Historias e estorias que não foram contadas

Historias e estorias que não foram contadas
uma foto, de um passado distante

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Levem-nos aos paredões! Eles não sabem o que falam. Palavras do Senhor!


Levem-nos aos paredões!
Eles não sabem o que falam. Palavras do Senhor!

"Dê o primeiro passo na fé. Você não precisa ver a escada inteira. Apenas dê o primeiro passo."

Escotismo amado, escotismo sem igual, escotismo que me deu outra forma de viver, escotismo que fez de mim alguém que acredita na força dos jovens do Brasil do amanhã. Louvemos o escotismo que amamos. Gritemos aos quatro ventos que para nós não existe nada que nos forneça uma filosofia de vida como o escotismo. Deixem as nuvens levarem nossas mensagens aos quatro cantos da terra. Uma vez Escoteiro sempre Escoteiro.

Lindo de montão. Eu mesmo repito isto todas as noites e as manhãs de sol chuva ou de inverno. Mas minha voz alcança até onde? Meus amigos? Meus familiares? Até onde ela alcança? Os vizinhos do bairro? Da minha cidade e da minha nação? Sei que não. Sei que nosso movimento amado não vai tão longe. Ele é um completo desconhecido. Preocupam-se os gigantes da terra do Nunca em alterar, em mudar e nós subservientes mortais Escoteiros aceitamos sem saber se o caminho é o certo e aplaudindo e justificando.
Quantas vezes já desfizeram do nosso querido movimento? Para mim dezenas de vezes. Sei que a revolta foi nossa só nossa, pois o público ou os leitores se divertiram com o acontecido. Eles reconhecem o Escoteiro por aquele menino ou menina que ajuda a velhinha a atravessar a rua e mais nada. Agora eu pergunto de quem é a culpa? Deles o público ou nossa? Dirão – Nem pensar Chefe, a culpa é deles. Será? Afinal eles nem sabem o que é escotismo, para que serve, qual a sua finalidade, pois desconhecem completamente as vantagens de um movimento de jovens reconhecidamente com altos valores em outros países.

Culpa nossa? Sempre somos os culpados? Até que sim, pois desconhecemos a nossa presença nos atos públicos, bem uniformizados e fazendo o proselitismo que se faria necessário. Mas isto basta? Onde está aquele marketing agressivo? Aquele marketing mostrando o que somos e para que servimos? Estamos mendigando favores de políticos que nada fazem por nós. Colocamos lenços em autoridades que se comprazem em sorrir para as massas do seu partido e visando eleições futuras. Mas Chefe – diriam – Eu não posso fazer isto, não tenho como. – Concordo você não, mas se foram eleitos lideres Escoteiros eles não seriam os responsáveis? Sei que você ou alguns de vocês dirão – Mas Chefe! Eu não votei em ninguém. As normas votaram. Eu não tenho direito a voz e voto. E agora José?

Quantos Pedro Bial da vida precisamos para aumentar nossa revolta? Risos. Eles nem sabem o que é isto. Não entendem nada de escotismo. Fazer uma nota de pesar ou pedir desculpas não ajuda, e o gigante Globo não está nem aí.  Somos uns eternos conformados. Fazemos nosso trabalho acreditando que os outros também o farão. Depois lamentamos as injurias as performance de atores, de repórteres e de outros tantos que estão aí levando nosso nome à panaceia de um programa global. Bial não foi o primeiro e até acredito que ele nem sabia do resultado. Mas os verdadeiros culpados ficarão impunes sempre. Eles foram eleitos para mostrar ao nosso Brasil que o escotismo é tudo para uma nação. Ele poderia ser a salvaguarda de uma juventude que precisa de orientação, Mas enquanto formos subservientes em uma Lei e Promessa que eles nos impingem a cada momento, nos jogando sem nos perguntarem em alterações de normas, distintivos, uniformes ou como o chamam de vestimenta, acredito que não temos o direito da revolta, apesar de que ela dói e machuca muito.

Como fazer quando fazer ou fazer o que, é uma pergunta que faço sempre. Afinal somos ou não um movimento democrático? Ou a primeira lei de uma democracia seria votar e ser votado, e exigir a transparência que não nos é dada. O mote de vá a Assembleia, de se preocupar com nossos jovens entre outros é muito lindo, mas não é real quando vemos que nos desconhecem como um movimento sério e formação de caráter. Enquanto os meios educacionais não nos respeitarem como um movimento de jovens que pode dar dividendos enormes ao país, enquanto autoridades não nos reconhecerem com a responsabilidade de falar de igual para igual, seremos isto que todos estão vendo. Uma preocupação de alterações de uniforme, distintivos e programas não vai resolver. Esquecem o mais importante. Um marketing agressivo em órgãos da imprensa falada, escrita e televisada. Quem no passado viu este marketing na CNN em espanhol sabe o que é.

Aguentem, pois o Pedro Bial mesmo que suas desculpas não satisfez a massa escoteira. Lembremos que passaram anos e anos e continuamos os mesmos. E querem saber? Acredito que a culpa é nossa e de mais ninguém!


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Meu melhor curso escoteiro foi com os monitores.


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Meu melhor curso escoteiro foi com os monitores.

Passagens da vida contada pelo Velho Escoteiro que viveu o escotismo como poucos.

Ei Chefe, não é uma pegada de um Quati? – olhei com calma, nunca tinha visto, mas se o Escoteiro dissera eu acreditava. Paramos, analisamos o peso, as passadas e assim fomos aprendendo a seguir pistas de animais. Eu e meus amigos monitores e subs. Junto a eles eu estava na melhor escola escoteira que tinha conhecido. – Chefe? É um ninho de Inhambu? Dizem que ele não se preocupa muito e junta umas folhas próximo a uma árvore disse Niltinho um Monitor da Gavião. Nunca fui expert em ninhos só sabia que Gill um sub Monitor um dia me contou que o ninho do João de Barro dava uma mão de obra danada para o casal. Barro húmido, esterco e palha. Fazem centenas de viagens para terminar. Mais ou menos com 30 cm de diâmetro. O casal de João de Barro amassa as bolas de barro com os pés. Tem área para colocar os ovos, tem porta de entrada sempre em direção contrária a da chuva e de difícil acesso para predadores. Nunca usam a casinha mais de uma vez. Após o crescimento dos filhotes eles voam para outras plagas. Os monitores me olharam espantados. Ficamos ali naquela floresta conversando sobre pássaros por muito tempo e como aprendi.

       Ei Chefe, sabe o Zózimo? Olhei para Bob Low um Monitor da Quati. O que tem ele Bob? Na eleição passada ele foi eleito Monitor e não queria – Por quê? Perguntei. Ele disse que ser Intendente/almoxarife era melhor. – Não acreditei e insisti – Como? Ele acha que o intendente é a alma de uma patrulha. Um bom acampamento depende dele, se faltar material ele é culpado. Se sumir ele é culpado. Se alguém precisa tem de falar com ele. E ele se preocupa muito com material que some no campo. Os escoteiros pata tenras são mestres. Vão cortar um bambu e o facão hó! E olhe Chefe ele me disse que sua barraca de intendência tem tudo. A alimentação fica fora das formigas e animais do campo. Lazinho o Cozinheiro o adora. Sabe que ele é chato, pois quer as panelas nos trinques. Nada de carvão! E eu sei que nem precisa falar com ele o que levar no acampamento. Ele sabe o que deve ser levado para um acampamento longo e um curto. Mas Chefe, se não fosse ele nosso material já teria sumido e estragado. Ele fez até um curso de barracas!

      O que eu mais gostava era a conversa ao pé do fogo. Cada um se abria, contava histórias, falava dos seus amigos, das namoradas que se olhavam de longe, dos seus pais, da escola e dos seus sonhos. Chefe ficou sabendo que o Lindolfo da Pantera
jurou que ia ser médico? Disse Matusalém da Anta. Era o nosso enfermeiro e aproveitava também para ser o bombeiro e lenhador. Era outro que Lazinho cozinheiro adorava. Nunca faltava lenha seca e agua à vontade. Seu porta lenha era perfeito. Podia chover canivete. Ele era um bamba e sabia escolher a melhor lenha, aquela que durava mais. Cozinheiro que se preza não fica sem um bom bombeiro e lenhador se não fica soprando o todo o tempo e os gravetos finos do fogão com os olhos cheios de lágrimas. Risos. Quer saber? Eu nem sabia disto. Eles é que me ensinavam. Uma patrulha que alguém preferia ser o intendente? - Foi Joel quem contou sobre Lazinho o cozinheiro. Ele Chefe é demais. Sabia surpreender a patrulha com suas iguarias. – Chefe ele encheu as “paciências” de sua mãe. Aprendeu tudo. Era um mestre cuca como ele gostava de ser chamado dos melhores. Chegou a fazer um forno de barro!

      Uma vez resolvemos fazer uma mesa com toldo e bancos reclináveis. Queríamos bater todos os recordes de tempo na construção. Claro eu sempre deixei que eles começassem que discutissem entre eles como iam fazer projetos e coisa e tal. E corta daqui, e corta dali o madeirame estava pronto. Ajudei pouco. Sabia bem as amarras. Sabia do acabamento, pois era uma exigência entre os Escoteiros. Fui ajudar somente na costura de arremate no tampo da mesa. Nem peguei no cipó (se tivéssemos cipós nada de sisal) e um Monitor logo disse – Chefe, não é assim. Veja se fizermos certos e damos no final um arremate perfeito com um volta de fiel duplo à tampa sempre vai ficar firme! Eu nos meus tantos anos sorria. Contradizer? Nunca. Eles eram meus mestres meus formadores.

        - Chefe! Que tal fazermos um programa diferente nas férias de julho? Humm! A última surpresa deles nós caímos numa gelada. Um frio de rachar. Bob Low riu, pois nunca esqueceu o frio que passamos. Chefe está na hora de aprendermos a fazer fogo. Fogueirinha de fogão e Fogo do Conselho todo mundo sabe. Lembra-se do acampamento nas Montanhas geladas do Rio Pequeno? Morremos de frio porque éramos uns pata tenras. – Concordei com ele. – Pois é Chefe, poderíamos treinar muito como evitar isto, eu li muito sobre fogo Espelho. Garantem se bem feito no frio pode se dormir de short sem camisa! Sabendo a técnica e ter cuidado para medir a distancia e não colocar fogo na barraca! E eles riram a valer.

       Eu posso dizer que meus melhores cursos foram com meus amigos monitores. Aprendi muito com eles. E trocamos tantas ideias e aprendemos tanto uns com os outros e sempre de comum acordo. Amigos são assim. Sempre fazer e insistir a acertar quantas vezes for preciso. Lembro que um deles resolveu surpreender em um fogo de conselho. Uma bola de papel bem encharcada de querosene, um galho em forma de F encurvado e pequeno para correr preso em um cipó ou sisal segurando a bola de fogo que na imaginação dele iria surpreender todo mundo. Ele todo posudo, em frente ao fogo, todos nós sentados em volta e ele gritou: - “Que os ventos do norte! Que os ventos do sul” Quem os ventos do este e do oeste nos traga hoje o espirito da paz e que BP nos guie pelas sendas da vida e que Deus nos proteja! Ascenda-te fogo! E a bola de fogo que foi acesa por outro encarapitado em uma arvore, desce a toda velocidade até onde esta o fogo e as chamas sobem aos céus!

         Quem sabe se não fosse por eles eu não saberia do valor de uma patrulha, de um patrulheiro intendente, de um bombeiro lenhador, de um cozinheiro, do sanitarista, do aguadeiro, do construtor de pioneirias e de tantos outros. Foram eles que me ensinaram e com eles fazendo e ouvindo eu aprendi. Lembro-me de uma noite de fogo de conselho onde resolvemos trazer o espirito da floresta na forma da Lei Escoteira. Foi lindo. Fico pensando se todos são como eu. Aprender com eles, sentar a moda índia em um fogo estrela, comer uma batata quente, beber um café do bule e deixar que eles cantem que eles riem de suas piadas, que eles inventem aplausos, canções e que a noite para eles seja uma criança. Deixar que eles mesmos possam contar estrelas, descobrir novos caminhos e assim quem sabe, eu no alto da minha enorme idade voltarei a aprender com eles na tenra idade de um escotismo que resolvi adotar. Aprender com monitores! Uma técnica que poucos até hoje conseguiram enxergar!


Meus melhores cursos foram com meus amigos monitores. Aprendi fazendo e vivendo situações divertidas e que me valeram muito pelo resto da minha vida!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

As memórias do Chefe Bill Wagryth Meu amor mora nas estrelas.



As memórias do Chefe Bill Wagryth
Meu amor mora nas estrelas.

Lá onde mora o amor
não há dor, não há tristeza,
lá tem cor, lá tem riqueza,
lá tem bem, lá tem nobreza.
Lá onde mora a amizade
não há rancor, nem falsidade,
lá tem respeito, lá tem verdade,
lá tem afeto, lá tem cumplicidade.

Saulo Fernandes

                  O dia ainda estava claro. A primavera, dizem os poetas trás o perfume das flores, os pássaros cantam nas arvores mais afinados, as matas os bosques, às campinas ficam mais verdes e os rios correm para o mar sorrindo. Eu sempre gostei da primavera. E quando a brisa daquela tarde gostosa e sonolenta soprava em nossa face era como se estivemos vivendo uma tarde em um acampamento qualquer. Eu e o "Velho" Escoteiro estávamos sentados na varanda de sua casa, e de lá podíamos avistar o morro das Bermudas, que graças a Deus foi mantido como uma reserva florestal e não sucateada por alguma imobiliária. Eu almocei na casa do Velho Escoteiro e sabia que igual à Vovó na cozinha pode ter muitas, mas superior não.

                     O "Velho" como sempre nestas tardes, como a chamar a atenção dos jovens que brincavam seus folguedos na calçada em frente, colocou o seu velho LP do Trio Irakitan a repicar gostosamente várias canções escoteiras na sua vitrola já gasta com o tempo. Ficamos assim sem conversar, mas vi que o "Velho" Escoteiro queria me contar alguma de suas histórias ou então das suas eternas discordâncias com nossos dirigentes, uma luta de anos e anos. – Olhe, começou – Acho que nunca comentei com você. Existem tantas coisas que aconteceram em minha vida Escoteira que precisávamos ficar juntos uma eternidade para lhe contar tudo. Acordei esta madrugada lembrando-me do meu querido amigo o Chefe Bill Wagryth. Já falei dele com você? Não? Bem vamos lá. Bill Wagryth entrou como Escoteiro na Patrulha Puma. Eu estava na Touro. Mesmo assim como morávamos na mesma rua sempre íamos e voltávamos do grupo juntos. Nasceu daí uma bela amizade.

                    Fomos juntos para os seniores, e nos pioneiros ele ficou pouco tempo. Como tinha feito um concurso para a Aeronáutica, durante quatro anos ficou na Academia da Força Aérea, em Pirassununga. Víamo-nos nas férias, e até fizemos um acampamento juntos a convite de escoteiros da Costa Rica, no Sopé da Cordilheira Central, em Guanacaste e Tilarán. Foi um acampamento que marcou muito. Quando se formou como Aspirante foi logo promovido a Segundo Tenente. Quase não tinha folga, mas sempre sobrava um tempinho para tomarmos uns chopes, uma ou três noites de campo ou a explorar alguma das mais belas grutas de Minas, e até mesmo participar do Sétimo Jamboree Mundial em Bad Ischl, na Áustria. Nossa amizade permaneceu firme e logo ele foi promovido a Tenente. Foi nesta época que ele foi designado para servir na capital e transferido para o gerenciamento do Tráfego Aéreo do aeroporto Catorze Bis na capital, o que lhe tomava muito tempo.

                  Um dia ele me convidou para conhecer seu trabalho e achei fora de série. A cada minuto alguém suava com algum problema. Alí todos trabalhavam com o estresse a flor da pele. Não era nada fácil. A vida de centenas de aeronaves estavam nas mãos deles. Ele me convidou para um cafezinho no bar do aeroporto e lá fomos nós. Foi então que me contou sua história. Incrível história. Se eu não soubesse que era um Escoteiro dos bons diria que ou estava estressado demais ou um tremendo mentiroso. – assim começou sua narrativa - Foi em um dia de semana qualquer. Aeronaves descendo e subindo. Na minha linha ouvi uma voz feminina com um sotaque russo. Pedia para desobstruir toda a pista número quatro. Eles iam descer em quatro minutos. Pedi para se identificarem. Não responderam. No radar vi que era uma nave gigantesca.

                    Não tive saída. A pista foi interditada para eles. Não vi direito a nave. Ela aparecia brilhante quando alguma nuvem no céu cobria o aeroporto. Mesmo assim com dificuldade. A maior parte do tempo estava invisível. Parecia ser um enorme charuto. Imenso. Mais de quarenta metros de altura e mais de cento e quarenta metros de comprimento. – Eu prestava a maior atenção ao "Velho" Escoteiro. Uma história que parece ele tinha tirado do fundo do baú. Eu gostava destas historias, se eu acreditava eram outros quinhentos. – Ele continuou – Meu amigo Bill engasgado, disse que ouviu a voz feminina de antes – Precisamos nos falar. Preciso explicar. Pode ser em algum lugar reservado? Disse que seria na sala do Brigadeiro Duarte. Ele ainda não sabia do que estava acontecendo. Fui até lá. Expliquei. – Está doido? Por Deus brigadeiro é a mais pura verdade, aqui não é lugar para este tipo de brincadeira.

                     A voz parecia flutuar e disse – Estou me materializando na sala. Não façam nada. Nem um gesto. Ela apareceu ao vivo e a cores. Uma linda mulher, cabelos loiros de olhos verdes esmeralda com um uniforme estranho. Olhou-me e na sua voz fanhosa explicou. – Sei que vai ser difícil acreditarem, mas somos de um planeta distante, que pelas suas medidas fica a mais de cem milhões de anos luz da terra. Nosso planeta irá se desintegrar em alguns anos. Nossos cientistas descobriram um parecido com o nosso na Constelação de Centauro, que vocês chamam de Alpha Centauro por ser a estrela mais brilhante no céu em determinados meses do ano.  Estamos alguns séculos avançados em relação ao seu planeta. Somos orientados a não interferir no crescimento de vocês e de outros povos que habitam não só a sua galáxia como a de milhões que conseguimos descobrir. Nossa nave estelar pode viajar grandes distâncias entre sistemas solares. A velocidade da luz para nós não tem segredos. Podemos viajar mais de vinte vezes a velocidade da luz.

                     - Continuou o Chefe Bill. – Meu nome aqui para vocês será Sheyla. Minha aparecia normal não é esta. Mas precisava adaptar uma nova vestimenta humana para podermos conversar. Ninguém poderá saber que estamos aqui. Um pequeno problema em nosso motor de dobra não foi possível reparar no espaço e nos obrigou a descer aqui. Seria difícil para você entenderem como funciona nossa nave. Escolhemos o Brasil por ele ser um país de paz e não colocará aqui sua parafernália de guerra como fazem os outros países. – Eu olhei para o "Velho" Escoteiro. Ou ele ou o amigo dele o tal Chefe Bill tinham uma incrível imaginação. Assisti a filmes e mais filmes em que os americanos queriam dominar e até atiravam nos alienígenas antes de conversar. – O "Velho" não se fez de rogado e mostrando que lê meus pensamentos parou a história. – "Velho"? O que foi? – Ele rispidamente disse – se acha que estou mentindo porque continuar a contar a você seu pirralho?

                      - Tudo bem "Velho". Desculpe. Gostaria de saber o final de tudo. Vou continuar – disse. Mas se notar qualquer olhar de galhofa paro na hora. – Juro que não o farei "Velho".  – Ele como se fosse tomar um ar lá fora, foi até a escada que levava a rua e em pé mesmo continuou – Chefe Bill me contou que ficaram seis horas na pista quatro. Sheyla o convidou para conhecer a nave. Incrível. Lá havia mais de trinta mil passageiros. Na realidade a aparência deles era de pequenos anões, magros, cara fina, sem cabelos e orelhas. Sheyla riu do meu espanto e do brigadeiro, pois ele insistiu em ir. Não havia animosidade e nem cara feia para nós. Todos sorriam e parecia que viviam em um sistema de harmonia perfeita. O pior foi que o Chefe Bill me disse que tinha se apaixonado por Sheyla. – Como? Perguntei. Não sei. Eu sabia que a aparecia dela não era aquela e o pior ela me convidou para conhecer Alpha Centauro. O brigadeiro foi contra.

                        - Para finalizar eles partiram por volta de meia noite aquele dia. Chefe Bill foi com eles. O brigadeiro não aceitou e disse que levaria o caso a Corte Marcial. Seis meses depois o Chefe Bill voltou. Uma aeronave que voltava para buscar mais gente o deixou em algum lugar do Deserto de Saara. Olhe eu mesmo não acreditei na conversa do Chefe Bill. Mas ele me mostrou uma gravação feita lá no novo planeta onde iriam viver. Incrível! Os primeiros pioneiros que lá chegaram mudaram o clima, os quatro oceanos eles os transformaram em um só, o planeta todo foi reflorestado e agora já estava com florestas imensas de polo a polo do planeta. Eles tinham muitos dos animais que temos aqui na terra. Olhe, poderia ficar aqui contando a você tudo que o Chefe Bill me contou. Tem muito mais e nada que um bom Escoteiro explorador não tenha vivido como ele viveu.

                          Chefe Bill Wagryth até hoje não casou. Disse que se apaixonou por Sheyla. Sabia que nunca poderiam viver juntos nem agora e nem nunca. Ela estava anos luz adiantada dele. Se em um passado longínquo tinham se conhecido em alguma estrela do universo hoje a distancia entre os dois era bem grande. O Brigadeiro Duarte não gostou do final de tudo. Não o expulsou e até o ajudou com um analista da aeronáutica. Mas voltar a sala de comando na torre estava fora de cogitação. Abriram uma exceção. Agora ele estava treinando novos Controladores de Voos. Disse-me que está morando em uma casinha próximo ao lago Santa Inês. Pertence a Aeronáutica. O brigadeiro disse que poderia morar o tempo que quisesse. - E ele terminou dizendo – Olhe meu amigo não enlouqueci. Mas depois que conheci Sheyla não quero viver com nenhuma outra mulher.

                        Fico a imaginar se tudo não foi obra do destino, um destino que não entendo, para muitos impossíveis de imaginar. Amar alguém que mora nas estrelas? Se apaixonar por alguém que nunca poderão viver juntos? Não conto esta história para ninguém. Eu mesmo disse ao Chefe Bill que ele estava ficando louco. Interessante que a Aeronáutica e a Infraero conseguiram abafar tudo. Não deu nada na imprensa. Foi uma história não contada. Abafada pelas Forças Armadas. Ninguém soube e nem irá saber. Ele disse que confiava em mim. Que não contaria a ninguém. – O "Velho" riu alto. Claro estou contando a você porque não sei. Quem sabe por que o Chefe Bill morreu a duas semanas? Ou por que não tenho com quem falar e conversar? Quase ninguém vem aqui. Olhe o Chefe Bill antes de morrer me disse ainda que todos os abandonaram. Noêmia a sua noiva nem chorar chorou quando o mandou passear. Com os olhos cheios d’água me disse que precisava desabafar com alguém. Nada como o "Velho" Escoteiro. E ele me disse que quando fosse para o outro lado da vida que eu estaria liberado para contar.

                       O "Velho" Escoteiro se calou. Não disse mais nada. Nunca me contou uma história assim. Passava das duas da manhã. Fui embora quando vi o "Velho" Escoteiro subindo as escadas para o seu quarto. Acho que Vovó já estava dormindo. Na rua fria e atípica de uma noite de inverno fui pensando na história do "Velho". De escotismo pouco, de historias inverossímeis muito. Este "Velho" Escoteiro nunca me deixou na mão com boas histórias. Atravessei a rua e sem querer torci o pé e cai ao chão. Sem pensar olhei para o céu. Uma nave gigantesca estava passando em grande velocidade. Velocidade de Dobra? Risos. Não sei. Melhor é continuar mesmo mancando. Não posso me apaixonar por alguém que mora nas estrelas. Já tenho uma esposa e outra não ficaria bem para um Chefe Escoteiro. Que sono! Acho que vou dormir bem, mas pouco. Amanhã, ou melhor, hoje tem trabalho. "Velho" escoteiro. Amo este "Velho".


Simplicidade é ter o céu e só querer uma estrela...
É ter o mar e só querer uma gota...
É ter o mundo e só querer você...
Simplesmente você...

 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Código de Giwell



Um excelente educador não é um ser humano perfeito, mas alguém que tem a serenidade para se esvaziar e sensibilidade para aprender.

Código de Giwell
Por John Thurman.
Gilwell Chefe de Campo.

Nota: John Thurman estava entre os primeiros chefes de campo do Centro Internacional de Formação em Gilwell Park, 1943-1969. Isto é, estas palavras não são do tempo de hoje, mas o seu significado tem um efeito enorme agora.

                      Essas linhas se referem, principalmente, à relação que deve existir entre formadores e participantes do curso. Os pontos não são em ordem de importância, são todos importantes e têm valor em si:

1 - Oferecer uma "amizade" genuína a todos os chefes que vêm para aprender. Nós vamos dar-lhes a experiência que temos acumulado durante nossa vida Escoteira. A amizade é também a confiança, é acreditá-los tão capaz quanto nós mesmos. Aqui vamos encontrar muitas pessoas que são mais capazes do que nós. Qualquer ensino - aprendizagem é mais fácil quando existe um clima de amizade.

2 - Nós oferecemos "entender" seus problemas e necessidades a suas deficiências e limitações, devemos sempre lembrar que, se você vir a um curso é porque quer aprender, “não sei tudo, mas quero saber”. Nossos líderes são uma amostra do que a nossa sociedade. Deve haver em muitos o sucesso em suas carreiras e outros têm demonstrado sua capacidade em vários campos, especialmente dirigindo outros. Haverá chefes que não têm formação, mas fizeram o seu caminho na vida por causa de seu esforço e a sua tenacidade. Outros ainda são pessoas que não conseguiram na maioria nas empresas que trabalham se comprometer. Eles podem ser ricos ou pobres, profissionais ou artesãos, empresários, trabalhadores, etc. Nós vamos treinar as pessoas (e cada um é diferente dos outros) e nosso trabalho é fazê-los crescer e se desenvolver dentro sua própria personalidade individual, de modo que eles possam servir os meninos.
Não tente cortar como uma tesoura o que vai dizer. Cada um é diferente. Se eu tiver nozes eu não espero que vá ter maçãs após o curso, não, mas vou tentar polir o máximo possível para ter as nozes no final.

3 - O "exemplo" é muito importante, e temos de mostrar o que somos aos outros. Se acreditarmos no Escotismo, ele vai continuar não só com palavras, mas com ações, atitudes, como agir, etc. Em outras palavras, dar o exemplo. As palavras se vão com o vento. Querer que a promessa estivesse viva, viva-a primeiro; se queremos que a fraternidade Escoteira seja uma prática primeiro vamos aos fatos, falar sozinhos é uma coisa e agir de outra.
 
4 - devemos ser "eficiente", isso não significa que somos um "sabe-tudo", mas o que nós poderemos fazer corretamente. É melhor dizer "não sei" do que afirmar, falar ou pensar sobre o que não sabemos, e que os participantes possam sair do curso sem equívocos.

5 - Nós temos que ser "atualizados" em nossos conhecimentos. O Escotismo é um movimento e um movimento está sempre em mudança, temos que saber finalmente, se ele deixou de Programar, se fez ajustes no último quadro, etc.; ver não é o que é melhor: e sim o poderíamos manter como ponto de partida e isto só nos atualizando através de leituras, discussões, comentários sobre os cursos chegaremos lá. Não só estamos dispostos a dar, mas para receber.

6 - Os participantes do curso são "adultos" e temos que tratá-los como Adultos sempre. Podemos ter de perguntar algo e exemplificar com se eles fossem escoteiros, mas mesmo assim considerar que são adultos agindo como escoteiros.

7 - Devemos ser "positivo" no que dissermos. Em um curso, não devemos questionar o que já foi aprovado, um curso não é uma conferência que vale a pena olhar para atualizar o existente. Critérios devem ser deixados bem centrados.

8 – Devemos ser "entusiasta". Pelo entusiasmo de muitos líderes se expandiu Escotismo. Tudo pode ser compreendido ou perdoado num formador (treinador), mas a falta de entusiasmo podem transmitir pessimismo e muitos valores contrários.

9 - Devemos ser "leal".  Leal a todos quem trabalham e colaboram leais ao nosso movimento, leais a política a ser seguida e em um momento, qualquer palavra contra a lealdade é um escândalo para os participantes verdadeiros em nossos cursos. O treinador (formador) em seus cursos ou outros eventos de formação não é quem deve questionar a política, administração, a organização ou pessoas. Nosso trabalho como treinadores (formadores) é apoiar, ajudar, ajudar, etc.

10 - Ter "senso de humor". O treinamento para ser eficaz, deve ser bom, mas se perdem em forças rejeitar o que não gosta, portanto, um treinador que não consegue superar os momentos da vida difícil fica amargo. Um senso de humor vai fazer-nos rir de nós mesmos, dificuldades, etc. E nós vamos apresentar o treinamento com uma atmosfera amigável.

11 - "Esforço" é uma palavra que devemos ter em mente. Esforço para melhorar a nós mesmos todos os dias, e todos os esforços para dar efetivamente o que esperamos conhecer cada participante e treiná-los de uma forma que atenda a sua formação suas necessidades, esforços para tentar ser o melhor e não se contentar com pouco, esforço para atingir o cume e, não ficar contente em permanecer no vale.

12 - "Tradição" é um bom servidor e bom servo, um bom professor e mais pobres padrão. Formação é a guardiã das tradições, mas devemos fazê-los conhecer o Escotismo e não seus freios. Tradição é o passado que nos impulsiona a servir melhor, para que possam se atualizar. “A tradição não deve frear“, porque se antes eles fizeram isso, a plataforma para agir no espírito de ontem ou de hoje é quem nos ajudará sempre. Hoje, amanhã e sempre.
 Todos os itens não são assim tão importantes, mas apenas uma reflexão sobre alguns pontos que podem nos ajudar a melhorar, a nós mesmos como formadores. Claro se tivermos em mente todos os dias e, especialmente, quando agimos como formadores.

Quem nada tem nada pode dar. Eu só posso doar aquilo que tenho. Sou Professor e Educador. Sei que o outro precisa de mim, portanto preciso ter algo para doá-lo."



quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O "Velho" Escoteiro e o segredo da ilha misteriosa – Fasc. 70



  O "Velho" Escoteiro e o segredo da ilha misteriosa – Fasc. 70

AS LINHAS DA PRAIA
“A lenda insiste em dizer que se alguém repetir 6.000 vezes a frase ‘huka fava dreimoid Kaká iara” as linhas do mar da praia irão lhe levar a um tesouro escondido. Só uma pessoa conseguiu fazer isto. “Mas está desaparecida até hoje”

“Aos contadores de histórias. Devemos a eles a beleza de um espetacular Fogo de Conselho ou de uma gostosa noite de luar”.


                        Foram quinze dias maravilhosos. Para dizer a verdade nunca poderia imaginar o "Velho" se esbaldando e tentando correr como uma “galinha choca” pela praia. O meu amigo o "Velho" estava em pele e osso. Mas ainda ostentava uma saúde que muitas vezes duvidamos se ele resistiria. Vovó e minha esposa se “aninhavam” em baixo de uma castanheira frondosa. Eu não tirava o olho do "Velho". Afinal, 86 anos não e brincadeira. Não deu para perguntar ao seu médico o que ele podia fazer ali. Mas ele teimoso, fazia sempre o que não podia fazer.

                      Tudo começou quando meu Chefe de Departamento da fábrica onde trabalhava me perguntou se não queria ficar em sua casa de praia, no litoral sul. – Olhe meu amigo, não vou lá esse ano. Eu e a família resolvemos ir a Disney e a casa ficará fechada. Porque não vai lá descansar nas suas férias? E para completar disse – Leve quem você quiser. Tem condições de alojar até dez pessoas. Uma oferta tentadora. Falei com minha esposa. Ela topou.

                      No domingo fomos à casa do "Velho". Como sempre saborear o almoço delicioso da Vovó. Quando almoçávamos contei que pretendíamos ficar uma temporada na praia. Notei os olhos do "Velho". Brilhavam. Olhei para minha esposa e ela mesma fez o convite. Porque não vão conosco? A casa é grande e cabe todo mundo. Um sorriso nos lábios do "Velho" mostrava sua satisfação, mas como sempre tinha de se mostrar maniento – Melhor não. Vamos atrapalhar. Afinal você vai ficar sozinho com sua esposa.

Depois do almoço ficou tudo combinado. Quem leva o que, hora da saída, se precisava de uniforme, o de campo ou social. – "Velho"! Pelo amor de Deus. Vamos para praia. – Nunca se sabe meu amigo, podem aparecer alguns escoteiros e vamos nos apresentar como? De sunguinha? – Sem resposta ao "Velho". Sabia que ele gostava de ficar resmungando, mas sabia também que estava adorando o programa. Acho que ele precisava disso. Sempre me disse sua queda pelo mar.

                    Na quarta partimos. Tralha pequena. Própria de escoteiros. Uma viagem ótima. O "Velho" cantando. Uma voz de taquara rachada, mas ele estava alegre e muito. A chegada ele nem se deu o desplante de ajudar a descarregar. Tirou os sapatos e foi de encontro ao mar. Ficou ali por minutos a olhar o horizonte, as gaivotas e o som imperdível do mar aos ouvidos de um mateiro. Os primeiros dias foram de descobertas. Nem sempre conhecemos as pessoas. Podemos conviver por anos, mas só quando estamos juntos é que podemos analisar com precisão o que somos. O "Velho" e a Vovó eram companhias das melhores.

                     O "Velho" ficava o dia inteiro na praia. A casa ficava a menos de cem metros e se não ficasse de olho ele iria sozinho. De manhã tomava café que a Vovó fazia, pegava a cadeira de praia e lá ia cantando o Rata-plã. Nos primeiros dias falamos pouco de escotismo. Contamos “causos” lembranças escondidas na mente e que estavam prontas para serem narradas aos amigos do peito. Os dias foram passando. De manhã à noite, o "Velho" não saia da praia. Eu também gostava. Íamos lado a lado pisando na areia molhada e andávamos quilômetros. Descobri um novo "Velho". Mais novo. Mais atual, e não aquele doente do passado.

                     Uma tarde, o sol se pondo, o "Velho" olhando para o mar disse baixinho – Lembra-se do Justin? Aquele americano que juntos fomos ao vale da Morte e o Francês Pierre que foi mordido por uma cobra Píton? – Balancei a cabeça concordando. Vendo este “marzão” me lembrei de quando fizemos uma bela de uma aventura na ilha de Hornos, ou melhor, rodeando o Cabo Horn, na terra do fogo. Um dia ele apareceu no Grupo Escoteiro. Claro, foi um susto. Tinha mais de oito anos que não o via. Eu já tinha casado com a Vovó e minha filha recém-nascida. Trabalhava muito em meu escritório de engenharia. Não tinha mais tempo para essas aventuras que amava e muito.

                    Justin me abraçou efusivamente. – Meu amigo, você aqui no Brasil?  Foi uma alegria. Todos no grupo se espantaram. Apresentei Justin. Ele não falava português. Arranhou um espanhol e rimos muito. À noite fomos a um barzinho e ficamos lá por muito tempo lembrando nossas aventuras. Tinha convidados vários chefes, mas somente o Rael aceitou ir. Os demais se desculparam. Já tinham compromissos. Rael era chefe de tropa. Solteiro ainda, mas um perfeito cavalheiro. Professor de ciências em um colégio na cidade. Escoteiro desde menino. Um conhecimento enorme de tudo que se pode pensar em escotismo. Rael se encantou com as histórias que contávamos.

                     Justin não se fez de rogado. Olhe, vim com meu pai. Veio a serviço. Como sabem é diplomata e deve ficar aqui uns meses. Eu não. Pretendo voltar logo. Abrí um escritório de acessória em viagens aventureiras e não posso ficar muito tempo. Sabendo que poderia encontrá-lo não perdi o convite de meu pai. Meu motivo principal meu amigo é que estou planejando uma atividade de arromba. Acho que já devem ter lido sobre a lenda da embarcação-fantasma Holandês Voador. Não? Bem vou resumir para não tomar muito tempo.   

                          A lenda da embarcação-fantasma Holandês Voador é muito antiga e temida como sinal de falta de sorte e possui diversas versões. A mais corrente é do século XVII e narra que o capitão do navio se chamava Bernard Fokke, o qual, em certa ocasião, teria insistido a despeito dos protestos de sua tripulação, em atravessar o conhecido Estreito de Magalhães, na região do Cabo Horn, que vem a ser o ponto extremo sul do continente americano.

                          Ora, a região, desde sua primeira travessia, realizada pelo navegador português Fernão de Magalhães, é famosa por seu clima instável e suas geleiras, os quais tornam a navegação no local extremamente perigosa. Ainda assim, Fokke conduziu seu navio pelo estreito, com suas funestas conseqüências, das quais ele teria escapado, ao que parece, fazendo um pacto com o Diabo, em uma aposta em um jogo de dados que o capitão venceu, utilizando dados viciados.
                            Desde então, o navio e seu capitão teriam sido amaldiçoados, condenados a navegar perpetuamente e causando o naufrágio de outras embarcações que porventura o avistassem, colocando-as dentro de garrafas, segundo a lenda.
                            O navio foi visto pela última vez em 1632 no Triângulo das Bermudas comandado pelo seu capitão fantasma Amos Dutchman. O marujo disse que o capitão tinha a aparência de um rosto de peixe num corpo de homem, assim como seus tripulantes. Logo após contar esse relato, o navegador morreu. Uns dizem que foi para o reino dos mortos; outros, que hoje navega com Dutchman no Holandês.

                           Não sei se sabem, mas o Cabo Horn é o ponto mais ao sul da América do Sul e pertence ao Chile, suas coordenadas são 55° 59′ 00″ S, 67° 16′ 00″ O, no final da Terra do Fogo, na ilha de Hornos. Ele é ainda o limite norte do Estreito de Drake, entre a América e a Antártida. É também o divisor dos oceanos Pacífico e Atlântico. Os outros pontos extremos da América do Sul são: ao norte a Punta Gallinas, na Colômbia, ao leste a Ponta do Seixas, no Brasil, e a oeste aPunta Pariñas, no Peru.
O clima na região geralmente é muito frio, com temperaturas médias de 5 °C. Os ventos são de 30 km/h em média, com picos comuns de 100 km/h. As condições locais são muito rudes, principalmente no inverno.

                           Tenho lido muito sobre isso. Até do ultimo navio, um galeão inglês, que dizem abarrotados de prata afundou próximo ao Cabo Horn em 1820, bem junto à ilha de Hornos. Não precisam rir. Não tem tesouro nenhum, eu sei disso. Mas dizem que é o local mais inóspito da terra. Poucos conseguem sobreviver lá. Mas muitos que lá vão, juram de “Pé junto” ter visto a embarcação-fantasma navegando sem rumo, com o Capitão Bernard Fokke ao leme, dando gargalhadas.

                           Claro, eu sei que é lenda. Mas adoro uma lenda. Poucos conseguiram ficar mais de cinco dias na ilha. Um ninho de cobras venenosas, escorpiões amarelos e a noite a temperatura desce até os dez graus negativos na época de calor. E se conseguirmos ir, fazer o caminho de Drake, ficar cinco dias, seremos os primeiros do movimento escoteiro que conseguiram realizar essa bela aventura. Justin falava entusiasmado. Vi que Rael tinha os olhos brilhantes. Sempre quando escoteiro fazia mil e uma estripulias com sua patrulha.

                          Lembro que uma vez a mãe dele procurou-me perguntando onde eles
tinham ido acampar. Não sabia. Não me disseram nada. Nunca isso aconteceu. Estava me lembrando de um fato. Sua patrulha tinha pedido para fazer uma jornada de bicicleta até Monte Alegre. Não disse não e nem sim. Vamos ver na Corte de Honra e ver o que ela diz. A corte foi contra. Achei que nossos monitores foram duros e não deviam ter vetado. Notei em Rael uma decepção. Agora tinha certeza que ele e a patrulha já deviam estar em Monte Alegre.

                          Não disse nada. Falei com sua mãe que não se preocupasse. Estavam em Monte Alegre. Eu acreditava que no domingo no mais tardar a noitinha eles estariam de volta. Dito e feito. Chegaram rindo da aventura. Eu os esperava na sede. Quando me viram um enorme susto. Conversamos muito. A patrulha ficou seis meses suspensa para atividades sem chefia. Acho que aprenderam a lição.

                          Notei que os olhos do "Velho" estavam se fechando. Ainda era cedo. Menos de meia noite. Mas “cutuquei” o "Velho" e o convidei para irmos dormir. Ele nem disse nada, saiu tropeçando e sumiu no seu quarto fechando a porta devagar. Minha esposa já tinha se recolhido. Fui para a varanda. Uma bela vista do mar. Sem lua. Mas as ondas batendo na praia me davam uma sensação de alegria e calma. Também adorava o mar. Pensava comigo que quando me aposentasse iria morar em uma cidade beira mar.


O "Velho" Escoteiro e o segredo da ilha misteriosa – Fasc. 71

Por entre as frias brumas de agosto,
Apareces carregando tua carga funesta!
Imponente!...Em silêncio... Tão morto!
Pelos mares - à deriva, navegas...

Acorrentados! Seguem meus sonhos contigo,
Encerrados lá no fundo do porão!
E riem como loucos um desvairado riso,
E perdidos pelas noites vão!

Estás condenado pelos mares a vagar!
E nas noites sombrias, sem estrelas!...Tão frias!
Navegas à deriva, sem nunca parar!

O bramir da tempestade meus gemidos sepulta!
E enquanto as ondas se elevam com fúria!
Navegas perdido, nas minhas loucuras!

As lendas, mitos e fábulas. São elas que nos transportam para os sonhos e aventuras fabulosas

                    O dia amanheceu cinzento. Mesmo assim o mormaço nos trazia uma sensação gostosa para dar nossa caminhada nas areias brancas do mar. Poucas pessoas àquela hora. Também nas outras horas, pois não eram férias escolares e poucos se arriscavam a passar uma temporada no litoral. Antes das onze da manhã, a chuva fina começou a cair. Voltamos para o chalé. Vovó e minha esposa estavam sentadas na varanda, ouvindo musicas que o "Velho" ouvia, mas não gostava. Make Me A Friend, uma coletânea de musicas cowtry que eu gostava muito, mas o "Velho" não.

                  Interessante que minha esposa não tinha muitas amigas. Quase oito anos de casado e conheci poucas. Em seu trabalho dizia que lá tem colegas. Amigos é outra coisa. Ela e a Vovó se deram bem desde o primeiro dia. A Vovó acho eu, se dava bem com todos. Uma simpatia e uma maneira tão educada para conversar que não tinha quem não ficasse seu amigo na hora. As duas ficavam horas e horas conversando. Uma com mais de setenta anos. A outra com menos de trinta.

                   Eu e o "Velho" pegamos duas cadeiras de balanço, gostosas por sinal e também ficamos ali na varanda vendo a chuva miúda caindo no mar. Ao longe o tempo escuro pronunciava um dia inteiro assim. Tudo bem, não incomodávamos com isso. Ainda ficaríamos oito dias descansando. O "Velho" fingiu que dormia, mas a cadeira de balanço ia para frente e para trás. Interessante. A vida nos reserva surpresas que nunca imaginaríamos. Há dez anos, nem sabia o que era escotismo, e nem conhecia o "Velho". Dou risadas até hoje da primeira vez. Ele, sempre ele com seu estilo inconfundível que me conquistou. Também me colocou no escotismo, uma causa que abracei com orgulho.

                  O "Velho" abriu o olho e sorriu. E aí? Disse – quer ou não quer saber o final da minha aventura na ilha misteriosa? – também sorri. Claro "Velho". Você sabe que estou “faminto” de suas histórias. Vais continuar? – O "Velho" sorriu. Sabe disse – Saudades de uma boa cachimbada. Sempre o que é bom nos privam. Dizem que é para o nosso bem. Que bem? Quero cachimbar e não posso e é para o meu bem? Não disse nada. Tudo que devia ser dito já foi há tempos não só por mim como pelo seu medico e a Vovó.

                  Para lhe dizer a verdade, eu sabia que iria com Justin. – começou o "Velho" a sua narrativa. Justin encerrou dizendo que não ficaria barato. O preço devido ao aluguel de um pequeno barco que precisaríamos por seis dias e apetrechos necessários para uma viagem dessas iria ter um gasto enorme, mas que poderíamos economizar em outras. Justin disse que tinha experiência em navegação. Seu pai tinha um pequeno barco e ele cruzava todo litoral americano há anos. Se tudo desse certo nos encontraríamos no Chile, em Punta Arenas em 23 de setembro do próximo ano. Se eu pudesse confirmar até julho seria bom. Pierre o Escoteiro francês já tinha confirmado. Caso eu fosse, precisavam arrumar mais um. Quatro seriam o numero ideal para dividir as despesas.

                  Justin partiu na semana seguinte. Fizemos ótimos programas e fiz questão de ir com ele até o Pico do Itatiaia. Fomos de carro até o museu e de lá a pé até o pico. Mais de quatro horas de subida, mas uma vista maravilhosa. Rael estava conosco. Notei que ele sonhava com a viagem. Fomos de uniforme e Justin estava com o seu. Um orgulhoso Boy Scout of America. Dormimos lá aquela noite. Pela manhã de domingo regressamos. Rael me confessou que queria ir. Ele faria tudo e o mais difícil não seria o valor a ser gasto. Ele tinha umas economias (calculamos que sair do Brasil até o Chile, pagar a taxa do barco e outras despesas, pelo menos uns cinco mil dólares para cada um).

                  No mês seguinte Rael me disse que iria. Afinal seria a aventura de sua vida. Não podia perder. Conversei com a Vovó longamente. Ela nunca colocou empecilho em nada do que fiz. Sempre me incentivou. Vá meu "Velho". Você sabe que eu não sirvo para isso, mas é sua vida. Viva como ela deve ser vivida para você não se arrepender depois. Tive que fechar meu escritório. Só tinha uma moça como estagiaria e muito nova não daria conta do riscado. Coloquei uma placa na porta – “Escoteiro em viagem pelo mundo” volto em quinze dias. Meus clientes já me conheciam.

                  Partimos eu e Rael no dia 22 de setembro. Chegamos a Punta Arenas a noite. Eu e Justin já havíamos combinado o hotel. Ele estava lá com Pierre há uma semana. Ficamos até altas horas da noite combinando tudo. Ele já havia alugado um pequeno barco. Bem não tão pequeno. Uns 18 pés. Melhor uns seis metros por dois e meio. Uma cabine para três. Uma pequena cozinha. Como tinha experiência e alimentação de campo, em mesmo fiz uma lista e comprei tudo. Acondicionamos tudo no barco. Pierre e Rael ficaram amigos logo. Um sempre ajudando o outro.

                  Partimos à tarde do dia 23 de setembro. Um lindo dia. Um sol vermelho uma temperatura por volta de dezoito graus. Justin disse que traçou um itinerário aonde iríamos primeiro a Ushuaia, Canal de Beagle, Estreito de Magalhães e finalmente o Cabo Horn. Pelos seus cálculos chegaríamos em dois dias. Foram dias maravilhosos onde passamos por geleiras inimagináveis. Lindas. Não ficávamos próximo à costa. 

                  No dia seguinte finalmente chegamos ao Cabo Horn. Tivemos sorte com o
mar que não estava revolto como é comum. Mas o clima não. Uma chuva fria e torrencial que alem dos ventos fortes nos obrigou a ficar a distancia por mais um dia ancorados. Dizem que lá por estar situado no estreito de Drake na Terra do Fogo, o Cabo Horn é o ponto mais austral do mundo. Justin era um excelente navegador. Em hora nenhuma nos colocou em perigo. Para dizer a verdade formamos uma patrulha ideal. Todos se ajudando e descansando em escalas de seis horas.

                 No terceiro dia a chuva diminuiu e o vento não passava de quarenta quilômetros por hora. Isso nos garantiria um desembarque perfeito. Contornamos a ilhar e atrás de uns rochedos dava para jogar ancora e com um barquinho pequeno chegar a terra. Pierre nos contou que quando o vento passa de cento e vinte quilômetros hora a adrenalina de algum navegador de outro século que experimentou passar por lá, chacoalha-se tudo, seu estômago acompanha o movimento e pouco resistem.

                Hoje eu sei que no Monumento Cabo Horn, tem uma placa de metal com o formato de um albatroz, construído em 1992, uma homenagem à memória de muitos homens que desbravaram a região e morreram lutando contra a forte correnteza é uma certeza de uma viagem feliz e perfeita. Agora tem um lance de escadas o que não tivemos na época. Quando o vento forte vindo da Patagônia sopra, é difícil manter o equilíbrio. Ficamos perplexos com a paisagem. Bela e exuberante. Era uma sensação magnífica. A de desbravar uma das extremidades mais almejadas do mundo.

                Nosso plano era desbravar a ilha. Ficar ali por cinco dias. Dormir sempre no barco. Justin conseguiu manobrar o barco bem escondido, de modo que barcos ou navios que passassem não nos avistariam. Assim poderíamos deixar o barco bem ancorado e explorar a lha a vontade. Cada um imagina o que pode ser considerado como o fim do mundo. Pensa-se um lugar isolado, cenário inóspito, horizonte vazio, e agora eu não via assim. Sabia que era o ponto de encontro entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Nada a ver com a lenda de que era o último pedaço de terra habitado no extremo sul antes de se chegara antártica.

                 Com a construção do canal do Panamá, que se iniciou em 1880 e só terminou em 1914 a rota dos navios se alteraram. Antes a rota alternativa era contornar o Cabo Horn. Agora poucas embarcações passavam por ali. Com seus 81 quilômetros o canal do Panamá era perfeito para os encontros entre o Pacífico e o Atlântico. Durante três dias passávamos o dia em terra voltando à tarde para o nosso barco. Só um dia avistamos um barco turístico que passou a mais de dez quilômetros da ilha.

                 Cada dia um espetáculo a parte. A dança dos golfinhos, dos tubarões e de uma enorme baleia azul que se deliciou a dar duas voltas na ilha. A vegetação era rasteira e para dizer a verdade só vimos uma pequena cobra, que tentei identificar, mas a duvida se manteve. Poderia ser um pequeno coral, mas sabia que as corais eram sempre enganadoras. No Brasil a chamamos de falsas corais. Passamos ao largo. Não pretendíamos matar nenhuma. Estávamos em seu habitat. Ela tinha todo o direito na ilha. Os pássaros eram outro espetáculo a parte.

                   No quarto dia acabou nossa tranqüilidade. Um barco de uns cem pés aportou na ponta da ilha. A uns dois quilômetros onde estava nosso barco. Ficou ali toda a manhã. Com o binóculo militar do Pierre vimos muitos homens armados no convés. Às duas da tarde em um pequeno escaler de três bancadas percorreram a distancia do barco até a ilha. Aportaram em outra extremidade. Vimos que varias caixas foram descarregadas. Não vimos onde as levaram. Fizeram bem umas oito viagens. Todas carregadas com as caixas.

                  Pararam a noite e pela manhã continuaram. Para dizer a verdade acredito que mais de sessenta caixas. Por fim partiram. Na noite anterior resolvemos dormir na praia. Sobre a areia. Um frio de rachar, mas achamos que se fossemos para nosso barco poderíamos ser vistos. Ainda bem que a temperatura não baixou os seis graus. Achei que não ia agüentar e pela manhã quando o sol apareceu rimos. Quando eles se foram rimos mais. Rael achou que devíamos saber que caixas eram aquelas. Dólares? Ouro? O que seria?

                 Custamos a encontrar uma pequena abertura na encosta sul da ilha. Pequena mesmo. Bem escondida. Se não fossemos escoteiros e tivéssemos bons conhecimentos de pistas jamais encontraríamos. Rael era bamba. Pegadas, folhas amassadas, enfim uma infinidade de pistas que só ele mesmo para descobrir. Mais de cem degraus em pedra bruta nos levou a uma gruta enorme. Um pequeno riacho passava de norte para sul. Nem sinal das caixas. Procuramos por hora. Já estava desistindo quando Pierre descobriu uma pequena pedra que levava a outra abertura.

                   Lá estavam as caixas. Tinha mais. Não eram somente as que eles trouxeram nestes dois dias. Fiquei com medo de abrir. Justin não. Ele e Rael abriram uma. Uma enorme surpresa. Não eram dólares nem ouro. Armas. Uma enorme quantidade de armas que nunca tínhamos visto. Algumas de aspectos tão sinistros que daria para imaginar um tiro com ela. Olhei para Pierre, olhamos uns aos outros. Saímos Dalí logo. Estávamos mexendo com fogo. Correndo um grande perigo. Saímos da ilha, pegamos nosso barco e partimos. Era para ficar mais dois dias. Abreviamos. Chegamos a Punta Arenas dois dias depois. Uma forte tormenta nos pegou no caminho. Se não fosse Justin acho que teríamos soçobrado.

                    Nem bem chegamos Justin telefonou ao seu pai. Ele mandou que nos dirigíssemos a Santiago do Chile e procurássemos a embaixada americana. Eles já nos esperavam. Ficamos horas explicando. Pierre e Rael eram bons em mapas e croquis. Uma unidade da marinha americana partiu para a ilha. Não fomos. Eu e Rael voltamos para casa desta vez a bordo de um jato da Força Aérea Americana. Despedi de Justin, de Pierre. Lagrimas nos olhos. Mais uma grande aventura.

                   Dois meses depois, no Grupo Escoteiro recebemos a visita de um cônsul americano acompanhado de autoridades brasileiras. Mais precisamente um brigadeiro da FAB. Na frente de todo o grupo, deram a mim e ao Rael uma medalha de agradecimento. Junto uma águia feita de prata, com a bandeira americana. Bem éramos brasileiros, mas se estavam nos agradecendo tudo bem. Justin nos telefonou um mês depois. Uma grande quadrilha de contrabandistas de armas. Faziam parte até um general e cincos oficiais do exército americano. A quadrilha era chefiada por um europeu.

                   Disse também que as armas eram para um país africano e se fossem entregues uma enorme carnificina iria acontecer. Seu pai não quis dar conhecimento à imprensa de quem tinha descoberto tudo. Para nos salvaguar. Poderíamos ter represálias ou vingança. Não se sabe. Pela sua voz vi que havia gostado da aventura. Ele até deu um nome a aventura que fizemos O Segredo da Ilha Misteriosa. Não avistamos o Capitão Bernard Fokke ao leme de seu navio fantasma. Nem descobrimos nenhum tesouro, mas tínhamos encontrado a ilha mais misteriosa e linda que já tinha visto.

                    Hoje sei que turistas estão a visitar a ilha diversas vezes ao ano. Tudo foi melhorado. Navio de grande porte de volta da antartida passam por lá. Contam histórias aos passageiros que se assustam, mas ninguém acredita. Gostaria de ter visto a embarcação fantasma Holandês voador. Não vi. Mas vi golfinhos, tubarões, balelas azuis, milhares de peixes nos arrecifes, um mar maravilhoso, grandes geleiras formando incríveis icebergs. Eu sabia que tudo era uma lenda, mas que lenda maravilhosa.

                   Passaram-se anos até que vi Justin de novo. Em um acampamento que fiz com uma patrulha de monitores do grupo em Papricantis Neandertalis. Uma pequena cidadela entre o Chile e o Brasil. Pesquisadores, cientistas, parapsicólogos e curiosos dizem que lá foram encontrados resquícios históricos jamais imaginados. Ninguém dizia que resquícios eram esses. Mas a patrulha sênior quando contei logo gritaram – Vamos lá! Era sempre assim. Como eu também se tornaram aventureiros. Não foi surpresa encontrar lá acampado Justin e Pierre. Velhos amigos se encontrando, mas esta é outra historia.

                   O sol começou a brilhar no horizonte. O "Velho" parou sua narração. Vamos? Disse – Vamos! Eu disse. E lá fomos nós para a praia, onde centenas de gaivotas nos acompanhavam com seu barulho infernal. Ao longe avistamos o porquê. Pescadores estavam tirando a rede do mar e elas estavam abarrotadas de peixes. Olhei para o "Velho". Ele olhava a frente. Seus olhos brilhavam. Oitenta e seis anos. Uma vida cheia de aventuras. Historias mil para contar. É "Velho". Eu te amo. Você entrou na minha vida e nela irá permanecer para sempre.

O MAR QUE TIVE POR LEMBRANÇA

No mar, balança o óleo e não se acalma!
Agonizo n’água!...Sou ave pequena!
O negror do óleo devora a minha alma,
Meus ossos!...Até as minhas penas...

Inda arrisco um curto esvoaçar...
Um vôo breve... Ó expectativa vencida!
E caio n’água, no negror do mar!
Do óleo que desfez - em mim -, a vida...

Enegrecido o bico... Tão grande é a dor!
Agonias chilreando pelos ares!
Foi o eco que o negror do óleo deixou...

Engolfa o Golfo o negro óleo que avança! 
E engolfando todas as aves!
Engolfa o mar que tive por lembrança...
Lusos poemas