Historias e estorias que não foram contadas

Historias e estorias que não foram contadas
uma foto, de um passado distante

terça-feira, 4 de junho de 2013

O tesouro maldito da Mãe-do-Ouro. Fasc. 82.

Todos buscam a felicidade como se de uma caça ao tesouro se tratasse. Talvez até tenham razão, pois no fundo a felicidade é o ouro da vida.

 O tesouro maldito da Mãe-do-Ouro. Fasc. 82.

              Ao chegar à casa do "Velho" Escoteiro naquele domingo fiquei surpreso. Lá estava ele de uniforme, o seu velho caqui de guerra que ele adorava. – Sorri, pois mesmo com seus 86 anos ele ainda fazia bela figura. Sempre um exemplo envergando o uniforme. Ele diferente da sua rotina me cumprimentou normalmente. Não estava com semblante carregado sinal que o dia estava sendo promissor. Sentamos na sala grande e uma melodia silenciosa nos trazia uma paz gostosa. Reconheci Edward Simoni, um dos meus preferidos. – Meu caro, ele disse, sei que veio aqui hoje porque prometi lhe contar a historia do Tesouro maldito da Mãe-do-Ouro. Vou contar sim, mas antes estive pensando em muitas coisas que sinto e olho a alegria demonstrada por muitos que participam do movimento. São jovens, adultos e nem sempre sabemos se a alegria é só deles ou de toda sua família. Ontem mesmo esteve aqui um Escotista e ficamos conversando por horas. Conversa interessante. Ele mesmo vítima do seu amor ao escotismo. Agora divorciado. Acontece muito com chefes novos ou até antigos. Nem sempre sua família participa e ele diferente dos demais, mantém um enorme entusiasmo e maior ainda quando um filho ou uma filha estiver engajado.

           Eu acompanhava o raciocínio do Velho Escoteiro. Conhecia alguns chefes com graves problemas em família por causa do escotismo. Um tema que poucos comentam. Sempre vemos o lado bom, o Chefe sorridente com a esposa, os filhos todos uniformizados e o outro escondemos atrás da porta. – O Velho Escoteiro me olhou e como sempre adivinhando o meu pensamento continuou – É comum, o adulto quando entra se motivar de tal maneira que esquece que sua cara metade ou alguém de sua família não pensa como ele. Sabemos que o conceito básico da família é formada a partir da união de pai, mãe e filhos. Quando um deles assume uma personalidade que acredita trazer a felicidade e o bem geral a todos, a vida em grupo pode acarretar um grande obstáculo para uma união perfeita. Principalmente se antes do escotismo o casal não estava ainda preparado para o contrato social e espiritual que fizeram. Nestas horas a não ser os mais próximos poucos ficam sabendo dos acontecimentos.

           Em vários cursos que participei sempre coloquei como dinâmica de grupo o que poderia trazer a desagregação familiar na participação ao escotismo. Em primeiro lugar vinha o sacrifício de quem não participava isto por achar que o outro estaria consumindo valores, sem pensar que a família deveria estar em primeiro lugar e não o escotismo. As rusgas começavam a aparecer e logo o bom relacionamento que deveria existir era corrompido por um ou até dos dois cônjuges. Outro ponto que abordavam, mas em menor intensidade era absorção do escotismo nos fins de semana e feriados. Sempre o participante deixando a outra parte sem ele ou ela. Afinal dizem que basta três horas por semana e estaremos colaborando, mas não é verdade. O sábado dia de quase boa parte das reuniões em Grupos Escoteiros, não bastam três horas. Muitas vezes vai, além disto. Quase sempre o sábado passa a ser parte do escotismo. Sobra o domingo isto se não haver atividades com a sessão neste dia.

          Já vi grupos com reuniões no dia de semana. Isto ajudava muito com os fins de semana liberados para a família. Mas existem muitos senões. Infelizmente não temos no escotismo nada que comente ou oriente o Chefe ou a Chefe nesta hora. Um psicólogo, um conselheiro matrimonial nem pensar. Ficam os amigos tentando ajudar, mas sem nenhuma experiência. Quando o Grupo Escoteiro tem personalidade, onde todos se sentem como uma grande família então, a chamada interação de pensamento seria responsável para achar um caminho, isto claro se as vibrações de amizade emitem a todos uma maneira de dizer – “Um por todos, todos por um”. E olhe isto se aplica em todas as camadas escoteiras. Na chefia e nos dirigentes.  Mas sei que você está impaciente. Deve achar que a tal mãe-do-ouro é uma bela história. Poderia ser, mas sabe? Nada de anormal nada mesmo.

          Este preâmbulo que fiz do problema, tão pouco comentado no escotismo e nunca lembrado pelos dirigentes em cursos de formação nunca deixarão de existir. Felizes os que a família aos sábados partem para o escotismo. Sempre digo que nesta união se a família está unida, o mesmo acontecerá no escotismo. Ao contrário, se algum deles ficou em casa e não comunga do mesmo ideal, perde-se muitas vezes a noção do que é o certo e o errado, com ambos os cônjuges se considerando com a razão. Esquecem os amantes do escotismo que o outro lado exige sua presença principalmente em atividades sociais e familiares, que muitas vezes são esquecidas. Os voluntários que se aproximam por não saberem dosar esta participação, quando reconhecem o erro ou mesmo pressionados pelo outro lado (aí entra a família dele e dela) abandona as atividades escoteiras, claro com uma certa mágoa, mas sabendo que o caminho que resolveu seguir é o certo. Perde o escotismo por não saber ou mesmo não poder resolver tais problemas familiares.

               Mas vamos lá, não é uma grande história e acredite, passei poucas e boas nas minhas aventuras escoteiras. Nesta eu achei que não ia voltar. – O Velho Escoteiro se levantou e foi até a uma prateleira de livros na sala. Dentro de um dos livros retirou uma tira de couro, do tamanho de uma página de caderno – Veja ele disse –
Aqui você tem o maior mapa de tesouro que já existiu em nosso país. Nem imaginas quantos morreram por causa dele. Eu mesmo não morri porque a mão de Deus me protegia. – Agucei a curiosidade. – "Velho" Escoteiro é uma história sua? Gostaria de conhecer. – Calma ele disse. Esta estava guardando comigo e achei que não contaria para ninguém. Nunca pensei que de novo pudesse pensar naquela aventura que ficou marcada e nunca mais esqueci. Nunca esqueci e nem vou esquecer que vi a morte de perto. – Tudo começou quando um antigo Escoteiro amigo do meu Chefe me procurou – Olhe jovem, ele disse, soube que você tem espírito aventureiro. Se um dia achar que está preparado, siga este mapa. Se você conseguir encontrar a pista, irás ficar rico!

             - Olhei para o antigo Escoteiro duvidando. Eu tinha vinte anos. Ainda era pioneiro, pois como gostava de viajar por este mundo de Deus não quis assumir nenhuma chefia e nem nosso Grupo Escoteiro precisava. – Ele o antigo continuou – Seguindo o tesouro da Mãe do Ouro, o veio da mina estará próximo. Quem me deu disse que nunca iria lá. Disse-me que a lenda da Mãe do Ouro tem sua origem na África. Quando aqui chegaram os primeiros escravos eles fugiam das fazendas, e com a mesma persistência que faziam em seu país de origem, eles iam para as montanhas, escavavam grandes tuneis e logo surgiram centenas de minas. Parece ou parecia que havia uma guardiã dos tesouros da serra, das montanhas e dos rios que eles exploravam. – Ela está sempre perto do ouro e é vista a noite, porque brilha com a mesma beleza dourada do metal dourado. – Me afirmaram que ela foi vista muitas vezes em Ouro Preto.

          - Não que duvidasse do Velho, mas aquela historia parecia mais uma lenda – o Velho Escoteiro continuou – Se um dia você resolver entrar em uma mina e deve ser das que a Mãe de Ouro mora, aguarde. Ela costuma aparecer depois das sete da noite, como uma luz dourada e cauda luminosa. Poucos mortais puderam vê-la de perto. Dizem ser linda, coberta de ouro, cabelos cheios de bichos e é crença geral é quem conseguir limpar seus cabelos, ficará muito rico.  – Olhe meu amigo você sabe como sou. Um aventureiro de mão cheia. Procurei outros pioneiros e chefes convidando a ir comigo. Ninguém quis. O espírito aventureiro nem sempre é assimilado por todos. Meu pai e minha mãe já eram falecidos. Tinha na empresa de meu pai um excelente diretor. Eu passava mais tempo na faculdade que na firma. Não deixei de barato. Nas férias de julho me mandei para Ouro Preto sozinho. Nunca tive medo.

          - Não perdi tempo. Tinha minha tralha organizada para exploração de cavernas. Uma pequena corda de nylon de quinze metros, uma excelente lanterna e um capacete onde havia um reator fixado destinado a produzir gás a partir de pedras de carbureto de cálcio. Muitas pilhas de reserva, ração para dez dias, e um pequeno material de sapa que sabia não iria utilizar. Nada de materiais de roupa de cama, e pouco individual. Dentro da caverna não iria precisar. – Como sempre os moradores da cidade mesmo sendo ela uma cidade turística nós Escoteiros sempre chamávamos a atenção. Não perguntei nada a ninguém. O mapa era meu rumo. Eu sabia como seguir. Meu destino era a parte mais alta do Pico do Itacolomi, hoje um parque muito famoso e muito visitado. A subida era forte. Eu tinha bastante material na mochila e no bornal. Lá pelo meio dia parei para descansar e fazer um lanche. Vi um local atraente, uma pequena arvore e muito capim gordura, espesso e mesmo o conhecendo por ser meio colante desci a mochila e coloquei-a no chão e ela sumiu. Assustei, abaixei e ao tatear onde ela sumiu e eu também cai em queda livre. Uma queda que nenhum mortal poderia sobreviver.

           - Hoje me lembro de poucas coisas. Senti o primeiro baque em uma saliência daquela enorme caverna. Depois outro e mais outro baque. Não pude ver. Devia ter caído mais de vinte metros. Sentindo dores terríveis olhei para cima e vi um teto abobadado, luzes amarelas que não podia explicar. Desmaiei. Acordei outras vezes com enormes tonturas, parte do corpo parecendo sangrar e para ser sincero achei que se não tinha morrido isto iria acontecer em pouco tempo. A dor era tanta que mal conseguia rezar. Lembro um pouco de tudo. Uma madorna para dormir, acordar com dores lancinantes no corpo, sede, suor escorrendo pelo corpo, ficava em transe em um tormento inigualável. Não sei quantos dias fiquei ali. Abri os olhos e pela primeira vez as dores cessaram. Tentava abrir os olhos e pouco que via nada ouvia, a não ser bem longe dali o som de um pequeno riacho. Um dia vi um vulto. Uma mulher. Linda! Cabelos loiros encaracolados. Sorria para mim. Parecia um anjo ali naquela caverna escura.

              Não sei quantos dias se passou. Minha sede acabou. Não tinha mais fome e minhas dores sumiram. Não conseguia levantar.
Pensei que tinha dentro de mim muitos ossos fraturados. A visão sumia e poucas vezes depois a vi de novo. Um outro dia acordei. Alguém cantava, mas não conseguia ver. Uma voz me embalava e me contava uma historia – Assim a voz dizia – Uma vez algumas crianças brincavam perto da entrada desta caverna. Os moradores sabiam e proibiram as crianças de estarem ali. Naquele dia elas estavam acompanhadas de duas moças que conversavam distraídas e alegres. De repente, lá no fundo da caverna saiu uma luz brilhante. Todos queriam correr e gritavam assustados. A luz dourada passou sobre a cabeça de todos o que fez que muitos desmaiassem. Eram incrédulos e pecadores. Os inocentes nada tiveram, mas os outros ficaram vários dias abobados, sem fala. Ninguém soube explicar o que foi aquilo. Os outros os inocentes tiveram sorte. A fortuna foi dada a eles de maneira simples. Acho que foi ela quem com uma voz doce e suave disse: Sei que você é um Escoteiro. Tem a bondade no coração. Vais um dia adquirir enorme fortuna.

                Acordei encostado a um tronco de uma enorme acácia. Enorme mesmo. Avistei ao longe o sol se pondo. Ao meu lado minha mochila, meu chapéu e meu bornal. Sentia-me forte. As dores sumiram. Pensei em descer a serra, mas antes fiz uma busca nos arredores para ver se encontrava a entrada da enorme gruta que caí. Em vão. A noite chegava. Resolvi dormir ali naquela noite. A acácia era uma grande barraca e o céu estrelado era convidativo. Fiz uma oração de agradecimento. Não sei por que no final dela me lembrei da senhora loira, que a história dizia ser a Mãe-do-ouro. Acho que foi ela que me salvou. Como fez para me tirar dali daquela gruta não sei. Dormi o sono dos justos. Acordei com centenas de pássaros cantando. De uma maneira inusitada e que nunca aconteceu até um lobo guará se aproximou. Olhei para ele e ele olhava através de mim, me virei e vi ao longe no pé da serra um vulto. Um sorriso e desapareceu para sempre. Era ela. Sem sombra de dúvida.

              Incrível foi quando cheguei a minha casa e ao retirar toda minha tralha para limpar e guardar de dentro da mochila vi um saquinho de couro, pequeno. Abri. Surpresa. Uma enorme pepita de ouro. Enorme mesmo. Devia valer uma fortuna. Não a vendi. Não podia. Ficou comigo por toda vida. Acreditei que foi ela a Mãe-do-ouro que me presenteou. Queria dizer muito obrigado, mas acho que ela sabia o quão fui grato por tudo. O tempo passou. Pensei um dia voltar lá novamente. Sabia que se bem planejado muitos chefes Escoteiros iriam comigo. São coisas de Escoteiros a busca de aventuras. Melhor não. Dizem que a sorte não bate em sua porta duas vezes. – Olhei para o Velho Escoteiro. Ele parou de falar. Subiu as escadas do andar de cima. Achei que ia dormir e como era do seu feitio não disse boa noite. Levantei devagar do meu banquinho de três pês. Olhei para cima e ele descia as escadas novamente. Chegou até a mim. Retirou de um saquinho de couro a enorme pepita. Enorme. Quase do tamanho de um ovo. Devia valer enorme fortuna.

                Na rua gelada do inverno que se arrastava naquele mês fiquei pensando na historia do Velho Escoteiro. Não podia ter certeza da verdade, mas e a pepita? Sabia que era verdadeira. E nunca em tempo algum o Velho Escoteiro mentiu para mim. O vento soprava uma nevoa branca pela rua, fria e gelada. Meus ossos batiam com o frio. Pensei na Mãe-de-ouro. Gostaria de ter ido lá. Mas estas histórias não existem mais. Só as vejo nas páginas que me jogaram em uma internet qualquer. Os sonhos ficaram para trás. Um dia li que a crença de tesouros escondidos ainda permanecem intactas nos moradores mais velhos de Ouro Preto. Diziam que os escravos escondiam o ouro. Outros guardavam fortunas enormes em suas bolsas. Mas existiram outros que nunca nada encontraram e outras se deram mal nas suas vãs tentativas. O mundo dos mistérios e dos grandes tesouros ficou para trás. Hoje tudo mudou. Mas nas passadas firmes que eu caminhava pela rua onde morava o sonho permanecia em minha mente. Hã! Velho Escoteiro. Devia ter nascido em outra época. Entrei em casa calmamente. Cai num sono profundo. Nos meus sonhos ela apareceu linda e sorridente! Lembro até que me disse – Você meu jovem tem a alegria no coração, sei que como Escoteiro e puro nos seus pensamentos palavras e ações um dia terá enorme fortuna. Acordei olhando para minha esposa que dormia ao meu lado e também sorria. Enorme fortuna!              

O mito característico desta história é a Mãe-do-Ouro. Conforme estudo de Câmara Cascudo a Mãe-do-Ouro é indicadora de jazidas de ouro, madrinha dos veeiro, padroeira dos filões. Aparece em forma de chama ou meteorito. Os relâmpagos indicam a suas direção e os trovões revelam a sua cólera.  Manoel Ambrosio poeticamente disse: “quando uma dessas bagas coruscantes tombam d’além, ouve-se ainda um frêmito ingênuo que a civilização ainda não pode extinguir: - é ela e ela... A zelação, serpente Mãe-de-ouro encantado, a cobra de cristas de fogo a zunir, mudando, afundando-se nas solidões das montanhas”.


sábado, 6 de abril de 2013

Jaime Molina, os sonhos do Imperador – Fasc.081.


Se não fosse imperador, desejaria ser professor. Não conheço missão maior e mais nobre que a de dirigir as inteligências jovens e preparar os homens do futuro.

Jaime Molina, os sonhos do Imperador – Fasc.081.

(Esta é uma história de ficção. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas não é mais que uma mera coincidência. Tudo é fruto de criação da mente do autor).

                            Meu coração estava triste. Sabia que mais dia menos dia ia perder um 
grande amigo, um segundo pai. O "Velho" Escoteiro a cada dia definhava mais. É um caminho sem volta. Todos nós um dia passaremos por ele. Notava que seu corpo não ficava mais ereto. Sempre de cabeça baixa. Na sua poltrona de vime, ele pouco conversava. De vez em quando ele levantava a cabeça me olhava e dava um sorriso. É triste quando a idade avança e os poucos amigos que ainda insistiam em visitá-lo rareavam. Neste domingo o "Velho" não almoçou conosco. Sentiu muita fraqueza e Vovó fez um lanche para ele comer na sala. Nem bem terminei e corri para lá. Mesmo que ele ficasse calado eu gostava de ficar junto dele. Até seus discos ele não ouvia mais. Sentei ali em frente a ele no meu banquinho de três pés, rotina de mais de dez anos que passei ali com ele na Sala Grande.

                          - Sabe meu amigo – Ele disse baixinho. – O Imperador do futuro será um imperador de ideias. Sabe quem disse isto? Wiston Churchill. Aquele que o povo inglês venera até hoje. – Quase não o ouvia. Arrastei meu banquinho para perto dele. Não sei por que me lembrei disto. Acho que foi por causa de Jaime Molina. Alguns diziam que ele fora Megalomaníaco. Afirmavam que tinha mania de grandeza, de poder, uma obsessão enorme de realizar atos grandiosos no movimento escoteiro. Pelo menos o defendo num ponto, nunca disse abertamente que ele era o melhor em tudo. Que ninguém nunca fará melhor que ele. Eu prefiro ficar com Napoleão. Ele dizia que a maioria dos homens só sabe ousar pela metade. Governamos melhor os homens pelos seus vícios que pelas suas virtudes. Completava dizendo – Dar convenientemente é honra, dar muito é corromper.

                         O "Velho" Escoteiro parou para respirar melhor. Aquele palrador do passado já não era o mesmo. – Um ar, uma tossida e lá vinha ele de novo – Jaime Molina quando passou para tropa ninguém ainda sabia de suas qualidades. Ela foi aparecendo aos poucos. Dizem os filósofos discordantes que o Líder se faz outros dizem que ele nasceu assim. Mas Jaime Molina assumiu uma liderança perigosa. Na tropa e no grupo ninguém notou. Mas soube tirar proveito de suas qualidades e afastar da sua frente todos aqueles que podiam ser Monitores. O próprio Monitor foi defenestrado por ele. Não, juro que ele não era um príncipe seguidor de Maquiavel. Nada como fazei o mal, mas fingir fazer o bem. E olhe ele nunca usou a força para com o próximo era de uma bondade infinita. Em um ano era o Monitor. O Chefe o respeitava. Tornou-se um líder na tropa. Poucos comentavam sua sede de poder.     

                          Ao quatorze anos liderava com palavras todos os jovens do distrito. Tinha ideia que agradavam. Todos ficavam de olhos fixos nele quando falava. Um dia em uma reunião de Monitores do distrito ele fez uma coisa tão simples, mas tão simples que ninguém tirou os olhos dele e nunca mais o esqueceram. Simplesmente fez uma nova costura de arremate com os cadarços de seu coturno. Sim ele usava os do exército. – Disse com um sorriso nos lábios: Este agora será batizado de arremate Escoteiro. Os escoteiros do mundo inteiro irão fazer. Não vamos dizer que ele era uma bela figura. Não era. Até baixo pela sua idade. Um nariz grosso que ele detestava. Seus cabelos eram crespos o que o obrigava a cortar baixo. Mas que voz! Como falava bonito! Seus gestos eram maravilhosos.

                          Era um devorador de livros. Principalmente os escoteiros. Tinha todos em sua biblioteca em sua casa. Seus pais podiam ser considerados classe média, nem tão ricos claro, mas ele tinha tudo que queria desde que suas notas escolares continuassem altas. Manteve em seu ego, o nome dos grandes chefes escoteiros do passado. Conseguiu no Google a foto de quase todos eles. Ele os olhava e dizia para si próprio. – Serei mais lembrado que todos vocês. Ficarei na história Escoteira. Quem sabe irei reinventar o escotismo? Baden Powell que me desculpe. Mas serei aclamado como o novo Escoteiro Chefe Mundial. – Só dormia pensando em seus sonhos. Os anos passaram. Com dezessete ele assumiu a diretoria do grupo. Claro a idade não permitia, mas quem iria dizer não para ele? Até o distrital o respeitava. Na UEB era considerado o jovem escoteiro mais promissor do Brasil. Não tinha uma solenidade que ele não estive presente e uma vez chegou a falar com o Presidente da República em nome da União dos Escoteiros do Brasil.

                        Aos dezenove anos foi eleito Comissário Distrital. Seu distrito era considerado o melhor do Brasil. Modéstia seja feita. Ele era bem quisto em toda a comunidade. Vereadores faziam fila para falar com ele. Épocas de eleições o carregavam nos ombros. No fundo ele era um autêntico líder Escoteiro. Poderia ter sido um vereador, prefeito, deputado ou senador e quem sabe um presidente. Ele ria quando lia sobre o novo presidente do Brasil. Ria do seu marketing, de se mostrar jovem, corredor, remador, poliglota e até piloto de jato, mas ele errou muito. Esqueceu-se da honra e da ética e colocaram-no para fora. Isto não iria acontecer com ele. Não, Jaime Molina era diferente. Seu sonho era outro. Seria o Escoteiro Chefe do Brasil. Queria ser lembrado por gerações e gerações.

                       Para Presidente Regional foi um pulo. Eleito por unanimidade. Na primeira vez que participou de uma Assembleia Nacional conquistou amigos, falou, rodopiou, aceitou ideias bobas e idiotas que os dirigentes falavam e pensava – Perdoe seus inimigos, mas nunca esqueça seus nomes. Ele sabia que ali os dirigentes eram todos seus inimigos. Sabia agradar, abraçar, dar um aperto de mão, pois um breve contato pessoal pode deixar uma impressão duradoura para sempre. Seu plano era simples. Primeiro ser eleito para a Assembleia Nacional e depois para o Conselho de Administração Nacional. Ali ele sabia que teria de enfrentar mais treze Escotistas experimentados, mas ele sabia que nenhum seria páreo para ele. Sabia como iria fazer. Estar junto é um começo. Continuara juntos um progresso. Trabalharmos juntos sob a minha direção seria a chave do sucesso.

                        Em quatro anos chegou lá. O mais novo do CAN. Apenas vinte e três anos. Os novos eleitos aquele ano e os que continuavam não gostavam dele. Não vamos dizer que ali estava a nata do escotismo nacional, mas eram pessoas com altos conhecimentos e vivência Escoteira. Porque um menino deste chega aqui e fica a ditar ordens?  - O "Velho" escoteiro deu um pigarro. Fechou os olhos. Ficou calado por minutos. Eu estava pregado na história dele. Como tantas que ele tinha para contar esta era mais uma que me impressionava. Ainda bem que a Vovó chegou com o carrinho de chá. Chá para o "Velho" Escoteiro para mim um delicioso café feito em coador de pano. Delicioso. Claro acompanhado de pães torrados na manteiga, roscas lindas e gostosas, sem faltar os apetitosos pãezinhos de queijo e biscoitos de polvilho. Empanturrei-me. Mas não me despreguei dali. Queria saber toda a história de Jaime Molina. Nunca tinha ouvido falar dele, mas se o "Velho" Escoteiro contava sua história é por que o homem existia realmente.


                         Não era tarde, menos de onze da noite. O "Velho" escoteiro respirava devagar. Olhos fechados. – Acho que vai dormir e o melhor é esperar o final da história amanhã. – Posso continuar? Ele disse. Sorri. "Velho" Escoteiro este Jaime Molina me assombrou. Dormir sem saber o final da história iria me dar insônia. - Jaime Molina nunca falou dos seus planos para ninguém. Ele tinha tudo programado em seu computador. Seria o novo Escoteiro Chefe Mundial. Baden Powell e outros chefes famosos brasileiros seriam histórias da carochinha perto dele. Em um ano já era o Presidente do CAN. Começou a mudar. Nova lei Escoteira, nova promessa. Convenceu a todos os companheiros da equipe. Poucos do escotismo discordaram. Ele sabia como funcionava. Nada de consultas, nada de perguntar. Põem-se em discussão, todos aprovam e era só informar a escoteirada.

                           Ele não esquecia seu marketing pessoal. Viajava para todas as regiões. Nos aviões e ônibus só de uniforme Escoteiro. Criou um novo. Era seu “dodói”. Agora com um novo tipo de chapéu. Parecido com o texano, mas com uma pitada dos vaqueiros do nordeste. Todos tinham orgulho do uniforme. Ele sabia como fazer,
andar, se mostrar orgulhoso por fora, mas amado por dentro. Nos seus lábios para qualquer um sempre saia à palavra mágica: Obrigado. Você é muito importante para nós. O cérebro gosta de razões para decidir. Ele era sempre generoso para com todos. Ninguém esquecia seu nome. E ele uma maquina de lembrança. Sabia quase o nome de todos que um dia encontrou. Uma vez em um acampamento Escoteiro nacional eles o carregaram nos ombros. Manny Souto não gostava daquilo. Manny Souto era do CAN. O que Jaime Molina estava fazendo era um absurdo. Todos estavam cegos. Ninguém parecia ver onde ele queria ir. Ninguém mais falava em Baden Powell. Os velhos escoteiros do passado foram apagados da memória. Os novos livros escoteiros só falavam em Jaime Molina.

                                 Ele planejava seus passos com carinho. Sabia onde pisar. Sabia o que pensava Manny Souto. Planejou para ele não ser reeleito. Afinal conseguiu aprovar uma nova composição da organização Escoteira no Brasil. Não mudou muito. No artigo 12 – dos órgãos nacionais ele colocou seu nome em primeiro lugar. Escoteiro Chefe.  Nos demais itens embaixo lá estavam – De acordo com a aprovação do Escoteiro Chefe. Exceto Manny Souto ninguém discordou. Mas convenhamos, Jaime Molina conquistou a amizade de poderosos. Muitos deputados e senadores queriam ser seus amigos. Almoçou diversas vezes com a Presidente no Palácio da Alvorada. Pisou diversas vezes no Palácio do Planalto. Queira ou não queira o escotismo tomava nova forma. O novo programa era considerado o melhor de todos. Criou distintivos novos, mudou tudo. Nomenclaturas aboliu o Chefe e criou o Líder júnior, Líder Sênior e Líder Geral. Aplaudiram de pé a mudança.   Para muitos jovens Baden Powell já era. Agora para eles só existia o Escoteiro Chefe Jaime Molina. Manny Souto não foi eleito. Tentou com seus amigos mostrar quem era Jaime Molina. Fizeram uma oposição democrática, mas desapareceram depois do processo que a UEB fez contra eles.

                                  Jaime Molina nunca estudou direito, mas programava os processos dos “inimigos” com precisão. No final eles agradeciam por não pagar o que a lei determinou. A lei! Ora a lei! Um dia eu perguntei a um Chefe se ele já tinha ouvido falar no "Velho" Lobo, o Almirante Benjamim Sodré. Ele pensou, pensou e falou – Quem foi ele? Jogador de futebol? Ah! Escotismo. Quem te viu e quem te vê. Mas tira-se o chapéu para Jaime Molina. Os que no passado alardeavam que nosso crescimento em um ano aumentou em dez por cento enfiaram a viola no saco. Jaime Molina em três anos passou dos trezentos mil. – "Velho" Escoteiro isto é verdade? – Como nunca ouvi falar? O "Velho" Escoteiro sorria matreiramente. – Posso terminar? Eu também estou com sono!

                                   Jaime Molina em uma reunião do CAN sentiu fortes dores no peito. Não disse nada para ninguém. Sua imagem de jovem forte, veloz, autêntico líder nacional e de uma coragem sem par não poderia ser abalada. Foi ao médico.  Diagnóstico? Ele tinha uma Angina. O musculo do coração estava recebendo sangue de forma insuficiente. Ira gerar uma falta de oxigênio para as células do músculo do coração. Isto provoca dores intensas. Seu caso era grave, muitas células do músculo estavam morrendo. Poderia ter um enfarte a qualquer minuto. Você só tem uma saída. Um implante de coração! Jaime Molina sentiu uma dor tremenda. Não no coração e sim no cérebro. Dor nos seus sonhos. Faltava pouco para ele alçar novos voos oceânicos e agora isto. Sabia que não seria o mesmo se fosse transplantado. Preferia morrer. Agradeceu o médico e saiu.

                                  Pensou em contar para Jasmim sua noiva. Melhor não. Ela ia aprontar um berreiro. Planejou sua morte. Teria que ser bombástica! Deveria ficar na memória de todos os escoteiros para sempre. Queria ser lembrado. Afinal ele sonhava em ser um Imperador Escoteiro. Sabia que para o outro lado não levaria nada só as suas boas obras e ele se orgulhava do que fez. Teria um legado de boas ações assim ele pensava. - Isto mesmo, um Jamboree Mundial. Iria conseguir apoio. Verbas estaduais e federais. Iria convencer deputados, senadores e a Presidente a estarem presentes. Tentaria atrair o Presidente Americano, afinal ele não fora Escoteiro quando jovem? Iria trazer o Escoteiro Chefe inglês, iria mostrar que ele Jaime Molina era superior a ele. Pensou até em trazer o Príncipe Charles. Não seria difícil. Planejou ter mais de quinhentos mil escoteiros neste Jamboree. Quem sabe um milhão?

                                     - O "Velho" Escoteiro se calou. Fiquei esperando o final da história. – E então "Velho" Escoteiro, conte o final, o que aconteceu a Jaime Molina? – Ele riu a gosto. Não sei. Ainda estou pensando se deixo a angina acabar com ele, pois este megalomaníaco é um perigo para o escotismo e olhe que temos muitos deles por aí. Ou então quem sabe dou vida longa ao futuro Líder Escoteiro Chefe Mundial! – Mas "Velho" escoteiro, então ele não existiu? – Claro que não. Baden Powell pode ser criticado, pode-se dizer o que quiserem dele, mas o seu escotismo nunca será substituído. Eu pensei nesta história devido às novas eleições que houveram este ano. São tantas as promessas que entre os eleitos pode ter um Jaime Molina não acha? O "Velho" Escoteiro levantou e subiu as escadas para seu quarto. Lá do alto parou me olhou e disse: - Durma bem. Um dia deste me vou. Você é responsável para não deixar que um homem destes um dia apareça!

                                        Saí devagarinho. Fechei a porta da sala grande. Tinha a chave. Era como se fosse da família. Não vi a Vovó. Devia estar dormindo. Na rua um vento frio me pegou de pronto. Sem paletó e manga de camisa fui para casa em passo escoteiro. Quatro quarteirões. Por muito tempo fiquei com aquela história na mente. O "Velho" Escoteiro me contou tantas e esta marcou. Um perigo aparecer em nosso meio um falastrão, boa pinta, mas seria muito difícil separar o joio do trigo. Dizem por aí que o Escoteiro é puro nos seus pensamentos palavras e ações, mas bah! Vai-se acreditar em tudo?
        
Vaidosos que gabam-se de si mesmos e de sua pretensa superioridade (acreditando que são imortais) são derrubados na sua própria arrogância, vencidos pela humildade do interlocutor.

Sergio Fajardo



sexta-feira, 29 de março de 2013

Comentando sobre o Sistema de Patrulhas



Conversa ao pé do fogo.

Comentando sobre o Sistema de Patrulhas

“‘Quero que vocês, monitores, entrem em ação e adestrem suas patrulhas inteiramente sozinhos e à sua moda, porque para vocês é perfeitamente possível pegar cada rapaz da Patrulha e fazer dele um bom camarada, um verdadeiro homem”. De nada vale ter um ou dois rapazes admiráveis e o resto não prestando nada. Vocês devem procurar fazê-lo todos positivamente bons.
...Para conseguir isso a coisa mais importante é o próprio exemplo, porque, o que vocês fizerem os seus Escoteiros também o farão.
...Mostrem a todos eles que vocês sabem obedecer às ordens dadas, sejam elas ordens verbais, ou sejam regras que estejam escritas ou impressas e que vocês cumprem ordens, esteja ou não o chefe presente. Mostrem que conseguem conquistar distintivos de especialidades, e, com um pouco de persuasão, os seus rapazes seguirão o seu exemplo.
...”Mas lembrem-se que vocês devem guiá-los e não empurrá-los”.
Baden Powell

Capitulo I


Pequenos rolos de fumaça se misturavam com a fraca brisa do ar que soprava leve e intermitente na varanda da casa do “Velho”. Fora um dia quente de verão, já em meados de novembro num mês de primavera, onde as flores tão bem cuidadas pela Vovó desabrochavam nos canteiros próximo a cerca de madeira caiada de branco. A grama verde era um convite para sentar, principalmente naquela hora do lusco fusco, onde a vista não alcançava o pôr do sol que se escondia atrás de prédios e casas, naquele longínquo bairro da cidade onde morávamos. A fumaça, velha conhecida, era produzida pelo cachimbo do "Velho" e o aroma achocolatado como sempre era elogiado pelos mais novos, que ainda desconheciam o ritual do “Velho” e que este fazia questão de não mudar.

Ao nosso lado, dois rapazes de aproximadamente 20 anos, um deles noivo de um ex-guia e o outro namorando uma pioneira, estavam empertigados nas suas cadeiras de madeira, calados, prestando uma atenção “canina” no que o “Velho“ dizia. Este, sentado numa cadeira de balanço, já gasta com o tempo, e com o olhar de quem acredita no que fala, pensava mais uma vez que poderia passar para aqueles rapazes toda sua experiência de anos e anos de Escotismo em poucas horas de um bom “tete a tete”.

Os dois iniciavam como Escotistas em um Grupo Escoteiro próximo ao nosso. Estavam com aquela motivação tão própria da idade e foram a casa do “Velho" para trocar ideias e aprender um pouco de como dirigir uma Tropa Escoteira. Apesar de terem sido Escoteiros e Seniores sentiam dificuldade na mudança brusca, pois agora a responsabilidade era bem maior do que antes.  O Grupo ao qual pertenciam apesar de aparentemente sólido, fraquejava na direção das sessões, pois as chefias anteriores não marcaram bem suas presenças. Pôr serem da modalidade do Mar, comentávamos entre nós que estavam a “deriva”. O Chefe do Grupo sentindo dificuldade em arregimentar adultos procurou ex-escoteiros e pôr sugestão do “Velho”, jovens que pudessem colaborar e se sentissem satisfeitos com a participação.

O “Velho” quando podia estar junto aos jovens era outro. Cortês, simpático, amigo e totalmente diferente quando estávamos sós, eu e ele. Isto provocava ciúmes, pois eu era o único que o visitava constantemente e aguentava sem reclames suas egocentricidades. Claro, eu sabia que eram forçadas, só para mostrar que o leão de outrora ainda rugia, mas seus dentes não mordem mais.
Próximo a nós, Vovó tricotava em outra cadeira de balanço ao lado do “Velho”, e numa manobra simples, sem pressa, balançava a frente e atrás, num rangido próprio e que aos poucos estávamos nos acostumando.

Numa mesinha pequena próximo a varanda, bolos, pães caseiros e deliciosos biscoitos de polvilho estavam espalhados em singelas travessas, alem é claro de um chocolate quente, colocados ali para que pudéssemos saborear as delicias que somente a Vovó sabia fazer. Ela nada dizia. Quieta e serena continuava seu lazer, tricotando, como se aquilo refizesse a labuta daquele dia tão quente. O “Velho” conversava calmamente com um sorriso nos lábios. Seus conselhos, seus contos, sua maneira de falar, era como se fosse um contador de estórias de barbas brancas, falando para Betsabá, num castelo próximo a Bagdá, naquelas famosas historias das Mil e uma Noite. Os jovens olhavam embevecidos, como se pai e filho estivessem confraternizando.

- Eu diria para vocês - Dizia o “Velho” que se pudesse voltar no tempo eu não seria o mesmo. Se tivesse a oportunidade que vocês estão tendo de ser um Chefe Escoteiro, começaria tudo de novo. Meu sonho sempre foi estar em uma tropa Escoteira, com jovens ao meu redor sorrido. Todos eles liderando e sendo liderados.

- Não seriam empurrados nem ficariam preocupados com o apito do chefe. O programa não seria rígido (café com leite dos sábados, conforme ele dizia onde já se sabia o inicio, meio e fim – em termos é claro).

- Teria elasticidade bastante para mudar dependendo das expressões do rosto de cada um. Encorajaria os jovens para que fossem os donos do programa. Eles é que o fariam. O relógio seria um mero instrumento para marcar o inicio e o fim da reunião, pois o meio iria depender da aceitação do programa. Meu julgamento do que é bom ou ruim não existiria. Os jovens é quem diriam pela sua maneira tão peculiar de aceitar ou não o que é bom para eles. Somente os resultados teriam validade.

- Esta tropa dos meus sonhos - continuava o “Velho”- não teria a preocupação de ser grande. - Poderia ser duas ou três patrulhas. Poderia com o tempo ser até quatro, mas seriam patrulhas livres e unidas. Ali todos seriam amigos fraternos. Minha preocupação seria com a qualidade e não quantidade.

- O respeito do antigo ao mais novo seria uma questão de honra e aceito com dignidade. Haveria uma fila para formação, mas esta não seria como uma escala hierárquica para se chegar ao topo. No meio dela poderia estar um 1a classe e a sua maneira tanto faz se fosse pôr altura, pôr amizade, e até pôr decisão do Conselho de Patrulha.

- O importante seria que quando a patrulha formasse todos saberiam que ali eram grandes amigos, responsáveis pelo desenvolvimento próprio, da patrulha e da Tropa. O monitor era um a mais e não o único.

- “Velho“- falou um dos rapazes - Não entendi o porquê da fila e o que ela tem a ver com a Tropa! - Afinal sempre foi uma rotina a formação, pois sempre ficou bem claro onde fica o Monitor e o Sub. Também a antiguidade ali era demonstrada. - Não sou eu que estou dizendo, - completou o “Velho”- Repito as palavras de BP - “Cada patrulha escolhe um rapaz como chefe. Ele é chamado Monitor. O Chefe Escoteiro espera do Monitor um grande trabalho na orientação e lhe dá inteira liberdade para executar sua tarefa na Patrulha. O Monitor escolhe outro rapaz para ser o segundo no comando. Este é chamado de Sub. Monitor. - Consultem a página 58 do livro Escotismo para a Rapazes”. Não existe meio termo. Não há antiguidade. Os jovens elegem seu líder e este escolhe seu assistente.
    
- E se eles escolherem alguém sem condições de liderança? - falou o outro rapaz. - A escolha foi deles - completou o “Velho” - Eles que devem achar se foi bom ou ruim e não vocês. A democracia começa pôr ai. Pôr sermos adultos julgamos diferente dos jovens. A confiança é a base do Sistema de Patrulhas. A partir do momento que passamos a tomar decisões dos rapazes, deixamos de cumprir nossas obrigações como Chefe Escoteiro.

- A nós compete treiná-los, adestrá-los (os monitores) e dar condições para o desenvolvimento deles.  Afinal pretendemos conseguir liderança não de um só, mas de todos na Patrulha. Não vamos discutir se o líder nasce feito ou pode ser feito. Isto não importa neste caso. Todos eles tem seu próprio estilo e sua própria liderança. Diferente, mas tem. Se o Sistema de Patrulha for feito adequadamente com responsabilidades distribuídas, vai funcionar. 

- Estamos sentindo que alguns tem procurado fazer do Chefe Escoteiro um líder cheio de obrigações e responsabilidades fugindo da parte mais importante. Até certo ponto não discuto, mas não como está sendo colocado. A Tropa flui positivamente quando o Sistema de Patrulhas funciona. A distribuição de tarefas, a preparação do programa, o arquivo, a vida da tropa, irão dar melhores resultados sendo feito pôr eles.

- Claro que cada um de vocês fazem parte do todo. Para isto estão ali. Esqueçam um pouco esta preocupação inicial de todos os novos em chefia e lembrem-se do tempo em que foram escoteiros. Procurem ver o que gostavam ou não gostavam.

- O “Velho“ respirou fundo, deu uma grande tragada em seu cachimbo, piscou seus olhos azuis várias vezes e se levantou indo até a mesa de guloseimas, dando uma mordida com vontade em um biscoito qualquer. Os rapazes também fizeram o mesmo. A noite despontava gostosa e fresca. O ar puro invadia aquele cercado com sabor de aventura.


“Você é o líder dos seus monitores”. Podemos até chamá-lo do monitor dos monitores. Dirija somente esta patrulha. Cabe a você orientá-los, fazer acampamentos e excursões, sempre visando o adestramento para que eles possam depois adestrar os escoteiros da patrulha. Esta é sua responsabilidade. Não fuja dela e experimente, pois tenho certeza que poderá alcançar o gostinho do sucesso.                                                                                       
Baden Powell.

Comentando sobre o Sistema de Patrulhas.

A CORTE DE HONRA

“A Corte de Honra é parte importante do Sistema de Patrulhas”. Trata-se de uma comissão permanente que resolve os negócios da Tropa.
A Corte de Honra é formada pelo Chefe e pelos Monitores, ou caso se trata de tropa pequena, pelos Monitores e Submonitores. Em muitas Cortes, o Chefe assiste à reunião, mas não vota. Monitor reunido em Corte de Honra tem muitas vezes mantido em atividade a Tropa na ausência do Chefe.
A Corte de Honra toma decisões sobre programas de trabalho, acampamentos, recompensas e outros problemas relativos à administração da tropa. Os membros da Corte estão obrigados a guardar segredo.
“Somente as decisões que afetem a Tropa toda, isto é, competições, nomeações, programas etc., são trazidas a público”.
Baden Powell.


CAPITULO II

O sol caminha para o oeste. Inexoravelmente em qualquer lugar do planeta, lá está ele, rumo a sua velha e conhecida trilha. Seu percurso não é novo e todos sabem disso. Toda a humanidade depende do seu programa diário para sobreviver. Não foi ele que destruiu florestas, poluiu rios ou mesmo fez escurecer a atmosfera do tempo. A evolução natural das coisas não impediu sua marcha e ele é prova viva que as mudanças são válidas, mas nem sempre proveitosas se feitas desordenadamente.

Nesta hora do entardecer, onde a penumbra avança noite adentro, as luzes da varanda foram acesas e ali, inebriadas com a voz do “velho” e sua maneira peculiar de “Contar estórias” esquecíamo-nos do tempo. Vovó agora dormitava na cadeira de balanço. Para lá... E para cá... - Será que dormia mesmo? - Seu compasso era igual ao grande relógio que tomava conta de uma parede na sala grande. Ela abstinha de comentar. Era assunto do “Velho” e não seu.

- Sou sincero - continuava o “Velho” - Se tivesse a felicidade de ter uma máquina do tempo, o que não daria para volta ao passado, somente para começar tudo de novo! – Nunca esqueço o que fui o que fiz. Não há arrependimentos.

- Lá, nesta tropa dos meus sonhos, eu teria um excelente contato com os monitores. Quantos acampamentos faríamos juntos. Num domingo despretensioso, iríamos todos a um Shopping, uniformizados, assistir a um bom filme. - Iríamos também Visitar locais importantes para aumentar o saber, provocando admiração nos transeuntes e mostrando que a idade para a responsabilidade nada significa no Movimento Escoteiro.

- O adestramento seria uma constante. Eles seriam grandes amigos meus, frequentando minha casa e eu a deles. Teria a confiança de todos e poderia ajudá-los nos seus problemas e quem sabe, também me ajudariam. Mas o que eu iria ter certeza é de que seria mais um e não apenas um. - Faríamos tantas coisas! - E quem ganharia com isso seria a tropa! - Em nossas conversas ao “Pé do fogo“, eles me diriam o que podíamos fazer para um bom programa, o que os outros jovens pensavam a respeito e ouvindo-os, teríamos uma programação formidável! - já pensaram?

- Ainda penso num acampamento, numa floresta qualquer, já tarde da noite, o fogo brando, ali sentados, dois, três ou quatro monitores e seus subs, um ou dois chefes, - todos os amigos! - Que programa, que adestramento, quantas coisas boas para fazer deles responsáveis pela tropa e o seu adestramento progressivo. - Quando chegasse a hora da passagem para os seniores aquela amizade não iria terminar. Seriam sempre convidados como participantes em qualquer atividade que quisessem estar presente! - Errado? - Não. Muito certo. Os novos monitores teriam muito a aprender com eles.

- Vou contar para vocês uma passagem interessante quando fui escoteiro - O “Velho” já estava vivendo a personagem. Era uma das manias dele. Mas era sincero no que dizia. Era um bálsamo ouvi-lo. Seus cabelos brancos caiam na testa e seus olhos pequenos e azuis desapareciam para logo aparecerem novamente. Apesar de sua tez enrugada nós não desgrudávamos os olhos dele, e para nós não era um velho, era um jovem! Um autentico chefe Escoteiro.

- Continuava o “Velho”- Vivi o Escotismo de uma maneira que não esqueço nunca! - Vocês meus jovens também devem ter excelentes estórias para contar, pois assim como eu, puderam viver aventuras mil não? -(O “Velho” estava dando um “pito“ em mim, pois comecei como adulto. Tudo bem, não me incomodo me considero um bom chefe).

- Logo após ter passado para a tropa de Escoteiros, vindo da Alcatéia, senti uma grande liberdade na patrulha pôr mim escolhida (deixavam que os lobinhos pudessem escolher suas patrulhas quando fossem fazer a Trilha). O Chefe e dois dos assistentes foram grandes amigos e foi um choque ao ver um monitor dirigir sem a presença deles em diversas ocasiões. Era um susto e tanto, pois na Alcatéia não tínhamos essa liberdade tão aberta!

- Ali encontrei muita amizade e companheirismo. Tinha alguma preocupação com a liberdade de todos e me preocupava sempre com que fazíamos. Havia sempre o receio se desse errado em alguma atividade. - Nem bem tinha completado três meses de tropa, e saímos pela manhã de um domingo (somente a patrulha) indo de ônibus até a periferia da cidade e lá nos dirigimos a um sitio de um velho amigo do Grupo, que pôr sinal era sempre visitado pôr muitos escoteiros. 

- Na patrulha havia dois cargos em aberto, explico melhor - Todos nós escolhíamos nossas responsabilidades na patrulha e caso houvesse mais de um interessado no mesmo cargo, era feito sorteio. Assim, escolhi ser o escriba da Patrulha. Tinha facilidades para escrever e como um “Pata Tenra” achava ser a mais fácil. - Chegamos ao sitio pôr volta das 08 e meia da manhã. Não era bem um sitio, estava mais para uma fazenda. Somente um sitiante na porta de entrada, pois o local quase não era explorado e se mantinha intacto principalmente a mata e pastos. Alguns bois, alguns cavalos, e mais nada.

A casa sede era pobre. Três cômodos sem banheiro. Instalamo-nos e logo procuramos uma arvore para o cerimonial da Bandeira. Deram-me a honra de hasteá-la. Nosso monitor era calmo e ponderado. Era um autentico líder. Comecei a me acalmar à medida que participava das atividades. Os chefes já não faziam falta. Treinamos barraca, machadinha, nós (sem teoria) e corte de lenha, tudo isso pela manhã. Ao meio dia e quarenta fizemos um lanche. Foi nesta hora que resolvi dar um giro pôr conta própria sem falar com os demais. Atrás da casa havia um arvoredo muito bonito e ouvi um barulho de uma cascata. Dirigi-me até lá. Não era tão perto. Andei um bocado! - No meio das árvores só o barulho me chamava a atenção. Enfim avistei um pequeno riacho com águas límpidas e claras. Tão claras que se avistava o fundo. Fiquei hipnotizado! - Como era belo tudo aquilo! - Lembrei-me dos diversos contos da História da Jângal, contadas pela nossa Akelá, nas belas historias de Mowgli junto ao Balu e Baguera.

- Passei um pouco de água no rosto e vi que era hora de voltar junto a Patrulha. Dei meia volta e senti um calafrio! - Não sabia pôr onde tinha vindo! - Comecei a tremer nos meus 11 anos, agora cheio de dúvidas. Não sabia se chorava ou se confiava que me achariam facilmente. Optei pôr ficar ali. - O tempo passava e eu já estava chorando baixinho. Senti uma mão no meu ombro. Levei um enorme susto. Era o nosso monitor. Graças a Deus!

- Voltamos junto e no caminho pensei que meu papelão seria ridicularizado pôr todos.  Estava cada um fazendo uma atividade diferente. Nosso monitor pediu a uma Segunda classe para me dar um adestramento de posicionamento e marcação de pontos cardeais para ser usado quando se anda em pequenos bosques. Ainda não estava na hora de um bom adestramento de bússola e orientação. Tudo deveria fluir naturalmente e na hora certa!

- Não houve sermão. Só um pequeno lembrete pelo monitor e comigo a sós. Sorri agradecido. Nunca mais se repetiu. O “Velho” sorria. As lembranças se mantinham acesas em sua mente. Sua estória era simples, tão simples que passou despercebido de todos o objetivo dela.


- Como vêm, - continuava o “Velho” é possível ter um monitor assim? - Só como muito adestramento! - E ele não era o único - os outros da patrulha também pareciam em determinadas horas estarem sempre preparados. Os dois chefes presentes sentaram na grama e esticaram as pernas não com o intuito de cansaço, mas querendo ouvir mais e mais. E iriam ouvir.

Era o trivial e infelizmente esquecido pôr todos pôr acharem tudo banal sem interesse. Mas para nós, o interesse estava ali presente. Sem interrupção para não perdemos o fio da meada.

Ensine-os a pescar. Não pesque para eles! - É melhor um arroz sem sal e grudento feito pôr eles do que o excelente feito pôr adultos. Lembre-se, eles são a razão de você estar aqui!

                                                                                                                                       
Comentando sobre o Sistema de Patrulhas.

“Creio nos jogos ao ar livre e pouco me importa que sejam jogos brutos ou violentos e que ocasionalmente alguém se machuque”. Não simpatizo com o sentimentalismo exagerado que pretende manter os jovens embrulhados em algodão. Na luta pela vida o homem formado ao ar livre sempre demonstrou ser melhor.
Quando vocês brincarem, joguem duro: - e quando trabalhar trabalhem duro. “Mas não deixem que os jogos e os desportos prejudiquem seus estudos”.
Theodore Roosevelt
           
CAPITULO III

Era um vozeirão que se ouvia a distancia. Todos nós já o conhecíamos e tirando o “Velho” no Distrito, ele poderia sem sombra de dúvida ser sua segunda pessoa. Fora escoteiro, Sénior, pioneiro e colaborou no distrito, na Região alem de ter sido Assistente Nacional Sênior por muitos anos. Seu humor não tinha contestação. Não enfrentava o “Velho”. Este ainda era para ele o seu chefe, o amigo. Pôr onde andou brigou muito (no bom sentido) falava de tudo, discordava de tudo. Nos conselhos, indabas, reuniões de adultos, onde quer que fosse, todos o temiam ou tinham certo respeito por ele. Como dizia sempre é melhor ser franco agora que tapear toda uma organização. 

Um antigo Escoteiro Chefe durante um Conselho Nacional, falava, falava e falava. Ele pediu a palavra e não deram. Pediu novamente e negaram. Saiu do seu lugar e foi até o microfone onde tentaram impedir. Ele os enfrentou tomando o microfone para si. Embasbacados, os conselheiros não falaram nada. Ele perguntou se éramos um movimento democrático - Que democracia é esta onde não posso falar? Vou ter um horário especifico, - falou, falou e falou. No final foi aplaudido por todos.

- Em todos os Conselhos nos anos de eleições lá estava ele, falando, falando e falando. Ele achava que as chapas apresentadas eram combinadas para serem eleitas, pois nunca havia oposição. Nos cantos, nas pequenas salas, sempre grupinhos formavam e quando se chegava mudavam de assunto. Ele era assim, falastrão, mas um boa praça. Sentou também na grama, a moda índia (com as pernas cruzadas) e o “Velho” explicou sobre o assunto que estavam comentando. Ele balançava a cabeça concordando.

- Vovó abriu os olhos e sorriu para ele com um cumprimento simples balançando a cabeça.

O “Velho” aproveitou a deixa e continuou - Foi bom você chegar, pois lembro quando foi monitor de Patrulha. Eu já era assistente, mas pude observar que sua presença sempre foi marcante para os demais. - Não é bem assim, falou ele. Se bem me lembro, BP achava que os mais fortes, maiores e mesmo que não tivessem boa liderança, seriam melhores monitores que os demais. Claro, sempre fui alto e forte, mas acho que não era o meu caso, achava que tinha liderança.

- Em termos disse o “Velho”- Em termos. Mas vocês tinham um excelente chefe - continuou o “Velho”- E olhe que ele era um pai novato, que se adaptou tão bem na área escoteira, que não sabia se era um antigo ou um novato. No meu entender era um mateiro na arte de “Fazer fazendo“.

- O Escotismo é simples. Estão tentando complicá-lo pôr não terem tido a oportunidade de “passar pôr ele”. Quem já viveu a experiência sabe o desejo dos jovens. Eles querem atividades extra sede, ao ar livre sempre e tudo que não tiveram a oportunidade de fazer até hoje.


- Isso demanda responsabilidade, pois em nossas mãos estão moças e rapazes e a segurança não pode ser desleixada. Ao sairmos para qualquer local temos que medir as conseqüências, mas a liberdade a todos devem ser dada. - Ninguém gosta de ser guiado se pode enxergar. Até lembro-me das palavras de um amigo que me dizia sempre: - Na falta de liderança, todos são bem-vindos, e Explicava: - Conheces as historia de um cego, que conduzia outro cego e ambos caíram num buraco?
 
- Tudo é simples e prático “Velho”, disse o amigo. Aquele que não faz exatamente o que diz o método nunca poderá dizer que aplica o Sistema de Patrulhas. No meu caso lembro bem que me achavam meio aloprado e inclusive quando saia com a patrulha alguns pais ficavam assustados e pediam para o chefe me alertar! - Nunca tive acidentes com a patrulha, pois nossas atividades eram programadas com hora de saída e chegada. Nossos programas eram revisados pela chefia, a “Corte de Honra” definia tudo e todos na patrulha estavam bem preparados.

- Não tão simples - comentou o “Velho”- Você deu algumas mancadas e inclusive lembro-me de uma em que todos o esperavam as 18 horas e só chegaram após as 23 horas. - Mas chegamos disse ele. Não sei por que resolvi pôr conta própria alterar algumas coisinhas no programa e tive que aguentar a pressão da patrulha, dos monitores e da Corte de Honra. Deixaram-nos no gelo pôr quatro meses sem poder fazer atividades sem a chefia. Nossa patrulha aprendeu a lição. 

- Se estou entendendo - falou um dos jovens - vocês estão afirmando que o sistema só funciona com liberdade - Deixar que eles façam desde que devidamente instruídos, preparados e adestrados. Mas e as outras atividades em conjunto? - Nunca deixaram de existir! - falou o “Velho “-Vocês devem medir a disponibilidade de tempo para que possam guiar a Tropa”“.

- Repito - G U I A R! - Não dirigir. Para isto é necessário algumas reuniões nos dias de semana. Com o tempo os próprios monitores vão procurá-los em suas casas, desde que autorizados para isto e é claro que devem ser autorizados. A amizade que vai uni-los é a mais importante na Direção da Tropa. - Deve haver diversas atividades em que todos estarão presentes. Seja na sede ou no campo. O que se está insistindo aqui é que os monitores é que dirigem, adestram, ensinam e acompanham o crescimento dos escoteiros da patrulha. Estes, democraticamente fazem do monitor o seu porta-voz, pois eles os escolheram e o elegeram.

- Este é o motivo da insistência de termos rapazes advindos do movimento liderando tropas Escoteiras. - Um adulto que não passou pôr esta fase, nunca vai acreditar ou só acredita pela metade na responsabilidade da patrulha em dirigir a si mesma. Ele vai fazer uma projeção totalmente errônea do Sistema de Patrulha, sempre baseada em sua experiência, que pode ser da sua vida passada ou da sua atividade profissional. “Mas se bem orientado, bem adestrado, tenho a certeza que ele vai ser um excelente escotista completou o amigo do ““ Velho”. E olhe que conheço uma infinidade de Escotistas que não foram escoteiros quando jovem e procuraram aprender e assimilar as ideias de Baden Powell.

- Tudo vai fluir facilmente se observarem estes princípios - era o “Velho” quem falava. - Uma boa patrulha, vai bem se a democracia é posta em pratica sempre. Vocês irão observar que o Conselho de Patrulha vai funcionar e consequentemente ele terá voz no Conselho de Monitores e na Corte de Honra. Se cada um desses órgãos for sério dentro dos padrões exigidos, o respeito as normas não deixaram de existir. Aí sim, estarão fazendo o verdadeiro Sistema de Patrulhas.

Um forte barulho sobre nossas cabeças nos deram um tremendo susto - Era um helicóptero que sobrevoava a região em baixa altitude. Levantamos correndo e fomos para a Sala Grande onde os últimos a entrarem foram o “Velho” e a Vovó.
Demos boas gargalhadas uns com os outros. As batidas do coração voltaram ao normal. A noite chegava e o tempo parecia ter parado. O assunto não se esgotara e as duvidas persistiam. Muita coisa ainda haveria de ser dita.

“Ninguém pode dizer exatamente o que é o certo, até ver que deu certo. Os melhores exemplos são aqueles em que passamos pôr eles. Ensinam-nos exatamente onde podemos chegar. O Escotismo também é assim e muitas de suas falhas são devido a falta de experiência o que pode nos levar as incertezas onde o fracasso é o caminho final”.

                                                                       
Comentando sobre o Sistema de Patrulhas.

“Cada Tropa Escoteira é formada pôr duas ou mais Patrulhas de seis a oito rapazes. O principal objetivo do Sistema de Patrulhas é dar responsabilidade real a tantos rapazes quantos seja possível. Isto faz com que cada rapaz sinta que tem pessoalmente, alguma responsabilidade pelo bem de sua Patrulha. E leva cada Patrulha a ver sua responsabilidade definida para o bem da tropa. Através do Sistema de Patrulhas os escoteiros aprendem que tem uma considerável participação em tudo que a sua tropa faz”. 
Baden Powell

Capitulo final

A noite avançou de mansinho sem fazer alarde. O amigo do “Velho” pedira licença pôr ter um compromisso e já se fora. Nós, ansiosos para mais conhecimentos, permanecíamos ali na sala Grande, acompanhados pela Vovó e pelo “Velho”. Enquanto não fossemos “dispensados“ acredito que não iríamos nos retirar. O “Velho“ não demonstrava sinais de cansaço e entre uma ou outra conversa e uma cachimbada, aumentava o volume de sua velha vitrola, cujo disco de um trio famoso em sua época, repicava velhas e saudosas canções escoteiras.

Lá fora, uma lua cheia e “rechonchuda” brilhava no céu, e pela janela, apesar das luzes acesas, invadia sem permissão parte da Sala Grande. O cheiro achocolatado, velho conhecido, era respirado pôr todos sem reclamação. O Sistema de Patrulhas em principio parecia ter sido absorvido pôr todos, mas a medida que discutíamos detalhes, mais e mais chegávamos a conclusão que pouco sabíamos. E era tão simples! - Chefe - monitor - escoteiro - escoteiro - monitor - chefe! - Simples mesmo.

- Vocês não devem esquecer - falou o “Velho” - que o Sistema de Patrulhas é um trabalho em Equipe. Através dele vamos dar aos jovens noções de civilidade, harmonia, compreensão, democracia, honra, fraternidade e formação da personalidade sem impor determinações que não condizem com a formação do caráter. Trabalhamos com o todo, mas visando a unidade, lembrem-se que colaboramos com os pais, a escola e a igreja. Não sei se me fiz entender bem! - completou o “Velho”.

- O Programa Escoteiro já é conhecido de vocês e basta aplicá-lo. O inicio é simples e para isto a tropa pode ajudar e bem. Em uma conversa ao pé do fogo, em um acampamento de monitores ou em uma reunião de tropa, tracem algumas metas e deixe que cada um use da palavra para alterar o que achar inconveniente. Peçam aos monitores para irem anotando. Quinze a vinte minutos no máximo. Maior tempo é cansativo e não vai ser produtivo. Depois, nesta mesma reunião ou numa próxima, sugiram uma Reunião de Patrulha, para discutir novamente os tópicos e o seu desenvolvimento.

- Lembrem-se que ali devem ter dados concretos, pois eles é que vão dizer as metas a serem cumpridas, tanto no programa da tropa como no adestramento progressivo de cada um. É importante que cada jovem tenha uma copia da ficha modelo 120(não sei se existe outra) para anotar e acompanhar como está indo o seu adestramento progressivo e todas as vezes que for alterada o monitor apresenta ao chefe da Tropa para atualização de uma segunda via e devolvida. A “Corte de Honra“ define sempre as etapas onde se exige parte da Lei e Promessa. - Claro que uma só reunião não será o bastante. Talvez mais. Cada tropa tem suas necessidades. Mas em três reuniões, seja de patrulha, Conselho de Monitores e Corte de Honra, acredito que terão um programa sadio e pronto para ser desenvolvido.

Isto acaba com “detalhes” de programa semanal, mensal e trimestral. Falo isto, pois tenho visto dezenas de amadores falando sem nexo sobre o Sistema de Patrulhas e o pior, nunca passaram pôr isto. Falam na teoria e na prática não se vê os resultados. Se aprenderam alguma coisa e querem colocar em prática, seria bom terem um bom adestramento técnico boa literatura e uma participação que não pode ir ao encontro dos desejos dos jovens. - Lembre-se, o importante é deixar boa parte do programa na mão dos jovens. E vai funcionar. Disso tenho certeza.


- Não importa o que possam dizer para vocês, pois compete a cada um acompanhar e se necessário alterar de comum acordo com os monitores e sempre levando em consideração a disponibilidade da chefia. A cada passo deve-se verificar o resultado. Este é que deve ser cobrado a todo instante. - Afinal, qualquer programa pode sofrer uma correção de rumo e se for o caso, discuta novamente com eles. Se passarem um ano fazendo assim e conseguirem manter pelo menos 65% dos jovens na tropa com etapas sendo vencidas estão no caminho certo. É um percentual baixo para uma boa tropa, mas acredito que a media em nosso país não passa de 25%.

- Tudo isto tem de vir acompanhado da parte mais importante que é a Lei e a Promessa. Façam seus escoteiros decorarem-na. Eles tem de saber na ponta da língua o que é e o que significa. A cada segundo não deixe de repetir para você e para eles uma Lei. - Haverá dificuldades. A própria chefia do Grupo poderá impor obstáculos.  Tentem pedir uma carta de “alforria” pôr um tempo determinado para provarem que dará certo. Acredito que irão conseguir. Mas se vierem com aquela lengalenga já conhecida, ou aceitem e continuem fazendo errado ou peçam o “chapéu” e procurem outro Grupo que irão apoiá-los.

- Haverá muitos que torcerão pôr vocês. Hoje, a evasão é tão grande que não sei como alguns ainda discutem Sistema de Patrulhas. - Se olhassem para trás poderiam ver que alguns Escotistas que se sobressaíram no Movimento ou fora dele, foi porque participaram do verdadeiro Sistema de Patrulhas.

Os raios do luar não respeitava a rua pôr onde passávamos. Deserta e calma, sentíamos o orvalho a cair e o aroma doce e suave completava nossa caminhada no começo daquela manhã. Acredito ter valido a pena ir para casa aquela hora. Nós três, contando cada um suas façanhas do passado, algumas vezes cantando as velhas canções escoteiras do “Velho” sentíamos orgulho em participar do Movimento Escoteiro.

Atenção! Fascículo já publicado aqui. Repeco após alguns acertos e melhorias. Estes não estão numerados.