Místicas
e tradições.
Uma
Corte de Honra.
Não era grande, quem sabe
pequena, mas era linda. Devia ter uns quatro metros por seis. Para uma sala de
Corte de Honra até que era grande demais. Exceto os monitores e os chefes da
Tropa ninguém mais tinha permissão para entrar a não ser se convidado. No
armário com chave ficavam os livros de atas. Todos confidenciais. Está
devidamente anotado que a primeira patrulha de Monitores do Grupo Escoteiro Mar
da Galileia construiu a sala com os braços dos seus primeiros monitores. Nenhum
adulto colocou a mão. Construíram a mesa, as cadeiras, o armário e fizeram
questão de pintar por dentro e por fora com uma linda cor verde garrafa, cor
que se mantem até hoje. Todo ano, nas férias lá estão os monitores dando uma
nova mão de tinta. Havia um sonho de muito para entrarem lá, mas era proibido.
Havia todo um ritual quando
um novo Monitor assumia e até esta mística ninguém sabia como era. Comentavam
que havia uma espada, uma bandeira da Corte de Honra e até um cálice onde se
brindava com vinho a chegada do novo Monitor. Verdade ou não se tornou uma
lenda que ninguém até hoje soube a verdade. Contam também que quando começaram
a se reunir ali o Chefe da Tropa entrava primeiro com uma manta azul escorado
em um Cajado de pedras preciosas. O que bebiam? Ninguém sabia. Verdade ou não
por mais amizade que um Escoteiro tivesse com um dos monitores não conseguia
arrancar uma silaba de como era por dentro, o que faziam lá, quem era o
Presidente e o escriba. Judá foi o primeiro Monitor. Até hoje todos sabiam que
Judá se tornou uma lenda na tropa e quando se pensava nele imaginava-se um
jovem forte, alto, sorridente com uma aureola na cabeça.
Suas reuniões aconteciam sempre
no terceiro sábado de cada mês. A Tropa gostava de ver o cerimonial dos
monitores entrando na sala da Corte de Honra. Era só o que podiam ver. Há um
jardim em volta da sala e até hoje cada Monitor escolhe uma flor planta e fica
responsável até passar para o próximo quando se aproximava sua época da Rota Sênior.
A pequena sede da Corte de Honra de longe era linda. A cor verde garrafa, as
telhas pintadas de marrom e as flores em volta davam a ela um aspecto juvenil,
alegre e parecia que lá dentro se encontraria a felicidade. Ao término do
Cerimonial de bandeira as patrulhas ainda ficavam reunidas por quinze minutos.
O Monitor passava o comando ao sub dentro dos padrões existentes e se despedia
dos patrulheiros com um Sempre Alerta firme e partia rumo à sala da Corte de
Honra.
Não havia disse me disse, o
que se falava lá ficava a não ser quando decidiam as atividades e decisões que
afetavam o programa ou a honra da tropa, entrega de condecorações, distintivos,
cordões de eficiência e ortoga do Distintivo “Lis de Ouro”. Costumes ficam quando
vem de tradições e nisto a Tropa Rio Jordão fazia questão de manter. Trinta e
cinco anos de existência e tudo funcionavam a contento. A Corte de Honra nunca
abusou de sua posição e ninguém seria julgado sem direito de defesa ou mesmo
sem a presença dos pais. Nos fogos de Conselho sempre ao terminar um Monitor se
aproximava da fogueira, levantava seu braço direito, saudava com um grito de
guerra a Tropa Rio Jordão e repetia para todos os presentes às tradições que
nunca foram colocadas em duvida e passadas de gerações em gerações.
- Era uma cerimonia simples. Em pé
cada um em seu lugar previamente marcado aguardavam a ordem do presidente da
Corte, sempre o monitor mais antigo. O Chefe era o primeiro a entrar. Ele
convidava o presidente que convidava os demais. O presidente da Corte de Honra
tomou a palavra – Todos deram as mãos e fizeram um silêncio de um minuto. Era
dedicado a todos os monitores que um dia participaram da Tropa Escoteira Rio
Jordão. Logo em seguida se viravam para o pavilhão Nacional, composto por uma
Bandeira do Brasil regiamente colocada em um bastão com tripé no canto da sala
– A bandeira em saudação! Firme e descansar. O próprio Monitor fez a oração de
abertura – Senhor meu grande Monitor, dá-me a bravura dos Bandeirantes, a
Coragem dos Guerreiros. Dai-me Senhor a humildade dos monges, a lealdade dos
cavaleiros, a honradez dos justos, a força dos animais, a limpidez das águas e
um coração que saiba ouvir, entender, e amar aqueles que me cercam. Assim seja!
A sala da Corte de Honra não diferia de tantas
outras. O Pavilhão Nacional, um pequeno armário de parede, uma foto de Baden
Powell e outra de Jesus, uma banqueta que servia para manter a bilha de água,
copos de papel, uma mesa com seis cadeiras. Na mesa forrada com uma costura de
arremate simples de cipós entrelaçados e devidamente lixados, dois livros,
Escotismo para Rapazes e uma Bíblia. O Presidente convidou o Monitor da
Patrulha Camelo e investido com o Escriba a ler a ata anterior. Feita a leitura
foi assinada sem discussões pelos presentes. Um tema era esperado por todos.
Afinal todos os anos a tropa fazia um grande acampamento e o último durou dez
dias. Este ano não seria diferente. A cada ano mais e mais o acampamento se
transformava. Grandes Jogos, grandes excursões, jornadas épicas foram feitas
com sucesso absoluto na Tropa Rio Jordão.
A reunião da Corte de Honra
nunca ultrapassava hora e meia. O Chefe dava os avisos e o presidente pedia ao
escriba que lesse a ata. Ela só seria assinada na próxima reunião da Corte de
Honra. Nada mais havendo ele agradecia a Deus pela oportunidade, dava a volta à
mesa apertando a mão esquerda de cada um. O intendente servia um café quente
que ele mesmo trazia de sua casa. No armário sempre havia uma pequena lata onde
biscoitos doces e salgados eram armazenados. Todos se serviam e uns olhando
para os outros sempre pensando na próxima reunião da Corte de Honra.
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