Historias e estorias que não foram contadas

Historias e estorias que não foram contadas
uma foto, de um passado distante

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Obrigado Brasil! Fasc. 085.

Muito Obrigado
 
Pela luz que irradia em minha vida Pela fé inquebrantável no coração Pelas amizades que tenho tão queridas Pelo amor, a paz, a emoção Pelo desencanto que me leva ao crescimento Pela noite que durou só um momento Pelo dia feito longo em agonia Pelo beijo eterno que não sai do pensamento Por todos os dons que pela eternidade são teus E que agora por teu querer fizeste meus... Obrigado!
Nelinho.

Obrigado Brasil! Fasc. 085.

              O Velho Escoteiro estava na porta me esperando. Olhou para o relógio e olhou para mim – Trinta segundos atrasado falou – Olhei no meu relógio. Estava no horário. Melhor não discutir, pois o Velho Escoteiro adorava uma boa discussão. Como sempre impecavelmente uniformizado. Desci e abri a porta do carro para ele. Agora usava uma bengala. A idade pesando e ele ainda insistindo em fazer escotismo. - Você vai aonde? Perguntou. Velho, eu disse - Não combinamos de visitar alguns grupos Escoteiros neste mês? Olhe que não foi fácil convencer a tropa a ser dirigida pelo Monitor mais antigo. – Caramba, e os seus assistentes? – Velho são dois e todos eles tem provas na faculdade, não poderão ir. – E este uniforme? – Olhei para mim. Estava com o azul mescla e a calça comprida – Não sabia que era para ir com o de campo Velho Escoteiro.

             - Ele ficou calado por alguns minutos e disse – Sabe meu amigo, se estamos com os jovens devemos ficar como eles. Hoje está acontecendo muito os chefes dirigirem suas tropas com outro uniforme. É um paradoxo, a tropa de caqui e o Chefe de azul mescla ou então a tropa de azul mescla e ele de caqui. E isto piora quando o Chefe quer aparecer e arranja outros badulaques para pendurar. Ele esquece que ali é um irmão mais Velho, um amigo simpático e quem deve se sobressair são os jovens não ele. – Não disse nada. Eu sabia disto. Não vou generalizar, mas tem muito Chefe por aí que esquece que a figura principal são os Escoteiros e não ele. Naquele sábado iriamos visitar o Grupo Escoteiro Andrômeda, não muito longe. Ia ligar avisando e ele pediu que não – Conheci um Chefe de lá, fez um curso comigo há muitos anos. Devo a ele uma visita. – Pensei o porquê o Velho resolveu visitar trinta anos depois. Será que tal Chefe ainda existiria?

               Chegamos as duas e vinte e cinco. Todos já estavam formados em frente o Mastro da Bandeira. Todos não, alguns meninos insistiam em terminar a partida de futebol que estavam jogando. – Espere Chefe! Já estamos terminando. Pensei comigo o que o Velho Escoteiro estaria pensando. No mínimo que ali horários não são levados a sério e não tem importância. Primeiro o futebol e depois o cerimonial. Os outros que não jogavam bola que esperem. Não eram muitos, quando formaram vi que devia ser três patrulhas incompletas. Muitos meninos e meninas com a camisa solta. O Chefe era um chefão. Enorme, óculos escuros, um lindo boné do Airton Sena e falar do seu uniforme é melhor calar. O amigo do Velho Escoteiro não era mais do grupo, tinha saído há muitos anos. O Velho foi bem recebido. O Chefão fez questão de fazer um elogio a ele que demorou mais de dez minutos no cerimonial. Ele agradeceu e disse que poderiam continuar sua programação, ele estava ali só para uma visita de cortesia.

                Menos de quarenta minutos e o Velho Escoteiro me chamou para ir embora. Estava decepcionado com tudo que viu. Da Alcateia a tropa sênior. Em nenhum momento sentiu que o escotismo ali estava sendo praticado no método que nos ensinou o fundador. A Alcateia só canções e folguedos infantis, os lobinhos dispersos, não prestavam atenção, alguns deles com pedrinhas na mão jogavam em seus companheiros. Os seniores faziam um jogo e à medida que iam saindo os pares de namoricos se formavam. Na tropa não eram mais de doze. Três patrulhas de três ou quatro cada uma. O chefão explicou que aquele dia faltaram muitos. O Velho Escoteiro perguntou pelo diretor técnico. – Não veio hoje, ele só aparece aqui uma vez por mês. Se o senhor vier outro dia mando avisá-lo e olhe temos mais oitos chefes que também não vieram hoje. Sei que eles ficariam orgulhosos em conhecê-lo e apertar sua mão.

          No retorno o Velho Escoteiro não disse nada. Não havia o que dizer e ambos sabíamos que grupos assim têm vários por aí. Queria perguntar a ele onde andaria o distrital e seus assistentes. O deixei na porta de casa e não entrei. No dia seguinte domingo era rotina almoçar com ele e dar um abraço na Vovó. Eu tinha muito que fazer em minha casa, liguei para ele e disse que só iria à tarde. Agradecia o almoço. Por volta das quatro da tarde lá estava a trocar ideias com ele. Em nenhum momento comentou sobre a visita ao Grupo Escoteiro Andrômeda. Não havia o que comentar, pois ele sabia o que eu pensava. Quantas e quantas vezes falamos sobre isto.

       No sábado seguinte cheguei a sua casa as duas em ponto. Ele na porta a me esperar e olhando para o relógio – Um minuto adiantando disse! – Se fosse outro ia mandá-lo para o inferno, mas era o Velho Escoteiro. Horário para ele é sagrado. Desta vez iriamos um pouco mais longe. Iriamos visitar o Grupo Escoteiro Pico da Neblina. Resolvi pegar a Rodovia 280 um caminho mais curto. – Não conheço ninguém lá, disse. Convidaram-me por e-mail, insistiram em me conhecer. Quer saber o que fiquei pensando esta semana? Não? Então me responda, conhece alguma organização onde o Voluntário paga para ajudar? – Ele sorriu. Já tinha pensando nisto também e olhe que o grupo que ajudava tinha boa estrutura. Eu sabia que a maioria dos grupos não andavam bem das pernas. Poucos jovens pagavam a mensalidade. Os chefes estavam sempre ali para colaborar. Conheci grupos que tinham parte da receita através dos seus voluntários.

        Chegamos faltando dez minutos para o cerimonial. O Velho Escoteiro foi levado para um lugar de honra. Saudaram-no com uma bonita palma escoteira. Parecia que ensaiaram por várias reuniões. Ele não gostava disto. Quatro Escoteiros e duas escoteira chegaram correndo. Estavam atrasados. – Desculpe Chefe, viemos a pé, pois só hoje ficamos sabendo que o senhor convocou todo mundo para receber um tal de chefão do escotismo. Permite que entremos em forma? – Ri para o Velho Escoteiro. Ele não falou nada. A reunião foi um brinco. Quatro matilhas de cinco lobos e lobas cada uma. Quatro patrulhas de Escoteiros e escoteiras, cada uma com seis. Duas de seniores e guias. Fizeram belos jogos. Os jovens parecem super disciplinados. Em hora nenhuma vi os monitores decidindo ou mesmo em reuniões nos seus cantos de patrulha. Vi que a Alcateia parecia cansada eles participavam, mas pareciam não estar muito motivados.

        Meia hora antes de terminar fomos levados a um salão onde varias mães e pais
fizeram uma bela mesa de quitutes e doces. Quando chegamos todos eles vieram cumprimentar o Velho Escoteiro. – Então é o senhor? Disse um. – Pensei que era mais gordo disse outra. – Custei a trazer meu menino, ele tinha saído, mas o Chefe quase chorou para trazer ele hoje. Disse que o senhor ficaria impressionado. – O Velho Escoteiro estava carrancudo. Não disse mais nada, comeu dois salgados e um doce e disse que precisar retirar-se. Hora de seus remédios. No retorno ele calado. Antes de entrar na sua rua ele me perguntou – Dá para imaginar quantos estão participando ativamente? – Sei não Velho respondi. – Se tivesse olhado com mais atenção veria que o Chefe da tropa é um desconhecido para os meninos. Tenho certeza que quem dirige é o Diretor Técnico. Na Alcateia tinha quatro assistentes, mas só uma era frequente. - Não disse nada. Não havia o que dizer. Porque fizeram isto? Perguntei-me. Sem resposta.

             No domingo eu e minha esposa chegamos cedo à casa do Velho escoteiro. Um almoço como sempre caprichado como só a Vovó sabia fazer. A rotina de uma soneca e a tarde falar do escotismo. Não havia outro assunto entre nós. – Sabe meu amigo, disse ele, temos mais ou menos cinco mil e quinhentas cidades no Brasil. Vamos fazer uma conta? – A última estatística da UEB diz que temos mil e cem grupos no Brasil. Se cada cidade tivesse um Grupo Escoteiro ainda teríamos outras quatro mil e quatrocentas sem Grupo Escoteiro, e olhe que nas cidades com mais de quinhentos mil habitantes estão grande parte destes Grupos Escoteiros. Dizem que em dez anos aumentamos dez mil membros. Nestes dez anos tivemos um crescimento de sessenta Grupos Escoteiros. Está me acompanhando? – Um pouco Velho, mas já estou entendendo. Pois é pegue uma cidade com população de quinhentos mil habitantes com cinco grupos, e olhe nem sempre isto acontece. Quantos membros Escoteiros seriamos? Quem sabe uns quatrocentos? Quinhentos? Compare com a população da cidade. Estamos mesmo crescendo?

            Na semana seguinte aquele tema não me saiu da cabeça. Se temos uma população de duzentos mil habitantes e a cada hora nasce 320 bebês onde será que estamos crescendo? 77.000 mil? Ano que vem 90.000? Nossa minha cabeça está esquentando. Voluntários pagando para ajudar. Crescimento pífio, e nossos dirigentes ficam a bater no peito que estamos chegando lá? Lá onde? Pegue os 21.000 lobinhos, os 24 mil Escoteiros, os 9.200 seniores, os 3.000 pioneiros e os dezoito mil chefes e faça a soma. Seria 75.000 e pouco? Então somos uma cidade das mais 5.500 que existem em nosso país. Muito? Minha cabeça estava cheia de números. Se fosse perguntar na internet ela acho eu poderia explodir.

            No terceiro sábado cheguei à casa do Velho Escoteiro e ele sorriu. – Supimpa! Na mosca duas horas em ponto. Custou eim? Desta vez iriamos a um grupo que eu já conhecia. Tinha lá alguns chefes meus amigos. O Grupo Escoteiro Liberdade. Poucos como ele em nosso Brasil. Fundado em 1930. Antiguíssimo. Quantos assim como ele? Se contava a dedo. Nem descemos do automóvel e um lobinho e um Escoteiro nos guiou até a sede. – O Diretor Técnico já era conhecido do Velho Escoteiro. Lá estava ele e mais cinco membros da diretoria. O Velho sabia que não estavam ali para recebê-lo. Era norma estar presente todos os sábados. Era um grupo de tradição. Quase todos escotistas portadores da Insígnia de Madeira. Lembro que o Velho Escoteiro um dia me disse que hoje em dia ele não sabe se os novos IM tem condições de liderar uma sessão como no passado – Sabe meu amigo – ele disse - Na maioria dos estados o questionário que alguns dizem não existem mais, nem toca no tema do sistema de Patrulhas. Mas se você não souber o que é o SIGUE está perdido, nunca será um IM.

             Nem preciso dizer sobre as reuniões. O que mais agradou o Velho foi à tradição. Duas tropas uma masculina e outra feminina. Três Alcateia. Duas masculinas e outra feminina. Três patrulhas sêniores e duas guias. O mesmo cerimonial, a mesma presença das sessões, a Tropa de Serviço, A bandeirola de honra para a melhor tropa do mês. O Velho Escoteiro e o diretor técnico ficaram conversando por horas. Foi preciso que eu disse a ele que estava passando das sete da noite. – Mas já? O Diretor Técnico está nos convidando para um coquetel na casa de um pai escoteiro. Eles fazem isto sempre no segundo sábado do mês. Cada um leva salgados, doces e bebidas. – Velho, me desculpe, fica para outro dia. Prometi a minha esposa levá-la a um espetáculo que estava acontecendo no teatro Municipal.

             No domingo após o almoço em sua casa e após o cochilo quase não falamos de escotismo. – Acabou? Perguntei – Acabou o que? – O seu périplo de visitas a grupos. – Ainda não, mas vamos dar uma folga. Afinal você precisa dar mais atenção a sua tropa. Seu Monitor mais antigo deve estar sentindo a falta do chefe. – Onde está sua responsabilidade? Não disse nada, não havia o que dizer. O Velho Escoteiro começou a contar uma história que não conhecia. Em 1966 sua empresa estava abrindo uma estrada no estado do Pará e ele tinha sido aprisionado pelos índios Tupinambás. Enquanto ele narrava eu fazia tudo para prestar atenção. Um sono enorme. Pudera, a Vovó no almoço serviu um belo de um dourado cravejado de grandes camarões vermelhos e azeitonas pretas. Um arroz soltinho, um feijão inteiro com postas de costelinhas de porco no ponto, e uma travessa cheia de choriços doces e salgados. Me empanturrei! Fazer o que? Senti a mão da Vovó me acordando. Um café meu amigo? 

 

Agradeço ao destino por ter-me feito nascer pobre. A pobreza foi-me uma amiga benfazeja; ensinou-me o preço verdadeiro dos bens úteis à vida, que sem ela não teria conhecido. Evitando-me o peso do luxo, devotou-me à arte e à beleza.

Anatole France


segunda-feira, 29 de julho de 2013

Meu Chefe, meu herói! Fasc. 084

“O teu filho te vê como um herói, não te transforme em um tirano aos olhos dele.”
Plutarco.
 
Meu Chefe, meu herói! Fasc. 084

                 Recebi o recado do "Velho" quase na hora de sair do trabalho. Estranhei,
pois dificilmente ele fazia isto. Fiquei preocupado e fui direito a sua casa. Estava cansado aquele dia. Uma máquina resolveu quebrar e ficamos horas desmontando e consertando. Deu trabalho. Nem tomei banho, pois o chamado do "Velho" tinha prioridade. Subi as escadas e abri a porta da sala grande sem bater. O "Velho" estava lá, como sempre na sua poltrona de vime favorita ouvindo um dos velhos discos de vinil que ele insistia em manter. – "Velho"? Perguntei. O que ouve? Nada, respondeu. Mas me mandou chamar com urgência? Eu? Só pedi para passar aqui, mas vejo que você é rápido no gatilho. E riu a vontade. Só queria saber se você é esperto o bastante para saber quando for uma chamada séria de uma idiota. E riu com gosto.

                Nada contra o "Velho". Suas manias eram por mim aceitas sem raiva ou rancor. Logo a Vovó adentrou a sala. Olá! Você aqui hoje? Sorri de leve. Dificilmente eu ia à casa do "Velho" as terças feiras. Voltei para o "Velho". Vamos aproveitar minha vinda aqui e hoje e você termina suas observações sobre aquele tema do Meu Chefe, meu herói. O "Velho" me olhou e disse, olhe, não chamei você aqui para isto, mas porque não? E você vai ter opiniões fresquinhas. Veja, estive neste sábado a convite em dois grupos escoteiros. Não conhecia. Apenas confirmou o que eu pensava sobre o Diretor Técnico, seus chefes e suas sessões.

              Mas antes quero fazer uma observação, pois vai servir como exemplo para minhas dúvidas que aqui irei narrar posteriormente. De vez em quando dou uma olhada na internet. Não me surpreendeu ver a foto do Escoteiro Chefe Inglês junto à rainha, junto aos jovens e abraçando lobinhos. Também o mesmo nos escoteiros americanos. A BSA faz o mesmo. Idem em diversos países. No Brasil não. Por quê? Porque não vemos dirigentes abraçando, cumprimentando e sorrindo junto aos jovens? Podem dizer que aqui eles são muitos. Mas onde estão? Não os vejo em bate papo na internet, não os vejo sugerindo com artigos em sites de amigos. Isto não seria possível com o presidente do DEN? Acabaram com termo de Escoteiro Chefe, implicaram tanto e hoje ninguém nem mais sabe que existia. Não sei por que, e fizeram isto que está aí. Fecham-se e alguns vêm me dizer que lá tudo é às claras. Mas esqueçamos disto. Só citei para lembrar que em outros países os dirigentes se mostram alegres, juntos aos seus irmãos escoteiros.

              Não o chamei para ir comigo, pois você disse que estaria trabalhando neste fim de semana que passou. Assim aproveitei a carona de um Chefe amigo e lá fui eu ao primeiro grupo. Pessoal bacana. Receberam-me muito bem. O Diretor Técnico foi o fundador do grupo. Está no cargo a mais de trinta anos. Os chefes me mostraram serem um pouco subservientes. Na presença dele abaixavam a cabeça. Confesso que não me senti a vontade. Não gosto disto você sabe. No escotismo ninguém deve abaixar a cabeça ou considerar o outro importante demais para ele. Fiquei pouco tempo. Deu para ver as tropas Sênior e Escoteira e a alcatéia. Não parecia uma família feliz. Não sei, mas acreditava que o Diretor Técnico estava sempre junto, observando, e quem sabe dando instruções aos seus comandados. Comandados? Não seria este o termo, mas ele era o “dono” do grupo. Trinta anos. Fundou o grupo. Queriam o que? Despedi-me e prometi sem muito entusiasmo voltar outro dia com mais tempo.

               No segundo grupo me senti em casa. Uma rapaziada alegre, cantando, brincando, chefes rindo, dando instruções para os monitores, alcateias cheias de vigor, olhinhos brilhantes significando que ali as reuniões eram perfeitas. Fui apresentado ao Diretor Técnico. Estava na sede, junto com outros membros diretores. Não estava lá mostrando junto às sessões não ser o chefão. Conversava com os diretores alegremente. Preocupados com o desenvolvimento do grupo, não quis interromper e vi quando um diretor perguntou quando seria a nova eleição? Quando seria a próxima assembleia? Vi que o Diretor Técnico respondeu preocupado. Conversou com vários chefes sobre sua substituição. Ele já estava lá a mais de quatro anos e achava que precisava passar o bastão para frente.

                Voltei para casa pensativo. Afinal qual a maneira correta? Ora se você fundou o grupo tem que ter seus direitos. Mas isto é bom? Até um certo ponto acho que sim. Já vi muitos grupos cujos Diretores Técnicos são eternos. E muitas vezes perfeitos em suas funções. O grupo neste caso sempre tem uma boa sede e quase a maioria tem sua sede própria. Mas nem todos tem este carisma de arregimentação e se deixam prevalecer pela demagogia, e com isto perdem muito seu efetivo adulto. Claro, temos adultos voluntários que sempre usam a palavra servir antes de tudo. Obedecem sem pestanejar e ficam lá por poucos anos. Outros não pensam assim. Quando entram estão cheios de entusiasmo para aprender e ajudar. O tempo vai passando e ele gostaria de opinar, mas tem sua palavra cortada sempre. Chega uma hora que pega o chapéu e vai embora.


               Já comentei com você sobre a sede de poder no escotismo. Juram para mim que não existe. Existe sim. Na maioria dos grupos os Diretores Técnicos são eternos. O mesmo se aplica ao Distrital. Infelizmente também com a região e a direção nacional. Juram para mim que não. Que a oportunidade são de todos. Dá vontade de rir. Teve até um, que não se identificou se dizendo anônimo que a democracia lá é perfeita. Dizer o que? Mas falo para você francamente, eu ainda não tenho uma opinião formada. Homens são homens. Com seus defeitos, suas qualidades e alguns até imprescindíveis. Não diria que são insubstituíveis não. Conheci um grupo que o “dono” se eternizou no cargo de Presidente deste que fundou o grupo até falecer 50 anos depois. E sabem o que aconteceu? O grupo fechou as portas.

             "Velho" acho difícil mudar isto. Veja você em nosso próprio Grupo. Você saiu depois de vinte anos, entrou um ficou doze anos e há mais de nove tem outro.
O "Velho" me olhou e respondeu: - Deu certo não? Deu sim. Outra mentalidade. Uma democracia diferente, mas é. Tem um Conselho de Grupo e um conselho de chefes que funcionam, uma diretoria que funciona, e os escotistas de sessão tem tudo que precisam. Em tempo algum gastam nada no grupo. Atividades extra sede, cursos, encontros distritais, regionais e nacionais sempre cobertos pelo Grupo Escoteiro. Mas assim é o escotismo em quase todo o mundo. Em alguns lugares são mais sérios nas mudanças, na maneira de agir. Aqui não. Vieram alguns, mudaram com novos em cursos, pois agora estes cursos tem em sua maioria alunos que adentraram a pouco no escotismo e criaram um verdadeiro manancial de seguir o Chefe.

                 As tradições? Foram postergadas. Disseram que o mundo moderno exigia outro estilo. Mudaram tanto o uniforme que agora copiam de outros países dizendo que é novo, é lindo e por aí vai. Espere quando lançarem. As cores iguais. Deixaram de lado as nomenclaturas antigas, os nomes de etapas que tanto encantaram uma geração e assim foi surgindo uma mudança radical em tudo. Foi fácil. Os novos assimilaram o que os novos dirigentes diziam e sabemos que nossa disciplina, a vontade férrea em aprender nos faz acreditar no que dizem e fazem. Hoje vejo dirigentes vestindo qualquer uniforme ou traje e até alguns mal vestidos. Dizer o que? Copiar é claro. Eles são os chefes e os chefes são meus heróis.

               Isto não acontece em outros países. A maioria preserva suas tradições e suas identidades. Vejam voces muitos alegam que a BSA muda muito. Não muda. Quando faz mudanças faz pesquisas sérias com todos os membros. Aqui? Sim temos o sabe tudo. Ou melhor, Chefe Herói. Ele fala, ele diz, e todos dizem amém. E vá discordar para ver. Olhem as fotos de escoteiros ingleses, americanos, alguns países europeus e principalmente os asiáticos. Que garbo, sinto saudades quando éramos assim também. – Fiquei olhando o "Velho" e pensando. O caminho já tinha sido feito. Era um caminho sem volta. Agora pensava como poderia ser a liderança Escoteira em todos os seus níveis. Difícil dizer.

             O "Velho" como a adivinhar meu pensamento disse – Olha meu caro, o estilo nosso de hereditariedade nas lideranças em alguns casos são positivos. Talvez se houvesse mais seriedade nas alterações que fazem se dessem mais satisfação de seus atos a toda comunidade Escoteira e se estas fossem acompanhadas de pesquisas sérias não estas que dizem que fazem então até que o escotismo poderia ser outro. Mais sério. Agora não é. Chamo isto ainda de casta. Uns poucos mandando e outros obedecendo. Meu Chefe meu herói. São tantos heróis. Difícil dizer que eles são assim. Deviam ser o herói dos meninos e meninas, mas com essa profusão de uniforme, com essas mudanças que acontecem no programa, quem é o herói?

              Vovó apareceu na sala com seu carrinho mágico. Magico mesmo. Estava morto de fome. Sanduiches de Peru, de peito de frango, de camarão, pasteis de carne, de mandioca, de queijo. Para beber chocolate quente, suco de maracujá. Vovó era demais. Meu Deus! Vamos lá. Meu estomago não pode esperar. O "Velho" colocou Max Greger tocando Lullaby Of Bird. Comer, ouvir uma bela música e pena, eu não estava em casa para dormir e sonhar. Será que eu também seria um herói?

"Um herói é um indivíduo comum que encontra a força para perseverar e resistir apesar dos obstáculos devastadores."

( Christopher Reeve )


domingo, 7 de julho de 2013

O passado de todos nós. Fasc. 083 Ladies And Gentlemans, com vocês...!

“Todos os dias devíamos ouvir um pouco de música, ler uma boa poesia, ver um quadro bonito e, se possível, dizer algumas palavras sensatas”.
Johann Goethe.

O passado de todos nós. Fasc. 083
Ladies And Gentlemans, com vocês...!

                 Levantei cedo. Meu corpo acostumara e aos sábados mesmo querendo não conseguia dormir mais um pouquinho. Sábado
era sagrado. Muita coisa para arrumar, pois eu e minha esposa trabalhávamos fora a semana toda. Nem pensar em ficar ali na minha poltrona, curtir meu jornal, cochilar e dar uma olhada na TV mesmo sabendo que ali não tinha nada de interessante. Não me culpem.  E ainda tinha o Grupo Escoteiro a tarde toda o que não dispensava as noites. Bem eu não reclamo, pois adoro o escotismo e todos os membros que são meus amigos. Minha esposa nunca participou e sempre me apoiou. Hoje ela estava na casa de sua irmã na mesma rua onde morávamos. O telefone tocou – Atendi. – Preciso de você agora! – era o Velho Escoteiro. Tem de me levar ao canal 10 urgente. – Velho tenho muita coisa para arrumar e a tarde você sabe que vou para o grupo! Esqueça tudo. Olhe eu estava lendo meu jornal e com a TV ligada.  Comecei a cochilar quando o apresentador de um programa de auditório chamou alto: - Ladies And Gentlemans, com vocês...! Orêia e Cotovelo! O auditório veio abaixo e eu fiquei ali em pé olhando a entrada deles. Não havia dúvidas. Eram eles sim. Samuel e Pascoal, vulgo Orêia e Cotovelo.

                 Meu amigo foi uma bela surpresa! Havia anos que eles desapareceram da face da terra. Mas tinha alguma coisa errada. Eu preciso ir lá não só para abraçá-los como saber o que ouve com o Espoleta, ou melhor, Baltazar. Eram três. Agora só dois? – Não tive saída. Sabia que ia chegar tarde à Tropa, mas eu era assistente. Liguei para minha esposa avisando. Disse que ia levar o Velho até o Canal 10. Ele insistiu que ia rever antigos Escoteiros. Ele me esperava na varanda de sua casa. De uniforme é claro. Calças curtas e chapelão. No caminho não parava de falar. - Todos os três foram da minha Patrulha. Eu era o Monitor da Leão quando eles vieram da Alcateia. Primeiro Samuel e dois meses depois o Pascoal. Baltazar veio seis meses mais tarde. Ainda não tinham estes apelidos. Nunca esqueci o dia. Estávamos acampados em Santo Ângelo do Amarantes. Um grupo novo nos convidou. A cidade em festa. Na última noite a pequena emissora de radio sem nos consultar convidou toda a cidade para o Fogo de Conselho. Um sábado, sem cinemas e seus nove mil habitante nada tendo o que fazer o convite foi aceito por todo mundo. À noitinha lá foram todos para o Campinho Verde. Não longe da cidade. Acampávamos lá com os Escoteiros do Grupo Escoteiro Santo Ângelo do Amarantes. Resolveram dar o nome da cidade ao grupo.

                 Ninguém esperava aquela multidão. Mandar embora? Cancelar o Fogo de Conselho? Nem pensar. Nosso Chefe Nestor nem admitia pensar nisto. – Chamou os monitores dos dois grupos e o Chefe deles. – Precisamos pensar em outro tipo de fogo. Sou todos ouvidos! – Surgiram ideias e ideias. – Chefe eu disse – Tem três Escoteiros da Patrulha que são superengraçados. Acho que tranquilamente podem fazer lindas apresentações e tenho certeza que todos irão morrer de rir. – Dito e feito. Olhe, foi o melhor fogo de conselho publico que participei. Nunca ri tanto em minha vida. Pela primeira vez surgiram os apelidos – Palmas para Orêia Cotovelo e Espoleta! Assim foram apresentados pela primeira vez. Sucesso absoluto. Diferente de muitos eles não se maquiaram de palhaços. Um silêncio enorme.

                 O Velho Escoteiro não parava de falar. Vi que os três amigos do passado foram muito mais que isto. Agora vendo seus sucessos o Velho voltava no tempo e se não desse um abraço em cada um seria o fim do mundo. – Ele continuou - Havia uma pequena elevação onde quem se apresentava ficava a vista de todos. Orêia chegou correndo. Parou. Mãos no rosto como a procurar no horizonte. Mamãe! Gritou. Mamãe! Repetiu. Cotovelo chegou correndo – Que ouve meu filho? Mamãe minha Chefe disse que descendemos dos macacos, é verdade? Eu não quero ser um macaco – Calma meu filho, calma vamos perguntar ao seu pai, pois ele até hoje não me apresentou a família dele! – Foi à conta, o povo caiu na gargalhada. – Espoleta entrou pensativo – Atenção vocês! Conhecem a piada do não nem eu? O povo gritou naãao! Não mesmo? Então nem eu. E deitava no chão rolando de rir. E ria, e ria. O melhor deles eram as gargalhadas, deitados no chão rolando de rir não havia quem não acompanhasse. Era contagiante. As piadas surgiram aos borbotões. Eu não sabia onde eles tiravam todas. Depois me disseram que eram criações suas.

                    - Isto foi só o início, continuou o Velho Escoteiro. Nos fogos de conselho da Tropa eles dominavam. Quando era um fogo para o público quem os conhecia vinha de longe só para assistir. Era um estilo novo. Sem fazer caretas. Ficavam sérios quando contavam suas piadas e depois deitavam no chão rolando de rir. Não havia que não os acompanhasse. Quando fomos para os seniores às três patrulhas fizeram de tudo para eles participarem das suas. Ficamos separados pela primeira vez, mas na mesma Tropa. O melhor deles era que as piadas eles mesmo criavam. Uma facilidade incrível. – Chegamos ao prédio do canal 10. O Velho Escoteiro foi entrando e barrado pelo guarda. O Velho Escoteiro é uma pessoa formidável. Segurou na mão do guarda com esquerda, fez a saudação em posição de sentido e disse – Sou irmão do Orêia. Mostre-me o camarim deles. O guarda não teve jeito e mostrou.

                         A porta do camarim estava aberta. Lá dentro uma legião de fotógrafos e jornalistas. Um homem alto de terno e gravata tentava dar uma organização em tudo. O Velho Escoteiro entrou e gritou – Reunião de Patrulha - Quem não for da Touro sai agora! – Ninguem estava entendendo nada. Orêia e Cotovelo quando viram o Velho deram um grande grito de olé e correram para abraçá-lo. “Meu Monitor!” disseram. “Meu Monitor” você aqui? - Uma festa. O grandão esvaziou o camarim. Ficamos ali eu, o Velho e os dois antigos companheiros. Conversaram mais de hora. Só então o Velho Escoteiro me apresentou. Os dois eram ótimos. A gente não sabia se eles estavam contando uma piada ou se estavam sérios chamando a atenção. Passava do meio dia quando disse ao Velho Escoteiro que precisávamos ir. A reunião começava as duas. – Ligue. Não tem celular? Cotovelo se aproximou de mim e sério me disse – Sabe por que o português sempre deixa o celular em cima da máquina de lavar? E ele mesmo respondeu – Para não ficar fora da área de serviço. Deitou no chão e rolava de rir acompanhado de Orêia.

                          Saímos os quatro dali e fomos para um barzinho próximo. Todos que estavam no bar saudaram efusivamente os dois comediantes. Nunca vi o Velho Escoteiro tão alegre. Olha que assisti a muitos amigos dele o visitando, mas ele tirar o pé da sua sala grande e ir visitar alguém? Bem o impossível acontece. – O Velho logo perguntou onde estava o Espoleta. Um silêncio entre os dois. Ninguem queria dizer nada. – Velho disse Cotovelo, uma maldade aconteceu com ele. Uma grande maldade. Ele se apaixonou! Um silêncio na mesa. Orêia continuou – Conheceu Estrela em uma viagem nossa no interior de Minas. Ela não tirava os olhos dele. Morena rechonchuda, bonita, lábios grossos, grandes olhos castanhos, cabelos negros lisos até o ombro. Espoleta logo se apaixonou. Mesmo amigos nós tínhamos um contrato. Nosso agente ficou receoso com aquela mudança em Espoleta. Não era mais o mesmo. Só queria ficar com ela o tempo todo.

                           Ela encheu sua cabeça de novas ideias. Que ele estava sendo prejudicado e podia até estar sendo roubado. Que desfizesse o contrato e fosse sozinho apresentar seus espetáculos pelo Brasil. – Voce não precisa deles – ela dizia. Quantas vezes apresentou sozinho? – Tanto falou que resolvemos desfazer o contrato com ele. Nem passou quatro meses e soubemos que ele estava internado em um hospital em Vila Verde. Paramos dois espetáculos programados e fomos lá. Dava pena. Se você o visse nunca iria reconhecer. Magro, ossos aparecendo na face. Cabelos sujos vestia um calção com uma camiseta suja. O hospital não dava roupas. Tiramo-lo dali. Fazia pena. Ele só chorava. Queria sua Estrela de volta. Um dia sumiu e nunca mais ouvimos falar dele até o mês passado. Ele mora em um bairro simples na cidade de Além Paraíba. Ainda não fomos lá. Mas as notícias não foram boas.


                           Ficamos conversando os quatro até às cinco da tarde. Minha reunião já era. O Velho Escoteiro fez questão que eles fossem a sua casa no domingo. Convidados para almoçar. O domingo foi cheio. Não deu para falar em escotismo atual, pois Orêia e Cotovelo não paravam de contar suas historias com o Velho. Para dizer a verdade o Velho Escoteiro de 86 anos parecia ter menos de sessenta. A noite chegou eles foram embora. – O Velho virou para mim – Preciso que me leve a Além Paraíba! – Velho! Como? Só se for na outra semana. – Nada disto. Vamos segunda. Se quiser ligo para seu diretor, tenho certeza que ele não vai negar lhe dar dois dias de folga. Não vou deixar o Espoleta na miséria. – A Vovó me olhou com ar de súplica. Não havia como dizer não. – Viajamos cedo. Não era seis da manhã e a estrada corria sobre o meu velho Palio de guerra. Foram mais de cinco horas de viagem. O Velho Escoteiro tinha o endereço. Não foi difícil achar. Bem periferia. Uma casinha feita de taboas. Batemos na porta e ele não estava. – Uma vizinha disse que só chegava à noite. Trabalhava de ajudante de pedreiro.

                            Ele chegou por volta de oito da noite. O Velho como sempre de uniforme. Espoleta se assustou – Não reconheceu o Velho, pois estava escuro – Convidou-nos para entrar. Quando viu quem era bateu continência. “Meu Monitor”! Abraçaram-se. Risoleta ria e chorava ao mesmo tempo. Sempre querendo saber de novidades do Velho escoteiro. O Velho insistiu com ele para irem almoçar em um restaurante qualquer. Ele indicaria. Espoleta ficou sério. – Monitor, eu não tenho como pagar. – Se abraçaram com Espoleta chorando. Vamos você é nosso convidado. Conversamos até altas horas da noite. O Velho Escoteiro insistiu que ele voltasse conosco e porque não ser mais um com Orêia e Cotovelo? – Não sei Monitor, não sei se me aceitam de volta. Vamos dormir aqui na cidade. Cedo viemos buscá-lo, você vai até a obra conosco pede demissão e vamos junto de volta. Fica comigo em minha casa até conseguir arrumar uma sua. O Velho em tempo algum perguntou por Estrela. Ele também nada comentou.

                               Às cinco da tarde de terça feira estávamos de volta. Espoleta durante toda a viagem pela primeira vez se abriu e contou seu amor por Estrela. A Vovó foi uma perfeita anfitriã. Difícil encontrar uma esposa como ela. Orêia e Cotovelo foram informados por telefone. Correram a casa do Velho Escoteiro. – Espoleta receoso. – Nem pensar amigo, somos irmãos Escoteiros. Seremos até que a morte nos separe. Os bons tempos voltaram. Agora juraram ficar juntos para sempre. Todos os domingos quando não havia apresentação os três se reunião na casa do Velho Escoteiro. Eu sempre estava lá. O Velho, Samuel, Pascoal e Baltazar, vulgo Orêia, Cotovelo e Espoleta voltaram a ser irmãos outra vez. Juraram que ninguém os iria separar até a morte. Se isto aconteceu não sei. Receberam um convite para excursionar na Europa e partiram. Soube pelo Velho que eles mandaram fazer o uniforme e em cada cidade faziam questão de apertar a mão esquerda dos além-mares. Escotismo não tem fronteiras diziam eles. 


                              A certas coisas no escotismo que me marcam. Eu não fui quando jovem, mas ele o escotismo vivia em meu coração. Uma fraternidade e uma amizade que dificilmente encontramos. E o Espetáculo continua. Orêia, Cotovelo e Espoleta cada dia mais famosos. Os Escoteiros enchiam seus espetáculos em qualquer cidade que passavam. Eu fiquei esperando seu retorno ao Brasil. Farei questão de convidar a Tropa que colaboro a ir conhecê-los. Exemplos de amor e fraternidade. E como dizia a velha Kaa – “Mowgly, não esqueça, somos irmãos de sangue. Tu e eu”.



terça-feira, 4 de junho de 2013

O tesouro maldito da Mãe-do-Ouro. Fasc. 82.

Todos buscam a felicidade como se de uma caça ao tesouro se tratasse. Talvez até tenham razão, pois no fundo a felicidade é o ouro da vida.

 O tesouro maldito da Mãe-do-Ouro. Fasc. 82.

              Ao chegar à casa do "Velho" Escoteiro naquele domingo fiquei surpreso. Lá estava ele de uniforme, o seu velho caqui de guerra que ele adorava. – Sorri, pois mesmo com seus 86 anos ele ainda fazia bela figura. Sempre um exemplo envergando o uniforme. Ele diferente da sua rotina me cumprimentou normalmente. Não estava com semblante carregado sinal que o dia estava sendo promissor. Sentamos na sala grande e uma melodia silenciosa nos trazia uma paz gostosa. Reconheci Edward Simoni, um dos meus preferidos. – Meu caro, ele disse, sei que veio aqui hoje porque prometi lhe contar a historia do Tesouro maldito da Mãe-do-Ouro. Vou contar sim, mas antes estive pensando em muitas coisas que sinto e olho a alegria demonstrada por muitos que participam do movimento. São jovens, adultos e nem sempre sabemos se a alegria é só deles ou de toda sua família. Ontem mesmo esteve aqui um Escotista e ficamos conversando por horas. Conversa interessante. Ele mesmo vítima do seu amor ao escotismo. Agora divorciado. Acontece muito com chefes novos ou até antigos. Nem sempre sua família participa e ele diferente dos demais, mantém um enorme entusiasmo e maior ainda quando um filho ou uma filha estiver engajado.

           Eu acompanhava o raciocínio do Velho Escoteiro. Conhecia alguns chefes com graves problemas em família por causa do escotismo. Um tema que poucos comentam. Sempre vemos o lado bom, o Chefe sorridente com a esposa, os filhos todos uniformizados e o outro escondemos atrás da porta. – O Velho Escoteiro me olhou e como sempre adivinhando o meu pensamento continuou – É comum, o adulto quando entra se motivar de tal maneira que esquece que sua cara metade ou alguém de sua família não pensa como ele. Sabemos que o conceito básico da família é formada a partir da união de pai, mãe e filhos. Quando um deles assume uma personalidade que acredita trazer a felicidade e o bem geral a todos, a vida em grupo pode acarretar um grande obstáculo para uma união perfeita. Principalmente se antes do escotismo o casal não estava ainda preparado para o contrato social e espiritual que fizeram. Nestas horas a não ser os mais próximos poucos ficam sabendo dos acontecimentos.

           Em vários cursos que participei sempre coloquei como dinâmica de grupo o que poderia trazer a desagregação familiar na participação ao escotismo. Em primeiro lugar vinha o sacrifício de quem não participava isto por achar que o outro estaria consumindo valores, sem pensar que a família deveria estar em primeiro lugar e não o escotismo. As rusgas começavam a aparecer e logo o bom relacionamento que deveria existir era corrompido por um ou até dos dois cônjuges. Outro ponto que abordavam, mas em menor intensidade era absorção do escotismo nos fins de semana e feriados. Sempre o participante deixando a outra parte sem ele ou ela. Afinal dizem que basta três horas por semana e estaremos colaborando, mas não é verdade. O sábado dia de quase boa parte das reuniões em Grupos Escoteiros, não bastam três horas. Muitas vezes vai, além disto. Quase sempre o sábado passa a ser parte do escotismo. Sobra o domingo isto se não haver atividades com a sessão neste dia.

          Já vi grupos com reuniões no dia de semana. Isto ajudava muito com os fins de semana liberados para a família. Mas existem muitos senões. Infelizmente não temos no escotismo nada que comente ou oriente o Chefe ou a Chefe nesta hora. Um psicólogo, um conselheiro matrimonial nem pensar. Ficam os amigos tentando ajudar, mas sem nenhuma experiência. Quando o Grupo Escoteiro tem personalidade, onde todos se sentem como uma grande família então, a chamada interação de pensamento seria responsável para achar um caminho, isto claro se as vibrações de amizade emitem a todos uma maneira de dizer – “Um por todos, todos por um”. E olhe isto se aplica em todas as camadas escoteiras. Na chefia e nos dirigentes.  Mas sei que você está impaciente. Deve achar que a tal mãe-do-ouro é uma bela história. Poderia ser, mas sabe? Nada de anormal nada mesmo.

          Este preâmbulo que fiz do problema, tão pouco comentado no escotismo e nunca lembrado pelos dirigentes em cursos de formação nunca deixarão de existir. Felizes os que a família aos sábados partem para o escotismo. Sempre digo que nesta união se a família está unida, o mesmo acontecerá no escotismo. Ao contrário, se algum deles ficou em casa e não comunga do mesmo ideal, perde-se muitas vezes a noção do que é o certo e o errado, com ambos os cônjuges se considerando com a razão. Esquecem os amantes do escotismo que o outro lado exige sua presença principalmente em atividades sociais e familiares, que muitas vezes são esquecidas. Os voluntários que se aproximam por não saberem dosar esta participação, quando reconhecem o erro ou mesmo pressionados pelo outro lado (aí entra a família dele e dela) abandona as atividades escoteiras, claro com uma certa mágoa, mas sabendo que o caminho que resolveu seguir é o certo. Perde o escotismo por não saber ou mesmo não poder resolver tais problemas familiares.

               Mas vamos lá, não é uma grande história e acredite, passei poucas e boas nas minhas aventuras escoteiras. Nesta eu achei que não ia voltar. – O Velho Escoteiro se levantou e foi até a uma prateleira de livros na sala. Dentro de um dos livros retirou uma tira de couro, do tamanho de uma página de caderno – Veja ele disse –
Aqui você tem o maior mapa de tesouro que já existiu em nosso país. Nem imaginas quantos morreram por causa dele. Eu mesmo não morri porque a mão de Deus me protegia. – Agucei a curiosidade. – "Velho" Escoteiro é uma história sua? Gostaria de conhecer. – Calma ele disse. Esta estava guardando comigo e achei que não contaria para ninguém. Nunca pensei que de novo pudesse pensar naquela aventura que ficou marcada e nunca mais esqueci. Nunca esqueci e nem vou esquecer que vi a morte de perto. – Tudo começou quando um antigo Escoteiro amigo do meu Chefe me procurou – Olhe jovem, ele disse, soube que você tem espírito aventureiro. Se um dia achar que está preparado, siga este mapa. Se você conseguir encontrar a pista, irás ficar rico!

             - Olhei para o antigo Escoteiro duvidando. Eu tinha vinte anos. Ainda era pioneiro, pois como gostava de viajar por este mundo de Deus não quis assumir nenhuma chefia e nem nosso Grupo Escoteiro precisava. – Ele o antigo continuou – Seguindo o tesouro da Mãe do Ouro, o veio da mina estará próximo. Quem me deu disse que nunca iria lá. Disse-me que a lenda da Mãe do Ouro tem sua origem na África. Quando aqui chegaram os primeiros escravos eles fugiam das fazendas, e com a mesma persistência que faziam em seu país de origem, eles iam para as montanhas, escavavam grandes tuneis e logo surgiram centenas de minas. Parece ou parecia que havia uma guardiã dos tesouros da serra, das montanhas e dos rios que eles exploravam. – Ela está sempre perto do ouro e é vista a noite, porque brilha com a mesma beleza dourada do metal dourado. – Me afirmaram que ela foi vista muitas vezes em Ouro Preto.

          - Não que duvidasse do Velho, mas aquela historia parecia mais uma lenda – o Velho Escoteiro continuou – Se um dia você resolver entrar em uma mina e deve ser das que a Mãe de Ouro mora, aguarde. Ela costuma aparecer depois das sete da noite, como uma luz dourada e cauda luminosa. Poucos mortais puderam vê-la de perto. Dizem ser linda, coberta de ouro, cabelos cheios de bichos e é crença geral é quem conseguir limpar seus cabelos, ficará muito rico.  – Olhe meu amigo você sabe como sou. Um aventureiro de mão cheia. Procurei outros pioneiros e chefes convidando a ir comigo. Ninguém quis. O espírito aventureiro nem sempre é assimilado por todos. Meu pai e minha mãe já eram falecidos. Tinha na empresa de meu pai um excelente diretor. Eu passava mais tempo na faculdade que na firma. Não deixei de barato. Nas férias de julho me mandei para Ouro Preto sozinho. Nunca tive medo.

          - Não perdi tempo. Tinha minha tralha organizada para exploração de cavernas. Uma pequena corda de nylon de quinze metros, uma excelente lanterna e um capacete onde havia um reator fixado destinado a produzir gás a partir de pedras de carbureto de cálcio. Muitas pilhas de reserva, ração para dez dias, e um pequeno material de sapa que sabia não iria utilizar. Nada de materiais de roupa de cama, e pouco individual. Dentro da caverna não iria precisar. – Como sempre os moradores da cidade mesmo sendo ela uma cidade turística nós Escoteiros sempre chamávamos a atenção. Não perguntei nada a ninguém. O mapa era meu rumo. Eu sabia como seguir. Meu destino era a parte mais alta do Pico do Itacolomi, hoje um parque muito famoso e muito visitado. A subida era forte. Eu tinha bastante material na mochila e no bornal. Lá pelo meio dia parei para descansar e fazer um lanche. Vi um local atraente, uma pequena arvore e muito capim gordura, espesso e mesmo o conhecendo por ser meio colante desci a mochila e coloquei-a no chão e ela sumiu. Assustei, abaixei e ao tatear onde ela sumiu e eu também cai em queda livre. Uma queda que nenhum mortal poderia sobreviver.

           - Hoje me lembro de poucas coisas. Senti o primeiro baque em uma saliência daquela enorme caverna. Depois outro e mais outro baque. Não pude ver. Devia ter caído mais de vinte metros. Sentindo dores terríveis olhei para cima e vi um teto abobadado, luzes amarelas que não podia explicar. Desmaiei. Acordei outras vezes com enormes tonturas, parte do corpo parecendo sangrar e para ser sincero achei que se não tinha morrido isto iria acontecer em pouco tempo. A dor era tanta que mal conseguia rezar. Lembro um pouco de tudo. Uma madorna para dormir, acordar com dores lancinantes no corpo, sede, suor escorrendo pelo corpo, ficava em transe em um tormento inigualável. Não sei quantos dias fiquei ali. Abri os olhos e pela primeira vez as dores cessaram. Tentava abrir os olhos e pouco que via nada ouvia, a não ser bem longe dali o som de um pequeno riacho. Um dia vi um vulto. Uma mulher. Linda! Cabelos loiros encaracolados. Sorria para mim. Parecia um anjo ali naquela caverna escura.

              Não sei quantos dias se passou. Minha sede acabou. Não tinha mais fome e minhas dores sumiram. Não conseguia levantar.
Pensei que tinha dentro de mim muitos ossos fraturados. A visão sumia e poucas vezes depois a vi de novo. Um outro dia acordei. Alguém cantava, mas não conseguia ver. Uma voz me embalava e me contava uma historia – Assim a voz dizia – Uma vez algumas crianças brincavam perto da entrada desta caverna. Os moradores sabiam e proibiram as crianças de estarem ali. Naquele dia elas estavam acompanhadas de duas moças que conversavam distraídas e alegres. De repente, lá no fundo da caverna saiu uma luz brilhante. Todos queriam correr e gritavam assustados. A luz dourada passou sobre a cabeça de todos o que fez que muitos desmaiassem. Eram incrédulos e pecadores. Os inocentes nada tiveram, mas os outros ficaram vários dias abobados, sem fala. Ninguém soube explicar o que foi aquilo. Os outros os inocentes tiveram sorte. A fortuna foi dada a eles de maneira simples. Acho que foi ela quem com uma voz doce e suave disse: Sei que você é um Escoteiro. Tem a bondade no coração. Vais um dia adquirir enorme fortuna.

                Acordei encostado a um tronco de uma enorme acácia. Enorme mesmo. Avistei ao longe o sol se pondo. Ao meu lado minha mochila, meu chapéu e meu bornal. Sentia-me forte. As dores sumiram. Pensei em descer a serra, mas antes fiz uma busca nos arredores para ver se encontrava a entrada da enorme gruta que caí. Em vão. A noite chegava. Resolvi dormir ali naquela noite. A acácia era uma grande barraca e o céu estrelado era convidativo. Fiz uma oração de agradecimento. Não sei por que no final dela me lembrei da senhora loira, que a história dizia ser a Mãe-do-ouro. Acho que foi ela que me salvou. Como fez para me tirar dali daquela gruta não sei. Dormi o sono dos justos. Acordei com centenas de pássaros cantando. De uma maneira inusitada e que nunca aconteceu até um lobo guará se aproximou. Olhei para ele e ele olhava através de mim, me virei e vi ao longe no pé da serra um vulto. Um sorriso e desapareceu para sempre. Era ela. Sem sombra de dúvida.

              Incrível foi quando cheguei a minha casa e ao retirar toda minha tralha para limpar e guardar de dentro da mochila vi um saquinho de couro, pequeno. Abri. Surpresa. Uma enorme pepita de ouro. Enorme mesmo. Devia valer uma fortuna. Não a vendi. Não podia. Ficou comigo por toda vida. Acreditei que foi ela a Mãe-do-ouro que me presenteou. Queria dizer muito obrigado, mas acho que ela sabia o quão fui grato por tudo. O tempo passou. Pensei um dia voltar lá novamente. Sabia que se bem planejado muitos chefes Escoteiros iriam comigo. São coisas de Escoteiros a busca de aventuras. Melhor não. Dizem que a sorte não bate em sua porta duas vezes. – Olhei para o Velho Escoteiro. Ele parou de falar. Subiu as escadas do andar de cima. Achei que ia dormir e como era do seu feitio não disse boa noite. Levantei devagar do meu banquinho de três pês. Olhei para cima e ele descia as escadas novamente. Chegou até a mim. Retirou de um saquinho de couro a enorme pepita. Enorme. Quase do tamanho de um ovo. Devia valer enorme fortuna.

                Na rua gelada do inverno que se arrastava naquele mês fiquei pensando na historia do Velho Escoteiro. Não podia ter certeza da verdade, mas e a pepita? Sabia que era verdadeira. E nunca em tempo algum o Velho Escoteiro mentiu para mim. O vento soprava uma nevoa branca pela rua, fria e gelada. Meus ossos batiam com o frio. Pensei na Mãe-de-ouro. Gostaria de ter ido lá. Mas estas histórias não existem mais. Só as vejo nas páginas que me jogaram em uma internet qualquer. Os sonhos ficaram para trás. Um dia li que a crença de tesouros escondidos ainda permanecem intactas nos moradores mais velhos de Ouro Preto. Diziam que os escravos escondiam o ouro. Outros guardavam fortunas enormes em suas bolsas. Mas existiram outros que nunca nada encontraram e outras se deram mal nas suas vãs tentativas. O mundo dos mistérios e dos grandes tesouros ficou para trás. Hoje tudo mudou. Mas nas passadas firmes que eu caminhava pela rua onde morava o sonho permanecia em minha mente. Hã! Velho Escoteiro. Devia ter nascido em outra época. Entrei em casa calmamente. Cai num sono profundo. Nos meus sonhos ela apareceu linda e sorridente! Lembro até que me disse – Você meu jovem tem a alegria no coração, sei que como Escoteiro e puro nos seus pensamentos palavras e ações um dia terá enorme fortuna. Acordei olhando para minha esposa que dormia ao meu lado e também sorria. Enorme fortuna!              

O mito característico desta história é a Mãe-do-Ouro. Conforme estudo de Câmara Cascudo a Mãe-do-Ouro é indicadora de jazidas de ouro, madrinha dos veeiro, padroeira dos filões. Aparece em forma de chama ou meteorito. Os relâmpagos indicam a suas direção e os trovões revelam a sua cólera.  Manoel Ambrosio poeticamente disse: “quando uma dessas bagas coruscantes tombam d’além, ouve-se ainda um frêmito ingênuo que a civilização ainda não pode extinguir: - é ela e ela... A zelação, serpente Mãe-de-ouro encantado, a cobra de cristas de fogo a zunir, mudando, afundando-se nas solidões das montanhas”.


sábado, 6 de abril de 2013

Jaime Molina, os sonhos do Imperador – Fasc.081.


Se não fosse imperador, desejaria ser professor. Não conheço missão maior e mais nobre que a de dirigir as inteligências jovens e preparar os homens do futuro.

Jaime Molina, os sonhos do Imperador – Fasc.081.

(Esta é uma história de ficção. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas não é mais que uma mera coincidência. Tudo é fruto de criação da mente do autor).

                            Meu coração estava triste. Sabia que mais dia menos dia ia perder um 
grande amigo, um segundo pai. O "Velho" Escoteiro a cada dia definhava mais. É um caminho sem volta. Todos nós um dia passaremos por ele. Notava que seu corpo não ficava mais ereto. Sempre de cabeça baixa. Na sua poltrona de vime, ele pouco conversava. De vez em quando ele levantava a cabeça me olhava e dava um sorriso. É triste quando a idade avança e os poucos amigos que ainda insistiam em visitá-lo rareavam. Neste domingo o "Velho" não almoçou conosco. Sentiu muita fraqueza e Vovó fez um lanche para ele comer na sala. Nem bem terminei e corri para lá. Mesmo que ele ficasse calado eu gostava de ficar junto dele. Até seus discos ele não ouvia mais. Sentei ali em frente a ele no meu banquinho de três pés, rotina de mais de dez anos que passei ali com ele na Sala Grande.

                          - Sabe meu amigo – Ele disse baixinho. – O Imperador do futuro será um imperador de ideias. Sabe quem disse isto? Wiston Churchill. Aquele que o povo inglês venera até hoje. – Quase não o ouvia. Arrastei meu banquinho para perto dele. Não sei por que me lembrei disto. Acho que foi por causa de Jaime Molina. Alguns diziam que ele fora Megalomaníaco. Afirmavam que tinha mania de grandeza, de poder, uma obsessão enorme de realizar atos grandiosos no movimento escoteiro. Pelo menos o defendo num ponto, nunca disse abertamente que ele era o melhor em tudo. Que ninguém nunca fará melhor que ele. Eu prefiro ficar com Napoleão. Ele dizia que a maioria dos homens só sabe ousar pela metade. Governamos melhor os homens pelos seus vícios que pelas suas virtudes. Completava dizendo – Dar convenientemente é honra, dar muito é corromper.

                         O "Velho" Escoteiro parou para respirar melhor. Aquele palrador do passado já não era o mesmo. – Um ar, uma tossida e lá vinha ele de novo – Jaime Molina quando passou para tropa ninguém ainda sabia de suas qualidades. Ela foi aparecendo aos poucos. Dizem os filósofos discordantes que o Líder se faz outros dizem que ele nasceu assim. Mas Jaime Molina assumiu uma liderança perigosa. Na tropa e no grupo ninguém notou. Mas soube tirar proveito de suas qualidades e afastar da sua frente todos aqueles que podiam ser Monitores. O próprio Monitor foi defenestrado por ele. Não, juro que ele não era um príncipe seguidor de Maquiavel. Nada como fazei o mal, mas fingir fazer o bem. E olhe ele nunca usou a força para com o próximo era de uma bondade infinita. Em um ano era o Monitor. O Chefe o respeitava. Tornou-se um líder na tropa. Poucos comentavam sua sede de poder.     

                          Ao quatorze anos liderava com palavras todos os jovens do distrito. Tinha ideia que agradavam. Todos ficavam de olhos fixos nele quando falava. Um dia em uma reunião de Monitores do distrito ele fez uma coisa tão simples, mas tão simples que ninguém tirou os olhos dele e nunca mais o esqueceram. Simplesmente fez uma nova costura de arremate com os cadarços de seu coturno. Sim ele usava os do exército. – Disse com um sorriso nos lábios: Este agora será batizado de arremate Escoteiro. Os escoteiros do mundo inteiro irão fazer. Não vamos dizer que ele era uma bela figura. Não era. Até baixo pela sua idade. Um nariz grosso que ele detestava. Seus cabelos eram crespos o que o obrigava a cortar baixo. Mas que voz! Como falava bonito! Seus gestos eram maravilhosos.

                          Era um devorador de livros. Principalmente os escoteiros. Tinha todos em sua biblioteca em sua casa. Seus pais podiam ser considerados classe média, nem tão ricos claro, mas ele tinha tudo que queria desde que suas notas escolares continuassem altas. Manteve em seu ego, o nome dos grandes chefes escoteiros do passado. Conseguiu no Google a foto de quase todos eles. Ele os olhava e dizia para si próprio. – Serei mais lembrado que todos vocês. Ficarei na história Escoteira. Quem sabe irei reinventar o escotismo? Baden Powell que me desculpe. Mas serei aclamado como o novo Escoteiro Chefe Mundial. – Só dormia pensando em seus sonhos. Os anos passaram. Com dezessete ele assumiu a diretoria do grupo. Claro a idade não permitia, mas quem iria dizer não para ele? Até o distrital o respeitava. Na UEB era considerado o jovem escoteiro mais promissor do Brasil. Não tinha uma solenidade que ele não estive presente e uma vez chegou a falar com o Presidente da República em nome da União dos Escoteiros do Brasil.

                        Aos dezenove anos foi eleito Comissário Distrital. Seu distrito era considerado o melhor do Brasil. Modéstia seja feita. Ele era bem quisto em toda a comunidade. Vereadores faziam fila para falar com ele. Épocas de eleições o carregavam nos ombros. No fundo ele era um autêntico líder Escoteiro. Poderia ter sido um vereador, prefeito, deputado ou senador e quem sabe um presidente. Ele ria quando lia sobre o novo presidente do Brasil. Ria do seu marketing, de se mostrar jovem, corredor, remador, poliglota e até piloto de jato, mas ele errou muito. Esqueceu-se da honra e da ética e colocaram-no para fora. Isto não iria acontecer com ele. Não, Jaime Molina era diferente. Seu sonho era outro. Seria o Escoteiro Chefe do Brasil. Queria ser lembrado por gerações e gerações.

                       Para Presidente Regional foi um pulo. Eleito por unanimidade. Na primeira vez que participou de uma Assembleia Nacional conquistou amigos, falou, rodopiou, aceitou ideias bobas e idiotas que os dirigentes falavam e pensava – Perdoe seus inimigos, mas nunca esqueça seus nomes. Ele sabia que ali os dirigentes eram todos seus inimigos. Sabia agradar, abraçar, dar um aperto de mão, pois um breve contato pessoal pode deixar uma impressão duradoura para sempre. Seu plano era simples. Primeiro ser eleito para a Assembleia Nacional e depois para o Conselho de Administração Nacional. Ali ele sabia que teria de enfrentar mais treze Escotistas experimentados, mas ele sabia que nenhum seria páreo para ele. Sabia como iria fazer. Estar junto é um começo. Continuara juntos um progresso. Trabalharmos juntos sob a minha direção seria a chave do sucesso.

                        Em quatro anos chegou lá. O mais novo do CAN. Apenas vinte e três anos. Os novos eleitos aquele ano e os que continuavam não gostavam dele. Não vamos dizer que ali estava a nata do escotismo nacional, mas eram pessoas com altos conhecimentos e vivência Escoteira. Porque um menino deste chega aqui e fica a ditar ordens?  - O "Velho" escoteiro deu um pigarro. Fechou os olhos. Ficou calado por minutos. Eu estava pregado na história dele. Como tantas que ele tinha para contar esta era mais uma que me impressionava. Ainda bem que a Vovó chegou com o carrinho de chá. Chá para o "Velho" Escoteiro para mim um delicioso café feito em coador de pano. Delicioso. Claro acompanhado de pães torrados na manteiga, roscas lindas e gostosas, sem faltar os apetitosos pãezinhos de queijo e biscoitos de polvilho. Empanturrei-me. Mas não me despreguei dali. Queria saber toda a história de Jaime Molina. Nunca tinha ouvido falar dele, mas se o "Velho" Escoteiro contava sua história é por que o homem existia realmente.


                         Não era tarde, menos de onze da noite. O "Velho" escoteiro respirava devagar. Olhos fechados. – Acho que vai dormir e o melhor é esperar o final da história amanhã. – Posso continuar? Ele disse. Sorri. "Velho" Escoteiro este Jaime Molina me assombrou. Dormir sem saber o final da história iria me dar insônia. - Jaime Molina nunca falou dos seus planos para ninguém. Ele tinha tudo programado em seu computador. Seria o novo Escoteiro Chefe Mundial. Baden Powell e outros chefes famosos brasileiros seriam histórias da carochinha perto dele. Em um ano já era o Presidente do CAN. Começou a mudar. Nova lei Escoteira, nova promessa. Convenceu a todos os companheiros da equipe. Poucos do escotismo discordaram. Ele sabia como funcionava. Nada de consultas, nada de perguntar. Põem-se em discussão, todos aprovam e era só informar a escoteirada.

                           Ele não esquecia seu marketing pessoal. Viajava para todas as regiões. Nos aviões e ônibus só de uniforme Escoteiro. Criou um novo. Era seu “dodói”. Agora com um novo tipo de chapéu. Parecido com o texano, mas com uma pitada dos vaqueiros do nordeste. Todos tinham orgulho do uniforme. Ele sabia como fazer,
andar, se mostrar orgulhoso por fora, mas amado por dentro. Nos seus lábios para qualquer um sempre saia à palavra mágica: Obrigado. Você é muito importante para nós. O cérebro gosta de razões para decidir. Ele era sempre generoso para com todos. Ninguém esquecia seu nome. E ele uma maquina de lembrança. Sabia quase o nome de todos que um dia encontrou. Uma vez em um acampamento Escoteiro nacional eles o carregaram nos ombros. Manny Souto não gostava daquilo. Manny Souto era do CAN. O que Jaime Molina estava fazendo era um absurdo. Todos estavam cegos. Ninguém parecia ver onde ele queria ir. Ninguém mais falava em Baden Powell. Os velhos escoteiros do passado foram apagados da memória. Os novos livros escoteiros só falavam em Jaime Molina.

                                 Ele planejava seus passos com carinho. Sabia onde pisar. Sabia o que pensava Manny Souto. Planejou para ele não ser reeleito. Afinal conseguiu aprovar uma nova composição da organização Escoteira no Brasil. Não mudou muito. No artigo 12 – dos órgãos nacionais ele colocou seu nome em primeiro lugar. Escoteiro Chefe.  Nos demais itens embaixo lá estavam – De acordo com a aprovação do Escoteiro Chefe. Exceto Manny Souto ninguém discordou. Mas convenhamos, Jaime Molina conquistou a amizade de poderosos. Muitos deputados e senadores queriam ser seus amigos. Almoçou diversas vezes com a Presidente no Palácio da Alvorada. Pisou diversas vezes no Palácio do Planalto. Queira ou não queira o escotismo tomava nova forma. O novo programa era considerado o melhor de todos. Criou distintivos novos, mudou tudo. Nomenclaturas aboliu o Chefe e criou o Líder júnior, Líder Sênior e Líder Geral. Aplaudiram de pé a mudança.   Para muitos jovens Baden Powell já era. Agora para eles só existia o Escoteiro Chefe Jaime Molina. Manny Souto não foi eleito. Tentou com seus amigos mostrar quem era Jaime Molina. Fizeram uma oposição democrática, mas desapareceram depois do processo que a UEB fez contra eles.

                                  Jaime Molina nunca estudou direito, mas programava os processos dos “inimigos” com precisão. No final eles agradeciam por não pagar o que a lei determinou. A lei! Ora a lei! Um dia eu perguntei a um Chefe se ele já tinha ouvido falar no "Velho" Lobo, o Almirante Benjamim Sodré. Ele pensou, pensou e falou – Quem foi ele? Jogador de futebol? Ah! Escotismo. Quem te viu e quem te vê. Mas tira-se o chapéu para Jaime Molina. Os que no passado alardeavam que nosso crescimento em um ano aumentou em dez por cento enfiaram a viola no saco. Jaime Molina em três anos passou dos trezentos mil. – "Velho" Escoteiro isto é verdade? – Como nunca ouvi falar? O "Velho" Escoteiro sorria matreiramente. – Posso terminar? Eu também estou com sono!

                                   Jaime Molina em uma reunião do CAN sentiu fortes dores no peito. Não disse nada para ninguém. Sua imagem de jovem forte, veloz, autêntico líder nacional e de uma coragem sem par não poderia ser abalada. Foi ao médico.  Diagnóstico? Ele tinha uma Angina. O musculo do coração estava recebendo sangue de forma insuficiente. Ira gerar uma falta de oxigênio para as células do músculo do coração. Isto provoca dores intensas. Seu caso era grave, muitas células do músculo estavam morrendo. Poderia ter um enfarte a qualquer minuto. Você só tem uma saída. Um implante de coração! Jaime Molina sentiu uma dor tremenda. Não no coração e sim no cérebro. Dor nos seus sonhos. Faltava pouco para ele alçar novos voos oceânicos e agora isto. Sabia que não seria o mesmo se fosse transplantado. Preferia morrer. Agradeceu o médico e saiu.

                                  Pensou em contar para Jasmim sua noiva. Melhor não. Ela ia aprontar um berreiro. Planejou sua morte. Teria que ser bombástica! Deveria ficar na memória de todos os escoteiros para sempre. Queria ser lembrado. Afinal ele sonhava em ser um Imperador Escoteiro. Sabia que para o outro lado não levaria nada só as suas boas obras e ele se orgulhava do que fez. Teria um legado de boas ações assim ele pensava. - Isto mesmo, um Jamboree Mundial. Iria conseguir apoio. Verbas estaduais e federais. Iria convencer deputados, senadores e a Presidente a estarem presentes. Tentaria atrair o Presidente Americano, afinal ele não fora Escoteiro quando jovem? Iria trazer o Escoteiro Chefe inglês, iria mostrar que ele Jaime Molina era superior a ele. Pensou até em trazer o Príncipe Charles. Não seria difícil. Planejou ter mais de quinhentos mil escoteiros neste Jamboree. Quem sabe um milhão?

                                     - O "Velho" Escoteiro se calou. Fiquei esperando o final da história. – E então "Velho" Escoteiro, conte o final, o que aconteceu a Jaime Molina? – Ele riu a gosto. Não sei. Ainda estou pensando se deixo a angina acabar com ele, pois este megalomaníaco é um perigo para o escotismo e olhe que temos muitos deles por aí. Ou então quem sabe dou vida longa ao futuro Líder Escoteiro Chefe Mundial! – Mas "Velho" escoteiro, então ele não existiu? – Claro que não. Baden Powell pode ser criticado, pode-se dizer o que quiserem dele, mas o seu escotismo nunca será substituído. Eu pensei nesta história devido às novas eleições que houveram este ano. São tantas as promessas que entre os eleitos pode ter um Jaime Molina não acha? O "Velho" Escoteiro levantou e subiu as escadas para seu quarto. Lá do alto parou me olhou e disse: - Durma bem. Um dia deste me vou. Você é responsável para não deixar que um homem destes um dia apareça!

                                        Saí devagarinho. Fechei a porta da sala grande. Tinha a chave. Era como se fosse da família. Não vi a Vovó. Devia estar dormindo. Na rua um vento frio me pegou de pronto. Sem paletó e manga de camisa fui para casa em passo escoteiro. Quatro quarteirões. Por muito tempo fiquei com aquela história na mente. O "Velho" Escoteiro me contou tantas e esta marcou. Um perigo aparecer em nosso meio um falastrão, boa pinta, mas seria muito difícil separar o joio do trigo. Dizem por aí que o Escoteiro é puro nos seus pensamentos palavras e ações, mas bah! Vai-se acreditar em tudo?
        
Vaidosos que gabam-se de si mesmos e de sua pretensa superioridade (acreditando que são imortais) são derrubados na sua própria arrogância, vencidos pela humildade do interlocutor.

Sergio Fajardo