Historias e estorias que não foram contadas

Historias e estorias que não foram contadas
uma foto, de um passado distante

domingo, 6 de março de 2016

Mitos, lendas verdades e inverdades do Uniforme Escoteiro.


Conversa ao pé do fogo.
Mitos, lendas verdades e inverdades do Uniforme Escoteiro.

           Convenhamos que eu não seja um estudioso das tradições do uniforme Escoteiro brasileiro. Sei apenas o que vi e vivi com ele nestes últimos 67 anos de escotismo. Não vou dar um testemunho como foi em todo Brasil, para mim impossível, mas posso falar mais na minha área de atuação. Não é aqui que vou discordar das escolhas de cada um. Sei que nosso uniforme ainda levanta duvidas e hoje muitos que fazem parte da nova geração acreditam que o presente nada tem a ver com o passado. Tenho dito em todos os lugares aonde vou e mesmo em meus parcos escritos que é difícil analisar uma era sem ter nela pisado com seus pés e sentido o calor do chão de terra. Os novos eruditos que se arvoraram em donos da verdade, muitos deles sequer conheceu o passado a não ser por escritos fazem hoje de suas belas palavras uma verdade que acreditam ser intocável. Não sei. Não quero polemizar. Já me disseram que isto não leva a nada. Meus comentários ficarão restritos ao uniforme básico. Os do mar e do ar quase não sofreram mutação e até hoje se mantem no tradicional quando foram criados.

           Uma vez em um curso da Insígnia de Madeira que participava O Chefe meu amigo e antigo mineiro já falecido, Doutor Francisco Floriano de Paula contou como foi à uniformização em Minas Gerais durante os primórdios do escotismo. Disse que no inicio do escotismo o uniforme foi o mesmo usado na Inglaterra. Uma espécie de caqui cinza com meiões pretos. Com o passar do tempo surgiu à calça azul com camisa caqui e assim permaneceu por muitos anos. Parece que a partir do final da década de 40, o caqui começou a se expandir por vários estados. Entre a década de quarenta e cinquenta o governo mineiro querendo uma expansão rápida do escotismo nomeou sargentos cabos e soldados para organizarem Grupos Escoteiros em todas as cidades mineiras. A falta de adestramento e literatura além de acompanhamento profissional fez do escotismo um pseudo militarismo. Os uniformes surgiram a bel prazer. Se no sul e no norte não foi assim fica o dito pelo não dito. Quando entrei para o movimento em 1947 os lobos usavam o azulão com o boné conhecido, mas feito à mão pelas mães dos lobos. Os Escoteiros já usavam o caqui curto, chapéu de abas largas e nunca se via adultos trajando calça comprida. Era uma tradição, pois BP nunca usou o uniforme com calça comprida. Sei que em vários estados ou cidades alguns grupos fizeram adaptações que não eram normativas. Assim apareceu o verde e cores parecidas com o caqui.

             O caqui, portanto era considerado o uniforme oficial dos Escoteiros da modalidade básica no Brasil. Em 1969 muitos adultos já forçavam o uso da calça comprida. Discutiam que em cada estado devia haver uma abertura e varias ideias começaram a ser discutidas. Cada um defendendo sua posição, o estilo de vida na comunidade e a temperatura ambiente. A busca de um novo uniforme levou a aprovação do Uniforme Social que depois foi chamado de traje. A explicação era que precisávamos de um uniforme mais palatável quando em atividades sociais e burguesas. Assim em 1975 formalizou-se o uniforme Social. O Chefe Darcy Malta Escoteiro Chefe na época, explicou em linhas gerais como ele deveria ser visto e apresentado.

             Para que os adultos levassem a sério o novo Uniforme Social, vamos chamá-lo de traje, a UEB enviou a todos os Grupos Escoteiros do Brasil um ofício via correio explicando como ele seria confeccionado, quais as ocasiões para o uso e juntou-se um desenho e pasmem-se: - um pedaço do pano tanto da camisa como da calça comprida. A confecção seria por conta de cada um. Havia a preocupação da uniformização sem mudanças ou alterações. O Tergal ou linho era regra geral. Para maior formalidade foi dado à possibilidade do uso do paletó e gravata. Que eu saiba uma minoria adotou este último que logo foi esquecido. No POR se sacramentou as normas e uso. Era função do dirigente de uma atividade determinar qual uniforme a ser usado. O POR em um dos seus artigos dizia: - Nas atividades escoteiras os chefes deviam usar o tradicional, ou seja, o caqui. Eu mesmo dirigi vários cursos onde se exigia ou o traje ou o caqui. Em vários avançados da Insígnia da Madeira que fui o diretor pedia sempre os dois uniformes. Cada dia usávamos um ou outro. O intuito era não só formalizar, mas mostrar que a uniformização deveria ser ponto de honra para nós Escoteiros. A aparência e a igualdade não poderia perder o garbo. Interessante que sem a tecnologia de hoje, a disciplina era irreversível. Poucos destoavam e obedeciam sem discutir.

          A partir do meio da década de oitenta muitos adultos e seniores passaram a usar o azul mescla com calças jeans desvirtuando o sentido da aprovação do traje no passado. Não esquecer que por volta de 1984/85 foi formalizado o escotismo feminino no Brasil e um novo uniforme foi acrescentado para elas. Isto depois foi esquecido e cada sessão feminina decidia pelo traje ou o caqui. A UEB nas diversas épocas subsequentes sempre alterava um ou outro item. Isto se banalizou completamente o sentido do uniforme SOCIAL. Cada grupo podia escolher o que seus participantes gostariam de usar. O próprio chapéu foi escamoteado abrindo a possiblidade do uso de bonés e outras coberturas. Lembramos que a própria UEB em sua loja vende um tipo de cobertura feita de brim ou similar e esta se espalhou por vários Grupos Escoteiros como uma chama. É comum ver o Chefe com ele e os jovens sem nenhum. Finalmente no final da década de noventa bastava portar o lenço com uma camiseta e se considerava uniformizado. A própria UEB foi quem criou esta Torre de Babel com o traje Escoteiro. Hoje se arvoram em dono da verdade e impuseram um novo uniforme a quem chamam de vestimenta.

          Com a participação em jamborees e atividades internacionais copiou-se o lenço preso nas pontas dando uma nova conotação da liberdade individual e apresentação moderna. Na nova vestimenta ficou a critério de cada um escolher como vestir e esqueceram-se da uniformidade. Nosso marketing deixou a desejar. Hoje cada um escolhe se quer a camisa solta ou não. Meiões ou não. Calça curta ou comprida. Lenço bem colocado no pescoço ou solto. Se isto vai dar nova visibilidade ao escotismo brasileiro vamos aguardar. Comparar o ontem com o hoje não é fácil. Era uma época que tínhamos o maior respeito com nosso uniforme. Nenhum novato poderia colocar peças antes da promessa. Todos faziam questão de estarem bem uniformizados e bem apresentados. Era uma questão de honra. Ninguém saia de casa sem ele. Impossível pensar em vestir na sede, pois o orgulho fazia parte de qualquer Escoteiro.


               Não sou partidário destas escolhas e muito menos da maneira de apresentação de muitos com a nova vestimenta. Sou um saudosista criticado por ser exigente na apresentação. Errado ou não havia um certo orgulho quando saímos em desfile ou se apresentando em atividades sociais. Se o hoje for considerado moderno, não tenho contra argumentos a não ser cobrar os resultados destas modificações. Só o futuro dirá.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Curso Ponta de Flecha.


Conversa ao Pé do Fogo.
Curso Ponta de Flecha.

                Recebi de um amigo muito chegado a pergunta – Chefe o que acha do Curso Ponta de Flecha? A minha maneira respondi na mesma hora o que achava. Vi que ele não gostou. Paciência, nem todos gostam do que eu digo ou escrevo. É um direito.  Afinal não sou o dono da verdade e muitos sabem mais que eu. Voltei e no tempo e me lembrei das centenas de cursos Ponta de Flecha que tive o prazer de acompanhar e até mesmo dirigir. Se não me engando foi ao final da década de 60, que começou a ideia de fazer um curso para monitores. Talvez houvesse antes um curso destes, mas não tomei conhecimento. Alguém me disse que foi oriundo de Giwell. Quem sabe seja. Até me mostraram uma apostila mimeografada ainda em inglês e traduções rabiscadas em cima. Dizem que a UEB tem uma apostila perfeita.

            Na época concorde, mas depois vi que o objetivo proposto era inteiramente contrário aos objetivos que se propunha. Quem conhece e aplica o Sistema de Patrulhas, deve ter uma experiência adequada ao assunto. Vejamos qual seria o objetivo do curso: – “Acampamento ou curso Ponta de Flecha é destinado somente para monitores e sub-monitores, pois tem o enfoque em técnicas e liderança, que é necessário para os responsáveis das patrulhas.”. Muito bem, mas isto não é papel do (a) chefe escoteiro (a)? Ele não é o monitor de seus monitores? Ele não ensina, adestra, acampa e é amigo deles em todas as horas? Não é ele quem vive ao seu lado, faça frio ou faça sol. Chova ou não nas atividades ao ar livre e é no seu ombro que eles vêm em busca de conhecimentos e aconselhamentos? Não é ele que frequenta suas residências, sabem de suas notas escolares, de seus amores de suas dores, conhece seus pais, sua religiosidade troca ideias e o que dizem na Corte de Honra? Como um dirigente de um curso que não conhece os monitores pessoalmente pode atingir o que se propõe com tantos jovens de uma vez?

                    Bem isto me põe em duvida das vantagens de um Curso Ponta de Flecha na maneira com que é aplicado hoje. Não é possivel chefes que não estão familiarizados com eles fazerem um sistema de patrulhas funcionar em tão pouco tempo a não ser se copiar o que fazem em cursos para adultos. Não critico, mas já vi alguns dirigentes destes cursos de tirar o chapéu. Sempre se portando como chefão, sabe tudo, sem ao menos dar um sorriso, dizer muito obrigado aos “alunos”. E os apitos? Nossa! Meus ouvidos doeram. Adoravam formar, exigir firme descansar. Vi um dar uma palestra por uma hora a mais de quarenta monitores. Deus do céu. Será que alguém aprendeu alguma coisa? Eu sempre digo que tudo vai bem quando todos estão sorrindo, e tudo vai mal quando estão escorados em seus bastões, cochichando e alguns até dormindo em pé ou sentado. E os gritos? Eu não levaria meus monitores para um curso assim. Eles são meus amigos e eu os prezo muito para jogá-los neste ninho de marimbondos.

               Em muitos cursos não vi o Chefe da sessão presente. Nem sabe o que está havendo. Isto é uma lástima. Conheço alguns casos que os monitores quando retornam destes cursos passaram a ver o Chefe de outro modo. Para eles, o dirigente do curso ou outro nome que queiram dar, é quem melhor conhece a técnica, o sistema de patrulhas e tudo mais. Seu Chefe ficou no passado. Já vi um Monitor dizer ao Chefe que não é assim que se faz. Chefes no curso ensinaram diferente! Isto deve doer demais ao Chefe. Vi também diversos dirigentes destes cursos que nunca foram chefes de uma tropa e não tinham nenhuma experiência na arte de escoteirar e monitorar dirigindo como se fossem perfeitos chefes com muitos e muitos anos de experiência. Vi outros cujas tropas deixavam muito a desejar, mas ele o chefão sabia tudo Se isto for um adestramento ou se pretende dar um certificado então melhor chamar os chefes dos jovens e a eles sim, darem uma verdadeira aula de Sistema de Patrulhas e Monitoramento.

                   Fiquei feliz quando um rebateu meus argumentos dizendo: Chefe nosso manual é da UEB! Certo mas e daí? Dizem que merece confiança e não discuto. Se eles soubessem pelo menos criar uma fraternidade, ouvir o ponto de vista do rapaz, entender bem como se formar um líder, aquele que aprende a liderar e ser liderado ou mesmo que tivessem experiência em tropas posso até concordar. Um pouco, pouquinho só. Não entendo se eles nunca viram meus monitores, nunca acamparam com eles, não conhece suas alegrias, suas dificuldades sua família, seus erros e acertos e em dois dias darem a ele conhecimentos de liderança. Eu sei que não se nasce líder, leva-se semanas para entender, meses para aprender e anos para se tornar um hábito de comportamento. Fico pensando se os cursos realizados deram os resultados esperados. Bons monitores, queda da evasão, formação educacional nos princípios do método de B.P. Infelizmente conheço chefes que adoram estes cursos e não os culpo.

                   Interessante que o nome Ponta de Flecha é sugestivo. Chamativo. Mas eu fico mais na aplicação dele para formar e treinar os chefes. Um curso especifico para mostrar como desenvolver a potencialidade do monitor. Lembro que no passado adaptei um curso técnico para chefes sobre o Sistema de Patrulhas e formação de monitores. Inscreveram-se mais de oitenta alunos. Tivemos que dividir em dois. Foi válido para ficarmos sabendo que muitos que nunca passaram por tropas quando criança não conheciam quase nada. Sei que em alguns estados que fazem cursos de Técnicas mateiras e Sistema de Patrulha é sucesso absoluto. O curriculum do curso foi superado na sua aceitação. Técnicas Mateiras, Acampamentos de Gilwell, Pioneirías, aprender a fazer fazendo uso da corda e nós de marinheiro, percurso de Gilwell. Bussola, orientação por estrelas e outros atraem.

                      Posso até concordar com um Ponta de Flecha voltado para a troca de ideias entre monitores, dando possibilidade de cada um comentar em dinâmica de atuando democraticamente em grupos de trabalho e deixar que eles liderem sob a supervisão de um Chefe poderia superar as expectativas. Não vamos ser tão radical com o curso Ponta de Flecha. Já disse como deveria acontecer. Acreditem não sou o dono da verdade, mas nunca daria meus monitores para o treinamento ou aprendizado com um Chefe simplesmente teórico. Onde em sua Tropa não se vê resultado.


                             Desculpa por ser franco, mas se um dia me provarem os resultados peço desculpas. Resultados de bons monitores, patrulheiros ou patrulheiras alegres, seguindo seu monitor com carinho e respeito. Patrulhas onde os participantes ficam na sua maioria por anos e se consideram irmãos. Patrulheiros que se entendem dentro e fora do grupo. Quem forma quem adestra e quem aconselha seus monitores é o seu Chefe repito. Sei que o mundo está mudando, aceito isto. Mas eu não mandaria meus monitores para alguém que desconhece o que eles são não sabem de sua vida e nem de seus conhecimentos escoteiros. Sempre Alerta!

terça-feira, 1 de março de 2016

Acampar, um sonho escoteiro.


Conversa ao pé do fogo.
Acampar, um sonho escoteiro.

                   Falamos muito em acampamentos. Claro escotismo sem ele está fora da realidade. Quando os jovens ficam sabendo que no programa anual vão ter vários acampamentos eles vibram. Eles adoram. Entraram no escotismo por causa deles. Mas se o último acampamento que foram decepcionou e não conseguiu despertar neles o sonho aventureiro, aí meu amigo é preciso consertar e já. Ou então é melhor não ir mais. Não adianta o melhor Fogo de Conselho do Mundo. Pode dar a eles o que quiserem, mas lembre-se você não pode falhar. Você Escotista é responsável para que os sonhos deles se tornem realidade. Quando você deu a eles as delicias de uma vida mateira, quando deixou que eles fizessem a fazer fazendo sem sua ajuda, quando o tempo foi bem distribuído e ele pode vivenciar o que disseram para ele antes de ir, então, e então o sucesso é garantido e absoluto.  

                    Costumo dizer que existem acampamentos e acampamentos. Vejamos o que o Google diz sobre ele – “Acampamento (do inglês, camping) é um local onde se estabelecem barracas ou tendas, geralmente com a proximidade à natureza onde toda a infraestrutura é levada pelos campistas, tal prática é conhecida por campismo”. - Mas será isto mesmo? É isto que os escoteiros fazem? Não, não é. Isto aí é Camping. Escoteiros acampam e não fazem camping. Eu costumo dizer que a preparação e a organização é a “alma do negocio”. Se a preparação foi perfeita e a organização idem então o sucesso será garantido. Não pretendo ensinar aos chefes escoteiros que leem este artigo. Sei que a maioria sabe melhor que eu como fazer. Seria presunção dizer que mudem e façam o que eu digo. Nada disto. Aqui simplesmente dou sugestões para os mais novos. Eles sim precisam de colaboração.

                     Vamos dentro de o possível especificar alguns detalhes importantes. Antes de qualquer coisa estamos aqui falando em acampamentos escoteiros dentro dos padrões de Giwell. Todos sabem que Giwell é o centro de adestramento escoteiro no mundo. Quando dizemos a moda Gilwell é que ali se pratica conforme Baden Pawell especificou e fez no seu primeiro acampamento em Brownsea. No mundo inteiro os acampamentos são realizados com os padrões de Giwell Park. A liberdade da Patrulha é absoluta. Cada uma tem seu campo de Patrulha pelo menos a quarenta metros de distancia uma da outra. É como se fosse uma casa, um lar da Patrulha. Estranhos só entram se convidados ou se ao pedir permissão são autorizados. A Patrulha tem seu próprio material de campo, sua intendência e dentro do possível farão as pioneiras necessárias para que a comodidade, a higiene e o conforto possa dar o conforto que se espera em uma Patrulha.

                       Importante é a escolha do local. Hoje nem sempre encontramos nas cidades maiores bons locais. Tenho visto em algumas cidades locais que alugam. Quem diria. Mas não é difícil conseguir bons locais e de graça. Coloque um uniforme, chame um ou dois chefes e tentem aos domingos passear em estradas secundárias. Conversem com os nativos sobre o que estão procurando. Encontrando procurem o proprietário. Digam o que é o escotismo. Peçam autorização. Lembrem-se que não vão acampar ali somente uma vez. Assim o proprietário deve sempre ser convidado para uma bandeira e quem sabe entregar a ele um lenço do grupo em solenidade especial. Eu disse entregar e não promessar. Conheço chefes que em São Paulo tem sempre a mão quatro ou cinco bons locais. Um telefonema a cada dois meses para manter a amizade, um parabéns de aniversário, um convite para uma pizza e você vai ter a amizade do proprietário para sempre.

                        Se quiser criar o espírito de aventura nos escoteiros o local não deve nunca ser perto de residências, postes de luz nada que mostre ou lembre-se da civilização. Até os veículos que irão transportar devem ficar distantes das patrulhas. Entretanto, costumo sempre dizer que - Quem vai ao mar avia-se em terra; Você vai acampar. Nada pode faltar. Chefes Pata Tenras são aqueles que ficam saindo do campo toda hora para buscar o que esqueceram ou o que faltaram. Um dos princípios básicos de um bom acampamento é que a Patrulha tenha todo o seu material necessário. Barracas, vasilhame, material de sapa tudo muito bem acondicionado em um saco, que a própria Patrulha pode fazer. Estes sacos tem em suas laterais alças para que com dois bastões quatro ou dois escoteiros possam transportá-los a longa distancia (se for o caso).

                       Eu sempre digo que se a tropa não foi preparada com antecedência para o acampamento tem tudo para dar errado. Claro, a não ser patrulhas que acampam juntas há anos e tem grande experiência de campo. Nenhuma Patrulha terá êxito se não tiver um bom almoxarife, um bom intendente, um bom aguadeiro, um bom socorrista, um bom cozinheiro e claro um bom Monitor. Monitor que faz tudo não tem Patrulha. Tem ele. Vai sempre reclamar de todo mundo. Se não confia nos seus patrulheiros é porque não os adestrou bem e então a falha é sua. Duas boas excursões em dois domingos com programa simples de aprender a armar barracas (olhos vendados), uso e como transportar a machadinha, o facão, aprender a usar o sisal, aprender pelo menos cinco nós básicos, uma amarra, uma costura de arremate e saber montar pioneiras simples trarão o sucesso esperado. Claro, primeiro só com Monitores e subs. Depois com a tropa liderada pelo Monitor. Aí sim todos estarão preparados para um excelente acampamento.

                     O Almoxarife deve conhecer seu material, ter uma relação e ninguém seja na sede ou no campo apanha algum sem falar com ele. Não esqueçam, ninguém anda sozinho no campo. Sempre em dupla, com o Monitor ciente aonde vão e em distancias curtas. Duas semanas antes do campo o material deve ser revisado e se o Almoxarife for bom às barracas já foram uma vez por mês colocadas ao sol para não mofar. Claro que as ferramentas de corte foram afiadas e bem oleadas para não enferrujarem. É importante que o tempo no campo para desenvolver o programa não deva ser corrido. Só de estar lá, na sua Patrulha, lutando lado a lado, construindo, rindo, calos nas mãos, sol quente e dando bravo quando a refeição está pronta já valeu o acampamento. Jogos, atividades técnicas como comando Crow, Falsa Baiana entre outros devem ser feitas pelas patrulhas e nunca pelo Chefe.

                     E o Chefe? Claro, sem ele não haveria o acampamento. Foi ele quem adestrou os Monitores, ouviu suas ideias, fez um cardápio simples (nada de nutricionista) são escoteiros e cozinheiros com simplicidade. Em noventa e nove por cento das residências dos escoteiros não existem nutricionistas para elaborarem os cardápios do dia. Se no campo é a extensão de suas casas que seja tudo muito simples, mas que seja uma alimentação forte. O Chefe juntamente com dois ou três pais são responsáveis pela lista de supermercado. É comum no campo da chefia (ela tem campo separado) ter uma barraca de intendência e se o acampamento for longo, um dos chefes será o intendente geral. Ele separa o cardápio do dia por Patrulha, chama os intendentes na hora determinada para dar inicio as refeições. Cuidados não só na Patrulha como na intendência geral com chuvas, animais peçonhentos, insetos, bichos que costumam invadir.

                       É um tema longo. Não dá para em um só post falar dele no total. Quem sabe publico aqui uma parte II. Precisamos de bons acampamentos para que nossos jovens mais e mais pratiquem um escotismo sadio e dentro dos princípios e métodos que Baden Powell nos deixou. Se o Chefe Escoteiro tem noção de como se faz e como se age no acampamento é claro que ele estará no caminho para o sucesso. Uma Patrulha é autônoma. Ela não é dependente. É uma equipe. Cada um deve agir como diziam os três mosqueteiros, “Um por todos, todos por um”. O Chefe deve dar liberdade. Lembrar-se que o campo de Patrulha é a casa deles e ele como bom orientador só vai lá quando chamado ou claro em casos especiais.


                    Quem já viveu a experiência em um acampamento do porte dos que são feitos em Giwell já tem meio caminho andado. Estamos aqui para formar cidadãos. Compenetrados no desenvolvimento da ética e do caráter. E dar a eles todas as condições para aprender a fazer fazendo. Só assim estaremos cumprindo nosso dever de escotistas. Se conseguirmos manter uma tropa por alguns anos sem evasão ou reclamações estará é claro no caminho certo para o sucesso. Eles estão aprendendo a agir sem os pais. Estão dando o primeiro passo para um dia, quando crescerem saber qual o caminho que irão tomar. A eles serão lembrados do livre arbítrio, mas se eles conseguirem fazer as escolhas certas então podemos nos considerar vencedores.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

O Dossiê – O Escotismo Brasileiro no primeiro decênio do século XXI


Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
O Dossiê – O Escotismo Brasileiro no primeiro decênio do século XXI

                     Há tempos tomei conhecimento do relatório feito pelo Dr. Jean Cassaigneau, antigo Secretário Geral Adjunto da Organização Mundial do Movimento Escoteiro (OMME) e devido a sua grande experiência foi convidado pela União dos Escoteiros do Brasil para fazer um estudo de expansão e crescimento do Escotismo no Brasil. Produziu um excelente trabalho. Não o conhecia. Imaginem que isto aconteceu em 2007. Acredito que todos os órgãos escoteiros, aí incluindo Grupos Escoteiros no Brasil tenham recebido uma cópia pela importância do conteúdo. Portanto meus comentários hoje estão muito defasados. Afinal são quase nove anos quando foi publicado. Se suas observações ou sugestões foram aceitas não sei. Alguns dizem que sim. No Google tem alguns artigos a respeito.  Mas lendo-o com calma vejo que nada do que escreveu foi discutido ou apresentado aos membros do escotismo nacional. Dizer que houve mudanças é faltar com a verdade. Não vou entrar aqui em todos os detalhes de seu relatório, pois isto iria alongar muito. Quando vemos que nosso efetivo e nosso crescimento quantitativo ou qualitativo é pífio sinto que tudo que ele escreveu é perfeito. Acertou em cheio nas suas colocações.

                     Para produzir o relatório ele visitou dez regiões escoteiras, conversou com mais de cento e sessenta escotistas, pioneiros e até com pessoas não escoteiras. Ele mesmo diz que viu na UEB recomendações de membros ativos para modificar alguns aspectos negativos ou controversos e incentivar o crescimento tanto qualitativo como quantitativo. Isto até serviu de subsídios em seu trabalho. De posse de uma boa documentação seu relatório vai ao âmago da questão que eu acredito aflige nosso movimento, o deixando estagnado há décadas e décadas. Alguns amigos mais próximos a nossa direção confirmam que muito do que ele disse foi posto em prática e os demais itens por acharem impossível seu aproveitamento. Sinceramente até hoje não vi nada sendo posto em prática do que ele escreveu.

                De uma maneira simplificada, o seu estudo pretendia dar um salto quantitativo e qualitativo ao Escotismo Brasileiro. Claro, dentro de suas prioridades as mais importantes foram de recolher ideias, opiniões e sugestões de membros da UEB em boa parte do território Nacional, não só dos dirigentes. Não faltou uma identificação e uma análise das realidades e tendência. Comentou sobre uma proposta para uma visão de consolidação e desenvolvimento do Escotismo no Brasil. Não deu a solução, apesar de que ficou explícita no final do relatório. Deu a entender que em sua opinião existem sim soluções concretas, articuladas e coerentes. Interessante foi sua comparação entre os membros da UEB e a população brasileira. Só como exemplo, temos uma media de 0,4% (hoje é muito menos) de participação enquanto no Chile ela é de 0,22%.

                   Interessante notar seus gráficos do nosso crescimento é uma verdadeira “sanfona” de vai e vem. O ápice foi em 1991 e se manteve até 1993 aonde chegamos a mais de 70.000 membros (hoje passando um pouco dos 80.000 membros). A partir daí uma queda vertiginosa. Suas observações sobre a movimentação do efetivo nos estados é excelente. Faz um breve retrospecto da evasão e me baseando pelas minhas parcas informações não sei se concordo com seus números nos dias de hoje, pois a considero muito maior. Sua comparação com outros países sobre a arregimentação de adultos nos coloca em boa posição, mas em relação aos jovens perdemos e muito.

                  Poderia me aprofundar mais no seu relatório, principalmente no que disseram a maioria dos entrevistados. Mas isto iria alongar muito. Mas do que eles disseram não me escapa algumas preciosidades: - O escotismo é visto como um clube – Falta divulgação e quando é feita muita vezes é desvirtuada. Os jovens não escoteiros não compram muito a ideia do que estão vendo. Muitos escotistas e escoteiros tem vergonha do uniforme, não fazem marketing com ele em atividades extra-sede. (aprovaram o traje, é mais fácil se apresentar com ele que com um uniforme – nota-se que ainda não se pensava na vestimenta e se ela existisse naquela época ele ficaria abismado com as quantidades de escolha e a péssima apresentação ao publico). Não existe um bom trabalho para mostrar o escotismo na sociedade e principalmente junto aos responsáveis pela educação no país. Acham que o público acredita que somos um movimento fechado (sempre dentro das sedes escoteiras), mudar a imagem do Escoteiro “biscoito” para um escotismo com formação do caráter, um movimento sério com preparação vocacional e compromisso social. Rebatem sempre a vergonha de se mostrarem em público, sua linguagem (o programa) muitas vezes são incompreendidas. Mudar a imagem do Escoteiro “babaca”, do Escoteiro “cata-lixo” e bobo e diversificar para uma presença ativa na comunidade.

                 Isto foi que disseram a ele em suas entrevistas. Tem muito mais. Centenas.  Os próprios dirigentes da UEB na época (2007) já diziam que parece que somos uma organização secreta, não temos penetração visual. Ficamos trancados em nossas sedes. As pessoas respeitam o que conhecem, quem não é visto não é lembrado. TEMOS QUE VENDER NOSSO PEIXE! Centralização não é a solução. A Nacional busca fora o que tem dentro. Precisamos ter menos burocracia, menos política, menos instabilidade. A UEB é um trem com vagões pesados. A UEB não faz rodar a roda que inventou o Baden Powell (BP).  A UEB é como uma ostra – apenas abre-se e fecha-se imediatamente. A UEB cuida da política e não da administração. A ESTRUTURA DA UEB É FEUDAL E FECHADA. Cada membro da UEB está fazendo do seu jeito. É preciso ser um colegiado e não levar em conta a promoção pessoal. A UEB é uma fogueira de vaidade onde se briga por besteira!

         Isto meus amigos está no relatório. Não são palavras minhas. Claro, de 2007 podem dizer, mas será que mudou alguma coisa? Olhe para o escotismo de 2016, como ele é visto na sociedade brasileira. Tente entender o porquê até hoje não temos abertura nos meios educacionais ou empresariais. Tente entender porque temos uma alta evasão de membros. Antes de encerrar veja algumas outras pérolas do que disseram membros da UEB na época – O Escotismo, antes era desafio e conquista, agora é brincadeira. Qualquer grande organização que se preze, antes de ʺvenderʺ um produto novo, realiza uma pesquisa de opinião para saber se aquele produto irá ʺvenderʺ bem, ou a melhor forma de fazê‐lo. Perguntar não ofende, não faz mal, pelo contrário, valoriza a pessoa e torna a política mais sábia. Os escotistas e dirigentes, quando podem, têm que fazer ʺimportaçãoʺ (ou seria ʺcontrabandoʺ), de publicações, de um Estado para outro. O programa novo é calmo de mais.

                    Realmente não sei e não posso afirmar se fizeram alguma coisa sugerida pelo relatório do eminente Dr. Jean Cassaigneau. Sua experiência como antigo Secretário Geral Adjunto da Organização Mundial do Movimento Escoteiro (OMME) não deixa dúvidas quanto ao seu excelente trabalho. Dizer mais o que? Vamos mudar quando? Vamos crescer quando? Esta fogueira de vaidades por poder, não importa onde, desde o Grupo Escoteiro até os dirigentes quanto ainda vai perdurar? Que os defensores continuem a defender o indefensável. Como disse nosso querido BP, o que importa são os resultados e infelizmente eles não são bons. 80.000 mil membros para uma população de 200 milhões de habitantes não é nada. Não fiquem satisfeitos com suas alcateias e tropas pequenas, não fiquem alegres com estas atividades caça-níqueis de nossos dirigentes. Procurem ver se a evasão existe e cobrem das autoridades. Todos nós somos responsáveis!  




quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Se não existirem as tradições a mística e o simbolismo, então o escotismo acabou.


Conversa ao pé do fogo.
Se não existirem as tradições a mística e o simbolismo, então o escotismo acabou.

                  Os meus artigos sobre mística, simbolismo, nossas origens e tradições tem sido os mais lidos atualmente. Chamou-me a atenção. Peguei todos eles e fiz um condensado, um livro em PDF. Após comunicar que estava disponível me assustei com tantos pedidos. Afinal o tema não foi esquecido e isto era formidável. Choveram pedidos de todo Brasil. De formadores muitos poucos, uma pena, pois eles sim poderiam ser a paliçada a defender o que de mais importante temos no escotismo. Os pedidos partiam de todos os estados e até de outros países. Confirmava-se assim que existe ainda uma preocupação para preservar nossas origens. Os chefes se ressentem por não mais existirem aquelas gostosas místicas, nossos símbolos que nunca foram esquecidos e claro nossas tradições. Sempre um ou outro a indagar que isto não pode nunca acabar.

                   O escotismo sempre esteve assentado em bases sólidas, com um programa definido e metodologia posta em prática com resultados em várias partes do mundo. Isto é discutível? Acredito que não. Somos um movimento de ação, de trabalho voluntário, mas diferente de tantos outros que existem por aí. Infelizmente em nome da modernidade estamos perdendo nossas raízes. Uns poucos se esqueceram do passado e vivem um sonho do escotismo moderno. Não há mais consultas, não há mais pesquisas e nem mesmo se dão ao luxo de saber se todos estão de acordo com as novas metodologias que estão hoje em pauta, copiadas de pedagogos e pensadores do primeiro mundo Escoteiro. Será que nossos resultados foram ou estão sendo bons? Onde estão os antigos escoteiros no seio da sociedade brasileira a valorizar nossa organização?

                   Qualquer membro do movimento vê que nossa evasão é uma das maiores do mundo. Se levarmos em conta o que B.P pensava na formação escoteira, precisaríamos de pelo menos dez anos na permanência do jovem nas suas fileiras. Mas hoje isto é uma utopia. Os nossos valores estão sendo substituídos. São poucos que ainda acreditam no “Fazer fazendo”. São poucos que conversam e dão liberdade aos jovens para dar seu testemunho e o que acham do escotismo atual. Ouvir o jovem dificilmente nossos chefes e dirigentes fazem. Eles se acostumaram tanto com deixa o vento me levar que nem mesmo se perguntam se era isto mesmo que os jovens querem. Chefes comentam, fazem, atuam sempre a dizer que eles adoram o que eles trouxeram de novo no programa. Esquecem-se que temos jovens de várias camadas sociais espalhadas em todo território nacional. A característica principal que nos definia não existe mais. Dois artigos foram sucesso quando os publiquei. O bastão Escoteiro e penacho tiveram centenas de chefes curtindo e compartilhando. A jarreteira já não existia mais. Muitos me perguntaram o porquê isto foi esquecido ou extinto.

                   Dizem que por segurança acabaram com as estrelas de metal. O sistema de provas de classe foi substituído. A bela tradição de abrir o olho do lobo na primeira estrela, de dizer que ele agora é um lobo dos bons na segunda estrela também se foi. Hoje ainda temos os cordões de eficiência e as especialidades. Muitas. Soube de um que conseguiu mais de cem delas. Acho que vi este filme nos escoteiros Americanos. Ainda temos o Cruzeiro do Sul, o Lis de Ouro e o Escoteiro da Pátria. As exigências mudaram. Os velhos sonhos aventureiros foram delegados ao esquecimento. Dizem que hoje isto não é mais possível. Os acampamentos de Gilwell ficaram na história. Ordem Unida é coisa de militares. Marchar nem pensar. Até mesmo um Cerimonial de Bandeira já tem formador dizendo que devemos ser sucinto e breve sem muitas pompas e misticismo. O Sistema de Patrulhas está sendo abandonado por muitos cursos que se tornaram um amontoado de técnicas modernas que nada tem a ver com o escotismo de B.P.

                         Quando nos aproximamos do escotismo o fazemos por acreditar que ele é diferente, tem métodos interessantes e sua simbologia agrega místicas que nos fazem pensar como são e qual sua importância no contexto. Poderíamos dizer que B.P era um místico? Acho que sim. Afinal ele fundou um movimento diferente de tudo que se conhecia até então. Um cerimonial de bandeira é místico? Formaturas por sinais é místico? Sistema de Patrulhas também seria místico? Uma Insígnia de Madeira também? E o aperto de mão, a saudação, a promessa quanto de misticismo temos aí? Pensemos que o Uniforme ou a vestimenta e seus apetrechos tais como o estilo militar, o chapéu e o lenço; os distintivos e provas de classe; as especialidades e a alegria de receber um certificado não seria um misticismo gostoso de participar e viver assim diferente em uma organização? Seria isto misticismo?                      


                       Peguem um fogo de conselho, existe mística maior? E as historias contadas ao pé do fogo que falam dos Cavaleiros da Távola Redonda, da luta de B.P no Transvaal, o primeiro acampamento em Brownsea, A força espiritual de Gilwell Park, o cumprimento da mão esquerda, as saudações Escoteiras, o lenço, o extinto tope com seu penacho, as jarreteiras, as estrelas de metal e tantos outros. Pessoas têm uma sensibilidade maior diante da natureza; outras, diante de situações humanas; outras, diante de intuições filosóficas; outras, diante de suas reações interiores ou quando se encontram em meio ao borbulho da vida agitada na cidade. O escotismo oferecia isto, uma vida de aventuras, uma mística que transcende o tempo, uma simbologia única, uma tradição quase imutável.


                     Quando isto deixar de existir então aquele escotismo de B-P também não será o mesmo. Não afirmo, mas estão tirando o sabor da aventura, da mística, dos nossos símbolos substituindo por outros fatores que julgam mais importantes. Sem perceber já estamos nos transformando em um movimento sem passado, uma historia que vai devagar se extinguindo. Hoje a alegria do jovem ao receber um distintivo, sem simbolismo, sem saber que seus ancestrais escoteiros se orgulharam em receber é um esquecimento do qual ele não mais vai se lembrar. Tudo isto vai aos poucos perdendo a graça. Ele nem sabia que seria assim. Agora o que vê nada difere do seu colégio, do seu computador ou celular. Estamos a perder nossos rumo, nossas origens nossos rastros que nos fizeram o maior movimento de jovens do mundo. A natureza se foi, o sentido da descoberta e andar com suas próprias pernas está acabando. Vai chegar a hora que já chegou para muitos: - Perguntar a si próprio se vale a pena continuar. A mística, o simbolismo e nossas tradições são nossas origens. Ela nos envolve por todos os lados. Ainda bem que tem muitos que não se esqueceram do seu passado e se dermos as mãos quem sabe poderemos ainda resgatar nossa memória. E isto meu amigo Chefe só depende de você! 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O garbo ainda tem valor nos dias de hoje?


O garbo ainda tem valor nos dias de hoje?

                            Um amigo, antigo escoteiro como eu no escotismo sempre aderiu à modernidade defendendo as posições tomadas pelos novos lideres que nunca ou quase nunca consultaram ninguém. Decidiram por si só, não ouve transparência, não ouve pelo menos uma pesquisa junto aqueles que fazem o escotismo em suas localidades.  São tantos os fatos acontecidos que escrevi dezenas de artigos, mas que no fundo eram como ecos no alto de uma montanha que sabemos serão repicados até desaparecer nos vales sombrios. Sempre tentei aceitar muitas das novas posições assumidas, esperava e ainda espero os resultados que dificilmente acontecem. Estamos sós nos meios educacionais, não temos penetração nos meios empresariais. A mídia só comenta nossos erros e a defesa de todas as outras organizações infantis e juvenis acontecem menos no escotismo. Mas e daí?

                     Boa pergunta, e dai? Bem ele tem lutado ao seu modo com a maneira legal do uso da vestimenta, muitas vezes documentada onde poucos se preocupam do que pensam a comunidade como um todo. Um vizinho meu um dia me viu de uniforme e disse? Existe ainda este? Balancei a cabeça. – Olhe senhor Osvaldo estive no desfile e vi uma turma vestido de todo jeito. Não havia uniformidade como já tinha visto antes. Eu nada tinha a dizer. Calei. Pensei comigo como sempre penso sobre o garbo que tanto nos orgulhamos um dia. Garbo, elegância de modos e de gestos, porte imponente, marcial. Será esta a publicidade que queremos? As defesas são diversas. Muitos explicando que o mundo de hoje é outro. A educação é outra. Eu como um Velho Chefe Escoteiro me senti só. Ainda me sinto. Tive que engolir a vestimenta e as explicações dos novos donos do poder e daqueles que não dizem nada aceitando a imposição sem indagação. A culpa não é deles. Acostumados a servir e aceitar nada disseram.

                      Enfim, o mundo de hoje já não é meu. Nunca foi, mas teve uma época diferente. Quando um dia entrei em um arraial bem longe da minha civilização, com a patrulha escoteira bem formada e juntou de gente na praça nos olhando. Claro, caqui chapelão e bem postados dissemos bom dia. Foi então que um senhor chegou perto de nós e disse: - Sempre Alerta! E olhou para a multidão e disse: São escoteiros minha gente, meninos do bem, de coragem de cidadania! Olho-me no espelho quando visto meu uniforme querido. Fico a pensar porque não houve um pouco de garbo, de brilho na confecção da vestimenta. Acostumado com o meião cinza me arrepio com a meia pequena. Exemplos do meu Chefe e seu porte garboso via sua camisa dentro da calça e todas as peças bem engomadas ou passada a ferro. Acostumado com o chapelão me estremeço com os chapéus de pano usados hoje. Acostumado com o garbo e o porte Escoteiro me pergunto se mudei tanto se hoje não é ontem e como será o amanhã.


                   Já me disse um dos novos chefes consciente da mudança existente no mundo que os de hoje também terão histórias para contar quando chegarem à minha idade. Que seja. Não desmereço, mas seria tão bom uma uniformização mais respeitosa, mais abrangente, mais sedutora a conquistar a comunidade brasileira como nós o fizemos um dia. Se éramos poucos como alguns pretendem dizer eu posso garantir que não somos nada. Nossa representação é mínima nos 5.500 municípios brasileiros. Quando teremos força, quando teremos apoio quando teremos um nome escrito no coração de cada um não sei se será no meu tempo. Mas não desmereço ninguém. Quem sabe um dia entra na liderança nacional alguém que raciocina que pensa que sem exemplos sejam verbais, pessoais ou ilusórios não seja como um motivo de aceitação somente por parte de quem está, mas também daqueles que nos olham e nos julgam por mais que possamos dizer que isto não é importante.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

As eleições Escoteiras estão chegando.


Conversa ao pé do fogo.
As eleições Escoteiras estão chegando.

                  Municipais? – Não. Escoteiras. Uai! Então temos eleições? – Claro que sim Zé das Quantas. Pergunte ao escoteirinho de Brejo Seco. Ele já ouviu falar. Agora todo ano tem. Renovam o CAN o Congresso Escoteiro e as Assembleias Regionais. – Mas isto não é bom? – Seria Zé, mas nada de novo no front. Você precisa ver as propostas. Cada uma “mais maió de grande” que a outra. A gente lê, fica de cabeça para baixo e lê novamente e não entende nada. Enquanto isto os "çabios” do nosso escotismo vão alterando sua forma, suas tradições, os métodos de educação que B-P deixou e assim o barco vai seguindo nas águas turvas de um rio que não tem mais fim. Remar sua própria canoa já era. Agora são eles que estão no leme. E o futuro? Grandioso! Eles fazem mil promessas. Sob a nossa batuta o escotismo será outro em pouco tempo. Quando ouço isto vou para a floresta conversar com o Tatu Bola e fico ali me esquecendo da vida!

                 Não sou chegado a este tal de planejamento Estratético, programa educativo e tantos outros que estão sendo praticados. Vejo falar nisto há muitos anos. Muitos candidatos vibram. Gosto de ver eles nas fotos. Vocês já observaram as fotos de quantos escotistas e dirigentes estão nas páginas das redes sociais? São candidatos. Falam bem deles. Caramba! Você os vê de uniforme, de vestimenta sorrindo, alguns com a camisa para fora (é norma dizem), chapéus esquisitos, meias brancas pretas e já uma vermelha pintada de amarela. E as fotos deles em cursos (belo exemplo para os cursantes) em reuniões de cúpula, em restaurantes, recebendo certificados, promoções, medalhas, em passeios para descanso após uma reunião, pois ninguém é de ferro. Fotos de meninos e meninas Escoteiras? Nem pensar. Parece que eles são o escotismo e não o contrário. Só postam os mais humildes, os mais simples. De vez em quando um coitadinho aparece recebendo uma Correia de Mateiro e um Lis de Ouro. Os grandões estão onde devem estar. Na cúpula sorrindo, abraçando recebendo medalhas sendo elogiados e o escambal.

                   Se tiverem um tempo visitem suas páginas. Uns gatos pingados em volta da bandeira. Desculpe, tem alguns que tem sessões completas, mas é difícil de ver. Alguns candidatos são de grupos Padrão Ouro. Uma vez cobrei fotos da patrulha no campo, suas pioneiras, formados para a inspeção ou só a patrulha em jornada. E os lobos? Estes pelos menos aparecem mais. As chefes sabem que ali está seu manancial de motivação e são mais perseverantes com a motivação. Já há alguns anos que a maioria dos estados apresentam suas chapas de candidatos ao poder. Isto é bom. Democracia plena? Isto não. – Os estatutos são claros, dizem. Eu me pergunto se isto está certo. Depois de eleitos fazem o mesmo que os outros fizeram. Lutar para mudar o errado, lutar para valorizar nossos voluntários, lutar para que as taxas sejam a menor possivel, lutar para que haja transparência, consulta as bases e boas discussões de temas ainda não vi em nenhuma chapa.

                          O que vejo hoje são adultos falando bonito, esquecendo-se de ouvir o jovem (base primordial da formação escoteira) procurando ser servido em vez de servir. Nas ultimas eleições elogiei uma chapa em São Paulo. Este ano não. Depois das eleições os que me procuraram nunca mais me disseram Sempre Alerta. Sei que ainda tem estados que as eleições são proforma. Sempre o mais antigo dirigente dizendo quem vai assumir.  Quem sabe alguma chapa terá como proposta alguns destes itens?

- Lutar por uma democracia plena, onde todos adultos terão direito de votar e ser votado, fazer uma grande pesquisa nacional para ouvir e analisar as opiniões sobre a evasão escoteira em todas as unidades locais.
- Montar uma comissão de novos e antigos para analisar e sugerir as vantagens do que antes tínhamos tais como: Tradições, simbolismo e místicas Escoteiras, programas progressivo, nomenclaturas etc.
- Voltar a discutir as vantagens do Sistema de Patrulha (tão esquecido hoje) e as bases fundamentais do escotismo feito por Baden-Powell. Lutar com todas as forças para que as taxas possam ser ao alcance do mais humilde Escoteiro ou do Escotista, dando a ele oportunidade de estar presente nas grandes atividades nacionais.
- Fazer um marketing agressivo com empresas, dirigentes educacionais, no intuito de conseguir apoio não só logístico como financeiro, mostrando a comunidade brasileira o que é e para que serve o escotismo. Ter bons profissionais para trabalhar junto aos órgãos federais, empresariais e organizações de comunicação para conseguir apoio e ou patrocínio para nossas atividades suavizando assim as enormes taxas que não estão ao alcance de todos.
                
                      Não coloquei aqui alguns temas que são preocupação de alguns escotistas. A homoafetividade e o reconhecimento de outras afirmações de crenças e não só o ateísmo. Que sejam bem vindas estas discussões, que se estude a possibilidade de atender suas necessidades, mas tudo sem prejudicar a grande maioria de jovens que hoje praticam o escotismo conforme vem fazendo há tempos. Como sou um Velho Escoteiro arcaico não vou de encontro aos novos tempos. Para mim é difícil acompanhar as novas metodologias tão apregoadas por boa parte dos candidatos. Não sou pedagogo e nem entendo nada disto. Eu ainda acredito que a modernidade e o passado podem andar de braços dados. No entanto quando meia dúzia passa a fazer mudanças sem consultas à maioria isto se torna uma ditadura onde não temos defesa e nem podemos cobrar os erros no futuro.

                          Em anos anteriores erroneamente dei meu aval a alguns candidatos em regiões e na Própria direção nacional. Foi uma mancada. Não sou eleitor e dificilmente posso comparecer as Assembleias. Afinal além de Velho sou um aposentado e nem “tutu” para a gasolina tenho, que de lá pagar um hotel, refeições e a nunca esquecida taxa de participação. E cá prá nós, chegar lá com a voz sumida, sem poder pedir a palavra, sem poder discutir nada em um breve seminário e onde terei que ver e ouvir os eruditos com propostas portentosas o melhor mesmo é ficar em casa. Ops! Esqueci, não sou registrado, portanto não existo para a União dos Escoteiros do Brasil. Já vivi muito estes parâmetros em outras eras. Nunca acreditei nas promessas feitas. Mas ainda bem que aparecem novos candidatos novas chapas, pois quem sabe um dia tudo vai mudar? Não foi um general amigo de Baden-Powell que na Segunda Guerra Mundial disse que – O possivel vamos fazer agora! O impossível daqui a pouquinho!    


Meus parabéns aos eleitos, que eles sejam felizes para sempre!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Jogos.


Conversa ao pé do fogo.
Jogos.

“Ficou acordado na Corte de Honra que os jogos nas reuniões serão uma escolha da Tropa”. O Chefe ficará encarregado somente dos chamados “Jogos surpresa”. Cada Patrulha fará mensalmente sugestões apresentadas pelos escoteiros. Os monitores transmitirão entre si e aos demais às sugestões apresentadas por toda a Tropa. Nenhum jogo terá a formalidade de obrigação e sim jogado espontaneamente, não só pelo caráter competitivo, mas também pela simplicidade de jogar e divertir!
(transcrito de uma ata de Corte de Honra).

                  Definitivamente não vou dar aqui uma aula sobre como fazer e usar jogos nas atividades Escoteiras. Quem sou eu para isto. Vou somente dar o exemplo que ouvi de um Velho Lobo que me contou suas andanças em visitas a Escoteiros e ali pode ver se o método escoteiros estava sendo levado em consideração pelos jogos apresentados. Vejamos o que ele disse:

- Primeiro exemplo.
Uma visita em uma tropa de um bairro nobre, onde os jovens demonstravam ter conhecimentos intelectuais acima da média, e com um ou dois monitores bem adestrados e outros ainda tentando conhecer melhor suas potencialidades. Os demais aspirantes, pois notava-se a rotatividade na apresentação das patrulhas. Conversando com alguns chefes (Um com insígnia) ele pode observar um Assistente dirigindo um jogo. Pomposamente formou às patrulhas, chamou os monitores, deu às instruções e estes tiveram um tempo para orientar suas equipes. Até aí tudo bem. - O Jogo iniciou sem muito entusiasmo. Era complicado e cheio de regras. O Assistente parou o jogo pôr três vezes. Até que se deu pôr satisfeito. Senti pelo olhar nos seus olhos sua satisfação pela vitória alcançada! - Ele tinha ganhado o jogo! - Os jovens estavam ali, parados, cansados, com ar de quem estão acostumados e muito obedientes e disciplinados!

- Segundo exemplo.
- Nesta Tropa o Chefe fez questão de mostrar um fichário muito bem feito e acabado. Um pai era o responsável para classificá-lo. Os jogos estavam perfeitamente organizados, distribuídos pôr tipo, função, objetivo etc. Tudo conforme já se viu em palestras de curso. – Perguntou quem escolhia os jogos e fazia seus comentários antes e depois da aplicação. Ele respondeu que era ele mesmo, pois sabia e conhecia a reação dos jovens (comentou baixinho que era professor de Educação Física e que no momento estava cursando psicologia infantil). Participara de vários cursos de Recreação e Jogos e alardeou inclusive que fora convidado pela Equipe de Formação para dirigir e colaborar em vários cursos. Sua grande especialidade, porém eram jogos. Notou que ele era o único a dirigir e comandar. O jovem ali não se manifestava. Ele já conhecia tais tipos. Muitas vezes pelos jogos se conhece o Adestramento da tropa. Pobre dos rapazes!

                Ele teve o prazer de conhecer muitas tropas Escoteiras em suas andanças. Descantou algumas e teve uma que ficou surpreso com o desenvolvimento das patrulhas e dos jogos. Fator preponderante na formação do sistema de patrulhas. Ele me disse que o que mais o deixava triste eram as justificativas de faltas, de indisciplina e da preguiça dos escoteiros. Chefe, falou – Eles vão justificar a vida toda os fracassos e a falta de entusiasmo dos jovens. Não entenderam que eles são os próprios culpados!

- Terceiro exemplo.
- Quando cheguei, fiquei perplexo com tamanha confusão. Não havia apitos, chefes dirigindo, todos bem formadinhos feitos soldadinhos. A sinalização era feita com as mãos. Graças a Deus minha audição seria poupada daquela vez! - Ali estavam eles, em dupla, pôr Patrulha três ou quatro em outro canto. Todos espalhados. Notei logo a maneira do Adestramento. A Tropa era pequena, três patrulhas no máximo seis em cada uma. O Chefe estava alçado em um poste simples dentro da sede, junto a mais dois monitores amarrando um cabo. Ninguém olhava sinal que aquilo era comum. Mais dois monitores estavam com um Assistente recebendo instruções. Ninguém correu para me receber. - Não deram conta da minha presença. Fiquei a vontade e percorri cada Patrulha com satisfação. Era um Adestramento dos bons. Não só aos monitores como também os demais escoteiros da Patrulha. Ele já conhecia este plano de reunião. Estava em casa! Logo que o Chefe da Tropa me avistou me cumprimentou de longe e se desculpou pôr não poder me dar muita atenção.

- Um monitor se apresentou educadamente pedindo licença e dizendo ao Chefe sobre o jogo que seria realizado daí a alguns minutos. Apesar de combinado previamente (havia programa!) a maioria gostaria de fazer o jogo do mês anterior. O que o Chefe achava? - Ele concordou de imediato e pediu ao Monitor que preparasse o material. Bem acho que vocês não precisam saber qual das tropas está fazendo o certo. Pena que não foi filmado o olhar, a feição e a alegria reinante antes, durante e depois do jogo. Aquilo sim era diversão!

                     Jogos são sempre uma preocupação para os chefes não importa a sessão. Esquecem que o manancial são os próprios jovens que participam. Quem deve gostar são os jovens e não os chefes. Quantas boas ideias podem dar e garanto que irão vibrar com os jogos que tiraram da sua imaginação. Não sou um expert em jogos, mas dou algumas sugestões: - Procure desenvolver nas matilhas e nas patrulhas qualidades de liderança. “Se pretendermos que, nas horas vagas, eles saibam brincar sozinhos, devemos propiciar a eles a prática da direção das próprias atividades”. Para começar, partilhe com todos às suas responsabilidades de orientador de jogos. Vá aos poucos, delegando-lhes obrigação e autoridade, desde que tais coisas estejam à altura de suas capacidades. Dê-lhes não apenas incentivo para a prática da Direção, mas também, tempo. E não esquecer nunca: - Permita que a turma escolha, de vez em quando o jogo que vai realizar e eleja o seu dirigente. Discuta com elas os resultados dos jogos e faça-as participar do planejamento do programa semanal.


                     Encerro este comentário lembrando o que escreveu Theodore Roosevelt Presidente americano no passado: “Creio nos jogos ao ar livre e pouco me importa que sejam jogos brutos ou violentos e que ocasionalmente alguém se machuque. Não simpatizo com o sentimentalismo exagerado que pretende manter os jovens embrulhados em algodão. Na luta pela vida o homem formado ao ar livre sempre demonstrou ser melhor. Quando vocês brincarem, joguem duro e quando trabalhar trabalhem duro. Mas não deixem que os jogos e os desportos prejudiquem seus estudos”.