Historias e estorias que não foram contadas

Historias e estorias que não foram contadas
uma foto, de um passado distante

terça-feira, 15 de julho de 2014

Ainda bem que não posso mais ser Chefe Escoteiro.


Conversa ao pé do fogo.
Ainda bem que não posso mais ser Chefe Escoteiro.

        Que a moçada fique contente. Eu não posso mais ser um Chefe Escoteiro. Não iam gostar de mim. Por um lado aprenderiam coisas incríveis, artimanhas, engenhocas, fazer doze nós com uma só mão nas costas, amarrado pela perna em uma árvore, duas linhas na boca, De cabeça para baixo por quinze minutos, puxa! E transmissão de semáforos? Iam aprender a transmitir mais de 45 letras por minuto. Pouco? Iam aprender a dormir em montanhas, em picos altos, no alto de uma arvore, em cima de pedras, mas tendo tempo iam aprender a fazer um colchão tão gostoso que não iam lembrar mais dos seus. Iam aprender a atravessar um rio pequeno com uma ponte pênsil, e se estivessem acampados uma ponte elevadiça onde ninguém nos surpreenderia a noite. Iriam aprender a fazer poltronas móveis no campo, mesa de diversos tipos, cinco amarras, quatro costura de arremate, laçar uma corda e esticar somente com uma mão.

          Bem isto é só para adoçar, pois seria um Chefe exigente, mas um grande amigo. Nem pense em andar mal uniformizado em minha frente. Dizem que meu olhar fazia uma fogueira sem fósforos. Esqueçam esta de andar com o lenço mal colocado. Nem pensei em se uniformizar sem meião. E todos os dias de campo eu iria ver se você tomou um bom banho, se lavou suas roupas sujas, pois afinal levar para a mamãe é coisa de gente mole que eu chamo Pata Tenra. Você é um Pata Tenra? Se for e estiver em minha tropa vai aprender a ser Escoteiro de verdade. Ou acha que ser Escoteiro é ir para o campo com seu celular e ficar de lá postando no facebook: - Estou cozinhando, vou me lavar, o sol tá quente, a lua chegou. Ias levar um quiproquó que nunca mais ia esquecer. Uma lavada você ia receber. Não dou colher de chá!

           Mas você ia ser um Monitor respeitado, aceito como líder, ia ter uma patrulha que dariam a vida por você. Um dia iriamos fazer um ninho de águia há pelo menos oito metros de altura. Faríamos uma casa de João de Barro e você iria aprender com ele por aonde vai e vem o vento, quando vai chover, ia ficar um bamba na orientação noturna. Nunca ia se perder. Mas eu seria duro com você. Seu amigo sim, amigo em todas as horas, se precisasse de mim era só me chamar. Eu iria ouvir você, não iria tirar sua razão, quem sabe mostrar outro caminho isto se me pedisse. Mas iria exigir de você. Palavras chulas nem pensar. Afinal o Escoteiro é ou não um cavalheiro? Ele não tem como herói um Sir Lancelot? Respeitador, honesto, trabalhador, sincero, ético e teria honra, uma honra que daria sua vida para não perdê-la.

           Mas eu não posso mais ser um Chefe Escoteiro. Não vou conseguir levar você para as grandes aventuras que sonho em fazer. Quem sabe explorar uma selva inóspita? Eu e você e as patrulhas da tropa iriamos seguir as pegadas de Borba Gato. Sabe quem é? Ou então iriamos procurar diamantes em Diamantina, ou ouro em Ouro Preto, entrar em minas velhas, seguir por quilômetros e sair proximo a Nova Lima já pensou? Tudo por baixo da terra. Uma semana dentro de uma mina de ouro? Já pensou em seguir as pegadas de uma onça parda e dar de cara com ela? Que susto eim? Que tal uma armadilha para pegar uma jaguatirica e depois soltar? Que história daria para você contar aos seus amigos. Claro que iria mostrar quem são seus amigos de verdade. Iria mostrar que seguir para o oeste não significa que você vai para o céu. E as noites eu e você andando ao léu, a procura de um lugar, uma chuva torrencial, você iria aprender a se defender, não chorar feito pata tenras afinal você é um Escoteiro e o Escoteiro não se dobra as adversidades. Pena que não posso ser mais um Chefe Escoteiro. Iria ter uma tropa amiga, respeitadora, com os melhores acampadores e sapadores, tropa exímia em tudo na arte de se defender e atacar. Tropa que monta um campo em duas horas e está pronta para partir em trinta minutos.

       È meu amigo, você tem sorte ou azar. Eu não posso mais ser um Chefe Escoteiro. Se você fosse Escoteiro ou Escoteira da minha tropa não diria que colocando um lenço Escoteiro você representa a organização. Não representa, para mim não. Para os outros talvez, aqueles que não se preocupam com a patrulha, que correm de Jamboree em Jamboree, que vão atrás destas aventuras Escoteiras regionais e nem dá bola para os seus maiores amigos da patrulha. Afinal você não tem orgulho deles? Você vai e eles ficam? E lá, você vai conhecer um mundão de gente e quando voltar o que dirá a eles? Que você foi e eles não? Falar ou dizer o que? Não precisa? Pendure seu lenço pelas pontas, é moda. A Europa Escoteira faz assim. Lenço é lenço, representa seu grupo, conta sua história, mas não diz que você é um Escoteiro, o que diz ao público é seu uniforme, limpo, bem passado, bem postado e você se mostrando ser digno dele.

         Ainda bem que não posso mais ser um Chefe Escoteiro. Não posso mesmo. Nunca iria fazer o que fiz quando fui um. - Olá moço da estrada de ferro, passagens para 28 meninos Escoteiros. – Vão para onde Chefe? – Alguma parada onde só tem uma estação e uma trilha que nos leve para longe quem sabe para uma floresta mal assombrada? Quero ir com eles conhecer novos caminhos, explorar vales e campinas, subir em escarpas e descer em cavernas profundas. Quero com eles fazer novas trilhas, acampar onde o homem nunca pisou. Quero mostrar a eles que podemos percorrer quilômetros sorrindo, que podemos passar horas sem beber e comer. Mas quero chegar onde uma bela cachoeira deixa no ar um bruma linda, que molha nossos rostos, que iremos maravilhar com os peixes pulando a procura de um local para sua desova. Mas eu não posso mesmo. Não sou mais aquele que tinha um sorriso nos lábios, que fincava seu chapéu na cabeça e partia para grandes atividades aventureiras. Vais para onde Chefe com seus Escoteiros? Nòs? Vamos para onde o vento nos levar!


         Bom para você, ruim para mim. Pois é. Para você que não vai me seguir, e eu por não poder mostrar como se forja um Escoteiro de verdade. Como se faz um homem de caráter. Mas você já tem seu Chefe. Ele vai lhe dar tudo isto. Ele não vai ser como eu. Ele é liberal, aceita a modernidade e se preocupa muito com você. Ele é um bom Chefe, quem sabe melhor do que eu. Espero mesmo que ele seja assim. Um exemplo para você seguir e se por acaso ele não saber tomar o rumo do oeste diga a ele para seguir o sol. Aprenda com ele o quanto ele tem de experiência. Conte para ele sua vida e o conselho que ele lhe dar aceite. Ele só pensa em seu próprio bem. Espero que ele seja como eu. Sem dar colher de chá, sem sopa, sem moleza, fazer fazendo, marchando correndo acampando neste mundo de Deus. Infelizmente agora vou esperar outra vida, nesta não dá mais. Uma pena que eu não posso mais ser seu Chefe Escoteiro! Mas aproveite o seu. Ele vai dar tudo que eu agora não posso mais.            

quinta-feira, 10 de julho de 2014

De Volta para o Futuro II.


Já publicado aqui. Mas adoro esta crônica. Kkkkkk.
Uma divertida sátira.

De Volta para o Futuro II.
(Back to the Future Part II)

                  Não teve jeito. Não queria conhecer o futuro, mas ao sentar na poltrona do DeLorean do Doutor Emmett Brown me deixei seduzir como se fosse Marty MacFly investigando sua vida futura. No meu caso não era a minha vida. Já tinha voltado ao passado em De Volta para o Futuro I em 1950. Mostrei para alguns como era o escotismo naquele tempo. Agora pensei em ver como era o nosso escotismo no futuro. Fui direto ao ano estelar de 2.180. 2.180? Isto mesmo. Meus caros, que susto! Fui parar logo em uma reunião de Corte de Honra! Sabem onde estava sendo realizada? Na casa do Chefe da tropa. Ele de roupão pressurizado e chinelo voador (quando andava plainava no ar), tomava um uísque contrabandeado do planeta Uebaibe e lia o noticioso esportivo de um jornal de outro planeta de nome Bidypower, através do seu super potente Smartphone e na sua frente uma enorme tela panorâmica que ele com um simples gesto colocava do tamanho que quisesse e onde apareciam os Monitores e subs. Claro cada um em suas casas. Eles pediram para evitar a holografia, achavam que não se sentiam bem assim. Discutiram o porquê as patrulhas estavam diminuindo a cada ano (Ora, ora, ainda?).

                  Chefe a Zeta Leonis está com dois somente. Eu e mais um. Outro logo emendou – Chefe a Epsilon Tauri tinha quatro e agora três.  E assim foi a Kapa Leonis a Alpha Capricomi. Todos reclamando que quase nenhum jovem queria participar mais das patrulhas. – Olha Chefe, falou o Monitor da Epsilon Tauri, o Senhor sabe desde que as meninas se sublevaram para ter suas próprias patrulhas (meu Deus! Que bom!) os meninos estão desistindo. Quando elas participavam eles adoravam mais e podiam namorar vontade. O Senhor sabe fora do escotismo a Lei é severa com quem fosse encontrado beijando e nos acampamentos tudo isto era normal, pois nós praticamos o escotismo moderno. Agora estão com aquela conversa que acampamentos holográficos perderam a motivação. Sei que escolhemos bem, tentamos tudo na Galáxia de Andrômeda. E o da Grande Nuvem de Magalhães foi um fracasso. Eles querem acampamentos reais. Nada de holografias. O Monitor da Epsilon Tauri disse que eles adoraram a excursão na viagem feita pela nave Pioneer 2012 até a magnetosfera de Galileu Gallilei. Cansaram é claro, pois os jogos de vídeo game espaciais na nave intergaláctica não eram lá estas coisas.

                    Estava embasbacado. Este era o futuro do escotismo? E olhe que sem esperar o Diretor Técnico entrou na conversa. Avisou que a partir do mês que vem a sede Escoteira estava de mudança. Compraram em Xangai um novo Site feito pelos chineses e montaram no espaço sideral um pequeno planeta que seria só do Grupo Escoteiro. Claro deram o nome de Avatar dos Anéis Azuis de Saturno o nome do grupo. O primeiro Grupo Escoteiro a montar no espaço uma sede Escoteira. Todos agora podem ir lá pelo sistema de Teletransporte do Computador CAN/DEN-88782343. É só ficar sócio. Qualquer cartão de crédito espacial resolve. Eles aceitam. Só não dividem e nem aceitam boletos de escoteiros. Porque não sei. Assim vocês podem quando quiserem ir ao grupo, mas as atividades ainda serão feitas aqui na terra por meio de holografias. Voces escolhem onde. Mas devem programar. Tivemos casos de mais de duzentas patrulhas escolherem o Pico da Neblina no mesmo dia. A empresa Faxtorum quase explodiu. Não deixem de enviar pedidos de autorizações em modelo Super Espaço ao Distrital Capitão Pikard. Ou ao seu Assistente o Chefe Doutor Spock. Se for difícil encontrá-los procurem o Capitão James T. Kirk que assumiu como Comissário Espacial internacional Escoteiro. O cara viaja para todo lado.

                    No próximo sábado continuou o Diretor Técnico, estarei ausente. Vou assistir a uma Reunião da OCBGDEF (os catorze bons gerais do escotismo do futuro) que agora estão liderando o movimento da UBEB (União Brasileira dos Escoteiros Brasileiros). Não tem mais outras organizações. Montaram um exército próprio de androides que usam a nova vestimenta só para “caçar” os tais escoteiros tradicionais. Voces sabem que eles estão na clandestinidade. Vários Robôs escoteiros estão à procura deles. Irão ser deportados para Hidra, uma Lua de Plutão situada no Cinturão de Kuiper. Jogaram lá uma bomba Genesis e a lua virou planeta. Só tem florestas. Os tradicionais adoram árvores e riachos de águas límpidas. Dizem que são bons em pioneirias. Que atraso de vida meu Deus! E deu boas risadas. Estava estarrecido. Sai dali correndo. Pedi ao Doutor Emmett Brown que me levasse em seu DeLorean de volta ao passado. Não me sentia bem. Isto não pode acontecer ou será que vai acontecer? Melhor parar por aqui. Estou pensando em Baden Powell. Onde está pode ver o futuro? Se pode deve estar chamando todos seus oficiais de Mafeking. Uma nova guerra do Transvaal deverá ser iniciada. Ou eles acabam com a UBEB ou a UBEB acaba com eles! Mas eles tinham experiências. Os jovens do passado e agora os do futuro dariam um ótimo apoio como estafetas. Estafetas? No escotismo moderno?

                  Agradeci ao Doutor Brown pela carona. Pensei até em pedir a ele que me levasse ao passado como ele foi com o jovem Marty MacFly ao Velho Oeste. Mas fazer o que lá? 1870 ainda não tinha escotismo. Eu não queria nunca me encontrar a mercê do famigerado bandido Biff Tannen e sua quadrilha. Ainda bem que não eram escoteiros. Melhor ficar por aqui. Que façam bom proveito do escotismo do futuro. Não estarei lá mesmo para criticar. Risos. Que a UBEB seja muito feliz!
                          



quinta-feira, 3 de julho de 2014

O profissional Escoteiro.


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
O profissional Escoteiro.

         Sabe "Velho", ontem sem querer participei da reunião da diretoria do grupo Escoteiro, e eles discutiram sobre a diferença de um Escoteiro profissional e a de um profissional escoteiro. Alguém deu a ideia de quem sabe o grupo ter um. Já falamos muito sobre isto e para dizer a verdade eu mesmo fiquei em dúvida. Nunca vi em nenhum grupo um profissional assim. Já vi pessoas que trabalham na sede Escoteira. Mas sempre como administrativos. Você tem conhecimento sobre isto? – O "Velho" balançou a cabeça concordando. Escutou os acordes finais de Zamfir, me olhou com aqueles olhos azuis e os cabelos brancos caindo sobre a testa e ficou a pensar.

     - Para lhe ser sincero, falou o "Velho", acredito que nosso movimento poderia ter dado um salto bem maior em quantidade e qualidade se tivéssemos nos preocupado mais com os profissionais escoteiros. Veja bem, entendo como profissional Escoteiro alguém com uma função específica em um órgão Escoteiro, para desenvolver programas de expansão, proselitismo, arrecadação de fundos, e ser um contato entre os grupos escoteiros entre si, seja distrito, região, direção nacional ou mesmo um Grupo Escoteiro. Estou, a saber, que há poucos meses nosso órgão máximo contratou um profissional. Ótimo. Quanto tempo ficaram sem ele. Nunca é tarde para começar.

      Veja bem, estamos falando de um profissional Escoteiro e não um Escoteiro profissional. Acredito que este último está fora de cogitação por enquanto. Ele existe na Boy Scout dos Estados Unidos. Trata-se de um técnico Escoteiro e trabalha como profissional conforme é solicitado nos estados e em grupos. Chega a ponto de alguém contratá-lo para organizar uma tropa, fazer um acampamento, preparar chefes escoteiros, substituir chefes em férias ou viagem enfim múltiplas funções. Aqui acredito que eles irão demorar em existir. Agora bem diferente do Profissional Escoteiro. Sua função é outra. Para isto deve ser bem treinado, pois irá lidar na comunidade em busca de apoio financeiro e apoio logístico.

        Eles também são muito úteis com bons programa de expansão do escotismo. Isto falta para que nosso escotismo dê um grande salto, principalmente por reconhecimento das autoridades municipais, estaduais e federais. Impossível para amadores executarem esta tarefa. Vou lhe contar uma história que aconteceu comigo a muitos e muitos anos atrás. Recebemos a visita de um antigo profissional já conhecido do CIE (Conselho Interamericano de Escotismo) hoje mais conhecido como Oficina Scout Interamericana. Não sei se realmente se chama assim, mas isto não importa. Não me lembro agora do nome do profissional que nos visitou. Eu já o conhecia de outras visitas com outras finalidades. Uma pessoa muito simpática e quando vinha ao Brasil parecia pisar em ovos. Mais tarde explico por que.

        Seus lideres conseguiram em vários países através de uma grande campanha financeira e até com boa ajuda da BSA, uma quantia razoável para a expansão do escotismo na América do sul. Foi feito um plano que chamaram de Projeto 2.000. Um plano simples, mas eficaz. Deu certo em vários países menos aqui no Brasil. Vamos a ele – Contrata-se um Profissional Escoteiro que em principio deve conhecer bem o escotismo, paga-se um bom salário (acho que hoje seria por volta de dois mil e quinhentos dólares) No contrato ele receberia integral no primeiro ano, setenta por cento no segundo e no terceiro só trinta por cento. Após o quarto ano a verba seria suspensa. Ele continuaria como profissional, mas teria que fazer seu próprio salário.

         Enfim, O projeto consistia em escolher uma área, que seria denominado distrito e o profissional iria allí desenvolver o escotismo com objetivo de em menos de três anos ter dois mil escoteiros. Nota-se que a área não poderia ter nenhum grupo. O próprio Profissional do CIE iria treinar os profissionais escolhidos no Brasil, pois o projeto iria abranger mais de oito estados brasileiros. Ele o profissional iria aprender como manter contatos e se relacionar com fábricas, igrejas, comércios, empresas diversas, enfim a seara para desenvolver o escotismo na área. Ele seria responsável para arrumar sedes, chefes, diretorias e principalmente os meios necessários para prover todas as necessidades do Grupo Escoteiro no seu início. Depois a diretoria seria a responsável. Pensava-se que cada grupo Escoteiro teria por volta de cem membros. Portanto teria de ser organizado mais de 20 grupos.  De toda arrecadação que conseguisse na comunidade, teria uma porcentagem para suprir seu salário, seu escritório e futuramente auxiliares.

        Um grande plano. Foi-nos passado que deu certo em muitos países. Se desse certo no Brasil teríamos em três anos mais dezesseis mil escoteiros desta vez em grupos bem organizados e estruturados. Mas o plano não iria parar por aí. A própria UEB daria prosseguimento em outros estados e a expansão nos demais estados onde foi implantado. Belo Plano. Belo mas no papel. Aí começaram as dificuldades. Chefes Escoteiros com ciúmes do profissional. Trabalho inteiramente diferente, mas os chefes não viam isso. Muitos desempregados ou mal pagos assistiam com criticas o desenrolar do Projeto. O Distrital da área achava que o outro profissional era pago e ele não. Muitas vezes dizia que era preterido pela região me razão do outro.  Vários amigos escoteiros sem condições insistindo para serem escolhidos. Os ciúmes e dúvidas também chegaram à direção regional. Algumas delas achavam que o profissional do CIE era mais importante e a palavra final nunca eram deles.

         Finalmente soube que dois estados aceitaram. Em um atingiu-se parcialmente o desejado no outro se extinguiu em menos de um ano. A índole do Chefe escoteiro em nosso país se firma muito no servir e muitos não sabem discernir entre o profissional e o Chefe Escoteiro voluntário.  Veja bem, soube que a BSA (sempre ela, mas é nosso referencial) tem centenas de profissionais Escoteiros e também muitos Escoteiros Profissionais. São designados para todos os distritos nos estados e o resultado é surpreendente. Nunca teria os cinco milhões que hoje possuem de membros se não fossem o trabalho dos profissionais escoteiros e olhe, estão lutando para em dez anos chegarem aos trinta milhões de escoteiros! Lá se faz um trabalho sério.

        Difícil no Brasil pensar assim. Somos leigos neste assunto. Vou lhe dar outro exemplo. A muitos e muitos anos atrás um estado no Brasil através do seu presidente contratou um Profissional Escoteiro com experiência em outros países. Como o Presidente era pessoa bem relacionada e um profissional experiente na comunidade e em suas empresas o sucesso não se fez esperar. Combinou-se com ele (o profissional) uma porcentagem em todas as arrecadações e se não me engando era coisa de dez por cento. Ele conseguiu tanto dinheiro que os dez por cento se transformou numa fábula de salário. Daí para os ciúmes, desavenças (ele passou também a colaborar como técnico em cursos) foi um passo. Eu mesmo fui visitá-lo uma vez. Recebeu-me muito bem e me ofereceu um uísque importado. Um absurdo na mente dos voluntários escoteiros. Quando foi eleita nova diretoria mandaram-no embora. Como dizem por aí, o leite secou. A região empobreceu.

         Na década de sessenta e setenta, um Profissional da UEB deu grande contribuição para o desenvolvimento Escoteiro no Brasil. Ficou muitos anos, pois era uma pessoa bem relacionada e amiga. Deu enorme contribuição para a formação de muitos escotistas em vários estados brasileiros onde aplicou cursos e palestras diversas. Com exceção do novo Profissional contratado pela UEB recentemente, há muitos anos não temos ninguém nesta seara. Claro, as leis trabalhistas no Brasil muitas vezes prejudicam em muito a contratação de um profissional. Não sei das regiões, mas acredito que nenhuma possui um profissional Escoteiro como se espera. Nada a comparar com funcionários executivos dos escritórios locais.

         Agora veja bem, já pensou se cada grupo tivesse um? Não precisava ser um alto executivo. Mas deveria ser alguém bem treinado para se sair bem em suas funções. Quais? Acho que deveria ter boa escolaridade e melhor se fosse curso superior. Trabalhar no comercial local da sua comunidade em busca de sócios, colaboradores e doadores ao Grupo Escoteiro. Já pensou? Mas quanto ele receberia? Salário seria impossível. Nenhum grupo teria condições de pagar um profissional assim. Mas e se lhe dessem vinte por cento de tudo que conseguisse? Será que os grupos topariam? Mesmo? Acredita nisto? E se amanhã ou depois ele conseguisse arrecadar mais de trezentos mil por ano? Muito? Menos? E ele ficaria com vinte por cento?

        Claro que haveria gritos, sussurros, reclamações, pois dificilmente a maioria dos escotistas dos grupos escoteiros no Brasil atingem um salário como o executivo iria receber. E depois até onde ele iria? Conseguido os valores programados poderia abrir um escritório seu ou ficaria no próprio grupo? E o Diretor Técnico? Os Presidentes? Passariam a exigir dele como exigem do voluntário? Ouve uma época que a UEB desenvolveu um Curso de Profissional Escoteiro. Não conheci o curriculum do curso. Os resultados foram pífios. Não sei se deram continuidade. Muitos senões, muitos ventos a favor. O "Velho" parou de falar. Para mim seria um tema que achava deveria ser obrigatório em todos os órgãos escoteiros. Nunca seriamos nada em termos de quantidade e qualidade para comparar a tantos outros países sem bons profissionais escoteiros em número razoável atuando em todo Brasil.


          Nenhum plano de expansão teria êxito sem eles. Não sei o que estão fazendo, quais os planos, objetivos, mas seria bom que todos pensassem a respeito. Um profissional hoje é um pingo d’água no oceano. Tomei um café rapidamente e me despedi do "Velho". Um abraço afetuoso e fraternal. "Velho"! Eu disse, eu voltarei! O "Velho" riu, mas vi em seus olhos pequena gotas de lagrimas escondidas. Desci as escadas sem olhar para trás. A lua enorme mostrava toda sua força provando que Deus existe. Um vento frio e gostoso soprava em uma brisa leve e intermitente. Um profissional Escoteiro será que eu poderia ser um? Risos. Acho que não. Os jovens são meus preferidos. Um mês e quinze dias sem ver o "Velho". Meu coração ia aguentar?


domingo, 29 de junho de 2014

Lista de material para acampamento.


Escrevendo e aprendendo
Lista de material para acampamento.

Encontrei na internet esta lista de material para quem vai acampar. Achei muito extensa, mas resolvi publicar. Eu na minha época não levava nem quinze por cento desta lista, mas como hoje os tempos são outros espero que ela seja útil para os nossos acampadores. Lembrem-se usem o bom censo para nada faltar, mas não leve o supérfluo. O peso de sua mochila faz a diferença em uma jornada.

O material que levas para uma atividade depende muito da duração, daquilo que vais fazer, das condições climatéricas, etc. Deixamos-te aqui uma lista extensa, a título de exemplo, para que possas escolher da melhor forma aquilo que precisas levar para o teu acampamento.

Higiene pessoal
§  Toalha
§  Escova e pasta de dentes
§  Sabonete (numa caixa própria, de plástico).
§   
Roupa e calçado
§  Chinelos de praia, para poderes tomar banho (cuidado com o "pé de atleta").
§  Mudas de roupa interior (uma por cada novo dia)
§  Abrigo de treino (Moletons) (substitui o pijama e é mais prático)
§  Calçado confortável para caminhadas
§  Agasalho para a noite
§  Chapéu de abas (caso não tenhas o chapéu use outra cobertura para proteger do sol).
§  Calção ou short de banho.
§   
Alimentação
§  Cantil
§  Copo (não de vidro)
§  Prato fundo (não de vidro)
§  Talheres (faca, garfo e colher).
Vários
§  Saco-cama
§  Colchonete
§  Lanterna (pilhas e lâmpada de reserva)
§  Bússola
§  Canivete ou faca de mato
§  Caderno de caça
§  Caneta e lápis
§  Isqueiro ou caixa de fósforos
§  Papel higiénico
§  Saco plástico para lixo
§  Saco plástico para roupa suja
§  Protetor solar (para o verão)
§  Rolo de sisal ou outro material.
§   
Para emergências
§  Estojo de primeiros socorros
§  Kit de linhas e agulhas para costura
§  Lista de telefones de bombeiros, GNR, etc. e outros telefones úteis da zona para onde vais acampar.
§  Pequeno manual de primeiro socorros.
§   
Em tempo de chuva
§  Casaco impermeável
§  "poncho" impermeável (para cobrir o corpo e a mochila durante as caminhadas)
§  Caixa de plástico pequena ou saco de plástico hermético para guardares documentos ou outro material importante
§  Sacos de plástico para embrulhar roupa e saco-cama quando vão dentro da mochila
                        Calçado de reserva.


Agora é aprender, sei que muitas vezes a experiência nos ensina e você deve praticar. Acampe, excursione, vá lá onde ninguém foi, descubra, suba montanhas e cuidado, se a mochila estiver muito pesada já sabe o que fazer da próxima vez. Descarte sempre o que não usou uma única vez.

domingo, 22 de junho de 2014

De ilusão também se vive.


Conversa ao pé do fogo.
De ilusão também se vive.

           Sempre escrevo e conto histórias onde a aventura, a natureza e os belos sonhos Escoteiros estão presentes em todas as linhas dos meus escritos. Muitos dizem que o hoje não foi o ontem e o amanhã ninguém pode saber. Verdade sim, mas o nosso Movimento Escoteiro não é feito de sonhos? De sonhar em ser um cavaleiro andante? De montar em uma águia e partir em busca da terra do nunca? Quantos ainda ficam dias sonhando para o próximo acampamento? Sonhando em viver na floresta, em subir em árvores, em construir um ninho de águia ou uma ponte pênsil? E cantar? Sim isto mesmo, cantar ao redor de uma fogueira contando “causos” rindo das piadas alegres, deixar os olhos seguir as fagulhas que sem ninguém mandar se dirigem para o céu? – Mas Chefe, isto ainda existe, de maneira diferente, pois hoje os jovens nem pensam como se pensava no passado. Será mesmo? Não seria nossa culpa, pois aceitamos ou quem sabe impomos um programa que achamos bom por não acreditar mais que não existem Escoteiros sonhadores?

        Quem sabe nós os adultos falamos por eles sem consultá-los dos seus sonhos? É fácil levar meninos para o campo, ficar horas falando disto e daquilo, esticar uma corda para que um por um passe sob os olhos atentos do Chefe. Se for assim o tempo passou e o sonho desmoronou. Pergunto-me se um dia na hora certa, no lugar certo, em uma sombra de uma grande árvore quem sabe ouvindo os sons da floresta ou do bosque tão perto, ou o doce cantar de um regato ao lado, sorrir ao contar que poderiam todos viajar pelas estrelas no céu azul? Seria esta hipótese plausível? Não precisa de muitos, pois não se cria sonhos com dezenas em sua volta, mas você e eu podemos sem sombra de dúvida começar com poucos. Quem sabe os monitores? Pense, continue pensando que você está com eles subindo uma montanha deixando que eles recebam o vento no rosto, que vejam ao longe o ribombar de um trovão e eles assustados não pensaram em se defender da chuva? Chuva? Bendita chuva que se cair irá criar na mente de cada um a vontade de se tornarem aventureiros audazes, e então por que não parar e contar uma pequena história? Criar em suas mentes que eles podem se safar com aquela chuva que os aventureiros de outrora souberam se safar?

      Tudo é tão simples quando pensamos que os jovens querem acreditar, querem ver, querem sentir, querem fazer e você meu amigo ou minha amiga é o espelho deles. O espelho que eles seguirão e não faça nada para estragar esta visão tão bonita. Deixe que eles viagem na imaginação. Acredite que a vida é um processo de maturidade e está só existirá se deixá-los subir a montanha e ver o que existe do outro lado. Tudo que você fará para criar a fantástica ilusão do sublime sonho mudará completamente a razão da existência dos jovens que de novo irão sonhar, mas sonhar os pés no chão, fazendo, agindo e vivendo o que puderam criar. Faça exatamente como o Código Samurai – A perfeição é uma montanha impossível de escalar e ela deve ser escalada um pouco a cada dia. Sem perceber estamos discordando sempre destes sonhos em achar que eles são impossíveis de realizar.

             Ninguém vive sem ilusões, sem uma bela imaginação, sem criar uma fantasia ou devaneio. Deixe que eles façam desta miragem a realidade que podem e devem criar. Aquele poeta não disse que a vida é feita de ilusões, mas não é das ilusões que saem os melhores momentos da vida? Não diga não aos sonhos deles e se eles não têm sonhos crie um para eles copiarem e fizer os seus. Todos os jovens querem viver o sonho de ser herói. Tiraram isto dele e nós podemos devolver em forma de escotismo aventureiro. Não aquele de uma fila interminável por uma estrada com você determinando aonde ir. Não tenha medo do que vai acontecer. Haja sim com cautela, mas sem tirar o espírito aventureiro. Lembre-se ali são eles os donos dos sonhos, os donos da aventura, você é um mero coadjuvante que tenta a sua maneira passar para eles o que um dia viveu. Agora o momento são deles e você deve aplaudir isto.

            Ninguém gosta de sonhar e ficar acordando vendo o tempo passar. Ver o vento vir e ir sem ter ao menos possibilidade de tocá-lo. Sem saber o som da floresta, sem saber como é o orvalho da madrugada a cair suavemente no rosto. Sem saber o que os pássaros dizem sem sequer reconhecer o cantar do regato que lhe forneceu a água para sobreviver. Deixe-os ver o vento balançar as árvores, deixe que eles descubram o caminho a seguir, deixe-os descobrirem como podem viver sonhando com os pés no chão. Esqueça a modernidade por alguns minutos e sim pode se preocupar com as adversidades dos novos tempos, mas faça tudo para que eles andem sozinhos. Eles um dia não terão de fazer isto? Belas são as palavras de Kipling que escreveu um dia quem sabe para nós chefes – Quem ao crepúsculo já sentiu o cheiro da fumaça de lenha, quem já ouviu o crepitar do lenho ardendo, quem é rápido em entender os ruídos da noite... Deixai-o seguir com os outros, pois os passos dos jovens se volvem aos campos de desejo provado e do encanto reconhecido!

            Não vamos mais além, mas precisamos retornar aos sonhos que um dia os jovens tiveram, precisamos pensar que o mundo é como um acampamento em que montamos nossa tenda podemos apreciar a natureza, e depois voltamos para a nossa casa que é a eternidade. Termino este comentário de alguém que nunca ouvi falar. Osho. Quem foi não importa, mas uma coisa eu garanto é um criador de ilusões a nos mostrar que o caminho para prosseguir é sonhar e acreditar em seus sonhos:

- Diz-se que, mesmo antes de um rio cair no oceano ele treme de medo. Olha para trás, para toda a jornada, os cumes, as montanhas, o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre. Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. Você pode apenas ir em frente. O rio precisa se arriscar e entrar no oceano. E somente quando ele entra no oceano é que o medo desaparece. Porque apenas então o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano, mas tornar-se oceano. Por um lado é desaparecimento e por outro lado é renascimento.
Assim somos nós. Só podemos ir em frente e arriscar. Coragem! Avance firme e torne-se Oceano!



quinta-feira, 12 de junho de 2014

Mitos, lendas verdades e inverdades do Uniforme Escoteiro.


Conversa ao pé do fogo.
Mitos, lendas verdades e inverdades do Uniforme Escoteiro.

           Convenhamos que eu não seja um estudioso das tradições do uniforme Escoteiro brasileiro. Sei apenas o que vi e vivi com ele e outros amigos. Não vou dar um testemunho como foi em todo Brasil, para mim impossível, mas posso falar mais na minha área de atuação. Este é um artigo que não pretende de maneira nenhuma provocar uma discussão. Sei que nosso uniforme ainda levanta duvidas e hoje muitos que fazem parte da nova geração acreditam que o presente nada tem a ver com o passado. Tenho dito em todos os lugares aonde vou e mesmo em meus parcos escritos que faço do tema, que é difícil analisar uma era sem ter nela pisado com seus pés e sentido o calor do chão de terra. Os novos eruditos que se arvoraram em donos da verdade, muitos deles sequer conheceu o passado a não ser por escritos fazem hoje de suas belas palavras uma verdade que acreditam ser intocável. Não sei. Chega de polemizar. Já me disseram que isto não leva a nada. Fico somente com a análise do uniforme básico. Os do mar e do ar quase não sofreram mutação e até hoje se mantem no tradicional quando foram criados. Parabenizo a eles por este amor que até hoje sentem pelo seu passado.

           Uma vez em uma pequena clareira, um foguinho gostoso um Chefe meu amigo e antigo mineiro já falecido, Doutor Francisco Floriano de Paula comentou com voz calma e ponderada que em Minas no inicio do escotismo o uniforme foi o mesmo usado na Inglaterra. Uma espécie de caqui mais cinza com meiões pretos. Com o passar do tempo surgiu à calça azul com camisa caqui e assim permaneceu por muitos anos. Parece que a partir do final da década de 40, o caqui começou a se expandir por vários estados. Lembrem-se estou falando pelo meu estado Minas Gerais. Não vou contar aqui o que aconteceu quando o governo querendo uma expansão rápida do escotismo nomeou cabos e soldados para organizarem Grupos Escoteiros em todas as cidades. Os uniformes surgiram a bel prazer. Se no sul e no norte não foi assim fica o dito pelo não dito. Quando entrei para o movimento em 1947 os lobos usavam o azulão com o boné conhecido. Os Escoteiros já usavam o caqui curto, chapéu de abas largas e nunca se via adultos trajando calça comprida. Era como se diz uma tradição, pois BP nunca usou o uniforme com calça comprida. Sei que em vários estados ou cidades alguns grupos fizeram adaptações que não eram normativas. Assim apareceu o verde e cores parecidas com o caqui.

             O caqui, portanto era considerado o uniforme oficial dos Escoteiros da modalidade básica no Brasil. Em 1969 muitos já forçavam o uso da calça comprida. Discutiam que em cada estado devia haver uma abertura e varias ideias foram sugeridas. A temperatura de estado para estado, e o estilo de vida da comunidade foram dados como exemplo. Nota-se com orgulho que até no inicio da década de setenta via-se a liderança escoteira portando sempre o caqui curto em qualquer atividade nacional. Eu mesmo conheci Escoteiros Chefes e altos dirigentes não só da nacional como estaduais orgulhosos no seu uniforme caqui. Entretanto havia uma pressão enorme de adultos e seniores achando que precisávamos de um novo uniforme, mais apresentável (?) um que eles pudessem estar bem trajados em atividades sociais, reuniões extra sede e assim em 1975 formalizou-se o uniforme ou traje Azul mescla. O Chefe Darcy Malta Escoteiro Chefe na época, em visita a minha casa explicou como foi sacramentado o novo uniforme apesar de ser contra. Esqueçam esta de farda, uniforme, traje e vestimenta. No fundo tudo é a mesma coisa.

             Para que os adultos levassem a sério o novo uniforme, vamos chamá-lo de traje, a UEB enviou a todos os Grupos Escoteiros do Brasil um ofício via correio explicando como ele seria confeccionado, quais as ocasiões para o uso e juntou-se um desenho e pasmem-se: - um pedaço do pano tanto da camisa como da calça comprida. Havia a preocupação de que todos fossem reconhecidos sem nenhuma alteração no visual. Para maior formalidade foi dado à possibilidade do uso do paletó e gravata. Que eu saiba uma minoria adotou este último e que em minha opinião não tinha nada de escoteiro. No POR se sacramentou as normas e uso. Todos ficaram sabendo que o dirigente de qualquer atividade determinaria qual uniforme deveria ser utilizado. O POR era firme em um dos seus artigos que dizia nas atividades escoteiras os chefes deviam usar o tradicional, ou seja, o caqui. Eu mesmo dirigi vários cursos onde se exigia ou o traje ou o caqui. Em vários avançados da Insígnia da Madeira que fui o diretor pedia sempre os dois uniformes. Cada dia usamos um ou outro. O intuito era não só formalizar, mas mostrar que a uniformização deveria ser ponto de honra para nós Escoteiros. Interessante que sem a tecnologia de hoje, a disciplina era irreversível. Poucos destoavam e obedeciam sem discutir.

          A partir do meio da década de oitenta muitos adultos e seniores passaram a usar o azul mescla, mas com calças jeans desvirtuando o sentido da aprovação do traje no passado. Não esquecer que por volta de 1984/85 foi formalizado o escotismo feminino no Brasil e um novo uniforme foi acrescentado para elas. Dai em diante a cada liderança nova na UEB a abertura era constante. Acrescentou-se itens e banalizou-se completamente o sentido do uniforme SOCIAL. Cada grupo podia escolher com todos os seus participantes o que gostaram de usar. O próprio chapéu foi escamoteado abrindo a possiblidade do uso de bonés e outras coberturas. Lembramos que a própria UEB em sua loja vende um tipo de cobertura feita de brim ou similar e esta se espalhou por vários Grupos Escoteiros como uma chama. É comum ver o Chefe com ele e os jovens sem nenhum. Finalmente no final da década de noventa bastava portar o lenço com uma camiseta e se considerava uniformizado. A própria UEB foi quem criou esta Torre de Babel com o uniforme Escoteiro. Hoje se arvoram em dono da verdade e impuseram um novo uniforme a quem chamam de vestimenta.

          Com a participação em jamborees e atividades internacionais em outros países copiou-se o lenço preso nas pontas dando uma nova conotação da liberdade individual. Na nova vestimenta ficou a critério de cada um escolher como vestir e esqueceram-se da uniformidade o que sem sombra de duvida é o melhor marketing para o movimento Escoteiro. O tempo dirá. Cada um escolhe se quer a camisa solta ou não. Meiões ou não. Calça curta ou comprida. Lenço bem colocado no pescoço ou solto a escolha. Se isto vai dar nova visibilidade ao escotismo brasileiro vamos aguardar. Comparar o ontem com o hoje não é fácil. Era uma época que tínhamos o maior respeito com nosso uniforme. Nenhum novato poderia colocar peças antes da promessa. Todos faziam questão de estarem bem uniformizados e bem apresentados. Era uma questão de honra. Ninguém saia de casa sem ele. Impossível pensar em vestir na sede, pois o orgulho fazia parte de qualquer Escoteiro. Afinal o próprio BP já dizia que o melhor marketing do escotismo é um Escoteiro bem uniformizado.


             Brinco muito com amigos que comentam comigo sobre a uniformização que uma vez lá pelos idos de 1956 em uma jornada de mais de quinhentos quilômetros, de bicicleta pelo norte de Minas e na região do Vale do Jequitinhonha, próximo à cidade de Almenara, portando orgulhosamente o caqui curto com o chapelão, paramos em um boteco para comer alguma coisa e logo juntou ao nosso redor uma grande multidão de moradores. Em principio calados logo começaram a gritar – São os Escoteiros! São os Escoteiros! Olhamos pasmados aquela multidão que sem pedir nos saudou com uma estrondosa salva de palma. Bah! Emocionante isto. Será que teremos isto com a vestimenta?  Velhos e saudosos bons tempos!

domingo, 8 de junho de 2014

Cozinha mateira? Sei não!


Conversa ao pé do fogo.
Cozinha mateira? Sei não!

          Hoje existe uma plêiade de bons mateiros que se divertem no campo a fazerem comida mateira. Nos dias de hoje porque não? É o pão do caçador? A sopa de cebola? O pão do minuto? Ovo no espeto? Ovo na casca de laranja? Ovo no barro? Milho assado na brasa? A maçã recheada? Frango no barro? Carne moída na batata? Arre! São centenas se deixar os mateiros Escoteiros engordam esta lista em minutos ou horas. Dizem os bons técnicos mateiros que a comida mateira escoteira é a técnica de se cozinhar sem a utilização de utensílios domésticos. Dizem também que é a comida típica dos Escoteiros nos acampamentos. Um deles disse que preparar a própria comida é um desafio e sempre uma grande distração para os jovens. Saber improvisar, ter paciência ver como substituir as tradicionais panelas (pelo menos se tem uma vantagem, evitar lavar panelas, arre!).

            Nada como um bom fogo, boas achas para brasa e já pensou colocar ali uma banana verde uma cebola, uma batata e enrolar o pão do caçador para depois de cozido se deliciar? Só não vale um churrasco no campo de patrulha. Não vale? Vale sim, uma noite fria, um bom fogo mateiro, caçar uns patos do mato ou marrecos, quem sabe uma carninha de tatu, uma cobrinha bem limpa e cortar em rodelas pequenas ficadas em espetinhos, ou de um belo Gavião que vou baixo e se danou? Bom demais. Bem sei que hoje isto não pode, mas quantos patos selvagens ainda existem por aí? Está dando sopa nas lagoas o pato-do-mato, pato-crioulo, pato-bravo, cairina, pato-selvagem e o pato-mudo. Haja patos para encher a “pança” dos escoteiros. Risos. Não pode? Bem o respeito à natureza e a liberdade dos animais e pássaros precisam ser respeitados. Mas ouve uma época que nós Escoteiros vivíamos da natureza selvagem. Na mochila não faltava meio quilo de sal, um vidro de gordura de porco, (quase não havia óleo de cozinha) eu gostava de uns dentes de alho e dependendo o lugar a acampar isto bastava. Lista de mantimentos? Meu Deus! Nem pensar.

             Será que teríamos jovens para um acampamento assim? Uma mochila, uma manta, mudas de roupas e material de higiene, uma pequena lona de 1,5x1,5, claro não podia faltar uma boa faca mateira, um canivete Escoteiro, uma machadinha pequena e mais nada. Ops esqueci o sal a gordura e o alho. Sem eles dava para se virar, mas no máximo alguns dias. E você quer ir comigo? Use de sua imaginação e lá vamos nós. Para onde? Para onde o vento nos levar. Quem sabe na lagoa do Epaminondas? Gente boa. Sempre a nos presentear com um franguinho vivo ou morto. Risos. A lagoa era o máximo. Dela tirávamos belas traíras, bagres e quando chovia enormes corvinas. Pegamos uma vez um pequeno Jacaré. Coitado serviu a seis seniores sem saber que eles adoraram. E os patos selvagens dando sopa a pedir: - Nos faça no espeto bem tostado, por favor! Risos. Uma sopa? Era só desencavar a macaxeira, ou melhor, o aipim, mandioca-doce, mandioca mansa e frita então? Bela lagoa. Era como dizia Pero Vaz de Caminha, nesta lagoa se plantando tudo dá. Mas ele estava errado, nela não precisava plantar, pois tudo dava.

           Mas vamos lá, não vamos ficar somente na lagoa, quem sabe ir até o Rio Chorão? Gente ali vamos nos fartar de peixe, Zé Bigode o intendente da Patrulha Leão, aquele que não tinha bigode disse que pegava com as mãos. Verdade ou não na piracema lá na curva da Cachoeira do Cavalo eu mesmo peguei vários. Mochila nas costas, desfraldem a bandeira e lá vamos nós continuar nossa jornada. Cuidado ao atravessar o Riacho do Piraçu, a correnteza é forte, mas se amarre no cipó e fique frio. Melhor arranchar ali. Tem uma clareira na Mata do Guaporé linda de morrer. Cada um faz uma coisa. Um prepara o fogo mateiro, outro veja a lenha, eu vou buscar uns timburés e uns xuxu do mato. Aqui tem dos grandes. E você Akelá entre na selva e veja se encontra uma colmeia e devagar sem alarde retire um ou dois favos. Não tenha medo das abelhas. Afinal elas sabem que você é uma escoteira. Vamos retirar da cera todo mel que precisarmos. Vamos nos empanturrar de doces de mel. Tem vasilhame? Que isto minha cara Chefe, estava na lista?

         Acho que não vai chover turma portando durmam com Deus. Que o céu seja sua barraca. Fiquei a vontade para contar as estrelas, façam seu pedido ao passar de um cometa brilhante no céu. Eu hoje nem papo quero, estou cansado e preciso de descanso, pois amanhã o dia não vai ser mole. Sei onde estão as galinhas d’angolas selvagens. Muitos as chamam de Cocar. Vamos pegar três e vamos nos regalar. Um bom cipó e aqui na floresta eles abundam em todo lugar. Você sabia que temos uma grande variedade deles? Tem espécies medicinais, são bons para diarreia, hepatite, leishmaniose e até câncer. Bem não sou medico, mas além de servirem como uma boa corda, os uso como tempero e conheço um com aroma e sabor de alho e cravo. Putz! Sua meia está furada Chefe? Troque já. Calo nas jornadas não é bom. E vamos dar belos galopes atrás delas e não acreditem nelas, são danadas para gritarem: - Tô fraco! Tô fraco! Risos. Se forem bons chefes vamos pegar umas três rapidamente. Depois abrimos o bucho, deixamos as penas, dentro um pouco de óleo e sal e já devemos ter pronto as assadeiras. Três buracos de uns 40 de fundo por 12 polegadas de diâmetro. Cobrir com barro (as galinhas d’angola) e colocar na brasa fechando o buraco em seguida.


            Agora pé na taboa. Deixe as gostosas galinhas d’angola se aquecendo. Vamos voltar em três horas e elas estarão prontas. Ao tirar o barro saem as penas. E que delicia! Mochila nas costas e lá vamos nós novamente. Na Floresta do Jangadeiro vai ser fácil encontrar a Castanha e o Açaí. E olhe o que não falta lá é o Palmito (uma delícia) e na descida vamos passar pelo Lago Vermelho. Uma vez encontrei lá belos inhames, maracujás bananas da terra e folhas de lobrobô. Não conhecem? Risos. Vais ver o ensopado que vamos fazer sem panelas. Sem panelas? Calma. É o truque que uso. Não conto para ninguém, só para quem acampa comigo risos. Quem vai aguentar cinco dias assim? E dez dias? É não é fácil. O melhor mesmo é voltar a Comida mateira. Tudo é levado da sede. Lá é só preparar. Mas você que esteve comigo nesta bela viagem de sonhos aventureiros não gostou? Lembra-se do Macaquinho que pulou em seu ombro na selva do Soldado? São tantas lembranças que tenho certeza estes cinco dias vão lhe marcar para sempre. Quem sabe um dia vamos voltar?