Historias e estorias que não foram contadas

Historias e estorias que não foram contadas
uma foto, de um passado distante

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Era uma vez... Um "Velho" Chefe Escoteiro. (Fasc. 080)


Escolher o dia. Apreciá-lo ao máximo. O dia como ele vem. As pessoas como elas vêm. O passado, eu acho, me ajudou a apreciar o presente, e eu não quero estragar nada disso por idealizar um futuro.

Era uma vez... Um "Velho" Chefe Escoteiro. (Fasc. 080)

                      Eu estava ali, como fazia todas as quintas feiras, na sala grande sentado no meu banquinho de três pés e o "Velho" Escoteiro de olhos cemi cerrados na sua poltrona de vime, já gasta com o tempo parecia dormitar. Os minutos corriam as horas também e resolvi ir embora. O "Velho" nada dizia e como o conhecia de longa data achei que estava num daqueles dias onde não falava, não ria e serrava os olhos como se dissesse não querer escutar nada. Quantos anos eu o conhecia? Mais de quinze se não me engano. Fiz quinze anos de escotismo o mês passado. Entrei por causa dele. Eu o amava como se fosse meu pai. Amava também a Vovó uma mulher incomparável. Ele beirando os oitenta e seis anos e ela com seus oitenta. Levantei e falei baixinho – Fica com Deus "Velho" Escoteiro. Vou deixar você só. Boa noite! Ele sem abrir os olhos falou com voz pausada e baixa – Não vá. Não quero ficar sozinho agora!

                      Ele levantou e vi que estava sério cabisbaixo e pensativo – Sem me perguntar nada começou a falar – Será que valeu a pena? Tenho me perguntado quase todos os dias. Será que valeu a pena? Minha vida poderia ter sido outra. Quem sabe seria bem melhor? – Não estava entendendo o "Velho" Escoteiro. – Ele continuou – Você me conheceu já adulto. Ficamos amigos. Hoje é praticamente o único amigo que eu tenho. Nasci aqui neste bairro, nesta casa, e quantas e quantas pessoas um dia entraram por esta porta, sentaram nesta poltrona. Onde estão eles? – Dos que cresceram comigo no escotismo eu sei que resta dois ou três que se arriscam a me visitar. Daqueles que fiz ser alguém no Grupo Escoteiro se os quiser ver tenho que ir lá ao grupo. Lutei em todas as frentes possíveis para ver o escotismo ser reconhecido pela nossa sociedade brasileira. Dei cursos, dirigi seminários, fiz milhares de palestras por todo país.

                       - Houve uma época que nós os adestradores tínhamos força na liderança nacional. Um dirigente que ainda não participava junto com outros mudou os estatutos e o regimento e nos deixou de fora. Sei que hoje eles não se incomodam com isto. Se sentem satisfeitos com o “modus vivendi” que mantem entre si. Claro formaram uma “casta”. Quando tinha forças eu participava nos Congressos que resolveram chamar de Assembleias. Adoram mudar. Depois não deram mais ouvido a ninguém. Tento achar uma explicação para entender o que fizeram e até hoje ainda sou um pensante sem ação. Chegaram a uma conclusão tal que as mudanças foram em séries. Tudo aquilo que demorou anos para ser criado, efetivado e se tornado um hábito de comportamento foi alterado.

                        - É meu amigo. A gente vai vivendo e vendo horrorizado isto que vem acontecendo. E impotente. Uma vez um Escotista teve a audácia de me dizer que existia o lugar próprio para reclamar, sugerir e mudar o que se fizesse necessário. Falar o que para ele? Que participei dezenas de vezes, que tudo ali já tinha sido discutido e aprovado em quatro paredes, que esta conversa de ter voz e voto não tem nenhum sentido lá? E veja meu amigo. Com uma tacada acharam que deveriam mudar o programa. Acharam. Meia dúzia achou. Ninguém foi consultado. A escoteirada? Passaram longe. Tudo bem. Se queriam mudar que mudassem, mas não, atrás do bem mais precioso que todo Escotista ou Escoteiro daquela época lutaram para conseguir eles acabaram com tudo. Lá foi a primeira e segunda estrela. Lá foi a segunda e Primeira Classe. Lá foi as eficiências seniores.

                        - As bandeirantes tem uma lei federal em que diz que só ela pode ter meninas no escotismo. O maioral na época fingiu uma aproximação e numa só tacada colocou as moças na associação. Até aí não discuto. Acho que foi uma das boas coisas que aconteceram. E se não fossem elas, nosso efetivo que eles alardeiam estar crescendo estaria pela metade. Observe que elas crescem e os meninos diminuem. Não contente começaram a mudar também normas e hierarquia. Enquanto no país onde começou o escotismo ainda tem o Comissário e o Escoteiro Chefe aqui não. Mudaram para presidente e diretor. E assim foram mudando. Mudaram a flor de lis, mudaram coisas que interpretávamos como imutáveis tais como a trilha, a rota a ponte e continuam mudando. Não duvide se um dia mudarem a promessa. Já ouvi buchichos que vão substituir os deveres para com Deus. Pode isto? Claro é só buchicho.

                     - Olhei para o "Velho" Escoteiro. Vi que ele estava triste. Precisava desabafar. Esqueci a hora. Precisava ficar ali com ele. – Sabe meu amigo continuou – Dizem que quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado. Você eu sei pensa assim também – Não disse nada. Fiz um gesto com a cabeça. Bob Marley foi inteligente em dizer que um povo sem conhecimento, saliência de seu passado histórico, origem e cultura, é como uma arvore sem raízes. Ninguém mas ninguém mesmo disse alguma coisa nos últimos trinta anos. Acostumaram. Não estranham. Sei que agora existe uma revolução silenciosa se movimentando. É bem melhor que aquela que nada fazia ou dizia.

                   - O pior meu jovem amigo, é que muitos que estão a mudar não têm nenhuma experiência no assunto. Idealizaram, raciocinaram discutiram com alguns e pronto. A mudança veio. Se de uma época a BSA que é a quem dirige o escotismo americano quando decidia mudar alguma coisa sabe o que faziam? Pegavam quatro ou cinco tropas, pois lá não tem o Grupo Escoteiro como unidade e fizeram experiências por anos e anos, com profissionais escoteiros observando e depois vendo o resultado com o jovem já adulto. Aqui? Mudam a bel prazer. Amanhã é assim. Conto a dedo estes membros do CAN e do DEN e claro os formadores que podem dizer que adquiram experiência nos seus grupos de origem. Eu conheço muitos que nunca os vi em atuação e quando assim o fizeram não tiveram o sucesso que se esperava. Hoje alardeiam conhecimentos que não passam de mera retórica.


                - O "Velho" Escoteiro parou de andar. Ele agora sentado estava de cabeça baixa. – Eu já contei para você que entrei como lobinho. Fui Escoteiro e Monitor. Fui Sênior e Pioneiro. Rodei meio mundo. Os amigos que fiz no exterior aqueles ainda vivos nunca deixaram de me escrever. Não posso reclamar. Tive grandes aventuras. Você sabe. Já acampamos juntos quando resolveram fazer uma jornada sem me convidarem. Eu me convidei. E se não fosse eu teria entrando bem no caminho escolhido.  Eu vi jovens crescerem. Eu vi jovens na comunidade. Eu vi jovens que retornaram ao movimento Escoteiro e hoje se pode acreditar no escotismo que estão fazendo com suas sessões. Não adianta nada alardear conhecimentos se na prática não se fez nada daquilo.

                 - Sabe meu jovem amigo, acho que eu vou mudar. Vou me dedicar a outra coisa. Acho que vou escrever artigos que falam do Brasil, de outras nações e nunca mais de escotismo. O "Velho" Escoteiro parou de falar. Eu sabia que suas palavras eram bazófias, mas sabia também que tínhamos muitos dirigentes e formadores fanfarrões. Não eram a maioria, mas sabiam onde colocar o dedo e criar novas situações em suas jornadas e em seus cursos da vida. – O "Velho" Escoteiro fez o que quase nunca fazia. Deu-me boa noite, chamou a Vovó que também se despediu de mim e subiram abraçados a escada. Eu me considerava da família. Tinha uma chave da casa. Saí, tranquei a porta e uma chuva torrencial começou a cair. Fui correndo para minha casa a pé. Não deu tempo de pensar e analisar as palavras do "Velho" Escoteiro. Fica para outro dia. Boa noite "Velho" Escoteiro. Boa noite Vovó.




segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Os aventureiros da Serra do Gafanhoto. Fasc. 079/80.


"Vivemos em um mundo maravilhoso que é cheio de beleza, encantos e aventuras. Não existe fim para as aventuras que podemos ter se simplesmente as procurarmos com os nossos olhos abertos."
 (Jawaharial Nehru)

Os aventureiros da Serra do Gafanhoto. Fasc. 079.

Parte I

            - Olhe, você sabe, conheci centenas ou milhares de chefes. Aqui já contei para você muitos deles que passaram pela minha vida. – O "Velho" Escoteiro naquele domingo a tarde estava loquaz. Primeiro deu belas risadas quando comentei sobre um Chefe meu amigo que apesar de debruçarem no processo que faziam para ele fazer jus a uma condecoração ele foi rejeitado. Incrível. Já estava com doze anos de atividade Escoteira, mas os processos iam e vinham. O "Velho" me olhou e disse – Desisti de lutar contra a maré. Estes dirigentes a cada um novo que aparece se julgam “Deus”. Ditam normas, fazem as leis e se julgam donos da verdade. Minha idade continuou, não permite ficar mais fazendo críticas. Eles são o que são nada vai mudar. Já te disse àquela quadrinha que um dia fiz:

- “Deixe de lado esta mania de grandeza”.
Faça seu trabalho, com poucos, mas com certeza.
Este jogo é como pedra de moinho e,
Se bem aplicado só terás alegria e não tristeza!”

                  - Mas não vamos falar sobre isto. Hoje vamos falar de escotismo puro, escotismo nas veias, não este arremedo que fazem por aí com medo de tudo. De pais que querem mandar, de atividades que não passam de um camping piorado. Isto já virou rotina. Sempre dizendo que os tempos são outros e o perigo mora ao lado. Hoje vamos falar de grandes escoteiros, de grandes chefes. Conheci muitos e acordei lembrando-se Do Chefe Tony Lantras. Acho que em suas veias nasceu para ser um Escoteiro/aventureiro. Sempre foi. Na sua Patrulha quando jovem era um contestador. Queria que os patrulheiros fossem iguais a ele e não se entregassem a rotina das reuniões e das atividades no campo. Foi ele que me transformou em um Escoteiro aventureiro. Saiamos da escola e sempre lá estávamos a explorar o desconhecido. Poderia ser os fundos da Fabrica de Trator que dava para uma pequena mata, poderia ser na caverna da onça na beira do rio e os olhos deles piscavam como se ali fosse um local nunca antes explorado.

                  - Quando passou para Sênior quase foi mandado embora da tropa. Claro ele tentou fazer mudanças nas reuniões e atividades afins, tentou também no conselho da tropa Sênior e da Corte de Honra e nada conseguiu. – Precisamos, dizia ele, sair desta rotina. Precisamos colocar o pé na estrada. Apertar o chapéu na cabeça. Uma bandeira a tremular. Buscar novas florestas, novas campinas, novos vales, subir ou descer um rio, explorar minas abandonadas, escalar picos que nunca fomos. Amigos são tantas coisas! Mas não. Não o entenderam. Ainda bem que fez grande amizade com Nissinho, Monitor da Antares. Um seu fiel seguidor. Por muito tempo esteve ao seu lado até que um dia disse que ia tentar a sorte nas minas de ouro de Serra Pelada e nunca mais apareceu. Enquanto pude eu o acompanhei em muitos lugares que até hoje trago boas recordações. Quando passou para Pioneiro achou que ali teria muitos companheiros de aventura. Mal conseguiu que uns poucos programassem uma viagem no rio Xingu. – Viagem mixuruca, disse ele. A turma só queria paquera! Pode isto?

                     - Eu depois dos dezesseis anos pouco podia acompanhá-lo. Papai começou a sofrer uma paralisia nas pernas e dependia de mim para ficar ao lado dele no escritório. Ele poderia ter delegado a um dos funcionários, pois alem dele tinha mais cinco engenheiros com ele. Achou que eu devia conhecer e aprender e assim só estando presente. Aos dezoito anos entrei para a faculdade de engenharia e isto foi sua alegria até o dia que foi para outras plagas outros planetas no céu. Assumi e aproveitei para ir a muitos encontros e atividades nacionais e internacionais. Fiz amigos na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos e o Jamil de Nagpur da Índia, que até hoje me escreve ou telefona. Mas olhe, eu e o Chefe Tony Lantras não éramos tão chegados. Ele frequentemente sumia e demorava meses para voltar. Lembro que teve casos de ficar fora cinco anos. Deste me lembro de bem.

                    - Sempre me dizia que iria fazer a velha trilha de BP quando foi parar em Mafeking na África do Sul. Eu sei que esteve em muitos lugares. Seu espírito aventureiro não cessava. Quando fez dezoito anos me disse que estava apaixonado pela Pioneira Larissa. Eu a conhecia. Linda. Olhos negros brilhantes, morena clara, educadíssima. Sua vida pregressa como Bandeirante tinha formado além de uma bela moça toda a noção da lei Escoteira do "Velho" Baden Powell. Não durou muito. Ela não queria acompanhá-lo naquelas aventuras fantásticas. Quando ele contava seus olhos piscavam e ela o adorava não só pelo que era, mas pelas conquistas dos seus sonhos. Mas nada, além disto.

                     - Ainda ontem ele passou por aqui. Vi uns olhos cansados, um corpo alquebrado e um sentimento de ter conseguido e ao mesmo tempo ter perdido tudo com sua velhice. Já não era mais o mesmo. Quase da minha idade. Não casou. Ele fez tudo para Larissa o acompanhar. Ela hoje eu sei que casou com o Doutor Nando e dizem que vivem felizes com o casal de filhos que têm em Brasília. Conversamos por horas. Nunca me contou como vivia, pois viajando pelo Brasil inteiro e para o exterior como fazia para pagar as despesas. Soube que uma rede de TV o pagava pelas filmagens e histórias que escrevia. Uma noite que nunca esqueci contou-me belas historias sua no Nepal. Quem diria. Estávamos juntos acampados no Cabo das Agulhas, bem ao extremo sul do continente africano, pois nos disseram que ali os Oceanos Índico e Atlântico se dividiam formando a famosa Corrente de Benguela. Dizem também que era a rota mais perigosa. A Rota dos Clippers. Não vimos nada disto, mas as belas paisagens compensou sem sombra de duvida a viagem.

                      - Lembrei-me também de quando juntos estávamos a viajar a cavalo pelas planícies de Oklahoma nos Estados Unidos e ele rindo fazia biquinho com seus lábios finos para me explicar – “Sua pronuncia do nome do estado é péssima. Diga Okla-homa. É a língua Choctaw. Okla – gente – humma – vermelha”. Peles-Vermelhas. E ele ria. Era assim continuou que se chamava esta região quando os índios vieram habitá-la. Foi uma aventura e tanto. Ficamos mais de um mês para atravessarmos uma porção de terra de pouco mais de quinhentos quilômetros. Uma terra vermelha, argila vermelha até onde a vista poderia alcançar. O por do sol parecia refletir a vermelhidão do panorama e às vezes os nossos olhos nos enganavam, pois tudo transformava em escarlate. Tens sede? Tens fome? Estás cansado? E Tony Lantras ria de montão. – Faça como Moisés quando o Anjo lhe disse: “Venha cá para este trono e coma se tem fome, e beba se está de boca seca, e descanse se os seus pés estiverem doente”.

                    - Ah! Meu amigo Tony Lantras. Eu falava com ele e ele aí sentado, cochilando e de vez em quando dava um ronco de assustar um touro. Chamei-o para descansar no quarto de hóspedes. Não quis. Abriu os olhos e me encarou. - Já contei a você minha aventura na Serra do Gafanhoto? Não? Pois então se prepare. E olhe, se me chamar de sonhador eu vou rir muito. Mas posso dizer a você, palavra de Escoteiro que tudo aconteceu. E como aconteceu. Tudo começou quando um homem barbudo, sujo, que nunca tinha visto me pediu um trocado na esquina da Rua do Ouvidor com a Praça João Mendes. Não neguei. Não costumo julgar. Que ele faça bom proveito. Dei a ele logo uma nota de vinte reais. Não ia fazer falta para mim, mas ao olhar os seus olhos vi que ia fazer o dia dele muito feliz. Tirou do bolso um pedaço de couro fino marrom, com desenhos diversos que deduzi ser um mapa feito por um amador.

                    - Tome – disse. Você é uma alma boa. Merece. – O que é isto? Perguntei. – Suba a Serra do Gafanhoto. Procure na parte leste uma cabana de madeira. Lá se não estiver aguarde a chegada de Thor Heyerdahl. Dizem que tem mais de mil anos. Ele chega sempre embalado por uma nuvem cinzenta. Não precisa ter medo. Não acreditei, mas sei que tais tipos têm histórias fantásticas. – E ele continuou - Dizem que quando os conquistadores espanhóis estiveram aqui, levados, talvez por algum índio capturado e ansioso por voltar ao sua tribo, fazia falsas promessas de montanhas cheias de ouro e esmeraldas. Um dos capitães resolveu achar sozinho o ouro. Subiu a Serra do Gafanhoto numa época de muito frio. Sumiu. Ninguém nunca mais o viu. Eu o encontrei lá. Decrépito quase morto. O alimentei. Eu era na época um caçador. A caça sumiu. Não sabia fazer outra coisa. Voltei à cidade. Ele me deu este mapa. Disse que era confiável. Que eu poderia ficar rico se achasse a Trilha dos Conquistadores Espanhóis.

                - Olhei para o Chefe Tony Lantras pensando que ele já estava entrando na fase do que foi e do que não foi. Os velhos fazem muito isto. Aumentam, contam histórias fantásticas, mas não deixá-los contar é como se cortássemos sua língua, tirássemos o prazer dele em viver o que não viveu. Sou um "Velho" e você sabe disto. Sempre pisei com os pés no chão. Mas quem sabe eu não poderia ficar como ele? – Incentivei-o a continuar. – Estava eu interessadíssimo no que o "Velho" me contava. Sua maneira, seu estilo, sua voz mostrava o poder de uma história em sua mente. Mas graças a Deus a Vovó adentrou na sala com seu carrinho de lanches que todas as noites fazia questão de nos presentear. Sempre com seus deliciosos biscoitos de polvilho, pães de queijo quentinhos, aqueles bolos deliciosos, um café fumegante ou um chocolate quente no ponto. Comia pensando na história contada pelo "Velho" escoteiro. Mais um domingo cheio. Melhor que ver TV e ir ao cinema. Risos. Claro dizem por aí. Isto é programa de índio. Mas qual Escoteiro não é meio índio e gosta de uma boa história?
  
Os aventureiros da Serra do Gafanhoto. Fasc. 080.

Parte II

                   Olhei no relógio de parede da Sala Grande. Sete e meia da noite. Cedo ainda. Tinha dias que saia da casa do "Velho" Escoteiro depois de duas da manhã. Segunda feira brava. Mas e daí? A companhia do "Velho" Escoteiro valia muito mais. "Velho", conte-me, o que aconteceu ao Chefe Tony Lantras? – O "Velho" riu. – Calma. Vou chegar lá. O "Velho" suspirou. Fez um gesto como se fosse acender seu cachimbo. Esqueceu que largou há mais de cinco anos. Praguejou. Eu sabia o que dizia. Maldizia o Doutor Nonô que o proibiu de fumar. Trocou de posição, colocou um pé em cima da poltrona, me olhou e continuou – O Chefe Tony Lantras começou a planejar a subida na Serra do Gafanhoto. No início nem sabia onde ela estava. Na biblioteca da cidade (ainda não havia internet) ele descobriu. Ficava próxima a Oiapoque no Amapá. Parte brasileira e outra da Guiana Francesa. Atravessando o Rio Oiapoque já tem o inicio da subida. Do outro lado ficava Saint-George de L’oyapock.

                    - Assim ele começou a contar sua história. Deixe-o falar. Só transmito o que me disse: – "Velho", tentei alguém para ir comigo. Você sabe não gasto muito. Sou um escoteiro caroneiro. Nissinho já havia zarpado para Serra Pelada. Dos pioneiros que ainda viviam na cidade ninguém topou. Preparava-me para ir só. Uma surpresa aconteceu. À noite bateram a porta da minha casa. Abri e lá estava Larissa. Linda como sempre. Entrou sentou e disse da sua decepção e porque o tinha procurado. Terminara seu noivado. Coração partido. Estava triste. Achou que era o homem da sua vida. Não era. Precisava mudar de ares. Precisava esquecer. – Quero ir com você! Posso? – Fiquei boquiaberto. Não esperava isto. Porque não? Pensei. Expliquei a ela tudo. Disse dos perigos que poderíamos correr.  Nem pestanejou. Aceitou de pronto. Assim foi feito, assim foi escrito, assim foi combinado sem protocolo e o dia chegou. Mochilas as costas e lá estávamos nós na estrada BR156 do Oiapoque pedindo carona. Em três dias chegamos a Macapá. Em Pernambuco conseguimos uma carona em um avião da FAB. De lá até o Rio Oiapoque foram quase seiscentos quilômetros de carona e na Empresa Viação Vulcabrás. Risos. Nossas botinas. Você conhece.

                       - O barqueiro tinha cara de poucos amigos. Não queria conversa. Não nos deu nenhum detalhe. – Olhe, no pé da serra tem uma senhora. Dona Chiquitita. Dizem ser feiticeira. Dela quero distância. Procurem ela. Ela sabe. Ela conhece os mistérios daquela serra maldita. E mais não disse. Dito e feito. Andamos uns oito quilômetros e avistamos sua tapera. Ela estava na porta fumando um cigarro de palha. Nem bem chegamos e ela começou a rir. Tinha só um dente na frente. Lembrei-me da bruxa de Branca de Neve. Ela parou de rir, esticou o pescoço na minha direção – Quer morrer? Falou. E você moça também? – Porque dona? – Ora vocês não vão mexer com os mortos? Aonde vão só tem fantasmas! Olhei para Larissa. Ela estava de olhos arregalados. Virou para mim e disse – Pé na estrada Tony Lantras. Se estiver com medo esconda atrás de mim! E riu a valer. Mas vi que era um riso nervoso. Como sabe disto Dona? – Vejo nos seus olhos. Vejo no seu corpo, você carrega na mochila a morte. Ele veio da serra e quando volta quem estiver de posse dele presta contas com o diabo! – Só podia ser o mapa. Só podia ser. 

                          - Pedimos se podíamos passar a noite em sua tapera. Qualquer canto serviria. Ela deu de ombros e entrou. Entramos atrás. Um salão sem divisórias. Mesa simples, dois bancos, uma cama de madeira comum forrada com folhas secas. Um fogão de lenha. Latões panelas tudo amarrado e pendurado com cipó. Ficamos em um canto. Ela perguntou se já teríamos jantado. Não, dissemos. Pegou um feijão preto pegajoso e gorduroso e já cozido, jogou em uma panela de ferro depois de reacender o fogo. Misturou farinha de mandioca torrada e alguns grãos de pimenta malagueta. Tirou de uma lata dois pedaços de choriços salgados. "Velho" Escoteiro, meu amigo, eu comi feito um danado. Larissa arregalou os olhos, mas não deixou nem um feijãozinho no fundo do prato. Em um riacho próximo tomamos um banho e o lusco fusco da noite chegou. Olhamos para a Serra do Gafanhoto. Imponente. Linda. Um barulho como se fossem correntes enormes se arrastando vinha bem do alto da serra. A serra parecia tremer! Nunca tinha visto nada igual. 

                             Bom sinal eu pensei. Ou encantada ou enfeitiçada ou do demônio. Do jeito que sempre gostei. Você sabe dito meu amigo "Velho" Escoteiro. Sempre tive uma queda pelo sobrenatural. Dizem por aí que enfrentei o Coisa Ruim quando estive na Garganta do Diabo. Mentira. Tremi feito vara verde. Mas aquela aventura me dizia que ia ser a melhor da minha vida. Dormimos feito crianças com sono. Acordei com o sol começando a despontar na janela. Sentada na porta a Velha Feiticeira nos olhava e virava para a Serra do Gafanhoto. Parecia conversar com ela. Achei que ela estava contando que estamos de partida. Ela nos ofereceu um café. Puro. Forte sem mais nada. Mochila nas costas e partimos não antes dela nos alertar pelo caminho das cobras venenosas. Larissa me olhou espantada. Lembrei que um dia ele disse que detestava cobras. Disse adeus à velha feiticeira. Tirei cinquenta reais e dei para ela. Ela pegou na nota, cheirou. Levou perto do olhos e deu aquela risada com seu único dente naquela bocarra enorme.

                          Não olhamos para trás. Olhei a serra. Alta. Enorme. Parecia nos desafiar. Arvores anãs, muita samambaia. Avistamos uma pequena trilha. Notei muitas marcas de botas. Centenas delas. Ora bolas, a serra devia ser muito bem frequentada. Subimos com o vento soprando de Leste para Oeste. Bom sinal. Dizem que assim quase não chove. Nossos cantis estavam cheios. No meu bornal um estoque razoável de arroz, linguiça, macarrão e batata. Dava para o gasto. Disse a Larissa se ela aguentava andar até às quatro da tarde. Tirei uns biscoitos duros que tinha comprado. Eles eram bons para colocar na boca e esperar derreter sem morder. Sustenta mais. Truque que aprendi com uns vaqueiros mexicanos. Assim a subida renderia mais. Calculei que em dois dias chegaríamos ao topo e lá procurar a tal cabana de madeira do tal Thor Heyerdahl. Vi Larissa dar um grito enorme. Olhei para trás. Uma bela Surucucu enrolada em seu pescoço. Minha faca Escoteira brilhou no ar e deu para cortar sua cabeça em um só golpe. Nunca vi isto. Cobras empoleiradas em árvores. Eram muitas delas. Disse a Larissa para correr. Ela pulavam, mas não nos alcançavam.

                        Graças a Deus ficamos livres delas. E para nossa sorte às três e meia da tarde encontramos uma nascente. Pequena mas dava para o gasto. Passamos a noite ali. Não armamos o toldo. O céu estrelado. Uma noite que não iremos esquecer. Nem bem escureceu a terra começou a tremer. Não podia ser um terremoto. Ali nunca aconteceu. As estrelas no céu piscavam, mas raios enormes riscavam os céus como se fosse uma tempestade cósmica. Larissa não tirava os olhos. Em outra situação seria mesmo um espetáculo o que estávamos vendo. Mas ouvimos passos. Chamei Larissa e nos escondemos atrás de um enorme tronco caído. Meu Deus! Impossível! Dezenas de soldados espanhóis ainda com seus capacetes, como se tivessem saído de uma história do Famoso Francisco Pizarro. Minhas lembranças dos Dragões e Arcabuzeiros do passado se misturavam com o que estava vendo. Estandartes, armados de Lanças e arcabuz curto, ouçarabina e com casaca solta, lembravam a infantaria a galope nas pradarias do Peru. Cantavam subindo morro acima como se estivessem indo para o além-túmulo. Todos eles com as mãos ocupadas. Levavam seus tesouros. Sacos e sacos de dobrões de ouro e prata. Castiçais, vasilhames que brilhavam com o fulgor das estrelas. Ficamos em silencio até o último homem passar. Ele olhou para nós. Fez um sinal de silencio. E seguiu com os outros.

                       Calculei ter pelo menos duzentos soldados. Assim como chegaram sumiram na escuridão da noite. Olhei para Larissa. Vamos dormir fora da trilha. Pensei comigo. Como eles poderiam estar ali na Guiana Francesa? Nunca ouvi falar deles nesta região. Estavam bem longe de suas conquista no Peru e no México. Dormimos um sono do assopra e acorda. Você sabe como é. Um olho fechado e outro aberto. Risos. Bem cedinho nos pusemos a caminho. Assustei-me. A trilha ainda tinha a marca de suas botas, mas algumas marcas pareciam ser mulas. Não vi nenhuma delas. À medida que andávamos uma árvore balançava cobrindo nossas cabeças de folhas secas. Como um foguete uma flecha de fogo cortou os céus e se enterrou em um tronco na beira da estrada. O fogo se espalhou, mas logo se apagou. Olhei para Larissa. Ela tremia. Quer voltar? Perguntei. Não. Não viemos até aqui para nada. A terra tremia e parava. Parecia que pequenos terremotos ali aconteciam. Às quatro da tarde chegamos ao cume. Nem parecia. Ao sul e ao norte uma cadeia de montanhas. Minha experiência dizia que estávamos no cume.

                     Peguei minha prismática antiga e rumei para o leste. Sem erro. Uns quinhentos metros e avistei a cabana. Parecia aquelas cabanas feitas por algum lenhador do velho oeste. Só troncos. E o melhor, saia fumaça de sua chaminé. Ótimo. O tal Thor Heyerdahl deveria estar ali. Batemos a porta e nada. Ela rangeu e se abriu. O fogão aceso. Uma frigideira fritava ovos. Só um cômodo. Onde estaria o Senhor Thor? Chamei. Larissa chamou. Nada. Vi que os ovos já estavam fritos. Melhor tirar da frigideira antes de queimar. Não foi preciso. Ela subiu no ar, e jogou os ovos em um prato ao lado do fogão. O tal Thor devia estar invisível. Disse para Larissa não se preocupar. Fazia parte do jogo. Mas que jogo? Eu nem sabia suas regras. Ninguém apareceu. Vi uma panela de ferro com feijão e fervendo. Ao lado a indefectível farinha de mandioca. – Larissa, vamos comer, acho que este jantar foi feito para nos. Ela não se fez de rogada. Pegou dois pratos que incrivelmente estavam limpos. Duas banquetas rusticas foi onde sentamos. Começamos a comer e eis que o tal Thor Heyerdahl apareceu. Sentado. Sabe onde? Em uma pequena nuvem. Alí dentro da cabana!

                    Ele sorria um sorriso maroto. Lembrei-me do gênio da lâmpada de Aladim. – Olá moço, eu disse. Moço? Eu sou moço? E deu uma gargalhada que fez a cabana tremer. Olhei para ele. Parecia ter no máximo um sessenta anos. Eles nos esperou terminar de comer. Larissa perguntou onde podia lavar. Eu remendei, deixa comigo Larissa. O Tal Thor deu outra risada. Nossos pratos saíram pela janela e em questão de minutos voltaram limpos! Meu amigo, que beleza. Este cara em um hotel ou restaurante faria sucesso. Em uma Patrulha Escoteira seria condecorado! Meu medo diminuiu. Vi que o senhor Thor Heyerdahl era uma espécie de bufão mágico. Não devia ter pensado assim. Ele fechou a cara. Falou com uma voz cavernosa – Onde conseguiram o mapa? Que foi o maldito que contou a maldição da Serra do Gafanhoto? – Contei para ele tremendo o que aconteceu. Ele ficou calado. Durante muito tempo nada disse. Lá fora uma escuridão de breu. Lá dentro uma iluminação fantasmagórica.

                    - Vão dormir amanhã conversaremos. – Mas Senhor Thor? Argumentei. – Cala a boca! Cala a boca! Já disse. Preciso desta noite para pensar se mato vocês, se escalpelo estas vastas cabeleiras, se corto suas pernas para os lobos famintos ou se entrego para o Capitão Diogo de Almagro. Ele sabe o que fazer com forasteiros bisbilhoteiros como vocês! E chega por hoje. Não quero ouvir nenhum barulho. – Olhe, comecei a ficar fulo. Havia anos que ninguém falava comigo assim. Nem meu pai. Só meu avô que um dia quebrei o cachimbo dele e ele me deu uma boa sova com vara de marmelo. Olhei para Larissa. Vi que estava perdendo a coragem. Era muito para ela. Estas coisas do além não são fáceis de enfrentar. Resolvi me calar. Deitei. Ela também. Não conseguia dormir, mas acredite, dormi e como dormi. Acho que o tal Thor me enfeitiçou.

                      - "Velho" Escoteiro. Você não vai acreditar. Amanheceu nevando! Isto mesmo, nevando. Isto não existe e nunca existiu ali naquela região. Eu conhecia a neve Larissa não. Ficou encantada. Saiu brincando sobre a neve. Sorria, cantava, não sabia o perigo que corríamos. Um relinchar de cavalos e logo uns vintes cavaleiros se aproximaram. Nada mais nada menos que uma pequena parte do pelotão espanhol, que ali estava para decidir nossa vida. O Senhor Diogo de Almagro com toda sua imponência desceu de seu cavalo na melhor pose. Tinha mesmo pose de capitão. Uma bela armadura no peito. Um capacete que acho era feito de ouro. Olhou para o Thor e perguntou. Quase ri quando ele falou. Enquanto Thor tinha uma voz cavernosa e de vez em quando trovoava, ele o capitão falava fino. Parecia uma menininha de nove anos. Vi que a Larissa ia rir. Fiz um sinal. Se ela risse seria nosso fim. Eles se consideravam conquistadores e dizer que eram efeminados seria nossa morte.

                     - Thor nos olhou e olhou para o Senhor Diogo. – Foi o Falapeutas. O senhor lembra quando esteve aqui. Pequei em dar a ele um pedaço do mapa que o Senhor Orelhando me deu. Não sabia do seu encantamento. Sem ele eles nunca teriam nos descobertos. – Faça o seguinte Thor, leve-os até a Cachoeira do Inferno. Jogue-os lá de cima. Deixe-os nus. Vão morrer gelado em segundos naquelas águas malditas! Deus do céu! O maldito fantasma queria nos matar! Não pretendia morrer assim. Iria fazer tudo para que isto não acontecesse. Larissa me surpreendeu. Começou a rir, ria a valer. Chegou perto do Senhor Digo, olhou nos seus olhos e com a mão na cintura disse – Você não sabe com quem está falando seu porco do mato. Sou filha de Pachacútec. Você deve lembrar-se dele e sua maldição. Você está aqui por causa dele. Lembra que o Senhor Pizarro queria que ele jurasse sobre a bíblia a ser vassalo da Espanha. Ele não quis. Lembra que centenas de arcabuzeiros receberam ordens para matá-lo e arrasar a comitiva real. E o que aconteceu? Milhares de vocês morreram com a peste dos maias. Caiam como mosquitos doentes. Eu posso fazer o mesmo com vocês!

                       Nossa! Seria mesmo Larissa quem estava falando? Não conhecia estes seus conhecimentos. Ou quem sabe alguma criatura boa das trevas tomou conta de seu corpo e era ela quem falava? – Só sei que o tal Diogo de Almagro tremeu. Fechou os olhos e fungou. Fungou feio. Montou a cavalo. Gritou para o tal Thor Heyerdahl que nos mandasse embora agora mesmo. Mandou nos dar um pequeno saco de dobrões de ouro e prata. Sem delongas. Pegamos nossas mochilas. Estava escurecendo. A neve caia aos borbotões. Olhei para o tal Thor. Ele estava de olhos fechados. Sua nuvem pequena apareceu. Mandou que subíssemos. Não ria "Velho" Escoteiro.  Não ria. Juro pela minha alma, palavra de Escoteiro. A nuvem nos transportou até balsa que estava fazendo sua última viagem. Na margem vi a feiticeira desdentada que dava enormes risadas e pulava feito um macaco querendo banana. O Tal Thor me tomou o mapa. Quando ele se foi à neve desapareceu. A feiticeira desapareceu. A Serra do Gafanhoto agora parecia brilhar com o sol se pondo em suas vistosas arvores verdejantes.

                      - Olhei para Larissa. Ela sorria de leve. Tremeu o corpo e senti que o tal espirito que tinha se incorporado nela se fora. Quem seria? Porque nos ajudou? Nunca soube. Nunca vou saber disto tenho certeza. Larissa não se lembrava de nada. Lembrava sim, da cabana do jantar com ovos estrelados, do jantar com aa feiticeira desdentada e mais nada. Melhor assim. Ela agora era outra moça. Sorria. Um sorriso encantador. Minha velha paixão voltou. Pensei em cortejá-la novamente. Casar, ter filhos. Uma casinha branca lá no alto do morro, no bairro dos ricaços da cidade. Mas sabia ser impossível. Meu destino era outro. Soube das pegadas de um Yeti, ou melhor, do Abominável Homem das Neves. Foi visto no passado na região do Himalaia, agora soube que o avistaram na Cordilheira dos Andes. – Olhei para o Chefe Tony Lantras. Dei uma risadinha. Ele corou. Ficou de pé. Se acha que menti, vou-me embora! Foi saindo deu uma meia volta e colocou na minha mesa, dez dobrões de ouro. Ouro puro. Tentei falar, ele não deixou e foi até simpático. Dê estes dobrões para o grupo Escoteiro mais humilde do seu bairro.  Saiu pela porta e sumiu.

                      - Olhei para o "Velho" Escoteiro. Estava atento. A mente em ponto de bala. Degustei com gosto tudo que ele me contou. Uma história incrível. Ele me olhou também. Não disse nada. Sua testa enrugava e voltava ao normal. Seus olhos piscavam. Abriu a gaveta, tirou os dez dobrões de ouro. Deu-me. -
Faça bom proveito no grupo. Se achar colecionadores, aí tem bem uns quinhentos mil reais. Dá para construir a sede do Grupo Escoteiro e comprar todo o equipamento necessário. Ficou em pé, me deu boa noite e subiu as escadas com dificuldade rumo ao seu quarto. Fui embora. Cheguei a casa cedo. Não era ainda meia noite. Liguei meu computador. Pesquisei quem seria Diogo de Almagro. Achei. Um dos homens fortes de Pizarro. Pesquisei sobre Thor Heyerdahi. Nada. Pesquisei sobre a Serra do Gafanhoto. Nada. Tentei rever a história da Guiana Francesa. Achei o rio Oiapoque. Achei Saint-George de L’oyapock. Mas nada que um dia por ali passasse os conquistadores espanhóis. Quanto aos Yetis eu sabia da história.

                        Melhor dormir. Adoro o "Velho" Escoteiro. As histórias que ele me conta são de tirar o chapéu. Amo este cara de montão. Quantas coisas ele me ensinou. Valeu todo o tempo que passei junto a ele. Espero que ele possa viver por muitos e muitos anos acima dos seus oitenta e cinco de hoje. Aprendi o que sei de escotismo com ele. Viajei por boa porte do mundo com ele em pensamento. Não posso perder nunca estes doces momentos ao seu lado. Que Deus o tenha "Velho" Escoteiro. Que Deus o tenha!  Parte superior do formulário

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"Sucesso significa realizar seus próprios sonhos, cantar sua própria canção, dançar sua própria dança, criar do seu coração e apreciar a jornada, confiando que não importa o que aconteça tudo ficará bem. Criar sua própria aventura!"
 (Elana Lindquist)



sábado, 29 de dezembro de 2012

As memórias do Chefe Bill Wagryth – fasc. 078 Meu amor mora nas estrelas.


 “Quando eu era criança, e fitávamos as estrelas, você me contava sobre os heróis, cuja gloria foi escrita nas estrelas. E que lá havia uma estrela para mim. Você!”.

As memórias do Chefe Bill Wagryth – fasc. 078
Meu amor mora nas estrelas.

                  O dia ainda estava claro. A primavera, dizem os poetas trás o perfume das flores, os pássaros cantam nas arvores mais afinados, as matas os bosques, às campinas ficam mais verdes e os rios correm para o mar sorrindo. Eu sempre gostei da primavera. E quando a brisa daquela tarde gostosa e sonolenta soprava em nossa face era como se estivemos vivendo uma tarde em um acampamento qualquer. Eu e o "Velho" Escoteiro estávamos sentados na varanda de sua casa, e de lá podíamos avistar o morro das Bermudas, que graças a Deus foi mantido como uma reserva florestal e não sucateada por alguma imobiliária. Eu e o "Velho" Escoteiro dormimos a tarde toda. Pudera, o almoço da Vovó foi incrível. Quando vi a deliciosa Moqueca de Traíras pescadas naquela madrugada por quem eu não sabia, acompanhada de uma abobrinha afogada com uma pimentinha no ponto, um pirão no ponto e um arroz solto com rapinhas no fundo e não deu outra. Comi feito um esfomeado que há dias não comia. Olhe igual à Vovó na cozinha pode ter muitas, mas superior não.

                     O "Velho" como sempre nestas tardes, como a chamar a atenção dos jovens que brincavam seus folguedos na calçada em frente, colocou o seu velho LP do Trio Irakitan a repicar gostosamente várias canções escoteiras na sua vitrola já gasta com o tempo. Ficamos assim sem conversar, mas vi que o "Velho" Escoteiro queria me contar alguma de suas histórias ou então das suas eternas discordâncias com nossos dirigentes, uma luta de anos e anos. – Olhe, começou – Acho que nunca comentei com você. Existem tantas coisas que aconteceram em minha vida Escoteira que precisávamos ficar juntos uma eternidade para lhe contar tudo. Acordei esta madrugada lembrando-me do meu querido amigo o Chefe Bill Wagryth. Já falei dele com você? Não? Bem vamos lá. Bill Wagryth entrou como Escoteiro na Patrulha Puma. Eu estava na Touro. Mesmo assim como morávamos na mesma rua sempre íamos e voltávamos do grupo juntos. Nasceu daí uma bela amizade.

                    Fomos juntos para os seniores, e nos pioneiros ele ficou pouco tempo. Como tinha feito um concurso para a Aeronáutica, durante quatro anos ficou na Academia da Força Aérea, em Pirassununga. Víamo-nos nas férias, e até fizemos um acampamento juntos a convite de escoteiros da Costa Rica, no Sopé da Cordilheira Central, em Guanacaste e Tilarán. Foi um acampamento que marcou muito. Quando se formou como Aspirante foi logo promovido a Segundo Tenente. Quase não tinha folga, mas sempre sobrava um tempinho para tomarmos uns chopes, uma ou três noites de campo ou a explorar alguma das mais belas grutas de Minas, e até mesmo participar do Sétimo Jamboree Mundial em Bad Ischl, na Áustria. Nossa amizade permaneceu firme e logo ele foi promovido a Tenente. Foi nesta época que ele foi designado para servir na capital e transferido para o gerenciamento do Tráfego Aéreo do aeroporto Catorze Bis na capital, o que lhe tomava muito tempo.

                  Um dia ele me convidou para conhecer seu trabalho e achei fora de série. A cada minuto alguém suava com algum problema. Alí todos trabalhavam com o estresse a flor da pele. Não era nada fácil. A vida de centenas de aeronaves estavam nas mãos deles. Ele me convidou para um cafezinho no bar do aeroporto e lá fomos nós. Foi então que me contou sua história. Incrível história. Se eu não soubesse que era um Escoteiro dos bons diria que ou estava estressado demais ou um tremendo mentiroso. – assim começou sua narrativa - Foi em um dia de semana qualquer. Aeronaves descendo e subindo. Na minha linha ouvi uma voz feminina com um sotaque russo. Pedia para desobstruir toda a pista número quatro. Eles iam descer em quatro minutos. Pedi para se identificarem. Não responderam. No radar vi que era uma nave gigantesca.

                    Não tive saída. A pista foi interditada para eles. Não vi direito a nave. Ela aparecia brilhante quando alguma nuvem no céu cobria o aeroporto. Mesmo assim com dificuldade. A maior parte do tempo estava invisível. Parecia ser um enorme charuto. Imenso. Mais de quarenta metros de altura e mais de cento e quarenta metros de comprimento. – Eu prestava a maior atenção ao "Velho" Escoteiro. Uma história que parece ele tinha tirado do fundo do baú. Eu gostava destas historias, se eu acreditava eram outros quinhentos. – Ele continuou – Meu amigo Bill engasgado, disse que ouviu a voz feminina de antes – Precisamos nos falar. Preciso explicar. Pode ser em algum lugar reservado? Disse que seria na sala do Brigadeiro Duarte. Ele ainda não sabia do que estava acontecendo. Fui até lá. Expliquei. – Está doido? Por Deus brigadeiro é a mais pura verdade, aqui não é lugar para este tipo de brincadeira.

                     A voz parecia flutuar e disse – Estou me materializando na sala. Não façam nada. Nem um gesto. Ela apareceu ao vivo e a cores. Uma linda loira de olhos verdes esmeralda com um uniforme estranho. Olhou-me e na sua voz fanhosa explicou. – Sei que vai ser difícil acreditarem, mas somos de um planeta distante, que pelas suas medidas fica a mais de cem milhões de anos luz da terra. Nosso planeta irá se desintegrar em alguns anos. Nossos cientistas descobriram um parecido com o nosso na Constelação de Centauro, que vocês chamam de Alpha Centauro por ser a estrela mais brilhante no céu em determinados meses do ano.  Estamos alguns séculos avançados em relação ao seu planeta. Somos orientados a não interferir no crescimento de vocês e de outros povos que habitam não só a sua galáxia como a de milhões que conseguimos descobrir. Nossa nave estelar pode viajar grandes distâncias entre sistemas solares. A velocidade da luz para nós não tem segredos. Podemos viajar mais de vinte vezes a velocidade da luz.

                     - Continuou o Chefe Bill. – Meu nome aqui para vocês será Sheyla. Minha aparecia normal não é esta. Mas precisava adaptar uma nova vestimenta humana para podermos conversar. Ninguém poderá saber que estamos aqui. Um pequeno problema em nosso motor de dobra que não foi possível reparar no espaço nos obrigou a descer aqui. Seria difícil para você entenderem como funciona nossa nave. Escolhemos o Brasil por ser um pais de paz e não colocará aqui sua parafernália de guerra como fazem os outros países. – Eu olhei para o "Velho" Escoteiro. Ou ele ou o amigo dele o tal Chefe Bill tinham uma incrível imaginação. Assisti a filmes e mais filmes em que os americanos queriam dominar e até atiravam nos alienígenas antes de conversar.  – O "Velho" não se fez de rogado e mostrando que lê meus pensamentos parou a história. – "Velho"? O que foi? – Ele rispidamente disse – se acha que estou mentindo porque continuar a contar a você seu pirralho?

                      - Tudo bem "Velho". Desculpe. Gostaria de saber o final de tudo. Vou continuar – disse. Mas se notar qualquer olhar de galhofa paro na hora. – Juro que não o farei "Velho".  – Ele como se fosse tomar um ar lá fora, foi até a escada que levava a rua e em pé mesmo continuou – Chefe Bill me contou que ficaram seis horas na pista quatro. Sheyla o convidou para conhecer a nave. Incrível. Lá havia mais de trinta mil passageiros. Na realidade a aparência deles era de pequenos anões, magros, cara fina, sem cabelos e orelhas. Sheyla riu do meu espanto e do brigadeiro, pois ele insistiu em ir. Não havia animosidade e nem cara feia para nós. Todos sorriam e parecia que viviam em um sistema de harmonia perfeita. O pior foi que o Chefe Bill me disse que tinha se apaixonado por Sheyla. – Como? Perguntei. Não sei. Eu sabia que a aparecia dela não era aquela e o pior ela me convidou para conhecer Alpha Centauro. O brigadeiro foi contra.

                        - Para finalizar eles partiram por volta de meia noite aquele dia. Chefe Bill foi com eles. O brigadeiro não aceitou e disse que levaria o caso a Corte Marcial. Seis meses depois o Chefe Bill voltou. Uma aeronave que voltava para buscar mais gente o deixou em algum lugar do Deserto de Saara. Olhe eu mesmo não acreditei na conversa do Chefe Bill. Mas ele me mostrou uma gravação feita lá no novo planeta onde iriam viver. Incrível! Os primeiros pioneiros que lá chegaram mudaram o clima, os quatro oceanos eles os transformaram em um só, o planeta todo foi reflorestado e agora já estava com florestas imensas de polo a polo do planeta. Eles tinham muitos dos animais que temos aqui na terra. Olhe, poderia ficar aqui contando a você tudo que o Chefe Bill me contou. Tem muito mais e nada que um bom Escoteiro explorador não tenha vivido como ele viveu.

                          Chefe Bill Wagryth até hoje não casou. Disse que se apaixonou por Sheyla. Sabia que nunca poderiam viver juntos nem agora e nem nunca. Ela estava anos luz adiantada dele. Se em um passado longínquo tinham se conhecido em alguma estrela do universo hoje a distancia entre os dois era bem grande. O Brigadeiro Duarte não gostou do final de tudo. Não o expulsou e até o ajudou com um analista da aeronáutica. Mas voltar a sala de comando na torre estava fora de cogitação. Abriram uma exceção. Agora ele estava treinando novos Controladores de Voos. Disse-me que está morando em uma casinha próximo ao lago Santa Inês. Pertence a Aeronáutica. O brigadeiro disse que poderia morar o tempo que quisesse. - E ele terminou dizendo – Olhe meu amigo não enlouqueci. Mas depois que conheci Sheyla não quero viver com nenhuma outra mulher.

                        Fico a imaginar se tudo não foi obra do destino, um destino que não entendo, para muitos impossíveis de imaginar. Amar alguém que mora nas estrelas? Se apaixonar por alguém que nunca poderão viver juntos? Não conto esta história para ninguém. Eu mesmo disse ao Chefe Bill que ele estava ficando louco. Interessante que a Aeronáutica e a Infraero conseguiram abafar tudo. Não deu nada na imprensa. Foi uma história não contada. Abafada pelas Forças Armadas. Ninguém soube e nem irá saber. Ele disse que confiava em mim. Que não contaria a ninguém. – O "Velho" riu alto. Claro estou contando a você porque não sei. Quem sabe por que o Chefe Bill morreu a duas semanas? Ou por que não tenho com quem falar e conversar? Quase ninguém vem aqui. Olhe o Chefe Bill antes de morrer me disse ainda que todos os abandonaram. Noêmia a sua noiva nem chorar chorou quando o mandou passear. Com os olhos cheios d’água me disse que precisava desabafar com alguém. Nada como o "Velho" Escoteiro. E ele me disse que quando fosse para o outro lado da vida que eu estaria liberado para contar.

                       O "Velho" Escoteiro se calou. Não disse mais nada. Nunca me contou uma história assim. Passava das duas da manhã. Fui embora quando vi o "Velho" Escoteiro subindo as escadas para o seu quarto. Acho que Vovó já estava dormindo. Na rua fria e atípica de uma noite de inverno fui pensando na história do "Velho". De escotismo pouco, de historias inverossímeis muito. Este "Velho" Escoteiro nunca me deixou na mão com boas histórias. Atravessei a rua e sem querer torci o pé e cai ao chão. Sem pensar olhei para o céu. Uma nave gigantesca estava passando em grande velocidade. Velocidade de Dobra? Risos. Não sei. Melhor é continuar mesmo mancando. Não posso me apaixonar por alguém que mora nas estrelas. Já tenho uma esposa e outra não ficaria bem para um Chefe Escoteiro. Que sono! Acho que vou dormir bem, mas pouco. Amanhã, ou melhor, hoje tem trabalho. "Velho" escoteiro. Amo este "Velho".

“Podemos ter nascido em mundos diferentes”.
Mas eu conheço você.
Quando me pegou no céu, eu soube.
Senti o coração de um homem disposto a doarem-se
Pelos outros.
“Um homem disposto a lutar por uma causa”.


sábado, 24 de novembro de 2012

As responsabilidades são de todos nós – Fasc. 078



Não existe nada mais perigoso do que acreditar que se detém a formula que vai continuar sempre conduzindo ao sucesso.
Robert Collier

As responsabilidades são de todos nós – Fasc. 078

                         Tudo deu certo para mim naquele dia. Deu certo a manutenção que fiz no Torno Elétrico que voltou a funcionar divinamente. Pela primeira vez elogiei a cozinheira pelo cardápio no nosso restaurante da empresa. Estava cansado de comer frango ensopado. Ela se esmerou. Deu um belo de um sorriso quando falei ao seu ouvido: Parabéns! Seu almoço foi divino. Nunca comi tanto em minha vida. Ela me olhou espantada e sorriu dizendo – Obrigada! Fui para casa mais cedo. Sempre ficava depois das cinco. Hoje não. Hoje era meu dia de sorte. Porque não visitar o "Velho" Escoteiro? – pensei comigo. Não era dia. Era quarta, mas não tinha nada para fazer, horário de verão e resolvi ir até lá.

                         Subi as escadas que leva a Sala Grande sem fazer barulho. Como um filho da casa abri a porta devagarinho. Não o vi. – Entre! Era ele! Que susto. Estava em um canto da sala que não deu para ver quando entrei. – Sente aí. Explique-me direitinho. Mandaram você embora? Eu sabia! Só fica fazendo escotismo e não se preocupa em desempenhar suas funções a contendo. Veja, tem mais de nove anos nestas empresa e não passa de um reles chefinho mecânico! – Sorri de leve. Já conhecia este “papo” do "Velho". Era sempre assim quando saia de minha rotina. Não o cumprimentei. Nunca fiz isto. Nunca dei um abraço. Devia dar. Acho que todos gostam de um abraço. Será por quê? Não sei explicar. Desde a primeira vez que foi assim. Mas tanto ele como eu sabíamos que tínhamos uma amizade incrível. Eu adorava o "Velho" e ele quando não ia a sua casa sentia uma falta tremenda.

                        Sentei no meu banquinho de três pés e ele de supetão me perguntou? – Me diga, quando sua organização ou sua fábrica vai mal de quem é a culpa? Dos funcionários ou dos diretores? – Não sabia onde ele queria chegar. – Fale "Velho" do que se trata. – Da nossa direção Escoteira. – Mas é diferente "Velho". Lá se um funcionário vai mal ele é substituído. Isto não pode acontecer aos escoteiros. – Mas se a diretoria não mostra resultados o que fazem os acionistas? Trocam todos eles não? – Fiquei pensando. Quem sabe os membros da nossa direção que são sócios, pois pagam uma taxa anual não seriam aos acionistas? – "Velho", é difícil comparar, eu sempre converso com outros amigos escotistas e eles nunca “batem” direto com nossa direção. Quem recebe críticas sempre são os funcionários subalternos, ou um Assistente de qualquer ramo ou mesmo alguém que recebeu a incumbência de esquematizar alguma atividade nacional e ela não deu certo.

                      - O "Velho" me olhou de esguelha. – Você acha isto certo? Nunca ninguém disse que precisamos mudar para eles? Não cobram? Claro, tem aqueles que dizem que os congressos e assembleias é para isto, mas você já viu alguém tomar alguma atitude? Mas meu amigo, hoje não quero falar sobre isto. Recebi via e-mail de um amigo virtual, um pequeno artigo sobre as alterações que vem sendo feitas e claro, ele englobou as tradições. Comentou sobre elas se elas estão desaparecendo, se isto é bom ou ruim. Não sei o que pensar. Li e reli. O rapaz que a escreveu parece ter tirado do meu pensamento. Leia você mesmo. Depois me diga, onde está a razão? Onde estão os dirigentes? Que tipo de luta se poderia fazer para que houvesse uma grande “grita” nacional com tudo isto? – O "Velho" me entregou o artigo. Li duas vezes. Dizia:

Essa temida tradição escoteira.
Nas eleições deste ano (2012), fui votar no colégio municipal onde estudei quando criança. Aproveitei a deixa para passear pelo bairro onde cresci. Foi engraçado, quase surreal, ver crianças empinando pipa, jogando bola na rua e trocando figurinhas na calçada. Até porque, é um bairro de periferia e imagino que não são todos os que têm um computador ou um videogame como opções de ócio. O escotismo aqui cabe lembrar, é de inclusão, ou seja, contempla os do “Playstation” e os da “pipa”.
Se a questão da tradição escoteira girasse ao redor da substituição de uma bússola por um GPS, ou de um Atari pelo Wii, ou de uma pipa por um aeromodelos, quão fácil ficaria o diálogo neste ou em qualquer outro blog. Bastaria estar por dentro de novas tecnologias e pronto. Mas não se trata somente disso; é mais complexo.
Pessoalmente, não entendo a questão da tradição escoteira. Eu não sei quando ela começou. Para mim, será aquela que vivi no final dos nos 80, como membro juvenil. Para outros, os mais entrados em idade, será a década de 60. Não sei, ademais, se ela deveria existir, já que a escravidão, por exemplo, foi uma tradição neste país.
Cabe ao povo, e somente a ele, decidir quando uma tradição acaba e quando ela começa. E não uma junta diretiva ou uma comissão. Não adiantará assinar leis impondo uma tradição ou decretando seu fim se o povo não a aceitar.
Para ilustrar o pensamento, a bandeira do Mercosul deveria ser hasteada, por lei (sequer é uma tradição), em todos os estabelecimentos públicos oficiais. Quantos de nós já vimos uma bandeira do Mercosul?
E não há meio de afrontar uma tradição sem deixar feridos pelo caminho. E esses feridos podem ser os que mais precisamos num movimento em queda livre, já que trazem na bagagem as rugas de alegria em relação ao que deu certo, e as cicatrizes daquilo que não vingou.
Traslademos o pensamento à associação escoteira.
Uma instituição que não aposta na própria imagem e no que ela representou e representa há décadas, não poderá mostrar seriedade ou firmeza naquilo que crê ou faz. Um desenho que sempre estampou aqueles uniformes levados com galhardia, livros publicados na década de 60 (período mais fértil da literatura escoteira), se apagado de nossa história da noite para o dia, não somente mostrará que a associação não acredita em sua imagem, mas que sente dificuldade em dar valor àquilo que fez dela o que é hoje - “um país que não conhece sua história, tende a cometer os mesmos erros no futuro”.
E se por uma questão de moda se tratasse, ela, a moda, é tão passageira como o passar das estações. Não podemos afirmar o mesmo no que se refere à tradição, que se perpetua com o passar dos tempos: ela fala por si e não há necessidade de vendê-la, sequer enfeitá-la.
Não se trata de mudanças somente de imagens, ou de roupas, ou de modas, ou de gadgets. É que a própria instituição se resiste às mudanças. E por uma dessas ironias que nos cruzam o caminho, nos mostra essa resistência justamente porque ela, a instituição, não quer mudar sua forma de governar, sua tradição política, mesmo que seja para um bem comum e mesmo que os associados a reivindiquem.
Com o artifício da internet, o povo desfruta de portais de transparência, mas parece que o escotismo não precisa disso. Enquanto o voto direto representa uma democracia, nós não o temos. Enquanto a participação dos associados, o patrimônio máximo de uma associação, é levada em boa conta em qualquer segmento, no escotismo se faz a engenharia inversa.
Há aqueles com o discurso na ponta da língua: “mas o foco é o jovem”. Lembremos que são 12 mil adultos que mantêm essas crianças interessadas em escotismo.  A modernização que trouxe resultados, como se vê lá fora, foi justamente essa: a de se saber dar o devido valor ao adulto (a meritocracia). Mas nossos sites, longe de se atualizarem, preferem apenas gastar umas poucas linhas ao voluntariado.
No meu tempo era melhor? Lembro-me de minha infância com carinho, mas não me atrevo a equipará-la a outra infância ou adjetivá-la de “a melhor”.
Hoje é melhor? Para os jovens que vivem esse tempo, sim.
Mas para os adultos, que são os alicerces do movimento escoteiro, talvez seja um fardo demasiado grande que carregam a favor de crianças, porque a associação contribui para tanto. O escotista, o adulto, quer atuar onde a meritocracia funcione; quer ser ouvido, quer estar onde possa apertar a mão de um comissário distrital; ter uma conversa ao pé do fogo com algum dirigente nacional, receber uma carta lhe congratulando. A associação, ao contrário, se distancia cada vez mais do seu maior patrimônio, daquele que defende o nome da causa escoteira esteja lá onde estiver: o adulto, o “chefe”.
O movimento escoteiro no Brasil não perde jovens para a internet ou para videogames. Os perde para ele mesmo. Passamos de um movimento que oferecia algo único, a um movimento “a mais” que oferece o mesmo que outros, com outra roupagem. A premissa da escola de cidadania não passará de um mantra se não nos fazemos ver e, por conseguinte, não sermos lembrados.
                   Olhei para o "Velho" Escoteiro. – E aí, disse ele – Aí? Não sei o que dizer respondi. Ficamos os dois um olhando para o outro sem nada dizer. Ele baixinho comentou: - Para mim são os meus velhos e bons tempos, e para você serão os novos e bons tempos. Qual o melhor? – não disse nada. Olhe o relógio. Meia noite. – "Velho" onde está a Vovó? Foi dormir na casa da filha. Ela está meio adoentada. Olhei para ele, oitenta e seis anos. Dormir só ali? Liguei para minha esposa. Expliquei. Falei para o "Velho". Ele riu, e quem disse que quero você aqui? E subiu para seu quarto. Fui para o quarto de hospedes. Sabia onde era. Tomei um banho, deitei e com as mãos embaixo da nuca pensava – Escotismo, você transforma as pessoas. Quantas mudanças de destino em cada um que resolveu ser um de nós. Acho que dormi. Acordei cedo, seis horas, hora de trabalhar. Sai correndo, na rua lá estava o "Velho" Escoteiro fazendo sua caminhada, até amanhã! Ele fez um sinal e foi em frente.     
O sucesso geralmente vem para aqueles que estão muito ocupados para estarem procurando por ele.
Henry David Thoreau