mas em conjunto cooperando com todos pelo bem maior.


domingo, 8 de abril de 2012

O Magnifico Milagre na Montanha da Águia azul. Fasc. 72


O Magnifico Milagre na Montanha da Águia azul. Fasc. 72

Uma vez que você tenha experimentado voar, você andará pela terra com seus olhos voltados para céu, pois lá você esteve e para lá você desejará voltar.

A todos os grupos escoteiros que fazem do escotismo, uma escola de formação de caráter e ética.
       
Um feriado sem graça. Abri a geladeira e fiz um lanche. Dei-me ao luxo de abrir uma cerveja. Minha esposa tinha saído. Era sempre assim nos feriados de meios de semana. Fiquei pensando na reunião marcada no Grupo Escoteiro à tarde com o Conselho da Tropa Sênior. Eles não queriam aceitar a Tropa de Guias junto com eles, renovar as patrulhas, quem sabe algumas com outro nome. Conviver com elas na mesma patrulha. A mesma coisa pensavam as guias. Enfim um tema que daria uma boa discussão. Pretendia ir. Afinal era assistente Sênior. Risos. Sei que estão pensando – Afinal você é insígnia Escoteira e Sênior e ainda é assistente?
      
Interessante mesmo. Nunca me preocupei com isso. Poderia sim ser o Chefe da tropa. Mas o efetivo era um amigão, estava na tropa a mais de onze anos. Agora a pouco foi que consegui terminar e receber a Insígnia Sênior. Esperei dar duas da tarde e fui a pé mesmo para o Grupo. Era perto. Menos de cinco quarteirões. Precisava caminhar. Pediram o uniforme caqui. Claro, adoro este uniforme e a calça curta me faz bem.
   
  Não foi agradável o Conselho da tropa Sênior. Eles estavam exaltados e as moças também. Depois de discussões intermináveis, resolveram que as tropas seriam unificadas, mas com liberdade na patrulha. Elas com as suas e eles também. Claro que não era fácil agir de outra maneira. A tropa de guias tinha duas patrulhas e os seniores três. Um caso inusitado. Cinco patrulhas em uma tropa.  Mas porque isso? Dificuldade na chefia de guias. Eram três inicialmente e agora só uma. Mesmo assim a atual pretendia fazer um MBA (Master Business Administration, ou melhor, Mestre em Administração de Negócios) e seria nos Estados Unidos.
    
O Diretor Técnico foi incisivo. Aceito mas a tropa terá que ter uma assistente feminina, caso contrario não seria possível fazer a unificação. Os chefes ficaram encarregados de convites a alguma pioneira ou mesmo a alguma mãe. Foi uma reunião extenuante. Começou às duas da tarde e só foi terminar às cinco e meia. Saí da sede e pensei – Porque não ir para a casa do "Velho" Escoteiro? Mais seis quarteirões e às seis da tarde em ponto subi os cinco degraus que dava a varanda da casa do "Velho".
     
Não sei se ele me esperava, mas o som de Vivaldi (Antônio Lucio Vivaldi – 1678/1741) Le quatro stagioni (as Quatro Estações) tocava suavemente na vitrola antiga do "Velho". Pensei em encontrá-lo a dormitar, pois era assim que ouvia seus prediletos, mas me enganei. Estava sentado com a Vovó, num tete a tete gostoso, que eu sempre admirei naquele casal. Juntos a mais de sessenta anos. Cumprimentei aos dois e o "Velho" me olhou de soslaio.
    
Não sei se interrompi alguma coisa, pois ao me verem pararam de conversar. Fiquei sem jeito. Apesar de mais de nove anos frequentando a casa do "Velho" sempre me sentia um estranho. Só uma vez subi no segundo andar quando o "Velho" passou mais de duas semanas recolhido. Pedi desculpas por interromper. Eles deram boas risadas. – Nada disso meu amigo ele disse, chegou na hora exata.
    
Interessante, pensava em comentar com o "Velho" o tema que vivi hoje na Tropa Sênior e ele me apareceu com outro. Bem diferente. Por esta eu não esperava. Nunca em tempo algum fiquei sabendo do passado do "Velho". Não sei por que nunca perguntei. Desde que o conheci vi que ele e a Vovó tinham uma química incrível. Seus olhares eram doces, e pareciam dizer um ao outro, eu te amo. Para sempre.
      
Agora sim, estava entrando na vida deles. Um sorria para o outro e ele dizia – Vovó, eu nunca esqueci. Ficou na minha memoria. Uma parte da minha vida que valeu toda a minha existência. – Sabe Escoteiro, a vida vale a pena ser vivida quando somos felizes. E quem não quer ser feliz é porque não viveu seus sonhos como eu e a Vovó vivemos. Casamos em outubro, em uma tarde linda que foi o dia mais feliz da minha vida. Casei com ela com meu uniforme. A igreja cheia de escoteiros, pois tinha muitos amigos. Demos uma pequena recepção no Clube Luzes e a meia noite partimos conforme tínhamos programado.

Claro já tínhamos preparado tudo. Vovó topou passar a lua de mel acampado na montanha do Falcão Azul. Eu conhecia bem o local. Uma maravilhosa cascata, uma água límpida que podíamos ver os peixes no fundo e uma gostosa brisa vinda das matas verdejantes do pico do Pastor. Seria uma lua de mel diferente. Não sei se alguém fez uma assim.

– Vovó sorria e olhava o "Velho" com seu estilo de contador de história. Ninguém foi contra – Ele continuou. Meus pais sabiam que eu adorava o escotismo e a Vovó era, foi e sempre será a minha companheira nas minhas aventuras mesmo não estando presente. Pegamos um taxi até a estação. O trem partiu às cinco da manhã. Chegamos a Saltitério as nove.  Eu conhecia o caminho.

Partimos não sem antes comprarmos mais algumas provisões, pois iriamos ficar lá quinze dias. Tinha dito para a Vovó que nossas refeições seriam completadas com as frutas e verduras que encontraríamos lá. Bananeiras, alguns pés de goiaba. Limão e peixes à vontade. Você sabe, Vovó é uma cozinheira de mão cheia. Foi uma subida e tanto. Eram mais de três da tarde quando avistamos o ninho da Águia Azul. Eu assim tinha apelidado o local.

Os primeiros dias foram para montagem do campo. Vovó era uma mateira de mão cheia. Claro, quando namorávamos e depois que nós ficamos noivos eu tinha ensinado a ela todos os truques de um bom “mateiro acampador”. Construímos um verdadeiro lar onde poderíamos ali viver muitos anos. Um Banheiro com WC perfeito. Trouxemos água por bambus até ele. Nossa cabana era de dar inveja. Uma cama casal, e forrada com capim colonião junto com folhas de bananeira.

Se chovesse poderíamos atravessar sem problema até nossa sala de visita/jantar, onde fizemos uma linda poltrona e uma mesa rústica com bambus. O que deu trabalho foi o forno, pois tive que andar bastante. Descobri um “barro branco” especial na subida da Lagoinha. Perfeito para o forno. Como nos divertimos. Não parávamos um só instante.

Excursionávamos pelas redondezas, banhos de cachoeira varias vezes ao dia, cantorias à noite e sonhar com as estrelas brilhantes no céu. Sabia localizar com facilidade a estrela Altair e Antares. Mas disse para Vovó uma noite – Olhe Vovó – Aquela será a nossa estrela. Toda vez que a ver, sabemos que ela é nossa. Fará parte da nossa vida para sempre! Era a estrela de Capella. Onde um dia disseram que a vida floresceu.

Tudo era maravilhoso. Incrível nossa lua de mel. Fazíamos amor na curva do rio, nas trilhas do Pastor, deitados na relva onde sempre ficávamos até de madrugada. Um dia fizemos amor debaixo de uma chuva torrencial. Uma experiência incrível. Não havia relógio, tempo, nenhum som a não ser o cantar dos pássaros, o som gostoso da cascata, o piar da coruja no carvalho, o farfalhar das árvores com o vento e o bater de asas dos beija flores que se esbaldavam nas flores silvestres.     

Vivíamos em plena felicidade. Uma alegria sem fim. Tínhamos Deus como nossa proteção. O perigo era quase nenhum.  Não me lembro bem, mas acho que foi no sexto dia que vi uma Águia Azul, enorme. Estava pousada em um galho de uma bela figueira, frondosa e notamos que ela vinha quase todos os dias. Sempre nos observando e olhe não tinha medo de nós. Várias vezes ao dia ela abria as asas e pensei que tinha mais de um metro de envergadura de uma ponta a outra.

No decimo terceiro dia aconteceu o acidente que marcou nossa lua de mel Escoteira e que nunca mais acho, haverá uma igual esta. Estamos abraçados no caminho do campo do Pastor e avistamos umas flores diferentes e não consegui identificar. A Vovó resolveu ir até lá e colher algumas. Ficamos ali por meia hora e no retorno não percebi um barranco íngreme a nossa direita. Escorreguei, a Vovó também. Caímos por mais de quarenta metros. O pior notei que tinha uma fratura exposta no pé. Bem junto ao tornozelo. Vovó não teve nada a não ser uns arranhões.

Sabia que não tínhamos condição de subir. Era íngreme e do jeito que estava só mesmo homens fortes para me tirar dali. Mas a Vovó não se entregou. – Você minha velha sempre foi uma grande companheira. Eu nunca deixei de usar minha faca Escoteira. Ela com a faca saiu e voltou com diversos galhos. Vovó era demais. Não sei como, conseguiu também metros e metros de cipó trepadeira. O melhor para amarras. Não foi rápida, mas conseguiu fazer uma pioneiria tipo biga, bem forte. Antes fez uma espécie de tala. Doeu muito. Era uma dor incrível.

Olhava para o "Velho" e a Vovó e eles sorriam um para o outro quando contavam esta incrível narrativa que eu desconhecia da vida deles. Foi a Vovó que continuou. – Não foi fácil fazer a biga. Mas era a minha única saída. Iria amarrar o "Velho" nela e arrastar ali naquela fenda na rocha, pois não sabia onde ia dar. Eu era magrinha, estava com dezoito anos, mas tinha força. Tinha mesmo. Tudo pronto com o "Velho" amarrado olhei para um lado, para o outro e vi a Águia azul pousada próximo a nós.

Parecia fazer sinais com a cabeça, abriu as asas e seguiu rumo sul. Foi o caminho que segui. Difícil à caminhada. Muito difícil. Arrastar o "Velho" não era fácil. Andei uns trezentos metros e vi a Águia de novo. Ela fazia seu sinal, levantou voo agora para noroeste. Lá fui eu no mesmo rumo. Mais duzentos metros. Lá estava novamente a Águia a fazer sinais. Eu não aguentava mais. O "Velho" gemia. Olhava para mim, sorria e gemia.

Sempre insistia para deixa-lo ali e procurar ajuda. Mas eu sabia que não era fácil. Sabia que a estrada estava a quilômetros dali. A noite chegou. Não tinha percorrido nem um quilômetro naquela fenda. Resolvemos dormir ali. A perna do "Velho" começou a inchar. Achei que iria chorar, mas o "Velho" começou a cantar a “Terra do Belo Olmeiro” uma canção que ele disse ter aprendido com escoteiros canadenses. Uma história linda, dos caçadores de pele dos grandes lagos a procura de peles de castores que não mais existiam. Acalmei-me. Dormi um pouco. Acordei de madrugada. Assustei, pois a Águia estava ali bem perto de nos a fazer os mesmos sinais.

Resolvi continuar mesmo no escuro. A Águia voava sobre a minha cabeça. De vez em quando sumia e voltava. Andei a esmo, seguindo a Águia. Assustei-me. Vi a menos de cem metros uma cabana. Incrível. Tinha claridade. Bati na porta. Dois homens abriram. Eram caçadores. Ajudaram-me. Tinham uma mula. Levaram o "Velho" para a cidade. Um deles me disse para não preocupar. Iriam até nosso acampamento e levariam tudo para nós em Saltitério. Olhei para o alto e lá estava a Águia Azul a voar e desta vez ela partiu.

Eu sabia que ela não voltaria. Sabia que ela sentiu seu sangue de Águia correr em suas veias e perfilou devagar suas asas partindo em um lindo voo até que desapareceu no horizonte azul. Não tinha explicação por tudo que aconteceu. Mas foi graças a Águia Azul que consegui chegar até a cabana. Chorei quando ela se foi. Eu não disse adeus. Não sabia dizer muito obrigado a uma Águia.

O "Velho" olhou para a Vovó. Depois olhou para mim. Olhe Escoteiro, voltamos lá cinco anos depois. Nosso acampamento estava seco. A cabana tinha caído. Ficamos lá por três dias. A Águia não apareceu. Vimos um casal de quati que dormitava sempre próximo ao remanso da curva do riacho. Queria encontrá-la novamente. Deveria haver uma forma de agradecer. Mas depois pensei bem e cheguei à conclusão que ela era como nós. Fazemos nossa boa ação sem olhar a quem. Sem esperar recompensas.

Fiquei ali pensando em toda a história que o "Velho" e a Vovó me contaram. Uma história sem precedentes. Eram eu sabia um casal maravilhoso. Nunca os vi discutindo. Sempre um concordando com o outro. Sabia que o "Velho" amava perdidamente a Vovó. E sabia que a Vovó amava perdidamente o "Velho". Olhei para eles, estavam se beijando. Um beijo doce. Na face, nos olhos nas orelhas e nos lábios. Estavam ali revivendo e vivendo novamente uma lua de mel doce, suave, melódica e achei que era um intruso.

Sai de mansinho. Abri o portão e parti para minha casa. A rua estava deserta. Havia estrelas no céu. Procurei olhar bem, mas não sabia qual era a mais brilhante. Gostaria de saber qual era a Altair, ou a Antares. Daria tudo para ver a estrela brilhante de Capella. Sorri para mim mesmo. Meus pensamentos eram um só. O "Velho" e a Vovó.

Deus me deu muitas alegrias na vida. Mas agora eu sorria e agradecia a ele por ter me dado à oportunidade conhecer a Vovó e o "Velho". Uma brisa forte me acariciou o rosto. Um pingo de chuva bateu de leve em minha face. A chuva chegou sorrateiramente. Sorri. Não corri. Deixei as gotas de chuva molharem meus cabelos, minha face, meu corpo. Quem me visse achava que era um louco. Pois debaixo da chuva sorria e cantava alto a pleno pulmões a “Terra do belo Olmeiro” O "Velho" me ensinou. Gostava dela. O mundo é feito de doces momentos e eu agora vivia a mais suprema felicidade do mundo.

ذ Terra do belo Olmeiro, lar do castor,
Lá onde o alce airoso, é o senhor.
Ao lago azul rochoso, eu voltarei de novo!

Viver sem ser amado é como cortar a asas de um pássaro e tirar sua capacidade de voar. E se eu pudesse contar contaria as estrelas, se pudesse voar voaria pro céu, como não posso contar as estrelas nem voar para o céu; contarei os meus dias até voar para os teus.