Historias e estorias que não foram contadas

Historias e estorias que não foram contadas
uma foto, de um passado distante

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Boas ações dignificam o caráter.


Conversa ao pé do fogo.
Boas ações dignificam o caráter.

                     Somos um movimento de formação de caráter. Desde os primórdios que Baden-Powell nos deixou este legado e seu método mantem-se incólume até hoje. BP fez questão de deixar escrito em seu livro Escotismo para Rapazes, nossa bíblia Escoteira que o desenvolvimento do jovem, se faz por meio de um sistema de valores que prioriza a honra, baseado na Promessa e na Lei escoteira. Através da prática do trabalho em equipe e da vida ao ar livre, fazemos com que o jovem assuma seu próprio crescimento, tornar-se um exemplo de fraternidade, lealdade, altruísmo, responsabilidade, respeito e disciplina. Ele BP foi enfático quando escreveu a promessa Escoteira (aqui no seu original) -  "Pela minha honra, eu prometo que farei o meu melhor para cumprir meu dever para com Deus e o Rei, ajudar os outros em todas as ocasiões e obedecer à Lei Escoteira.". Tudo que ele dizia fazia questão de dizer que sem ajuda ao proximo o escotismo não iria atingir os objetivos que se pretendia. Os conceitos inerentes a Lei Escoteira se firmava pela honra, integridade, lealdade, presteza, amizade, cortesia, respeito e proteção da natureza, responsabilidade, disciplina, coragem, ânimo, bom-senso, respeito pela propriedade e autoconfiança.

                       Boas ações são sempre lembradas por quem já foi ou mesmo por aqueles que nunca foram Escoteiros. Muitos nunca esqueceram o menino ajudando um idoso a atravessar a rua. Está na mente dos escritores, poetas, pensadores e claro nos humoristas com suas piadas infalíveis de boas ações principalmente aquela do menino que forçava a velhinha a atravessar a rua de todo jeito. O escotismo tem uma gama enorme para prender o jovem em suas fileiras. O uniforme, a disciplina, a amizade, a fraternidade mundial, um código de honra, uma promessa e a patrulha ou matilha.  No Sistema de Patrulhas ele tem melhor conhecimento do método através do qual se pratica o escotismo. O sistema de patrulhas visa promover o constante desenvolvimento dos escoteiros trabalhando sempre em pequenos grupos (patrulhas) liderados por um jovem (monitor). Entretanto posso garantir que sem um perfeito conhecimento, assimilação e ação sem boas ações estamos longe de alcançar o objetivo que nos propomos.

                       A boa ação é parte importante na formação do jovem ou da jovem. Dizem que o prêmio da boa ação é tê-la praticado. Quando lembrada, exigida e aplaudida ela se torna um hábito de comportamento por toda a vida. No passado havia a moeda da boa ação. Ela existe até hoje, mas desconhecida por muitos. Uma moeda com duas faces, muitas de um lado Baden-Powell como a cobrar o feito e do outro lado, parabenizando pelo feito praticado. Era usada no bolso esquerdo. Seja com ou sem uniforme. Praticada a boa ação era levada ao bolso direito. Muitos Escoteiros, no entanto não se satisfaziam com uma só e voltavam-na novamente para o bolso esquerdo. A promessa para ele dizia que devia fazer todos os dias uma boa ação e ele queria mais, pelo menos três. Havia no passado também o nó no lenço. Numa pontinha se fazia o nó. Seja com o lenço junto ao uniforme em movimento ou mesmo ele lá em sua casa guardado. Enquanto o nó existia ele o Escoteiro sabia que não estava em dia com sua boa ação.

                     Os chefes sempre motivavam os jovens e acredito que até hoje ainda é feito assim. Em todas as reuniões sempre se tirava alguns minutos para comentar a Lei Escoteira, a Promessa e a boa ação. Conheci tropas que faziam questão de incluir as boas ações durante a inspeção quando da abertura das reuniões. Outros tinham prêmios que não mais era que um troféu eficiência de couro, tipo o totem de patrulha, preso por tiras de madeira no bastão do Monitor e entregue sempre ao fim das reuniões, com solenidades para isto. Confiava-se no jovem ou na jovem quando ele contava sua boa ação diária. Claro o primeiro artigo diz que o Escoteiro tem uma só palavra e se nós os adultos não acreditamos é porque não confiamos. E se não confiamos à lei deixa de existir. Era comum e deve ser ainda nas reuniões dar exemplos, dizer que suas boas ações podem passar da porta de sua casa, mas suas más ações repercutirão até a lua. Faz parte do programa de reunião os comentários, as sugestões e a cobrança de boas ações. Nunca se deve duvidar do que o jovem ou a jovem em tudo que diz e comenta o que fez durante a semana.

                       Não adianta ter um bom programa, com bons jogos, com boas bases técnicas, lindas canções sem que se tenha uma palavra amiga a todas as patrulhas da Lei e da Promessa. Ser enfático no tema é uma arte não um meio de discursar para os Escoteiros. Uma boa história, curta, com princípios voltados para o que se quer ensinar ou mesmo um jogo bem bolado, vale mais que um discurso bem feito e bem postado. Afinal não dizem que a cada boa ação você semeia uma semente, mesmo que não veja a colheita? Muitos afirmam que suas sessões sempre fazem boas ações. Vão juntos a uma praça plantar árvores, limpar a grama ou mesmo fazer um mutirão de alimentos e levar a quem merece. Eu considero isto uma ótima maneira de ensinar o trabalho comunitário. Mas afirmo que a boa ação não deve ser só pensada coletivamente. Tais ações se feitas muito frequente faz com muitos jovens se afastem. A experiência de muitos deve saber que em tais ocasiões nem sempre a presença é boa.

                      Incentive, motive seus jovens com boas ações, faça com que as patrulhas comentem sobre elas, quem sabe escolher as melhores e dar como exemplo para todos? E o mais importante, elogie, o elogio é contagioso. Freud dizia que contra os ataques é possível nos defendermos: contra o elogio não se pode fazer nada. E afinal quem não gosta de um elogio? Ele é amor transmitido em forma de palavras e melhor que uma critica que machuca e deixa marcas para sempre. Chico também dizia que desejar o bem a alguém é como as boas ações, não precisamos divulgar e nem ter méritos por isto, basta que esteja em nosso coração. Isso é ser "o próximo". Não esqueça se ainda não o faz coloque em seus programas tudo que possa dizer e comentar sobre boas ações e claro sobre os artigos da lei. Se um dia isto se tornar um hábito de comportamento melhor. Assim como aquela pequena vela lança os seus raios, uma boa ação brilha num mundo maldoso.


E lembre-se, BOAS AÇÕES DIGNIFICAM O CARÁTER! E claro SEM CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O inesquecível Chefe Gafanhoto. (história baseada em fatos reais)


O inesquecível Chefe Gafanhoto.
(história baseada em fatos reais)

               Gente boa. Educado. Sabia ouvir, sabia cantar, era um grande mateiro, sempre sorrindo e com uma tropa Escoteira maravilhosa. Tinha um sonho. Um sonho maluco – Chefe Osvaldo, se Deus quiser um dia eu vou me alistar na Legião Estrangeira. – Você sabe o que é isto? Perguntei. - Claro, sei que quando se alista são cinco anos sem poder sair. Bem cada um com seus sonhos.  Eu o conheci em um curso Escoteiro. Foram oitos dias na mesma Patrulha. Chefe gafanhoto praticamente liderou a patrulha. Surpresa foi quando me disse que morava em Barra das Vertentes. Menos de cento e cinquenta quilômetros de onde eu morava. Em Luz do Amanhã. Tinha sido promovido a Chefe da Tropa há poucos meses. O curso me deu um novo caminho a seguir.

               Chefe! Que tal acamparmos juntos? Minha tropa e a sua. – Grande ideia Chefe Gafanhoto. Quando? Vamos aproveitar janeiro do próximo ano. Falta menos de seis meses. Ficamos combinados. O local ainda iriamos decidir. Em fins de outubro recebi uma carta dele. – Chefe, o Senhor Molixto, pai de um Escoteiro tem uma fazenda próxima a Três Estrelas. Metade do caminho para mim e você. Acho que uns noventa quilômetros de sua cidade. Você passa Três Estrelas e marca mais cinco quilômetros. Verás uma bifurcação. Ali será o ponto de encontro. Até a fazenda são mais oito. Senhor Molixto me garantiu que lá tem um excelente local, próximo de uma cascata para banho e muitos bambus. Ele irá nos ceder dois carros de bois para transporte do material do entroncamento até o local. Garantiu também que será por conta dele a carne de porco, de boi, gordura, arroz, feijão, batata e verduras e frutas. Ele tem isto na fazenda!

                  Beleza! Mandei outra carta confirmando o horário de encontro. A tropa vibrou quando contei do acampamento. Consegui na prefeitura um caminhão lonado, Chefe João o Chefe do Grupo conseguiu o que precisávamos de alimentos no Armazém do seu Amadeus. Iriamos com quatro patrulhas. Fizemos dois Conselhos de Patrulha e duas Cortes de Honra. Metade do programa nosso e a outra do Chefe Gafanhoto. Seriam seis dias acampados. Partimos em uma manhã chuvosa. O veiculo dançava nos buracos da Rio Bahia, estrada de terra ainda sem asfalto. Noventa quilômetros. Chegamos às nove e meia da manhã. Corre daqui, corre dali, tralha nas costas, chuvinha intermitente e pegamos a bifurcação. Vimos à tropa do chefe Gafanhoto do outro lado do riacho O córrego cheio. Imenso. O pontilhão fora levado pela cheia. Não dava para atravessar. Um barulhão tremendo das corredeiras. 

                  A Patrulha Raposa montou rápido um posto de transmissão de semáforas. Entendemo-nos. Armamos barraca debaixo de chuva e combinamos esperar a enchente diminuir. As patrulhas improvisaram um toldo e um fogão tropeiro. Saiu uma sopa com pão fresco. À noite as patrulhas resolveram conversar por Morse. A turma do Chefe Gafanhoto era boa na sinalização. Dormimos cedo. De manhã sem chuva, mas cinzento o céu. A enchente diminuiu. Rogério Monitor me procurou. Chefe, as barracas estão cheias de escorpiões. Ensinei o que deveria ser feito para empacotar o material de campo e individual. Graças a Deus ninguém foi mordido. Resolvemos atravessar sem a ponte, pois se não iriamos perder alguns dias o que não estava no plano. Cada Patrulha fez uma pequena jangada. Uma festa. A outra tropa gritando e ajudando. Às onze da manhã estávamos do outro lado.

                   Abraços, saudações, apertos de mão, uma festa. Partimos. Os carros de boi lotados. Rangendo. Cantando como sempre. Adorava isso. Chefe Gafanhoto brincando com todos, animando, cantando com seu jeito especial. Oito quilômetros tirados de letra. Uma hora da tarde chegamos. Seu Molixto gente boa. Lambuzamos de goiabas e bananas. Ele tinha uma carne de porco frita. Mas iriamos fazer o almoço. Fomos para o campo. Lindo local. A cascata era linda. Tem nome? Perguntei. Não. Eu te batizo como Cascata da Fraternidade. E assim foi dito, e assim foi feito e assim lavrado em ata. Seis dias maravilhosos. Parecia que os sessenta jovens ali presentes se conheciam a longo tempo. Mais que irmãos. Seu Molixto um cavalheiro. Dois meninos filhos de um meeiro (mora nas terras da fazenda, planta e dá uma parte para o dono) se encantaram. Chefe Gafanhoto os colocou cada um em uma Patrulha.

                      Tiana filho do Seu Molixto uma bela morena dos seus dezessete anos não tirava os olhos de mim. Infelizmente estava noivo e comprometido. Fiquei triste quando partimos e ela chorou. Lagrimas e lagrimas em seus olhos. No acampamento teve de tudo. Bois que invadiram o campo à noite acordando todo mundo. Ricardinho pegou uma traíra de quatro quilos. Só vendo para acreditar. A luta do bastão no remanso da Cascata da Fraternidade valeu por um acampamento. A jornada na Caverna do Vento outro. Começava em um lado da montanha e saia do outro lado. Mais de dois quilômetros na escuridão. E os pistoleiros? Sempre escorados no tronco da macaxeira com um cigarro de palha a nos espiar. Seu Molixto dizia que eram de paz. Norbertinho em um jogo noturno caiu de uma árvore. Quebrou a perna. Foi levado em uma charrete a cidade e voltou para o acampamento enfaixado. Ele mesmo fez uma espécie de muleta para usar. Nunca chorou. Aproveitou tudo do acampamento.

                      A falsa baiana em cima do remanso a mais de quinze metros de altura deu o que falar. A ponte pênsil que a Patrulha do Morcego fez durou dois dias com um belo tombo do Japirim. O Ninho de Águia da Patrulha Coruja dizem está lá até hoje.  Risos. A “desandeira” que deu em todos por comerem muita goiaba deu para rir a beça. Sempre um correndo para o WC que logo encheu! Final de campo. Meninos da fazenda chorando. Seu Molixto emocionado fez o juramento escoteiro e recebeu os dois lenços um de cada grupo. Os dois pistoleiros vieram nos cumprimentar. Vi eu seus olhos a chama da esperança que nunca tiveram. Tiana me procurou dizendo que me amava e nunca mais ia me esquecer. Nunca mais a vi.  Retorno triste, Chefe Gafanhoto tentando animar. Partida chorosa, nosso caminhão lotado. Dando adeus. Edinho com sua bandeirola de semáfora dizendo e repetindo um até logo até o caminhão virar a curva da estrada. Meninos se acenando dizendo adeus. Promessas de um novo reencontro. Amizades que se formaram e duraram por uma eternidade. Janeiro de mil novecentos e cinquenta e nove que entrou para a história.


                      Cinco anos depois recebi uma carta do Chefe Gafanhoto – Chefe Osvaldo, estou partindo para a França. Vou me alistar na Legião Estrangeira. Nunca mais o vi. Acho que seu sonho de ser um legionário foi realizado. Ainda deve estar lutando e escoteirando nas montanhas ao norte da Argélia. Sonhos são sonhos. Cada um faz o seu. Belo acampamento. Grande amigo o Chefe Gafanhoto. Nunca mais o vi e nunca mais o esqueci. Ficou marcado para sempre em meu coração.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O bom e gostoso acampamento Escoteiro.


Crônicas de um Velho Escoteiro.
O bom e gostoso acampamento Escoteiro.

                 Nunca será substituído. Sempre lembrado e sempre marcado na vida de quem já participou. Ficar semanas de espera do dia, ver o corre, corre das patrulhas a preparar seus materiais, revisar barracas, contar os espeques, o varão, dobrar com aquele carinho que aprendeu. E o Saco de Patrulha? – Intendente, tudo nos trinques? Tem facão? Machadinha? Lima morsa? Tem martelinho? Serrotinho? E as panelas brilhando como sempre? Não esqueça o coador de café, chega de coar nas meias! Risos. E assim tudo vai sendo preparado, olhado e sonhado. Não nos esquecemos da ultima reunião de patrulha – O Monitor lembrou a cada um sua função no campo. – Espero de vocês muita alegria, muita vontade e que se divirtam e não esquecer que somos uma equipe. Alguns são Patas tenras mas a maioria já sabe como é. Aproveitemos pois esta oportunidade de viver a natureza, de sentir o vento, poder ver as estrelas e mostrar nossas qualidades de patrulheiros da Leão!

                  E chega o dia, horário de saída as oito, ônibus cheio, material já foi empacotado e colocado no bagaceiro, uns olham para os outros, cada um com um sorriso diferente. Os mateiros se ajeitam, os novatos tentam entender aquela algazarra gostosa e organizada. As canções começam, um dos chefes está lá na frente olhando. Ele sabe do valor de um acampamento Escoteiro. Os monitores tiram uma pequena soneca. Sabem o que virá quando chegar lá. Conhecem o local pois foram lá com o Chefe. Boa aguada, bambus à vontade, uma pequena floresta a sudeste, algum gado solto no campo, uma bela lagoa que todos tomarão cuidado na hora do banho. Eles têm conhecimento de parte do programa, do cardápio, dos horários. A Corte de Honra discutiu tudo. O Monitor da Leão sabe o que é um acampamento. Ele fez muitos. Nunca esqueceu o seu primeiro. Dias na cama, mãos sobre a nuca, a pensar no que iria acontecer.

                   A saída para um acampamento sempre é um espetáculo a parte. Mães, pais, avós, tias e vizinhos todos ali a olharem seu pequerrucho, saber que vai ser o seu primeiro dia fora de casa, uma preocupação do que vai acontecer. Ele sozinho e amigos no mato. No mato? E as cobras? E se ele cair em um buraco? E se ele se afogar? E se cortar com o facão. Mil coisas passam na mente destes super protetores. Esqueceram que um dia eles irão partir, criar uma família sentir também na pele o que aconteceu com ele, mas não vale a pena? Ele não tem que um dia ser dono de sí? Eles não tem que aprender a lutar pela vida, seu lugar ao sol, tomar decisões? Ainda bem que muitos dos pais sabem que esta é a hora. A hora que eles terão que decidir o que vão fazer e para onde ir. Tomadas de decisões, olhar seu próprio material, aprender a lavar, a cozinhar, a saber que ali eles não estão sós. São uma patrulha, quem sabe seis, sete oito jovens como ele a viver a vida de herói da selva. Um herói diferente, um herói que viveu na floresta, que sentiu na pele o vento da chuva, que sabe que não vai fraquejar.

                   E eis que chegam à sua nova morada. Pastos enormes, capins, arvores, sons de bichos, de pássaros, quem sabe o som do regato que corre para o mar. Hora de trabalho. Monitores escolhem seu campo. Levar o material, o sol a pino, alguns fraquejam mas são soberbamente lembrados de suas responsabilidades pelos monitores. Ele o Monitor sabe que o inicio não é fácil. Armar barracas, preparar o fogão suspenso feito de barro, Não esquecer os toldos por causa da chuva se vier. As pioneirias irão surgir, o mais novato sorri sem jeito, quer um facão para cortar uma árvore! Os novatos são assim, nem aprenderam ainda a usar o facão, mas haverá tempo para isto. Três apitos, sinal de reunir todos. A bandeira já está preparada. Os touros foram escolhidos para serem naquele dia a patrulha de serviço. Eles sabem o que fazer. São meninos profissionais Escoteiros. A bandeira farfalhando vai ao ar, o vento bate, ela reflete o orgulho dos que estão ali pelo seu país.

                     Um jogo, um tempo livre para um lanche pois neste dia haverá só um lanche à tarde, o jantar e uma bebida quente na hora de recolher. Poxa! Tem um comendo biscoitos? Não pode. Ali é um por todos e todos por um. O que um come é direito dos demais comer também. O Monitor sorrindo explica, ele entende, não fará mais isto. Vem à tarde, o cansaço do primeiro dia começa a aparecer. Eles sabem que os chefes estão lá no seu campo. Não virão aqui, só se convidados. Cada um tem sua casa e seu direito de receber quem quiser. Vem à noite, fumaça no fogão, olhinhos fixo na frigideira que frita linguiças. Uma fome enorme! Ninguém mexe, só quando o cozinheiro chamar todos, agradecerem a Deus pela refeição e se regalarem com aquela refeição dos deuses. A noite chega firme. As estrelas no céu brilham. Um jogo noturno, um medo enorme dos novatos, mas no final sorriso em profusões. Hora de dormir, um toque longo do Chifre do Kudu avisando que o amanhã vem aí. Boa noite!   

                   O primeiro dia se foi, o segundo também o terceiro é o penúltimo. Todos cansados mas alegres. Cada patrulha fez o máximo para transformar seu campo na extensão de sua casa. Tem mesa, cadeiras, bancos, um cercado para lenha lonado, uma casa de bambu pequena para abrigar o material de sapa. Construíram um belo WC contra o vento bem lá atrás do acampamento! Fossas de líquido, de detritos fossas de todo jeito. Hoje tem Fogo de Conselho. A espera é longa, as patrulhas se preparam, cada uma vai se apresentar no palco do mundo. As estrelas irão assistir, um cometa irá passar saudando a todos. Mais um fogo para lhes dar o calor e lembranças que ficarão gravadas na mente por toda a vida. Um final maravilhoso! Mãos entrelaçadas, olhos húmidos a cantar que não é mais que um até logo, não é mais que um breve adeus. Uma palma Escoteira, hora de dormir, monitores fazem sua última corte de hora e rememoram o que ali aconteceu. Todos sorriem, hora de dormir também.

                   A chegada, no caminho quase todos dormindo, o corpo cansado mas a mente preparada para o próximo. Aprenderam a viver na selva, aprenderam a fazer fazendo, agora sabem que não são mais pata tenra, são Escoteiros e escoteiras de primeira classe. A chegada, mães, pais, tios, primas, avós todo mundo ali a esperar preocupados. Mal sabem eles que tem filhos e filhas agora preparados para enfrentar a vida. O escotismo nestes quatro  dias de campo lhes deu anos de aprendizado na cidade. Este acampamento vai deixar saudades, vai deixar marcas profundas, lembranças de um tempo que ficará na história no livro da vida de cada um. Ah escotismo! Que poder você tem? O que faz para construir tantos sorrisos, valentes jovens a aprender o bem e o mal? Prometo pela minha honra! E ele chega a casa, conta tudo, pais, mães, tias, avós primas, vizinhos em volta a ouvir. – Eu não tive medo! Eu enfrentei a escuridão, eu enfrentei a chuva, aprendi a amar meus irmãos e...

Acampar! A maior aventura que um Escoteiro ou uma Escoteira pode viver!       

sábado, 10 de janeiro de 2015

Você vai ao Jamboree?


Crônicas de um Velho Escoteiro
Você vai ao Jamboree?

                  Há alegria no ar. Comentários do norte ao sul. Estou embarcando! Natal me espere! Sorrisos mil. Alguns já estão lá se refrescando nas maravilhosas praias do Rio Grande do Norte – Fotos de jovens e adultos, ops, a maioria adultos sorrindo em ônibus, aviões, automóveis e até motos. Soube de uns que estão indo a pé. Desta turma eu gosto. Escotismo é assim, ou vai ou racha. Alguns me escreveram comentando o trabalho que deu para conseguir os meios financeiros para a viagens. Quermesses, rifas, fila de espera para falar com autoridades sem contar as eternas ”vaquinhas” entre chefes. Como se diz por aí, Escoteiro se vira, ele não é quadrado nem redondo. Para ele a palavra impossível não existe. Outros um dia me disseram que quem quer anda e não manda. Cada um tendo na ponta da língua sua explicação para tudo. Um deles me garantiu que vai com toda a tropa e olhe Chefe disse ele – A maioria classe média sem dinheiro sobrando. Eu acredito. Afinal são chefes Escoteiros do mais alto gabarito.

              - Chefe! Qualquer um pode ir! Dizem-me por aí. Verdade. Qualquer um, mas precisamos ensinar os demais que não vão. Afinal somos quase 85.000 membros da UEB. Ela não admite a presença das outras associações – Ela é daquelas que dizem façam o que eu mando e não o que faço – Sexto artigo da lei? Dizem que o mundo é assim, quem pode, pode que não pode se sacode. Verdade? Eu já escrevi muitas histórias de meninos e meninas que sonhavam em participar de um e nunca puderam ir a um Jamboree. – Chefe! Disse-me um deles. A UEB não poderia facilitar mais? Ajudar aqueles que se esforçaram para ser um Lis de Ouro, uma Escoteira da Pátria? – Não sei digo a eles. Cada um com seus “pobremas”! Sempre me bati em defesa de quem não tem. Afinal não aceito que fazer escotismo é só para ricos. Quando escrevo artigos assim dezenas de chefes se sentem magoados. Acham que me dirijo a eles. Never! Eu sempre pensei assim, fui de outra época, fui ao Rio em um Ajuri de bicicleta. Quase 800 quilômetros de distancia e cheguei lá duro sem “Money”.

                  Eu sei que não existe almoço grátis. Tem um Chefe que sempre fica me dizendo isto. Ele tem razão. Grátis só mesmo rezar na igreja e pedir a Deus uma passagem e o dinheiro da taxa.  Mas cuidado quando pedirem a você o dízimo do dia. Como não entendo da estrutura, dos gastos, do corre, corre para se montar um “bicho” destes, melhor é me calar. Eu precisava saber quanto deu de lucro, isto se deu e claro. Mas e o marketing? Dos refrigerantes, dos picolés, das lembranças, das fotos de empresas A e B. Se a UEB pode gastar com processos aqui e ali contra os que de lança em punho se erguem em seus cavalos brancos contra ela, este rico dinheirinho não podia ser canalizado para isto? Quando terminou o Jamboree do Rio de Janeiro me martelei a procura da prestação de contas. Nunca vi. Uns dizem que deu um rio de dinheiro e outros que deu prejuízos. Prejuízos? Interessante, depois deste jamboree cada estado queria tirar sua casquinha. Cada um fez o que pode para seu Jamborizinho. Contaram-me e não posso provar que o caixa aumentou e muito em todos eles.  

                  O duro mesmo é ver alguns grupos aonde uns poucos da tropa vão e os demais não. Explicações? Sei não, podem me dar milhares, mas para mim é difícil entender. Sou meio “burro” para isto. Hoje temos muitos colaboradores voluntários que tem condições para ir a qualquer ponto do Brasil. Tem até aqueles que vão para o Jamboree Mundial. Um sonho para o escoteirinho de Brejo Seco? “Pobrema” dele irmão, dirão. Mas caramba, ele não acreditou um dia que somos todos irmãos? Ai aparece aquele sabido a dizer – Irmãos sim, mas quem mandou ele ser pobre? Não vou dizer que estão derramando lágrimas porque não estarão em Natal. Natal? Onde Jesus nasceu? Nada disto meu amigo, é aonde vai se realizar o Jamboree. Lá dos 5.000 teremos quase 2.300 só de adultos. Muitos vão para ser “Staff” pagam uma pequena parcela para ajudar. Espírito Escoteiro é assim. Afinal os chefes sempre pagam nos grupos. Mensalidades, taxas de curso, taxas mensais e tem aqueles que esquecem suas famílias e estão sempre a ajudar um escoteirinho ou uma escoteirinha mais pobre.

                 O sonho de todo Escoteiro e Escoteira é estar em um Jamboree. Sonhos de uma noite de verão? Mas convenhamos, já pensou Dona Dilma dizendo: - Que a Força aérea leve todo mundo para natal. – Ela complementa: Doutor Joaquim Levy, separe uma verba para todos os jovens Escoteiros do Brasil ir participar. Será que o Congresso Nacional não iria pedir para ir também? Uma boquinha desta ninguém despreza, ainda mais alguns deles que não perdem uma na Petrobrás. “Moço o petróleo é nosso”! Kkkkk. Melhor rir. Mas cá prá nós, temos estrutura e know-how para fazer um Jamboree com 55.000 mil Escoteiros? E se por um acaso sem acaso os “home” da UEB resolvessem convidar as demais associações Escoteiras do Brasil? Afinal nem as bandeirantes são convidadas, ou são? Mas isto são estrelas brilhantes. Só dá para ver e não pisar em estrelas espalhadas pelo céu nesta fantástica via láctea.

                  Putz grila! Que tema danado de espinhoso. Alegria para uns tristezas para outros. O duro é ver um ou outro aparecendo aqui e ali e dizendo: Amanhã eu vou! Amanhã? Não Chefe, no próximo! – Boa viagem. Isto me faz lembrar um pássaro que quando eu era pequeno a gente acampado na mata o ouvia cantar – “Amanhã eu vou”. E não parava de dizer “Amanhã eu vou”. Tentei me lembrar do nome mas me disseram ser o Curiango quem canta assim. Zé Ramalho escreveu uma musiquinha com o título - Amanhã eu vou.  Para ele o pássaro era uma Carimbamba. Como não sou um expert nisto, melhor é dizer que meu Jamboree é meu sonho de ver dezenas de milhares, bandeiras ao vento, de Chapelão ou bolsões na camisa solta, chegando para o acampamento dos Escoteiros do Brasil é um eterno Amanhã eu Vou! Puxa! Seria batuta de lá estivesse a AEBP, a FET, as Bandeirantes, Os tradicionais, os Florestais e porque não os Desbravadores? – Chefe! Calma! O senhor está querendo muito! Fique na sua. Lembre-se sonhar é bom mas por favor, mantenha os pés no chão! E não encha a paciência, ora pois, pois!
             

 Amanhã eu Vou - Zé Ramalho

Era uma certa vez um lago mal assombrado, a noite sempre se ouvia a carimbamba cantando assim: Amanhã eu vou, amanhã eu vou, amanhã eu vou, amanhã eu vou.
A carimbamba, ave da noite cantava triste lá na lagoa amanhã eu vou, amanhã eu vou


E Rosabela, linda donzela ouviu seu canto e foi pra lagoa a taboa laçou a donzela, caboclo d'água ela levou, A carimbamba vive cantando Mas Rosabela nunca mais voltou. Amanhã eu vou amanhã eu vou Amanhã eu vou, amanhã eu vou

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Era uma vez... Uma onça pintada guia de um Escoteiro cego.


Lendas escoteiras.
Era uma vez... Uma onça pintada guia de um Escoteiro cego.

            Quando eu batia palmas no portão de sua casa para entregar alguma correspondência eu ouvia o barulho da bengala de Joel Fantin. Não sei, mas acho que tínhamos a mesma idade. Eu sabia que ele agora trabalhava nos correios e quando conseguiu o emprego se transformou em outro homem. Eu também trabalhava lá como carteiro. Conhecia um mundão de gente, mas Joel Fantin era único. Era cego, ou seja, um deficiente visual. Perdera a visão há oito anos atrás. O que me contaram eu entendi que foi uma fatalidade. Joel era Escoteiro. Entrou como lobo com oito anos. Quando passou para a tropa resolveu subir em uma árvore. Natural todo menino sobe em árvore, mas com Joel foi diferente. O galho seco não lhe deu sustentação e ele caiu de costas batendo a cabeça em um tronco. Levado ao hospital os médicos viram que ele perdera a visão. Cidade pequena sem recursos, Joel vivia com seu pai um carroceiro que fazia entrega de areia retirada do Rio Pombo.

              A mãe de Joel morrera quando ele nasceu. Um parto mal feito. O pai de Joel não sabia o que fazer. Um filho de onze anos cego? Como cuidar dele? Interessante que em tempo algum Joel perdeu a esperança. Mesmo sem enxergar tinha um sorriso nos lábios. Sua Patrulha a Onça Parda lhe deu todo apoio. Em conselho de patrulha ficou determinado que pela manhã, à tarde e a noite sempre um da patrulha iria a sua casa ajudar nas tarefas e conversar com Joel. As outras patrulhas também fizeram o mesmo. Era comum chegar a sua casa e encontrar quatro ou oito Escoteiros a brincarem e conversarem. O Senhor Juventino seu pai quando chegava e encontrava tudo arrumado, jantar pronto, e vários Escoteiros ele se emocionava. Nunca pensou que eles por muito tempo dessem o apoio que sempre deram. Aos sábados alguém o levava a reunião. Quando ele quis ir aos acampamentos a chefia ficou em polvorosa. Ninguém sabia como agir ou fazer. Joel foi, esticaram um sisal por onde ele precisaria andar no campo de patrulha. Da cozinha a barraca, da barraca a mesa de refeições e até o WC atrás do campo de patrulha. No segundo dia dispensou o sisal.

               O tempo foi passando e Joel quando fez dezessete anos seu pai faleceu vitima de uma dengue hemorrágica. Só souberam que era dengue depois de morto. Desta vez Joel chorou. Agora não sabia o que fazer. Cego e sozinho mesmo com ajudas dos seus irmãos Escoteiros seria uma “barra” para enfrentar. Uma semana duas e mesmo com a presença dos Escoteiros em sua casa ele nada dizia. Seus olhos que não viam nada ainda tinham lágrimas que caiam sem cessar. Joel pensou em tirar sua vida e quem sabe ir morar com sua mãe e seu pai no céu. Tirou logo da cabeça este pensamento. Se até hoje ele enfrentou a vida e nunca desistiu porque desistir agora? Joel sorria quando os Escoteiros chegavam. Mas ele sabia que cada um deles tinha sua família e não iriam ficar com ele para sempre. Ninguém nunca me contou os detalhes, mas fiquei sabendo que Joel Fantin foi a um acampamento na Serra do Falcão. Para ele não havia dia ou noite, pois vivia em completa escuridão.

            Nos acampamentos não demorava muito para Joel Fantin decorar cada passo e onde podia ir. Era no campo que ele se completava. Gostava de sentir o orvalho na pele, do vento soprando sobre ele, do som que ouvia da passarada e do canto da cotovia. Ele tinha ideia de como eram as estrelas no céu, de como era uma lua cheia, mas estas visões aos poucos estavam sendo esquecidas. Em contra partida seus sentidos de audição e olfato se transformaram. Qualquer som ele sabia o que era o cheiro da terra, o cheiro do lago, das árvores e da sopa de Marcelinho um cozinheiro que fazia estalar a língua nas refeições. Tudo aconteceu na ultima noite após o Fogo de Conselho em que ele participou de um esquete com a patrulha. Não se sabe como eles se esconderam atrás de uma árvore para serem chamados pelo Monitor e cada um iria apresentar uma piada para quando todos tivessem terminados rolassem no chão de tanto rir. As piadas eram sem graça, mas quando rolavam no chão a tropa também rolava de rir com eles.

            Quando Joel Fantin foi chamado ele não veio. Não é possivel pensou o Monitor, ele estava sentado atrás do castanheiro e tão perto da ferradura que não tinha como se perder. Nesta hora todos abandonaram o fogo e partiram a procurar seu patrulheiro naquela noite escura e sem luar. Duas horas depois ouviram um apito e todos acorreram para lá. Um susto tremendo, nunca viram tal coisa – Joel Fantin estava sentado acariciando uma enorme onça pintada. Grande, mais de 160 quilos, robusta e eles sabiam que a potencia de sua mordida era considerada como a maior entre os felinos de todo o mundo. A onça balançava a cauda como se estivesse gostando das carícias de Joel Fantin. Ninguém disse nada, assustar a onça podia haver uma alteração de amizade com a crueldade com que ela estava a agir no momento. Joel Fantin ouviu os sons de seus amigos e os chamou – Podem aproximar, ela me disse que não fará mal a ninguém.

        A maioria não foi, mas sua patrulha a Onça Parda sabia que devia considerar o nome que escolheram e foram até lá. Dizem que os sorrisos as alegrias e o ronronar da onça foi de perder o folego. O Chefe estava lá e não acreditava baixinho chamou todos para retornar ao acampamento. A onça pintada foi atrás. Uma amizade incrível aconteceu entre ela e Joel Fantin. E quando me contaram o desfecho da história eu não acreditei. Sei que o Escoteiro tem uma só palavra, mas aquela história era inverossímil demais para mim. Eles levaram no ônibus a onça pintada, ela foi morar com Joel Fantin e agora era sua guia por toda a cidade. O próprio Chefe que era carteiro e me contou disse que Joel Fantin morrera com mais de 90 anos e a onça viveu com ele até o seu ultimo dia na terra. Eu sabia que uma onça tem no máximo 25 a 35 anos de vida e isto reforçava minha incredulidade na história. Foi então que o Chefe ligou sua TV e colocou em um aparelho um DVD onde mostrava tudo que um dia aconteceu entre Joel Fantin e sua amiga a Onça Pintada.


        Histórias são histórias, alguns acreditam outros não. Eu conheço centenas de historias algumas vi com meus próprios olhos que a terra há de comer, outras foram causos contados nos acampamentos e nas clareiras de uma floresta qualquer. Para dizer a verdade não queria contar esta, pois todos vão duvidar e eu não posso provar. Portanto só posso dizer antes de terminar que “boi não é vaca, feijão não é arroz e quem quiser acreditar que conte dois”!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Quando termina a motivação o que fazer?


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Quando termina a motivação o que fazer?

                                  Chegando o final de ano. Mais uma leva de chefes entrando para a Legião dos Esquecidos. Quem são eles? São os que desistiram. Tiveram seus motivos. Sabemos que a UEB as Regiões e Distritos não se preocupam com eles. Os grupos perdem e correm a procurar substitutos. Quantos já se foram? Mil? Cinquenta mil? Cem mil? Pense e depois me diga. Nunca na vida real iremos saber, pois não existe um senso sobre isto. Não precisamos estar presentes em cada Grupo Escoteiro para saber. E olhe estamos falando de adultos, pois de jovens nem adianta falar. Assim como todos que um dia foram Escoteiros e saíram ninguém se lembra. Eu os chamo da Legião dos Esquecidos. Fiz até um artigo sobre o tema. Hoje me veio à mente um dos motivos que fazem com que partamos das fileiras Escoteiras para nunca mais voltar. Cada um de nós sabemos o que acontece quando estamos na ativa. Sabemos também que os jovens nos motivam e nos fazem sorrir, mas os adultos? Ufa! É difícil viver em grupo onde cada um tem seu próprio idioma em uma enorme torre de babel.    

                                      A motivação nem sempre é constante, É difícil aconselhar quem não há tem mais. Quem não passou por isto? Tem hora que você desanima. Dá vontade de largar tudo e sair por ai. Outros ainda insistem, mas sabem que o caminho que estão seguindo não leva ao sucesso. Se procurarmos um serviço de autoajuda teremos vários. As belas frases de efeito pululam por todos os lados. Todas com belas palavras, mas que não nos fazem sentir revigorados como antes. O escotismo é interessante. No início tudo são flores, sorrisos, promessas, alguns até deixam as amizades que tinham em troca de novas que conquistaram. Nos primeiros meses, e até nos primeiros anos aqueles mais chegados que não foram catequisados espantam com tanto carisma, com tanta alegria e demonstração de que ele alcançou um novo patamar, uma nova vida. Agora sou feliz ele pensa. Será mesmo?

                  Dizem os poetas que o que mais sofremos no mundo não é a dificuldade, é o desânimo em superá-la. Não é a provação, é o desespero diante do sofrimento. Não seria o fracasso e sim a teimosia de não reconhecer os próprios erros.  Mas o maior poeta já tinha dito que tudo isto são palavras e palavras nada mais são que palavras. Eu já passei por isto. Inúmeras vezes. Os problemas são diversos. Familiar, profissional, falta de ética, de amor, tratamento diferenciado, de sinceridade dos que se dizem irmãos de uniforme e de sangue e tantos sorrindo para você e você querendo chorar. Sabe da vontade de encontrar um buraco e se enfiar nele. Claro tem os mais fortes. Eles não transmitem para ninguém seus desânimos. São fortes. Tem sempre uma explicação para tudo. Mas será que dizem a verdade?

                 Se notarmos bem a matemática Escoteira ela é simples. Trinta e poucas reuniões por ano. Somando as reuniões de sede, acampamentos e excursões que sabe podemos chegar a aproximadamente quinhentas horas anuais. Claro, prevendo quatro atividades (e aí considerei às de vinte horas do dia) e considerando também nove meses de atividade, pois muitos têm férias em julho, dezembro e janeiro. Se estiver certo dedicamos cerca de vinte dias por ano ao escotismo. Claro que tem aqueles mais abnegados com o dobro de horas trabalhadas. Para uns uma eternidade para outros muito pouco. Mas porque então o desanimo? Olhem, existem vários motivos, mas para mim o principal deles é a decepção com o ser humano. Querer abancar o mundo e dizer que o líder é aquele que sabe liderar e ser liderado é fácil. Mas nem todos pensam assim. Tem os déspotas, que com o tempo a gente se sente ameaçado por uma força opressora mesmo vindo de alguém que se diz amigo de todos e irmãos dos demais.

                Nestas horas é que todos nós sentimos falta de um aperto de mão carinhoso sincero. Que falta que faz um abraço, um sorriso uma palavra de carinho principalmente daqueles que convivemos em ambiente que achamos familiar no grupo Escoteiro. Tem aqueles que nos olham como se fossemos parte do todo, indispensáveis em todos os sentidos, mas não é assim a maioria. Estes nos veem como indesejáveis, subservientes, dispensáveis, e se pudesse diriam: - Vocês estão aqui para servir e mais nada! Lembrem-se da promessa! Para ser como eu tem que “ralar”. E então vem aquele desanimo aquela vontade de sumir de mandar todo mundo às favas. Nem sempre fazemos na hora. A promessa que fizemos é um nó que nos atou nos sonhos escoteiros. Insistimos e alguns dão a volta por cima, mas outros, estes não conseguem. Quem sabe está aí um dos motivos da grande perda que temos de adultos que estão nos ajudando como voluntários, mas foram considerados eternos desconhecidos.

                   Não é o programa somente que nos afeta. Poderiam ser nossas finanças que apertam a cada atividade, a cada taxa cobrada seja em cursos e tem alguns que voluntários Escoteiros que pagam mensalidades. Pode! Está ali ajudando e paga para ajudar. Não sei e até posso estar enganado, mas se todos que labutam nas lides escoteiras, do mais alto escalão a aquele que está dando tudo de si pudessem mudar tentar um pouco ser mais irmão, não pensar em si próprio e dizer ao seu amigo palavras gostosas de motivação: - Que alegria em te ver novamente! - Aceite um forte aperto de mão sincero! - Posso te dar um abraço? - Quero que saiba que você é muito importante para nós, não nos deixe nunca, pois sem você iremos perder muito na expansão do nosso Movimento Escoteiro.

                     E aí quem sabe, seu desânimo seria guardado lá bem no fundo do bornal, pois você passou a acreditar que agora estava vivendo entre irmãos escoteiros. E você iria acreditar que não haveria mais os superiores, não haveria mais aquele sorriso de desdém, não haveria mais a conversa de esquina, a conversa de comadre. Ninguém iria desmerecer seu trabalho. Mas olhe, de vez em quando é bom dar um passo a frente. Faça um pouco a sua parte. Como dizia o nosso fundador e repetido por muitos, a felicidade só é completa quando você também conseguir fazer a felicidade dos outros!

¶Põe tuas mágoas bem no fundo do bornal e sorri, sorri e sorri,
O que importa é vencer o mal, mantem sua alegria,
Não importa você se zangar, pois o mal há de acabar e então!

Põe tuas mágoas bem no fundo do bornal e sorri, sorri e sorri.¶.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O lenço Escoteiro.


Conversa ao pé do fogo
O lenço Escoteiro.

              Um lenço? Só isto? Não meu amigo, se você não sabe ele tem um significado enorme. Ele fica conosco por toda a vida. Junto com nosso distintivo da promessa lá está ele preso ao pescoço. Quando o colocamos sentimos um orgulho enorme. Ele representa nossa casa Escoteira onde nascemos. Dá um toque especial para dizer: - Vejam! Ele é Escoteiro! Tem alguns países que o lenço é uniforme (igual) para todos, independente do Grupo ou a unidade local. Aqui não. Quando da abertura de um Grupo Escoteiro, ele foi discutido, escolhido votado e tem muitos que depois de receberem o guardam para o resto da vida. (o meu de 1947 está bem guardado) Quando muitos irmãos Escoteiros se encontram quase sempre vem àquela pergunta: - Você é do Grupo Tal? Ele reconheceu o lenço. Quer trocar? Tem gente que troca, mas o da promessa não. Este irá fazer parte de sua tradição na vida Escoteira. Contam-se maravilhosas histórias de Escoteiros e Escoteiras que fizeram do seu lenço um meio de ajuda ao proximo. Sei de casos que ajudaram a salvar vidas, ajudaram a tirar dores, e outros que serviram para coisas impossíveis de se pensar.

             Mas me dizem: - Ele não é uma simples peça do uniforme? – Claro que sim, mas de todas as peças que compõe nossa uniformização ele tem mil e uma utilidades. Sei que todos Escoteiros e Escoteiras um dia utilizaram o lenço para alguma ajuda ou mesmo para resolver problemas seus que poderiam ajudar a evitar acidentes e claro uma forma de colaborar quando estes acontecem. Vamos lembrar algumas: - Quem sabe o lenço serve para se fazer diversos tipos de tipoia? Ajuda para pegar uma panela quente no acampamento? Depois de molhado serve de proteção contra fumo, pó ou fumaça? Quem sabe substituir a falta do sisal para prender algum como emergência? Lembram-se quando ele serviu como venda nos olhos para um gostoso jogo Escoteiro? Treinando se faz dele uma bolsa de emergência para levar frutas gostosas encontrada no campo? Poderia servir como uma atadura temporária? Ou então como bandeirola para chamar a atenção da patrulha ou de um Escoteiro?

               É o lenço é inigualável. Veja que ele ajuda a transportar pesos na cabeça, serve de almofada, quebra o galho para substituir o cinto que se quebrou, ajuda a tampar alimentos frescos antes do almoço para evitar mosquitos e olhe serve até para fazer uma escada em emergências com dois bastões. Sem contar que serve para amarrar tripés, fazer costura de arremate, e tem até Escoteiro que tentou enforcar um bandido com seu lenço! Calma, estou exagerando! Kkkkk. Mas o lenço é formidável. Agora o seu de promessa tem de ser respeitado para não estragar. Cuidados com mofos, sujeira demais, dobrar errado. Dobrar? Existem diversas técnicas para dobrar o lenço. Cada Chefe tem uma. Tem aqueles que dobram em cima de uma mesa. Tem outros que fazem voltas com ele sobre si mesmo (eu nunca consegui) tem aqueles que usam o ferro de passar e tem aquela técnica que eu uso. Preso no dente e enrolando aos poucos com as duas mãos. Mas só para quem treinou bastante. Claro que cada Chefe com sua experiência de anos têm outras utilidades e formas de dobrar o lenço. Mas o principal é o respeito. Ele é seu grupo preso a você. Se orgulhe dele.

              Durante muitos anos os lenços Escoteiros eram quadrados. Dobrados em triângulo e depois enrolado. Na lista de material individual pedido aos rapazes de Brownsea, constava um lenço, de preferencia da cor verde escura. Existia no passado uma tradição que ao sair com ele o Escoteiro dava um nó na ponta. Isto para lembrar que devemos fazer uma boa ação diária. Escoteiro sem o nó significava que já fez sua boa ação. O termo em inglês para o nosso lenço é “neckerchief” ou “scarf”. Dizem que só por volta de 1923 é que se tornou um o hábito de usar uma anilha (anel) nos lenços. Até aí era simplesmente usado um nó tipo gravata. Conta-se que os Escoteiros americanos (boy scout) só começaram a usar o lenço no uniforme a partir de 1920.    


                Chega por hoje, mas olhe siga meu conselho treine muito o uso do lenço, não fique só na teoria. Um dia vai precisar e verá que a teoria não ajudou. Pratique sempre e não esqueça se orgulhe do seu lenço, ele é sua senha para se declarar Escoteiro do mundo!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O Escoteiro Zezé e o Espião de olhos vermelhos


Lendas Escoteiras.
O Escoteiro Zezé e o Espião de olhos vermelhos

             Zezé era um Escoteiro Sênior dos bons. Nunca foi Monitor. Nem sub monitor. Entrara como Escoteiro há quatro anos. Achava-se obediente e disciplinado. Conseguiu a segunda classe e quase “tirou” a primeira. Passou para os seniores e estava na Patrulha Leão do Norte há um ano e meio. Também nunca foi escolhido para liderar a patrulha. Ele fazia do escotismo sua diversão e seu modo de vida. Os seniores tinham uma bela união. Eram três patrulhas. No ano anterior duas escoteiras passaram para guias. Resolveram colocar na Patrulha, pois eram quatro escoteiros. Elas e eles se deram muito bem.

          Acampavam sempre. Todos eram bons mateiros. Zezé há tempos atrás começou a ler todos os livros que lhe caiam em mãos. Lia tudo. Não importava o tema. Com o passar do tempo passou a ler mais livros de ficção, e adorava os policiais, principalmente aqueles de espionagem. Passou a ser um entendido das grandes agencias de espionagens em todo o mundo. Aprofundou seus conhecimentos no MI5 Inglês, na Cia Americana, na KGB russa, no Mossard Israelense e na SSA Francesa. Claro sabia um pouco de outras, mas essas eram suas preferidas.

          Quando não estava na escola lá estava Zezé na parada de ônibus interestadual, na estação de trem e de olho em algum veiculo novo que entrasse na cidade. Ganhou de seu avô um chapéu de feltro e paletó cinza que sua mãe cortou na sua altura. Colocava o paletó, o chapéu e lá ia ele meio escondido nas colunas da estação ferroviária a perscrutar quem descia da composição. Tinha amizade com Dona Manuelita do Hotel Ouro Verde e ela sabia do que ele gostava. Rindo dizia – Zezé nenhum cliente novo. Se chegar alguém te aviso.

           Estava Zezé naquela quarta feira na estação, como sempre atrás da coluna da entrada, claro, com sua indefectível capa e chapéu de feltro, quando desceu do vagão de primeira classe um individuo suspeito. Usava óculos escuros, terno preto e gravata vermelha, e somente uma maleta de couro marrom nas mãos. Sinal de que ficaria pouco tempo. (Zezé era assim, um Sherlock às avessas). Notou que o individuo olhou para um lado, para o outro, de cabeça baixa, claro Zezé sabia que ele não queria ser reconhecido.

          Notou que ele subiu na charrete do Laureano e foram em direção ao hotel Ouro Verde. Esperou um tempo e entrou. Dona Manuelita olhou para ele e sorriu. – Acho que desta vez seu espião chegou! Zezé sentiu o sangue ferver. Ele sempre pensou que jovens como ele tinham dentro de sí uma grande batalha a vencer. Ele sabia que ali estava sua oportunidade. Não poderia ser sua ultima vela de uma viagem ao mar. Ele não iria desta vez esperar que as bandeiras fossem desfraldadas antes da continência.

          É como diziam os Árabes, Senta-te nos calcanhares enquanto ruge o trovão e deixa que Alá vele pelo amanhã. Zezé começou sua vigília. Não procurou os amigos da Patrulha. Poderia até ter procurado a Camélia sua amiga e confidente na patrulha. Mas não. Sabia que o espião não conta suas fontes, nada diz as suas amantes e seus contatos são feitos de modo tal que ninguém irá descobrir. Zezé era um “expert”. Iria descobrir quem era Franz Henri e o que ele tinha ido fazer em Monte Alegre.

          Pena que sua escola era de manhã. Mas nem almoçou direito quando chegou a casa. Colocou sua capa seu chapéu e subiu na “Cavernosa” (sua bicicleta Hercules que seu pai comprou para ele faziam dois anos). Foi rápido ao hotel. Dona Manuelita lhe disse que já tinha saído. Para onde foi? E como foi? Na Praça Lionel um dos charreteiros de aluguel contou que ele alugou a charrete do Laureano e ele mesmo iria levar a charrete. Dispensou Laureano. – Ai tem treta! E das grandes pensou!

      Só podia ter ido rumo à fazenda do Vasconcelos. Lá foi Zezé a toda velocidade na sua Hercules e claro, logo viu a marca do pneu da charrete. Menos de oito quilômetros depois lá estava ela, presa na cerca de madeira. Onde ele foi? Onde? Viu no alto do morro ele descendo. Onde teria ido? Esperou e ficou a pouca distancia observando. Notou que ele demorava a descer. – Sentiu um cano nas suas costas. – O que quer aqui rapaz? Zezé virou. Levou o maior surto. O tal do Franz o olhava e dos seus olhos brotavam chispa vermelhas! Na sua mão uma Luger PPK, que para Zezé parecia uma metralhadora Gatling.

     Claro, a vida de espião de Zezé nem bem tinha começado e ele já molhava as calças! Zezé saiu em desabalada carreira com sua Hercules e nem olhou para trás. Quando chegou a casa seu coração batia sem parar. Seus olhos estavam esbugalhados. Entrou para seu quarto e ficou ali por muito tempo até seu coração parar de bater. Não poderia descobrir o que o espião foi fazer na sua cidade sozinho. Tinha que convencer sua Patrulha a ajudar. Sabia que eles iriam rir dele, mas como convencê-los?

    Primeiro foi à casa da Camélia. Ela ficou séria e acreditou em tudo que Zezé contou. Foram à casa do Tiãozinho, mas ele riu de tudo que lhe contaram. Mesmo assim foram até a casa do Levegildo, do Moreno e do Marquito. Dalí foi para a sede escoteira. Durante mais de duas horas Zezé contou e recontou tudo que viu e sentiu. Eles a principio davam risadas. Já conheciam o Zezé e suas manias de espionagem. Mas chegaram à conclusão se verdade ou não eles não poderiam ficar de fora.

   Traçaram um plano para a Patrulha seguir o tal de Franz. Quem estudasse a tarde ficaria responsável pela “campana” da manhã e a tarde quem estudasse de manhã. Só Tiãozinho o Monitor e Marquito estudavam à tarde. Mas Tiãozinho foi taxativo. Faremos tudo com uniforme. Nada de ficar como civil. Se ele for um espião verá que não somos qualquer coisa. Somos escoteiros. Aqueles que morrem de pé e não tem medo de cara feia!

    Quando Zezé saiu da escola encontrou com Marquito que dizia saber onde o tal Franz estava. Reuniu toda a Patrulha. Naquele dia Tiãozinho e Marquito não foram para a escola. Tudo pela honra da Patrulha. Enturmados lá foram eles em suas bicicletas rumo à fazenda do Vasconcelos. A charrete estava no mesmo lugar. Deixaram as bicicletas próximo à cerca e subiram o morro. Marquito mostrou onde ele estava. Na Pedra do Embaúba. Mas que “Diabos” ele foi fazer ali? Rastejando, como se estivessem em um grande jogo se aproximaram da pedra.

    Lá estava o Franz. Seus olhos eram medonhos. Vermelhos. Parecia que saiam chispas de fogo. Ele tateava devagar, com calma cada centímetro da pedra. Quando estava dando a volta viram que ele sumiu. Não apareceu mais. Mesmo amedrontados eles foram até a pedra. Deram uma volta e o danado do Franz tinha sumido. Mas para onde? Não tinha como sair pelo morro. Eles o viriam. Começaram a tatear parte por parte da pedra. Marquito deu um grito! Achei! Correram todos. Uma saliência brotou quando ele apertou uma pedra solta. Logo a abertura de um túnel apareceu.

E então perguntaram a Zezé. - Então que vamos entrar, disse Zezé. Entraram e a porta se fechou. Uma escuridão tremenda. Não viam nada. E o pior não tinham levado lanterna e nem vela. E agora o que fazer? Não achavam nada na pedra por dentro que fizesse a abertura abrir. Os olhos aos poucos acostumaram com a escuridão. Lá em baixo uma pequena luz. Tateando foram descendo uma espécie de escada. Pé ante pé! Lá estava Franz. Nas mãos um castiçal enorme, uma âmbula e um cálice que brilhava como se tivesse luz própria.

A poucos metros havia uma área escavada. O Espião cavou ali. Deixou tudo enrolado em uma manta em um canto e começou a subir as e escadas devagar com uma lanterna. Eles conseguiram esconder-se numa saliência. Ele passou por eles e se foi. Havia no fundo da gruta uma iluminação que eles não souberam explicar. Levegildo voltou subindo as escadas e agora podiam ver melhor onde entraram. Ele encontrou a saliência. Gritou para todos. Logo a porta se abriu e saíram dando alívios e urras de alegria.

Uma alegria que durou pouco. O danado do Fritz estava a poucos metros deles com sua Luger PPK nas mãos e rindo. Gruiu umas palavras que ninguém entendeu e atirou. O tiro passou de raspão na orelha de Zezé. Nunca correram tanto. Uma ventania desceu o morro e passaram com rapidez pela cerca. Em desabalada carreira voltaram para a cidade. Foram para a casa da Camélia. Seu pai era o delegado. Melhor colocar ele ao par.

Custou a acreditar naqueles meninos. O Delegado Davison não era de brincadeira. Foi com eles até a pedra do Embaúba. Abriram a porta e desceram. O Delegado viu a manta com os objetos. Deve ter sido há muitos anos que saqueadores de igrejas esconderam ali seu butim. Só podia ser isso. Voltaram levando os objetos. O Delegado foi até ao hotel, mas o tal Espião havia partido. Para onde ninguém sabia. Meses mais tarde descobriram se tratar de peças de mais de um século. Valiosíssimas. O Governo as levou. Para onde? Perguntaram. Para o museu da capital.

Não houve festa, condecorações, agradecimentos nada. Apenas a lembrança do Espião dos olhos vermelhos. Esqueci a tropa e quase toda cidade passaram a fazer da Pedra ado Embaúba um local turístico. Usaram tanto que o dia a pedra não abriu mais. O prefeito quis dinamitar, mas a Câmara de Vereadores não concordou.

Zezé continua a bancar o caçador de espiões até hoje. Agora um Pioneiro está sempre de plantão na rodoviária a espera de alguém que não aparece mais. A noitinha corre para a estação a espera do noturno. Quem sabe um dia ele de novo vai se encontrar com algum outro espião? Esse Zezé é um grande Escoteiro. Na Patrulha adquiriu o maior respeito. Até fez de Camélia sua namorada. Dizem eu não sei que casou com ela. É dono da sorveteria da cidade e nunca deixou de olhar e observar quem chegava e quem saia.


Acho mesmo que ele tinha na veia uma queda pela espionagem. Pena que a Cia e o MI5 não o descobriram. 007 que se cuide, pois Zezé é o “bamba” em Monte Alegre. A cidade sabe que um dia será conhecida por alojar em sua família o maior espião de todos os tempos. O Escoteiro Zezé!